Quieto!

Há passados que são para deixar quietos. Na verdade, se há passados que se entranham em nós e se repetem durante anos a fio, não nos acontecimentos, mas no que produzem em nós (na maneira de ser, nas decisões, nas procuras e nas fugas), lamentavelmente (ou não), também há os que terminam e não deixam lastro, os que cumprem uma função pontual e perfeitamente delimitada. Talvez deixem também alguma marca indelével que, muitas vezes, nem entendemos que está lá. Mas não caminham connosco, não se repetem ou replicam. Esses, é melhor mesmo que se deixem quietos para que, ao menos, ainda dêm umas boas histórias em momentos de viagem ao passado e para que consigamos perceber-lhes a função. O problema é que os passados de cada ser humano, inevitavelmente, são passados dos outros seres humanos que habitaram esse tempo, que cruzaram o mesmo caminho, que fizeram, connosco, essa história antiga. E acontece, por vezes, que para uns a história acabou mas para os outros não. E isso é um problema irresolúvel. É que não se faz história de novo com personagens a viver em tempos diferentes. Não se re-encontram no novo tempo, então melhor que não se re-encontrem no espaço, e que cada um prossiga a sua história. 

Distracções Fatais

Se há coisa que não se pode contornar, é o click, ou a falta dele. Podem chamar-lhe também atracção, química ou simplesmente tesão. Mas é impossível de ultrapassar. Ou há, ou não há, tão simples e definitivo quanto isso. Agora, logicamente também não ajuda um relato pormenorizado de uma qualquer maleita dermatológica oculta, assim sem mais nem menos, logo num dos primeiros encontros. E se já é mau ouvir tal confidência sem denotar na expressão o nojo que tal causa, de tal forma em esforço por não ouvir muito, para manter a compostura, que mal se fixa o nome da maleita, pior ainda se o recambolesco episódio se dá durante uma refeição. Mas uma senhora não desarma. Mal se come a partir desse momento, e o pouco que se mastiga é para dar folga ao músculos faciais (em total tensão para tentar manter o semblante inalterado com o esboço possível de sorriso), e evita-se muito contacto visual depois, para não vomitar logo ali. Cenas da minha vida que, não fora eu agnóstica, me levariam a exclamar um “Senhor, tende piedade!”, e a cumprir longa penitência para expiar os meus pecados, que são muitos, eu sei, mas nenhum também assim essa coisa toda que merecesse estas provações.

Another one bites the dust.

Desculpas

Sim, eu também preciso de desculpas, de justificações e atenuantes. Não gosto de errar, não assumo os meus defeitos e erros com vanglória. Assumo-os num processo auto-crítico fundamentalmente racional, assumo-os como consequência inevitável de não poder negar factos objectivos, e assumo-os condoidamente como resultado obrigatório de ter de me assumir imperfeita e falível, tantas vezes menor do que aquilo que quero ser. Também não os assumo por ser modesta, portanto, pois que a modéstia não se compatibiliza com os desejos de grandiosidade, perfeição e infalibilidade. Aceito a minha condição humana, o que quer dizer que me reconheço imperfeita e admito a inevitabilidade do erro mas, também, não me quero desculpabilizar com essa humana verdade e acho que devo, pelo contrário, penitenciar-me por isso e esforçar-me por errar menos, por ser cada dia melhor. Falho redondamente, é claro.

Também não escapo à humana tendência de procurar razões, de procurar porquês. Muitas vezes internos, mas outras tantas vezes externos. As tais atenuantes, para além da condição do erro da espécie, que acabam por não ser mais do que desculpabilizações. É que, se já custa pedir perdão aos outros, mais ainda custa pedi-lo a nós próprios. E quando penso e escrevo que aqui volto porque aqui está a minha raíz, na verdade o que aqui está é a minha desculpa. Estão as razões, externas, de porque me encontro neste caminho à deriva, a história do meu passado. E sei agora que volto porque sinto que falhei o prazo para encontrar o caminho, porque sinto que passou demasiado tempo para que possa continuar a usar essa história como razão-desculpa para não ter conseguido mais e melhor. Porque sei que, entretanto, se passou mais um bocado de história, um argumento onde não encontro justificação plausível, desculpa aceitável, para ter ficado parada na estrada. E cansada, muito cansada. Falta perdoar-me e falta, realmente, recomeçar.

Incentivo?

O meu filho, depois das conversas da outra semana, assim do nada, ao jantar:

Ele, tom paternalista - Mãe... um dia a Mãe tem de deixar algum senhor encontrar uma namorada.

Eu, perplexa - Como é que é isso??...

Ele, cabeça de lado - Sim, um dia... se algum senhor procurar uma namorada... e mais ninguém estiver à espera... assim a Mãe já pode ser uma namorada desse senhor!

Eu, a registar o raciocínio, não evito rir.

Ele, chegando-se a mim, em tom de advertência - Mas que tenha um nome bonito...


Depois fiquei com uma lista de nomes, pelo meio dos risos. E registo sobretudo o "se mais ninguém estiver à espera", o que faria de mim a última mulher à superfície da terra. Incentivo, really??

Compasso de espera

Parece que a curva é ascendente, e tenho uns dias para o confirmar, preparar a potencial descida, e eventualmente... enjoy the ride. Sei, eu sei: se me preparo demasiado para a potencial descida, não aproveito a subida. Mas também quanto mais alto se sobe, maior é a queda. Estou simplesmente expectante, mas pelo menos já não tão afundada.

E o que eu não sei é porque é que terei nascido com este ar tranquilo e sereno, quando, na verdade, das coisas que mais me custam são as esperas, as pausa, os hiatos de tempo que medeiam as coisas que acontecem realmente, brancos de tempo, de acção e sentido. Claro - tento distrair-me. Nem que seja com parvoíces. Qualquer coisa serve para não me ocupar demais com ausências, faltas ou vazios.

Sinusoidal

Assim foi o meu dia ontem: em 24 horas, o suceder de curvas desenhadas por altos e baixos, abruptos, extremos, inesperados e descontrolados. Curvas que deram lugar a picos, pela falta de tempo para apreciar as subidas e preparar as descidas. As sinusoidais são as curvas normais da minha vida e de mim, mas são geralmente atenuadas pela lentidão do decorrer do prazo, um pouco maior que um dia. Sinto que passei a última semana aos trambolhões e de ontem nem tive tempo de limpar o pó. Pior que só hoje, mais logo, vou finalmente perceber onde para afinal a curva. Mas o pó tenho que limpar, que seja como for continuo a andar.

Cansaço

Todos esperam que eu aguente. O meu próprio pai, um dia, confessou que não se preocupa muito comigo porque, diz ele, enquanto as minhas irmãs são mais frágeis, de formas diferentes mas as duas, melhor ou pior eu consigo sempre ultrapassar as dificuldades, sou quase sempre auto-suficiente a resolver os meus problemas, e não aparento precisar de apoio. Não é só ele. Quase todos à minha volta me atribúem uma "força", que não sabem explicar de onde vem nem porque vêm, mas parece que, ao estabelecer a sua existência, se sentem dispensados de ajudar, ao mesmo tempo que não me dispensam de aguentar e ultrapassar. Seja o que for, seja quantas vezes forem. E, no passado, depois de cada queda em que aterrei de pé, mas sozinha, com mazelas e passos incertos, nem sequer recolho grande admiração, porque não é senão o que esperam de mim.

E se um dia não aguento mesmo? Se um dia me falha essa força, que nem eu entendo de onde tem vindo ao longo da minha vida, e me deixo vencer? Se um dia não sou capaz de encarar mais um desaire na vida com aparente facilidade, e sem perder o sorriso, se um dia nem o meu filho me faz querer procurar em mim a garra de que preciso para não resvalar do precipício, se um dia me sinto esgotada, vazia, drenada e sozinha, nesse dia, para além de me derrotar a mim própria, sei que desiludo todos à minha volta e não sou capaz de pedir uma mão. Pode ser hoje. Pode ser agora.

Desabafo 2

Temos muitos males neste país, mas eu não posso deixar de eleger a falta de acesso e (pasme-se!) de justeza, do nosso sistema judicial como o mal maior. Um país onde recorrer à Justiça equivale a gastar um dinheirão em advogados e custas e ser vencido pelo tempo, pelo desgaste, pela incerteza da decisão moralmente justa, em vez de equivaler a obter (pasme-se novamente!) elementar justiça, é um país que incentiva o florescimento de aldrabões e vigaristas, que exploram a fraqueza do sistema para se aproveitarem das pessoas honestas. São estes aldrabões e vigaristas que, à sombra da morosidade dos processos, confortáveis com o empate do tempo porque avençam Advogados por meia dúzia de tostões (“meia dúzia” para eles, não para os honestos), e se escondem em todos os buracos da lei e do processo que conhecem de cor, enganam as pessoas honestas com total displiscência e à vontade, com uma revoltante facilidade, e ainda têm o descaramento, quando confrontados com as vigarices que fazem, de perguntar ironicamente a quem enganam se querem ir para os Tribunais. As pessoas vigarizadas neste país devem ser muitos milhares, todos os dias a engolir as injustiças que têm de aceitar, às vezes, por razão de sobrevivência, sem alternativa que não seja chorar as injustiças em privado, ou anonimamente.

O colo

Redondo, macio e aconchegante. Assim há de ser o colo. Casulo, onde possa ficar quieta, onde me possa embalar, fechar os olhos e deixar tudo passar. Para depois voltar à vida, com o corpo quente do mimo e a alma leve lançada, num sopro, como um pássaro que voa do ninho. Mas que volta, cada dia. Sou já ninho que assim cuida da cria, mas preciso ainda, tanto, de outro corpo, outras asas, outro mimo. Um colo não. O colo.

Dores de crocodilo


Se não há dor sem sentimento para ferir, então se dói é orgulho. Nova máxima a reter, para que não se confundam as coisas. Como as dores.


Nem sou muito fã de citações, mas…


“O maior prazer de uma mulher inteligente é bancar a idiota diante de um idiota que banca o inteligente.”

Como em todas as citações deste género, que por aí abundam agora sobretudo no Facebook, não é uma verdade absoluta e tem o seu quê de exagero. Não diria, por exemplo, que é “o maior prazer” - mas que dá gozo, isso sim.

Tal como muitas destas citações, também tenho (e acho que a maioria é igual) tendência para generalizar (de que é exemplo paradigmático esta mesma frase). Ninguém consegue realmente reflectir e escrever, por exemplo, sobre relacionamentos, sem cair na natural tendência de referir “os homens” e “as mulheres”. Mas claro que as generalizações são perigosas - até a estatística, científica e matemática, teve de conceder na criação dos conceitos de margem de erro e desvio padrão!

Não há grande mal numas generalizações que são, efectivamente, espelho da tendência da maioria, ou pelo menos reflexo da nossa própria experiência, desde que se mantenha em atenção que é apenas isso. Usar generalizações, muitas vezes citadas de autores que nem se creditam, com erros e descontextualizadas, e achar que são verdades absolutas que se podem usar para catalogar e condenar os outros, e até usá-las para insultar alguém, isso é que é doente. Se há grande verdade sobre o Homem, sobretudo no que diz respeito à alma e sentimentos, é que nada é absolutamente standard, definido ou definitivo. Tudo em nós é único, relativo e também mutável. Cada uma das nossas verdades tem um colorido muito próprio, e quem somos nós para julgar as verdades dos outros, ou pior - julgar os outros com base nas nossas verdades?

PS:
Já agora, assim na onda da generalização, e tendo já dito as coisas sérias, com uma margem de erro de para aí 0,00000001% e um desvio padrão tendencialmente zero: uma loira burra acha que todas as loiras são iguais e, como não se vê burra, acha todas inteligentes (a não ser que sejam mais giras). Uma loira inteligente, diverte-se à grande por causa das burras, loiras ou não, que acham que não são burras, e dos homens que, mesmo não sendo loiros, pensam como elas - as burras - e também se acham muito inteligentes. Uma loira inteligente faz de conta que não entende, ou então diz algum sarcasmo que os burros não percebem, e depois dá as melhores gargalhadas sozinha, no escurinho do cinema. Ou noutro sítio qualquer.

Lógica Masculina n+1 (em que n é o número do último post que escrevi sobre essa lógica, mas que já não me lembro qual foi, e não me apetece procurar, porque ainda não quero reler os meus textos vintage)

Com episódios recentes vários, acabo por chegar à conclusão que o meu teste de aferição de real interesse masculino era contraproducente. O teste qual era? Eu chamava-lhe “o choque”. Achava que se dissesse as piores coisas sobre mim, se me mostrasse muito complicada e inacessível, afugentaria os que não queriam nada de sério e restariam os que valiam a pena, os que estavam dispostos a lutar. Mas não, completamente errada! Agora percebi que, se um homem em vez de fugir ainda se galvaniza mais, o que isso significa é que está-se nas tintas para o que somos, fomos e seremos, porque o que ele quer mesmo sei eu! Os que têm, de facto, alguma intenção mais séria, esses é que pensam duas vezes se vale a pena investir numa mulher que se revela complicada e se pinta até de quase louquinha. Coisa simples…

Por outro lado, como me dizia um colega numa animada discussão de tempos mortos no escritório, um não de uma mulher com um sorriso, ou palavras equivalentes (que as mulheres acham de compaixão – “coitado, também não o quero deixar destroçado”), para os homens é simplesmente um “sim, entro no jogo, come and get me”. Dizia ele que se uma mulher não quer mesmo, deve apenas dizer não, sem explicações ou atenuantes, e não deve pensar que pode ferir os sentimentos dele, porque - palavras de homem - os homens não se apaixonam antes de se envolverem com uma mulher. Ou seja, traduz-se em que não há sentimentos nenhuns para ferir, apenas orgulho - e isso digo eu. Dizia ele, continuando, que às vezes acontece apaixonarem-se, mas só depois, por isso um não sem piedade ou compaixão numa abordagem inicial, não destroça homem nenhum. I’m soooooooooo shocked! Coisa complicada…

E na discussão do Dum-Dum, sequência do último post, a conclusão é que o melhor a fazer é absolutamente nada, mas tem de ser mesmo nada. Ou seja, o problema, o que alimenta os melgas e depois os torna emplastros, é atender nem que seja uma das 100 chamadas, e responder nem que seja a uma das 500 sms. A ideia de que se pode deixar ir a coisa morrendo, é absolutamente errada. O que quer dizer que "almoço" já foi asneira da grossa...

O Grande Melga

Não gosto, mas não gosto mesmo, de melgas. Já escrevi algures por aqui (mas também não gosto, não suporto mesmo, os “toca e foge”, e disso falo noutro dia em que esteja para aí virada). Esta coisa da melguice, no entanto, tem muito que se lhe diga e fez-me inclusive redefinir uma máxima que tinha e usava, convicta de que era um óptimo teste de aferição de interesse (mas isso também deixo para outro dia).

Ora, por partes: um homem que é melga é simplesmente um chato. Se não for o Herman, não se aguenta, ponto final. Este é o homem que insiste mesmo quando já dissemos de vinte maneiras diferentes que não estamos nem aí, a quem já recusamos vários convites, a quem não atendemos o telefone mais de metade das vezes, a quem não respondemos à maioria das sms, etc. Também há os persistentes e, convenhamos, sem um pouco de persistência realmente não vão a lado nenhum, porque mesmo que haja interesse do lado feminino, há geralmente um tempinho de espera obrigatório que é, nem mais nem menos, o primeiro teste que as mulheres fazem para perceber se eles querem “mesmo”. A linha é ténue, muito ténue, e hoje houve um dessa raça que, não obtendo resposta ao segundo convite para ir tomar um café, e não tendo obtido o meu número de telemóvel em troca do dele, resolve nada mais nada menos do que procurar o número do meu escritório na internet e ligar-me para o trabalho! O que ele não percebeu é que, se até aqui estava no respeitoso limbo da persistência, enquanto eu me decidia se queria ou não dar mais conversa para além do Facebook e dos ocasionais encontros acidentais por essa noite lisboeta, com esta habilidade passou para o campo dos melgas. Sobretudo quando, não contente por me ter feito passar uma vergonha no escritório, (que toda a gente percebeu o que se passou com aquele telefonema), não me dá hipótese e vai daí apanha-me à porta do escritório para almoçar... Agora tenho que pensar que Dum-Dum vou usar neste, antes que passe para a categoria dos emplastros, ou mesmo dos doidos varridos. 

Só me calham duques...

Não o poderia dizer melhor


Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direcção.

Antoine de Saint-Exupéry

Nas curvas


Volta não volta, temos de pensar no que queremos da vida. Há umas curvas manhosas em todos os caminhos e a mim parece-me que, embora a tendência seja acelerar e fazê-las prego a fundo, nem que seja um bocadinho em contramão, armando-nos de valentia (ou será inconsciência?), a seguir convém travar e até, se necessário, encostar na berma e respirar. E depois pensar para onde vamos, para quando metermos de novo a primeira o podermos fazer com maior tranquilidade.

O que eu quero da minha vida é um mistério. A sério. Não é só a estrada e a próxima curva que me são desconhecidas. É mesmo o destino que eu ainda não consegui perceber onde quero marcar no mapa, que parece, em dias, que não é visível a um par de olhos apenas. Há dias em que acho que o que quero é viver tranquila, dedicando-me ao trabalho, desfrutando do meu filho quando posso, e aprendendo a encontrar uma definição qualquer de felicidade que possa rimar com sozinha, mas que não rime com solidão. Outros dias, acho que o quero é mesmo provar possível que nunca é tarde para encontrar o amor, e aprender a ser feliz com essa companhia, redefinindo a família que agora é só o meu filho, e perspectivando todo o resto que agora é só o que tenho, que me faz falta, me segura como tábua de salvação, mas que ainda assim é pouco, é parco, e sabe a insatisfação.

No fundo, eu tento, juro que tento, encontrar formas e razões para dissociar felicidade de amor. Posso escrever ensaios cheios de lógica, encher-me de razões, mas depois, fala mais alto aquele aperto, aquela pequena angústia relegada para um cantinho da alma, mas exactamente aquele canto que mais dói, que me questiona todos os dias se algum dia encontro, realmente, alguém que eu queira como companhia de viagem e que, mais que olhar para mim, queira olhar comigo para o mesmo destino, marcá-lo no mapa e, então, meter a primeira, sem saber o desenho das próximas curvas, mas sabendo bem para onde queremos ir.

Acho que, afinal, ainda estou para as curvas...

Desabafo 1

Não sei por que carga de água é que a minha vida teima em se repetir. Já cansa. Tenho a sensação de ser o próprio do burro naquela imagem em que o dito anda fixado na cenoura a um palmo de distância, e que na realidade nunca alcançará por mais que ande com determinação e vontade, porque quem segura a cenoura vai à boleia. É uma linda metáfora, sim senhora, mas na vida real não tem gracinha nenhuma. Se calhar, tenho de aprender a gostar de relva. Ou simplesmente prescindir da cenoura.



Será a cenoura o motivo certo de tanto esforço?

Contas da semana

Assim, por alto:

• Saldo social – no positivo, com o matar de saudades do meu filho e a constatação da disponibilidade de várias pessoas que ofereceram uma mão numa complicada semana; e ainda um aniversário pelo caminho onde deu para encontrar mais alguma família e outros amigos e passar um bom momento.
• Saldo profissional – indefinido, com um projecto em avaliação e ainda sem decisão final, numa semana de dois dias de imenso trabalho e três dias de olhar para as moscas, o que há muito que não acontecia e tem o perverso efeito de nos pôr a pensar demais noutras coisas e a passar tempo demais no chat do FaceBook.
• Saldo físico – algum cansaço, consequência de semana de mãe, e mais dos dias não-produtivos, que parece que cansam mais que os outros, e do stress da antecipação da aprovação do projecto que é crucial para o meu futuro. E mais: quem diz que ir ao ginásio dá energia, e soma a isso uma vida realmente ocupada, tem um problema grave qualquer!
• Saldo educativo - umas quantas lições importantes, como por exemplo: não mexer nas sobrancelhas nas horas subsequentes a ter um acidente com o carro e enquanto se visualiza o orçamento da reparação. O orçamento não reduz (mesmo) na proporção das sobrancelhas. Felizmente, elas crescem de novo, e o orçamento espera-se que não.
• Saldo bancário – obviamente: negativo.
• Saldo emocional – em desespero absoluto pelo fim de semana.

O Balanço, é como o prognóstico: só no fim do jogo, que ainda faltam dois dias.

Snapshots

Curtas do meu filho, somadas ao longos dos últimos dias, por ordem cronológica:

Assim do nada, ele:
- Quando eu for crescido vou correr de manhã. Quando a mãe acordar de manhã e não me vir – já sabe: é porque eu fui correr.
(Weird...)


- Uma amiga da Mãe disse-me que a Mãe tem um namorado.
- Mas a Mãe não tem nenhum namorado! Qual amiga?!
- Só não me disse o nome...
- Ninguém pode ter dito isso L, porque a Mãe não tem nenhum namorado. Mas gostava de ter.
- Para quê?
- Para me fazer companhia quando estou sozinha.
(Silêncio desconfiado e rápida mudança de assunto…)


- Quando é que eu vou ter um mano?
- Primeiro a mãe tem de encontrar um namorado!
- Não, não é nada! Porque o V teve um mano e a mãe dele não tem um namorado!
- Mas tem um marido, que é a mesma coisa.
(Pausa)
- E a mãe vai procurar um namorado?
- Sim, vou procurar.
- Mas não pode Mãe!! (realmente indignado...)
- Porquê??
- Porque as meninas não procuram namorados! Os rapazes é que têm de encontrar namoradas!
(WTF???)

- Mããiin?...
- Sim?
- Quando tivermos outro filho - e eu já tiver idade para ser mano…
- Ahahahahahahaha!
(era para dizer outra vez que ia correr de manhã… Go figure!…)




PS: Ninguém me faz rir da mesma maneira. Bless him...

Fora de época

Hoje chove. É estranho como esta chuva assim, miudinha e quente, estranhamente quente, me deixa sempre com uma sensação desagradável. Não lava - ensopa. Entranhando a sujidade que não leva. E fica-me este desconforto porque, às vezes, tenho a impressão de andar a fazer o mesmo, enquanto salpico, com a lógica e a dialéctica, as coisas que me vão dentro, para que arrefeçam e se aquietem. E os salpicos apenas acrescentam humidade à temperatura, numa mistura de cheiro a mofo e nevoeiro de tempo quente, ar salobro que mal se respira; salpicos que não me lavam a alma, porque o tempo continua quente e não é ainda o tempo daquela chuva forte, fria, de gotas grossas que hão de correr por mim num rio purificante e libertador. Não é ainda o tempo.

Passado repetido

Passa-se o tempo, passa por nós. Olhamos para trás e cada memória traz um sabor, um cheiro, uma cor. É aquilo que predomina, na selectividade inconsciente da memória que ficou. Depois pensamos: mas houve qualquer coisa. Talvez uma zanga, uma desilusão, uma mentira. Qualquer coisa haverá para que se culpe a distância que o tempo medido, nestes momentos, apenas comprova. Quando tudo falha, culpa-se a vida, essa malvada que sempre se põe a jeito para carregar com as culpas que não queremos (porque não há distância de vida que nos separe daqueles que amamos, incluindo os amigos). Olhando para trás, num esforço, acaba por se chegar lá. Lembro-me do que foi - foi assim, ou assado. Vagas cronologias de nebulosos acontecimentos. E o sabor, o cheiro e a cor, de repente ganham os travos, notas e nuances que nos sossegam a consciência - ou não. Mas afinal não é culpa da vida. Atribui-se a culpa e pronto, agora já se pode continuar. Pena é que, quando a vida proporciona um reencontro, alguns se mantenham presos nos acres do anterior fim, e não se foquem no doce da primeira instintiva, ainda que selectiva, memória, fazendo do antigo o novo, num recomeço. Triste perder amigos duas vezes. 

Sinais de esperança

O desencantamento que a vida, inevitavelmente nos traz, é também uma certa lucidez. É reconhecer que as coisas não são como sonhamos, como idealizamos, que a realidade do ser humano e da vida que levamos não se faz de argumentos bem montados e fluídos, nem tão pouco garante finais felizes.

O desencantamento leva a uma certa tristeza, como triste é o fim de cada sonho que se desfaz. Leva também, por vezes, a uma certa acidez, revolta pelo engano em que sentimos que vivemos antes. Leva quase sempre à desconfiança, porque não se quer ser enganado outra vez e, finalmente, à descrença, ao desalento, porque em algum ponto do caminho se perde a esperança.

E há momentos em que não sabemos já se os desconfiados, descrentes e desalentados que nos tornamos são o princípio ou o fim, causa ou consequência. Certo é que nos lançamos, a nós próprios, em círculos viciosos de que é difícil sair, quando nos proclamos esses epítetos. Mas de nada adianta perder tempo a tentar decifrar as causas de sermos o que somos. É como a velha discussão sobre o que veio primeiro – o ovo ou a galinha? Sejamos práticos: se o que temos na mão é o ovo, o que interessa é decidir como o cozinhamos. Se temos a galinha, interessa decidir se a comemos ou se tiramos dela um ovo por dia.

A lucidez do desencantamento devia abrir-nos a porta a um total redesenhar do mundo. Se o que vivemos não serviu para nos fazer felizes, há que encontrar outras formas de viver. Há que procurar alternativas, sem o estigma dos primeiros sonhos. Abandonar esses sonhos, ou ideais, realmente significa procurar sem querer o que antes se estipulou como necessário, mas também não é procurar o oposto. Talvez seja antes procurar a surpresa, mas, sobretudo, deixar que ela aconteça.

Vejo ao meu lado o desenrolar de um relacionamento que, no preconceito do que é amor e felicidade, não julgaria feliz. E estranho, confesso, que se possa amar alguém mas só estar apaixonado por esse alguém a dias, de vez em quando, em certos momentos. Mas quem sou eu para julgar? Certo é que quem vive esse relacionamento assim se sente bem, se sente em paz, e só tenho de admirar e aplaudir. Porque esse alguém, no fundo, fez exactamento o que queria ser eu própria capaz de fazer: aceitou um relacionamento que não é ideal, e fê-lo perfeito. Porque um ideal é só um abstracto direitinho, uma lógica, um raciocínio consequente. Perfeito é o que funciona. E desejo-lhes toda a felicidade do mundo.

Partilhar

Ouvi uma coisa que me surpreendeu, por ser dita por uma psicóloga ou psiquiatra, nem sei bem, que dizia que, mas do que estar nos momentos maus, o que cimenta os relacionamentos é o estar nos momentos bons, sendo-se capaz de partilhar, sem ciúme ou inveja, as alegrias do outro.

Dá que pensar. Acho que não há verdadeiro relacionamento sem partilha de momentos maus. Quando fugimos dos outros nesses momentos, mesmo que com a desculpa de não queremos impingir as nossas dores e problemas àqueles de quem gostamos, na verdade isso significa que achamos que esses outros não são ajuda. No fundo, é humano procurar alívio para o sofrimento, e só varia a forma como o procuramos e a panaceia que consideramos eficaz e disponível (que às vezes se revela um tremendo engano, pois também há muitas com efeitos secundários nefastos, e outras que são apenas muletas auto-destrutivas). Numa fase mais madura, tende-se a procurar apoio, ajuda, um ouvido amigo ou uma mão de amparo. E se achamos, a tempos, que a melhor forma de nos curarmos é o isolamento, para mim isso é sinal de que não achamos que os que temos à nossa volta estão realmente lá para nós.

Claro que podemos precisar de momentos de solidão. Eu preciso muito deles de vez em quando, mas apenas para poder reflectir, desmontar interiormente o que me atormenta com o input que os outros vão dando, ou conseguir ouvir a minha voz sem o barulho das luzes. Mas isso não é isolamento – é reflexão.

Já quanto aos momentos bons, concordo que não há nada melhor do que dividir uma alegria com alguém que nos é querido e nos quer bem. Tem-me feito muita falta, nos últimos tempos, poder partilhar a comemoração de vitórias e de momentos felizes, mais até do que os dias maus e as tristezas. Mas partilhar esses momentos não é o que cimenta um relacionamento. Se o partilhamos com alguém é porque acreditamos no relacionamento e se, ao invés de se alegrar por nós, alguém tem ciúme ou inveja, simplesmente não há é afecto verdadeiro.

A forma como partilhamos os bons e maus momentos, para mim é espelho, de duas faces - e não cimento. Nos maus, de nós revela em quem realmente confiamos e que achamos que está do nosso lado; dos outros, revela com quem realmente podemos contar. Nos bons, revela quem são aqueles a quem queremos bem; e os que gostam de nós, porque se alegram com a nossa alegria, sem ciúme ou inveja. Portanto, ambos revelam um monte de coisas: quem acreditamos que gosta de nós, quem gosta realmente de nós, quem na verdade não gosta e quem, no fundo, já sabemos que não gosta (pois não os procuramos nos maus e, perversamente, também somos capazes de querer mostrar momentos bons a alguns desses, para provar alguma coisa ou exactamente porque sabemos que os vamos encher de ciúme e inveja - não é bonito, e não é partilha, mas quem é que nunca o fez?...).

O cimento é algo anterior à partilha. É aquilo que nos leva a escolher alguém para partilhar, e sobretudo aquilo que permite partilhar com o mesmo alguém os dois tipos de momento. Se alguém não divide connosco as tristezas, porque raio haverá de querer partilhar alegrias? – talvez queiram apenas beber daí o “hype” em que essas situações nos lançam, ou são simplesmente hipócritas. E se alguém só quer saber das tristezas, talvez, no fundo, só queira mesmo saber-nos mal, sentir-se bem pela comparação ou por uma certa "utilidade", e por isso não se interessa realmente pela nossa felicidade.

E nós? Para quantos corremos com igual vontade e à vontade, consoante carregamos tristezas ou alegrias? Essa escolha também nos espelha. E muito.

Desenho

Eu sou uma mulher complexa, mas descomplexada. Geralmente profunda e séria, reflexiva e introspectiva. Mas com sentido de humor, gregária, e com vontade de me divertir, com animação e algumas futilidades. É, por vezes, a fuga possível do peso do meu interior.

Sou eclética, nos gostos e nas pessoas que escolho, o que leva a que muitos me apelidem de "estranha" ou, quando ao menos até gostam de mim, de "especial". Escolho essências, nas coisas e nas pessoas. Quero ser escolhida também assim. Acarinho os poucos que me aceitam por inteiro, aqueles que não me vêm "estranhezas", mas sim alguma coisa de diferente, que são capazes de aceitar. Dos outros, guardo uma prudente distância.

Por fora, sou quase sempre aparentemente pacífica e serena, tanto mais serena quanto mais inquieta. Mascaro-me com um sorriso de acessibilidade e simpatia, além de um discurso solto e leve. Mas também sou frontal, às vezes até mesmo um pouco crua, e posso até parecer fria e insensível quando preciso da distância de protecção. Na verdade, é a outra máscara: indiferença e frieza aparente. Sei que baralho muita gente. É que mesmo muitos que pensam conhecer-me bem, não me arranham sequer a superfície.

Sou paradoxal, em variadíssimos aspectos, desde logo pela dialéctica interior permanente entre os princípios da minha educação extremamente religiosa e conservadora, e a minha natureza de espírito livre, liberal, e agnóstico. Integrei e pratico muitos dos princípios da educação que recebi, que reconheço válidos, mas recusei outros tantos a que não reconheço sentido. Paradoxal, também, por ter tanto de cerebral como de emotiva. Seguindo ora a cabeça, ora o coração, ora tentando forçar uma lógica na emoção, ora tentando fazer de um pensamento um sentimento.

Faço muitos erros pelo caminho, por vezes nem eu me entendo, e sou muitas vezes incompreendida, sobretudo pelo meu círculo natural mais próximo, gente presa em dogmas, preconceitos e puritanismos hipócritas. Por isso vou redefinindo o círculo. Embora já muitas vezes me tenha sentido só, sei que não estaria em paz comigo mesma se aceitasse compactuar com o que não me define, apenas para ser "aceite" e ter companhia. Quase sempre, durmo em paz com a minha consciência.

Sou como sou. Intensa e inteira. Não sei dar-me pela metade, nem receber a prestações. Por isso resguardo-me, protejo-me, cada vez mais à medida que somo desilusões, incompreensões e outras experiências. Mas não me transfiguro. Dos outros, quanto muito fujo, retraio-me e desapareço toda, subo o muro e fecho o portão. De mim, vivo uns tempos numa outra bolha qualquer, fecho-me algures atrás de uma alegre confusão. Para mim, depois volto à origem, realinho-me, arrumo, e continuo.

Define-me sobretudo “eclética” e “paradoxal”. Uma "definição" destas define apenas o indefinível, o indefinido. E, no entanto, estranhamente, sinto-me hoje perfeitamente desenhada, desde logo porque me consigo escrever assim.

Ondas curtas

Há um monte de tralha que me enche o espaço, me confunde, me baralha. São peças soltas de vida vivida em alta velocidade e baixa densidade. Largadas por ali, sem ordem, sem lógica, sem sequência ou consequência. Pergunto-me até se com alguma utilidade. Debaixo da confusão estou eu, ou o que resta de mim. Parece que me evaporei numa leveza que me era estranha, e esvoacei por aí pegando e largando as coisas, mas acumulando os restos até chegar a esta desordem.

Tenho de fazer de novo o caminho. Limpar a casa, arejar, redescobrir a serenidade de ser apenas eu própria, na raíz, de volta à base. Sinto-me um pouco perdida, ou talvez diluída, por esse tanto de vida que quase me tragou. Preciso de me condensar de novo, destilando-me, na busca dessa essência que lá esteve sempre mas foi volátil, e depois quase se afogou. Agora sinto que é altura de ligar à terra e re-sintonizar, ouvir atenta a letra da minha canção. Sei que há música no ar. Estou em afinação.

Vitória!

Está a fazer um ano que uma onda varreu a minha a vida. Primeiro, uma onda de mar, que me surpreendeu na areia absorta na leitura, e que me levou a escrever sobre o que é para nós realmente fundamental ou supérfluo. Depois, uma onda de choque, que me tirou o chão, sem aviso e sem piedade. Vi-me de repente a perder a estabilidade profissional que segurava, ciente da dificuldade dos tempos que já então se atravessavam, presa pelas minhas responsabilidades maternas. Queria dar o salto. Estava farta do que fazia, do meu chefe, do meu trabalho, mas achava que o que ganhava dali é que era o fundamental, o que tinha de preservar para assegurar a sobrevivência do meu filho, e a satisfação pessoal é que era o supérfluo, aquilo que podia, e devia, dispensar, compensada por alguns pares de sapatos extra. O risco do salto era demasiado avassalador, mas também o foi a constatação de que já não era uma escolha minha, que já estava em pleno voo. Restava apenas escolher onde aterrar.

Não foi fácil sentir o impacto em cascata que este acontecimento teve sobre mim. Não só no domínio profissional, mas também no pessoal - nas amizades, na família, na rotina do dia a dia, e até na auto-estima. Os primeiros meses, passei-os “en la vida locca”, como me acusou alguém mais tarde. Admito alguns excessos. Aquele cortar de amarras assusta, mas também liberta. E, de repente, tinha tempo para tudo aquilo que antes deixava para trás. Foquei-me nos positivos: o tempo extra, e de maior qualidade, com o meu filho, com os meus amigos e comigo própria. Os livros que conseguia ler, a quantidade de saídas à noite que tinha energia para aguentar, os almoços e cafés com todos os que passava antes meses sem ver. E um certo pico de aparente auto-estima, essa tal sensação de liberdade que se confunde, às vezes, com o sentimento de uma certa impunidade, que me levou a entrar de cabeça em relacionamentos inconsequentes. Mas que tinham o balão de ar quente de que precisava naquele momento, para não admitir que me sentia sozinha, um pouco perdida, e muito mais carente do que o que gostaria de reconhecer. E mesmo sentindo também o impacto negativo de outras coisas que tinha perdido, a tristeza de ver amizades que pensei intocáveis abanarem com nova distância física, e sabendo que algures por ali me estava também a perder, agarrei-me sempre à convicção quase autista de que, no fundo, aquele acidente de percurso era antes uma fantástica oportunidade e que me tinha tornado mais forte, mais confiante e mais liberta.

E na verdade, visto à distância, até foi. Depois de um montanha russa vertiginosa, e de me ter sentido presa em loops a desafiar a gravidade e a lei da vida, esta era mesmo essa oportunidade de me redireccionar e satisfazer profissionalmente, além de ser também a oportunidade de me testar, nos limites, e perceber claramente, por fim, que sou o que sou, independentemente do muito que possa rodar e mudar na minha vida, independentemente do muito que me permita ou obrigue viver de forma diferente.

Confesso que custou, com o tempo a passar, recusar ofertas financeiramente atractivas, mas que eu sabia que eram mais do mesmo, e também essas começarem a rarear. Também sentia a falta de outros pequenos luxos e devaneios que podia antes fazer. Mas persisti, quase até ao limite que fixei o mais longínquo possível. Mais um pouco e teria sido obrigada a aceitar esse “mais do mesmo”. Mas de repente surgiu a oferta por que esperava e, mesmo obrigando-me a mais uma readaptação, e mesmo não me oferecendo à partida garantias de estabilidade nem o retorno financeiro desejado (e merecido!), avancei, arrisquei, investi. Trabalho que nem uma louca, tive dias e dias seguidos de autênticas maratonas, tive os meus frios na barriga em face dos primeiros grandes desafios, aquela pequena dúvida, pequena fraqueza, de pensar que talvez não estivesse à altura, que talvez não fosse capaz. Mas comecei a superar os desafios, um por um, e a encher-me de orgulho por ir à luta e vencer, e de confiança para continuar a ganhar. A reconstruir a rotina, a redefinir espaços e tempos, e a ver-me surgir, no fim desse processo, de novo eu mesma, um pouco mais cansada, mas um pouco mais feliz. E ao fim destes primeiros longos meses, finalmente, vejo compensados os meus esforços, e com praticamente a mesma estabilidade que tinha há um ano atrás.

Agora, há que cantar vitória, claro, mas falta reequilibrar tudo o resto, tudo isso que deixei para trás ou em stand-by para poder focar-me neste investimento - desde a falta de férias e tempo para o meu filho, até ao ginásio e aos amigos. É um bocado perverso, mas sinto que nunca chego para viver tudo ao mesmo tempo. Talvez a vida seja mesmo assim: um eterno compromisso, um eterno alternar de focus, que acaba sempre por fazer alguma coisa ficar para trás, para mais à frente lá termos de voltar e compensar. Menos mal quando se lá volta com uma medalha ao peito, porque também sei que quando se quer chegar a tudo ao mesmo tempo, no fim não sobra é nada, nem sequer de nós próprios. Custou essa lição, mas acho que agora aprendi.

Compensada

De emprego novo recente, para além de andar numa vida louca de trabalho intenso, não tenho férias este ano. Faço-as dos fins de semana, que aproveito da melhor forma possível. Primeiro, a visitar o meu filho, que tive de mandar com os avós, e tentar enfiar naqueles curtos dois dias tudo o que não cabe em mim de uma semana inteira de ausência. Mesmo sem querermos, acabamos por sofrer o impacto da lei das compensações. Com ele, não é tanto os brinquedos e as tralhas todas que quer comprar, mas os mimos, os abraços e as histórias ao deitar. Agora que está com o pai de férias, esse curtos dois dias são para aproveitar de outra forma. E este fim de semana lá fui, rumo ao sul e ao sol, com mais três amigas.

Com montes de trânsito à mistura, e alguns desaires pelo caminho, acabei por me divertir, gozar a praia sem pás e ancinhos, sem chuvas de areia e sem horas, gozar as noites (e também uma de descanso a compensar a outra de animação), a companhia e as conversas de tudo e mais alguma coisa. De nós as quatro, duas com namorado em Lisboa, e duas sem namoros no horizonte. Somos as mesmas, independentemente do que vai passando na nossa vida. Mas, e talvez seja esse um dos grandes desafios de todas as relações, há momentos em que simplesmente não nos alinhamos da mesma forma. Sobressaem em nós coisas diferentes, que não é que não sejam nossas, que não estejam lá sempre, mas assomam com maior ou menor intensidade conforme o que vamos vivendo. Talvez, digo eu, conforme o que nos falta ou o que ganhamos. É bom quando, ainda assim, a amizade subsiste. Aliás, acho que assim se pode fortalecer. Mas não deixou de ser curioso notar que, apesar de nos termos divertido todas, é claríssima a distinção entre o que priveligiam umas e outras, em vários aspectos, nessa coisa da compensação.

E hoje, depois de um telefonema cheio de lágrimas durante o fim de semana, fui compensar o meu filho ao fim do dia, que já está cheio de saudades e só quer é saber quantos dias faltam para voltar para casa da mãe. Dizia-me que tem saudades minhas e que já não quer ficar com o pai assim tanto tempo. Tentei lembrar-lhe que agora é a vez do pai e quando lhe disse que depois tinha saudades dele, como diz tantas vezes quando está comigo, respondeu que não, que "é só às vezes", e que "agora" tem saudades da mãe. Percebi-lhe tão bem a angústia de não poder ter os dois ao mesmo tempo, e de não querer ter saudades de nenhum dos dois no mesmo momento. A necessidade de equilíbrio, no fundo, a necessidade de compensar. Se a nós custa tanto com outras tantas coisas, como é que não há de lhe custar a ele?

Muda-se o verbo

Não sei como realmente cheguei a esta conclusão, mas dei por mim, de repente, a admitir que algo me fugia definitivamente da compreensão. E, ao contrário do que é em mim habitual, percebi que simplesmente desistia, entregava os pontos. Achei que o caminho da felicidade, esse conceito abstracto a que aceitamos reconhecer existência mesmo sem lhe conhecer o sabor, é simplesmente uma forma de disfarçar o quanto nos custa caminhar. Porque custa - custa sim senhor. Custa saber que a vida passa, que cada amanhecer é menos um dia de juventude, um dia mais perto do fim, e que a cada dia pouco mais felizes somos que no dia anterior, que não há passes de mágica que nos tornem felizes de um dia para o outro (embora ganhar o Euromilhões pudesse ajudar).

Todos temos os nossos momentos de felicidade, e fases em que esses momentos se multiplicam mais profusamente ao longos dos dias, enchendo-nos da convicção de que somos felizes. Mas apenas estamos felizes. É momentâneo e efémero. Dura até começarem a rarear os momentos bons, até se entrar nos ciclos de dias em que se somam mais tristezas ou outras dores, dias em que achamos que somos infelizes. Mas, na verdade, apenas estamos.

No fundo, somos todos um bocadinho bipolares. Ninguém consegue estar sempre feliz, nem ninguém sobrevive a uma pernanente infelicidade. E ninguém atura alguém que está sempre radiante mesmo que o mundo expluda, ou alguém que está sempre deprimido mesmo que a vida sorria.

O que mais atormenta a maioria das pessoas é essa necessidade auto-imposta de se poderem dizer pessoas felizes. E o maior problema é que há sempre qualquer coisa, às vezes maior outras menor, que atrapalha esse objectivo. Se sofrer num dado momento, poderei dizer, ainda assim, que sou feliz?

Poderei, se redefinir o conceito e não o deixar incluir aquilo que não tenho. Poderei, se aprender a sofrer com o que seja, sem deixar que isso contamine as coisas boas da vida. Poderei, se perceber que o que me pode fazer uma pessoa feliz não tem de ser o que faz os outros felizes. Poderei, se aceitar que não tenho de ter o amor da minha vida para ser feliz. Encontrar esse amor, que parece ser o caminho mais fácil, que mais consensualmente é aceite como o ponto chave da felicidade humana, acaba por ser o mais duro e interminável dos caminhos, instituindo a infelicidade permanente, de forma ditatorial.

Por isso desisti. De entender e de procurar por aí. Tentei ser feliz com tudo o resto: o meu filho, o meu trabalho, os meus amigos, livros, música e escrita, e um novo conceito de amor, mas em versão “light”, digamos. É que se a felicidade se alcança pelo amor, mas se o amor nos foge a vida toda, então só resta mesmo encontrar-lhe alternativas. E ou redefinir amor, ou redefinir felicidade.

Não me orgulho, mas tenho escolhido conforme o que me permite dizer a cada momento que estou feliz.  Mas no fim, também não posso dizer que sou feliz. Só que sempre custa menos fazer o caminho assim: estando de momento em momento, apesar de não ser em tempo algum.

Onde está a força?

À medida que vamos vivendo e ganhando experiência, dizemos que ganhamos calo. Não é por acaso. De facto, na grande maioria dos casos, a experiência da vida vai-nos endurecendo. O tempo, os erros, o que sofremos, ensina-nos mecanismos de protecção e pode endurecer até a expressão. Vamos aprendendo a proteger-nos mais, a confiar menos, a duvidar de tudo, e a contrariar as tendências naturais que mais vezes nos põem em perigo. Mas, na ilusão de nos tornar mais fortes, hoje acho que, à medida que nos cobrimos de uma camada de pele mais grossa, cada vez mais impenetrável, tornamo-nos é muito mais fracos, muito mais vulneráveis e, sobretudo, muito mais sozinhos.

As características pessoais de maior “sensibilidade” são, actualmente, vistas como uma fragilidade. E quem as tem, sabe que sofre por causa delas. Quem não desiste de confiar nos outros, mesmo depois de muitas desilusões, é sempre visto como um fraco e as suas lágrimas são vistas como o óbvio castigo da sua “insensatez”. Quem acredita que tem uma responsabilidade quando lida com os sentimentos dos outros, e por isso se expõe e se dá ao trabalho de escolher o caminho mais complicado e difícil para si, por forma a evitar magoar os outros, acaba sempre por ser visto com o tal do “O” na testa. Infelizmente, quase sempre, neste último caso, os tais “outros” acabam por dar razão a essa visão, porque quase nunca reconhecem o esforço e a nobreza da intenção.

Mas onde eu queria chegar é que, por mais que apuremos o instinto para cair menos vezes nas esparrelas da vida, e por mais que nos custe ter de aceitar o gozo dos amigos e do “bem te disse”, há coisas em nós que não devemos mesmo tentar mudar. Há coisas de nós que nunca conseguiremos mudar e, se andarmos a lutar contra isso, não aprendemos a viver com elas. Se sou uma tonta sentimental, por mais que queira mascarar-me com a frieza e a dureza do que diz por aí que é sensato nos dias que correm, acabarei sempre por sofrer duplamente: uma vez por ter de me obrigar a ser o que não sou, e outra vez por ter de, em consciência, me perdoar pelo que fui.

O mundo e a vida não são perfeitos, tal como nós. Mas não é força deixarmo-nos corromper para fingir que nos dói menos o efeito de tanta imperfeição. E mesmo não podendo mudar o mundo, podemos continuar a querer que seja melhor, podemos continuar a querer ser melhores para o mundo, começando por assumir que sensibilidade não é necessariamente insensatez. O que é insensato, quase insano, é deixar que nos esterelizem o pensamento, nos espartilhem o sentimento e nos isolem debaixo de um calo.

A arrumar as malas

Aqui sinto-me em casa. Regressada a casa. Hoje sento-me aqui a olhar para a tela branca, como paredes vazias que antes se vestiram de muitas letras que sabia de cor, e quase nem sei por onde começar, do tanto que as quero vestir de novo. Muita coisa me leva a voltar. Algumas coisas boas, outras nem por isso. E pelo meio algumas renitências, resistências e desistências. Assim é a vida e assim somos nós. Estes seis meses passaram depressa, mas parece que deixaram o tempo da minha partida tão distante, tão longe, que parece ser outra vida. E no entanto, apesar do muito que passou, é para aqui que volto, é a mim que quero voltar. Tentei fugir-lhe, mas tenho uma essência a que não posso escapar. Sou Princesa, e não importa o que mais junte ao epíteto que me marcou, essa Princesa que aqui se destilou é o que sou na verdade. Resta-me o consolo de uma frase de Clarice Lispector, uma novidade que tenho vindo a descobrir: "Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma para sempre".

Vai ter de ser devagarinho, pouco a pouco, mas sinto as palavras debaixo da pele, nas pontas dos dedos nas teclas, quase como quando temos uma coisa a transbordar de dentro que queremos dizer e nos fica presa na garganta, seja pela atrapalhação que causa, seja porque falta a coragem ou a oportunidade. Pois dizem que as oportunidades fazem-se, e aqui estou eu a fazê-la: a reabrir o que pensei que não abria mais, não relia, não continuava. Não há dúvida que, às vezes, é mesmo preciso voltar atrás. Há umas cartas que nos calham na vida que nos obrigam a regressar à casa de partida. Mas já se jogou um bocado, já se sabe um pouco mais, e mesmo que com algum atraso, esse passo atrás é também um novo primeiro passo que se pode dar com maior sabedoria.

E agora um sopro de coragem e, mais ou menos atrapalhada, lanço-me ao meu próprio desafio. Tenho saudades de mim.

A regressar


Parece que voltei. É: parece mesmo.

Para já, a primeira missão é redefinir o nick e perceber o porquê do regresso. Ou vice-versa, talvez.