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Uma história que dá que pensar



"Um professor, diante da sua turma de filosofia, sem dizer uma palavra, pegou num frasco grande e vazio e começou a enchê-lo com bolas de golfe. A seguir perguntou aos estudantes se o frasco estava cheio. Todos estiveram de acordo em dizer que 'sim'.

O professor pegou então numa caixa de fósforos e vazou-a para dentro do frasco. Os fósforos preencheram os espaços vazios entre as bolas de golfe. O professor voltou a perguntar aos alunos se o frasco estava cheio, e eles voltaram a responder que 'Sim'.

A seguir, o professor pegou uma caixa de areia e vazou-a para dentro do frasco. Obviamente que a areia preencheu todos os espaços vazios e o professor questionou novamente se o frasco estava cheio. Os alunos responderam-lhe com um 'Sim' retumbante.

O professor em seguida adicionou duas chávenas de café ao conteúdo do frasco e preencheu todos os espaços vazios entre a areia.

Os estudantes riram-se.

Quando os risos terminaram, o professor comentou: 'Quero que percebam que este frasco é a vida. As bolas de golfe são as coisas importantes, a família, os filhos, a saúde, a alegria, os amigos, as coisas que vos apaixonam. São coisas que mesmo que perdessemos tudo o resto, a nossa vida ainda estaria cheia. Os fósforos são outras coisas importantes, como o trabalho, a casa, o carro etc. A areia é tudo o resto, as pequenas coisas. Se primeiro colocarmos a areia no frasco, não haverá espaço para os fósforos, nem para as bolas de golfe. O mesmo ocorre com a vida. Se gastamos todo o nosso tempo e energia nas coisas pequenas, nunca teremos lugar para as coisas que realmente são importantes. Prestem atenção às coisas que realmente importam. Estabeleçam as vossas prioridades, e o resto é só areia'.

Um dos estudantes perguntou: 'Então e o que representa o café?'

O professor sorriu e disse: 'Ainda bem que perguntas! Isso é só para vos mostrar que, por mais ocupada que a vossa vida possa parecer, há sempre lugar para tomar um café com um amigo'."


Dá que pensar no que são as nossas bolas de golfe e os fósforos, e onde deixamos entrar demasiada areia. Dos cafés, dá também que pensar porque não haverá sempre lugar para eles, na nossa vida mas também na dos outros.

Sombras do Futuro



Um segundo a mais, ou um segundo a menos, e todo o curso de uma história, de uma vida, se modifica. Uma volta para a esquerda, em vez da volta para a direita, a decisão de milisegundo que tomamos sem pensar e sem saber o que acarreta. Fazemo-lo todos os dias, a toda a hora, e raras vezes nos apercebemos do que mudamos na nossa história por optarmos inconscientemente por isto ou por aquilo, por cada segundo que nos atrasamos ou adiantamos no curso programado dos nossos dias.

Mas também acontece sabermos que estamos prestes a dobrar uma esquina de destino. Acontece às vezes suster a respiração sem saber se estugamos o passo ou se arrepiamos caminho. Se nos lançamos no que quer que esteja do outro lado da esquina ou se lhe fugimos ao avistar as sombras que projecta.

Todos os futuros não são mais do que sombras projectadas retrospectivamente. Sombras de alguma coisa que ainda não é mas que se esboça lentamente à frente do caminho. Como todas as sombras, as do futuro não trazem os contornos precisos e reais dos originais ainda inexistentes que projectam, não trazem o detalhe, o pormenor, e não trazem para o aqui e agora aquilo que não existe ainda se não em mera sombra projectada.

Cada dobrar do tempo é um sol a iluminar uma nova realidade que se vê sem sombras. É uma descoberta, uma surpresa, que pode ser boa ou má. Reconhecendo o momento, é preciso saber bem, muito bem, se se está realmente disposto a, e capaz de, lidar com esse futuro feito hoje, independentemente do que traga, independentemente de não corresponder às sombras que projectou no momento do primeiro passo. Ou do primeiro beijo.

Eterno instante



Toda uma vida pode mudar num instante. E cabem muitos instantes em cada dia da vida.

Quantos anos, meses, semanas ou dias cabem numa eternidade? Para onde levamos o momento, o segundo, o repente que se sente eterno? E como se mede essa pequena-grande eternidade? Pelo que dura, ou pelo tempo que perdura depois de já não ser?

Promessas, planos e projecções, todos construídos na base de uma frágil linha de tempo que realmente não sabemos existir. Que pensamos não ter fim, num momento, e às vezes acaba logo ali.

Queria saber quanto de mim cabe na tua eternidade. Quanto de ti em momentos caminhará comigo eternamente. Quanto durará esse eterno em cliques de segundos, enquanto é, depois de já não ser.

Que prazo terás para mim e que limites que não vemos tornam finita a linha do tempo que projectamos indefinida, para lá do horizonte visível do eterno instante?

Balelas Astrológicas?



Leitura de mim num site qualquer de astrologia:

For Princesa, relating is like breathing--not that it's as easy, but that it's just as necessary. In fact, she needs healthy and ongoing heart-ties with several close friends, as well as a primary relationship. Princesa wants to be fully and gracefully partnered, with fairness, courtesy, reciprocity and balance, as well as romance. She has a world of attention to offer in return. Shared appreciation of the arts and other aesthetic experiences are great pluses here. So is a firm decision by both partners that Princesa's needs are just as important as her partner's needs--not more so and not less so. Therefore, Princesa would do well to learn some conflict resolution skills, and not settle for merely the appearance of the harmony that she so cherishes and is quite capable of establishing.”

OK. Não é assim para todos? Quem é que pode viver sem amigos, sem ninguém no coração? Quem é que não procura uma relação equilibrada e tudo o mais que aqui se lê? Quem é que acha que as necessidades de um devem ser mais importantes do que as do outro? Quem é que não procura uma vida harmoniosa???

Pronto, está bem... A primeira e a última frases dão-me que pensar... Sobretudo a última, porque eu já há muito que não tolero o status quo apenas a bem da aparente harmonia, mas quando chego à conclusão de que não tolero mais, geralmente parto a loiça toda, e é-me mesmo difícil gerir o conflito. Fujo a sete pés, prefiro ignorar e deixar tudo para trás.

E eu que não quero acreditar nestas coisas esotéricas...

Natal



Escrevo sobre o Natal, por causa do desafio da Fábrica de Letras. Mas não inscrevo o meu post, porque eu não gosto do Natal de 25 de Dezembro. O Natal passou a ser sinónimo de tudo menos do seu espírito original. Para lá das festividades religiosas, que já poucos vivem a sério, devia ser tempo de paz, de reconciliação, de comunhão – dar e receber, num voto de perpetuar esses bons sentimentos em acções ao longo do ano, ao longo da vida.

Há quem ande com um sorriso parvo na cara, só porque é Natal. Como se a aproximação do dia 25 de Dezembro, patenteada pelas montras e iluminárias da cidade (e desses infernais micro cosmos chamados de centros comerciais) lhes desse autorização para sorrir, e fingir por uns quantos dias que são felizes e contentes. Como se isso apenas justificasse fazer aquele telefonema, ou vá enviar aquela SMS, que cartões à séria quase ninguém envia, aos amigos e familiares com quem não se fala o resto do ano, porque nem se pensa neles.

Oferecem-se “lembranças”, porque é da praxe, e não porque apetece dar. E escolhem-se os presentes seguindo os dítames da febre consumista alimentada pelo marketing asqueroso da época (que cada vez começa mais cedo), e até por exibicionismo. Ou com requintes de malvadez, ou como forma de redenção dos “pecados” do ano todo.

Continua a falar-se na festa da família, mas quais são hoje as famílias que são, de facto, “família”? Muitas só se vêm no Natal, e não porque lhes apetece especialmente, simplesmente porque tem de ser. É assim como os casamentos, baptizados e funerais: é uma chatice, mas é um dever, e à excepção dos funerais, sempre se come bem.

Para mim, é apenas uma farsa montada para fazer dinheiro a uns poucos, esvaziando os bolsos da grande maioria. Quem eu quero perto, amigos e familiares, eu mantenho perto o ano inteiro. E prefiro mil vezes um telefonema numa altura improvável do ano de alguém que, simplesmente, pensou em mim, do que as parvoíces das SMS que circulam por aí, enviadas em série para todos os contactos da agenda telefónica. Se durante o ano, noutro dia qualquer, me apetecer dar um presente a alguém, é provável ouvir “mas é Natal?!”. Pois eu gosto de dar quando me apetece dar, e não quando é suposto porque é Natal. E por muito que goste de embrulhos bonitos, gosto muito mais de receber pequenos presentes de real lembrança ao longo do ano, do que um enorme embrulho de uma coisa qualquer só porque é dia 25 de Dezembro.

Revolta-me o consumismo da época e a hipocrisia. Não suporto a música natalícia. Detesto a correria das compras de última hora e das várias visitas, jantares e almoços, a marcar o ponto com as várias “famílias”. Detesto receber presentes que sei que não foram escolhidos “por mim”, e destesto, sobretudo, que no dia seguinte tudo volte ao “normal”, restando apenas aquele ar deprimente de fim de festa, com inevitáveis rastos de sujidade e desordem por limpar e arrumar.

Eu faço os meus pequenos Natais ao longo do ano, com aqueles que considero “família”, às vezes um de cada vez. No dia 25 de Dezembro, faço greve, e entrego-me à saudade daqueles poucos especiais com quem, em cada dia do ano, já não posso fazer os meus Natais.

Faço excepções dando presentes a alguns, mas escolho invariavelmente coisas da Unicef, e faço a excepção de sorrir para o meu filho, que na sua inocência infantil, ainda vive este dia com um brilho de fascínio nos olhos à vista dos presentes coloridos, e que é feliz com cada coisa que descobre dentro dos embrulhos, abertos com dedos lambuzados de açúcar e canela. Eu já nem me lembro do sabor desses dedos melados e muito menos da inocência e da alegria do momento. Nesta altura, lembro-me sempre mais de que quase todos esquecemos que há muito quem não possa ter Natal, em dia nenhum das suas vidas.

Dangerous Lines



“Os olhos cansados, ausentes, fixavam-se no infinito. Além, muito além, da linha visível do horizonte. Era também uma linha que flutuava naquele espírito, desassossegadamente, repelindo o sono. Era a linha que não sabia se queria cruzar.”

Há um limite para tudo, todos temos os nossos próprios limites. Limitamo-nos ou definimo-nos? Essas fronteiras que fixamos, seja por que razão fôr, são mais relevantes pelo que nos impedem de fazer ou, pelo contrário, pelo que nos fazem ser? São talvez limitativas, se são linhas que impomos inflexíveis. Mas quando são escolhas, serão então mais definidoras? Linhas que apenas nos desenham?

E onde arrumamos os princípios? Diria que são uma dessas fronteiras essenciais. E podem ser tão limitativos quanto definidores. São talvez, em mim, das fronteiras menos flexíveis, mais guardadas e defendidas. São, possivelmente, as linhas que mais batalhei para definir e que, por isso mesmo, mais me definem. E são também as linhas que mais me custa cruzar, ou redefinir.

Se são hoje as mesmas as fronteiras de mim? Não... nem por sombras. Subtilmente em geral, às vezes num repente de uma clarividência chocante, essas linhas movem-se, ajustam-se, podem esbater-se suavemente ou, pelo contrário, adensar-se em sulcos profundos.

“Ao saber-se hesitante na escolha, perguntava-se repetidamente porquê. Via as razões de ser, do seu ser, na escolha de não passar para o lado de lá. Cheirava a perigo. Mas o perigo também atrai. E via o que não queria perder do outro lado. Porquê?... Via nessa interrogação assim, também, que as razões do seu medo eram as razões da sua vontade. E via negar-se um querer, para não se perder. Porquê?... Porquê?...”

Nos porquês que se levantam sobre essas fronteiras, esquecemo-nos muitas vezes de uma coisa importante. É que esses porquês são, em si, andar perigosamente, num equilíbrio periclitante, sobre a linha da própria fronteira.

No limbo



Acordei na preguiça de quem não tem horas. Sem planos, compromissos, vontades ou determinações. Normalmente, tenho tudo isso. Mas hoje não. Hoje o tempo não conta, não tenho pressa de viver o dia.

Há muitas coisas para fazer, mas não tenho nenhuma vontade de as fazer. Não tenho nenhum sentido de urgência, nem sequer de ordem, o que é altamente incaracterístico. Estou a pairar. A pairar sem rumo e sem preocupação de definir destino. A retemperar forças, porque sei que tenho de meter mãos à obra em tanta e tanta coisa. Mas hoje não.

Estranha serenidade que de repente me deu. Depois de um dia tão mau, de tanta tristeza que ontem senti, de tanta perda e vazio. Dormi muito mal e hoje não encontrei nem enchi nada, mas a tristeza deu lugar à serenidade. Não é nada que se aproxime de alegria, mas também não é tristeza. Não é desânimo, mas também não é esperança. É simplesmente um limbo. Mas respiro fundo.

É só meu


Saí do escritório envolta numa núvem negra. Pesada. Assim se asfixia por lá nestes dias. Mas aconteceu uma coisa espantosa: uns poucos metros depois, ao cimo da rua, deparo-me com um arco íris mesmo à minha frente. Era ténue, mas eu vi-o. Deixei o carro rolar pela estrada abaixo mais lentamente, enquanto olhava para o céu à minha frente. É incrível como certas coisas retêm a magia da infância, mesmo quando são já fenómenos cientificamente desvendados.

Claro que depois vieram umas gotas de chuva. E a partir daí foi um non-stop de tarefas e chatices. Mas retive uma certa serenidade, até boa disposição, e quando o dia chega ao fim, não penso na núvem, nem no pulinho ao supermercado que se tornou num martírio de uma enorme fila na caixa, nem na meia hora de voltas para arranjar estacionamento, nem no miúdo que adormeceu nessas voltas depois da seca do supermercado e com quem tive de negociar habilmente, para que se dignasse sair do carro e ir pelo seu pé até casa. Não penso na correria do banho já atrasado, e mais a negociação da lavagem do cabelo, nem no jantar menos saudável que tive de fazer à pressa, nem nas fardas que ainda tive de engomar, nem na empregada que foi para o Brasil e não sei se volta. Deito-me a pensar naquele arco-íris. E penso que foi só para mim.

Às vezes, somos irremediavelmente egoístas. Não há como a satisfação de saber, ou sentir, ou tomar, uma coisa bonita por nossa. Não há como não sorrir ao pensar que alguma coisa mágica é só nossa, ou é só para nós. Mesmo que esteja ali para todos verem, muitos passarão sem reparar, sem dar atenção, sem tomar por sua a magia. E por isso, nesse sentido, aquele arco-íris foi meu. E de vez em quando tenho uns assim.

De volta



Lisboa é linda vista do Tejo. Atravessar a ponte e sentir-me mergulhar de novo nesta cidade que eu amo é quase mágico. Sinto sempre o mesmo entusiasmo de menina pequena, ansiosa por chegar ao fim da viagem, e o mesmo deslumbramento que então sentia ao me aperceber da grandeza e da beleza da minha cidade.

De volta a casa. Passado o rio, descarregadas armas e bagagens que agora levo dias e reabsorver na minha casa, tenho um misto de contentamento, um sabor de missão cumprida, e uma tristeza de mais uma coisa que chegou ao fim. Para o ano há mais verão de azul e branco, como o mar revolto do meu Alentejo que também adoro e deixei para trás. Agora, há mais uns longos meses de luta da vida real, vida que pulsa aqui nesta cidade, alimentada por esta luz que é única e que me acolhe, sempre, quer eu queira quer não, e me faz estranhamente sentir em casa quando ainda rolo por cima de uma ponte vermelha sobre um rio azul.

Chegou o corpo mas o coração continua uma outra viagem. Continua a menina ansiosa por chegar ao seu destino, continua essa menina à espreita do vislumbre da paisagem que recorda imaginando, e do banho dessa luz que a fará, finalmente, sentir o coração chegado, iluminado, em casa. Continua o coração à procura da ponte.

Agri-Doce?


Hoje acordei de rastos – tipo: “não, não estou nada a ouvir o despertador... Está quieta Maria Princesa e deixa-te mas é dormir”. Tenho-me deitado tardíssimo todos os dias e ontem não foi excepção. Simplesmente nem quero pensar em ir para casa, não me apetece estar sozinha. Então fujo para a confusão. Tudo é mais fácil com o barulho das luzes. E as horas passam sem eu dar por isso mas depois é o diabo para me levantar de manhã. Acho que estou assim um bocadinho a fugir de mim – é que eu sou terrível comigo própria.

De facto, sou muito exigente e crítica de mim, em todos os aspectos. A minha mãe disse-me que tento ser, e projecto a imagem, da “super-mulher”. Não acho que seja bem assim. Eu não “tento ser” a super-mulher e até geralmente me sinto exactamente o contrário: sinto-me fraca e insegura, duvidosa e receosa, e por isso preciso de pensar tanto nas coisas. Mas admito que seja essa a imagem percebida por alguns, porque depois de tanto pensar, reflectir, analisar e, finalmente decidir, sou invariavelmente de uma convicção inabalável. É só isso que parece que os outros vêm, lendo portanto uma pessoa fria, calculada, cheia de força e certezas. Já alguém me disse que eu era uma mulher de coração com a ilusão de o temperar com a razão. E de facto sinto-me um coração a querer mandar, mas a razão a atrapalhar, a confundir sabores e a camuflar aromas com os temperos da lógica, do pensamento analítico, da crítica impediosa. Às vezes chego a perguntar-me se não serei um pouco esquizofrénica! E sei, admito embora não goste de o ouvir, que por vezes me projecto tão ácida como sou doce, sobretudo em situações em que me sinto ameaçada. E sei que isso confunde as pessoas que me conhecem menos, e mal sabem elas que me confunde a mim própria...

Talvez por sentir que sou demasiado coração, tenho uma necessidade absoluta de pensar nas coisas, tomar decisões consciente dos riscos, fundamentar certezas e reforçar convições com a trama da lógica. E tenho necessidade de esconder essa fragilidade no campo emocional, atrás de uma parede de acidez e uma expressão seráfica. Mas perco a espontaneidade, perco momentos e perco-me eu própria nesses raciocínios. Tenho-me esforçado, e quando consigo ser mais espontânea, realmente sinto-me quase sempre bem, apesar de algumas dessas espontaneidades acabarem a ser analisadas tempos depois na categoria a que dei o título (à moda de uma querida vizinha) de: “Loucuras que cometi no impulso do momento ou No que raio estava eu a pensar?! ou Não volto a beber tanto shot de vodka na mesma noite”...

Assim é a vida – um compromisso constante entre razão e emoção, entre planeado e espontâneo. Ainda tenho dificuldades com este equilíbrio e não me consegui decidir ainda se custa mais aceitar um erro resultante de over-analysing e planeamento detalhado, se um erro de impulsividade ou espontaneidade. A diferença mais óbvia é que, mesmo quando é erro, viver no espontâneo é mais fácil, é-se mais feliz pelo menos no imediato, e não se perdem certos momentos a ruminar argumentos e lógicas. E lá estou eu a entrar na análise, até para decidir se devo ou não ser mais espontânea... Mais paradoxos meus. Estas minhas incongruências admitidas, o facto de ser/parecer coração e razão, doce e ácida, insegura e forte, às vezes fazem-me sentir que não sou nem carne nem peixe. E de repente ocorreu-me que estou muito perto de ser um prato chinês agri-doce, um número cheio de “l’s” de uma ementa traduzida de mandarim... Qualquer dia alguém chama um “tlinta e quatlo” e eu respondo “Sim, sou eu...”

Lá se diz que a imagem que temos de nós próprios é sempre distorcida em relação à imagem que projectamos. E eu às vezes pergunto-me onde está realmente a distorção, acabando por concluír que está um pouco dos dois lados. Mas o que sei é que alguns outros por vezes nos vêm melhor que nós próprios, vêm as distorções que fazemos do nosso lado. Os que são nossos amigos têm a generosidade de nos reflectir mais autênticos, mesmo que seja através de uma discussão ou pelo menos de coisas que são duras de ouvir, ajudam-nos a alinhar as duas imagens, a focar no que interessa e a limpar ruídos da imagem distorcida. No fundo, dizem-nos que não somos um “tlinta e quatlo” e obrigam-nos a estudar o menu outra vez... Bem hajam esses amigos, que eu nem sou fã de agri-doce. Haja esperança.

Inconformada


Uma vez ouvi um Padre justificar a manutenção da virgindade até ao casamento de uma forma extraordinária. Dizia ele que assim não haveria no casal termos de comparação, o que tornaria o que quer que fosse a vida sexual dos dois absolutamente incomparável. Sem frustrações, sem desilusões, sem insatisfações.

À parte o que se pode argumentar contra esta tese, e pode muito, fica a questão genérica: a ignorância pode ser uma benção? Às vezes penso que sim. Se não soubesse o bom que pode ser, o medíocre chegaria. Se não soubesse o que é Amor total, um afecto menor seria suficiente. Se não soubesse o que é ser feliz, um contentamento morno bastava-me. Assim, o medíocre é apenas medíocre, um afecto menor é insignificante e um contentamento morno é um sofrimento.

Ecoam as palavras do meu saudoso avô a quem me queixava da Faculdade e do curso: “não me surpreende. As pessoas inteligentes são sempre inconformadas. Vais ter de aprender a viver com isso”. Desse-me Deus menos inteligência, menos profundidade e menos conhecimento, e seria talvez até feliz. Felizes serão os tolos?... Talvez. Se eu não conhecesse o Santini, com certeza achava a Olá um espectáculo e comia um gelado qualquer sem o desencanto de pensar que o de framboesa do Santini é mil vezes melhor.

Das escolhas e riscos do Amor

Amar alguém será sempre um risco para mim, algo que verei como perigoso, que sei que pode doer, e muito. Noutros riscos que assumo na vida, sou obrigada pelo meu lado racional a pesar prós e contras, analisar o grau de risco e tentar montar redes de segurança para as eventuais desgraças que possa antever. Mas esta racionalização no Amor é, para mim, quase impossível. Ao contrário do que alguns pensam, eu - e acho que a maioria das mulheres - não escolhemos um homem para nos apaixonarmos de check-list na mão, a pensar muito bem na escolha que fazemos. Pelo contrário, acho que não escolhemos ninguém - é o Amor que nos escolhe e escolhe por nós e, de repente, estamos apaixonadas.

A única alternativa é escolher não correr o risco, não dar azo a sofrimentos, mesmo que tenhamos de nos afastar de pessoas por quem nos começamos a apaixonar, ou que até preenchem uma série de requisitos de uma teórica "wish list" de sonho. Essa agora é a minha máxima: o meu lema por estes dias é "chega para lá". Não quer dizer que não olhe à volta, mas sei que o Amor é perigoso e para assumir o risco tinha de ser uma coisa tão, tão poderosa, que sei que não vai acontecer. Já cresci o suficiente para saber que essas listas não são fiáveis, não há coisas "poderosas" dessas a cada esquina, e também já calejei o suficiente para saber que amor com amor se paga, e não há quem aguente financiar um relacionamento a solo, hipotecar-se até à raíz do cabelo, assinando sozinho todas as letras e livranças.

É verdade que também há quem escolha alguém conscientemente, calculada e friamente. Mas essa não é uma escolha de Amor. Essa é uma escolha diferente e sinceramente não acredito que seja assim que a maioria das pessoas escolha os seus companheiros. Eu não sou assim com certeza, pois só soube "escolher" idiotas toda a vida. Se tivesse sido por escolha, tinha muito que me chicotear, ou aceitar uma tremenda falta de inteligência que acho que não me define. Os idiotas da minha vida por quem me apaixonei não se classificaram por lista nenhuma, por nenhum tipo de escolha racional. A idiota no Amor fui eu, não por me apaixonar, mas por ter investido demais em pessoas que, na realidade, ou não me mereciam ou não eram as certas para mim. No fundo, juntei ao azar uma enorme casmurrice, uma persistência que se tornou teimosia (e por essa sim, mereço um certo auto-flagelo).

Mas convenhamos que aos 35 já era tempo de ter um pouco de sorte e ter acertado num homem de jeito. Mais um bocadinho e acho que desafio a lei das probabilidades, por muito que o mundo esteja cheio de idiotas. Mas como devem ser assim à razão de uns 10 idiotas para 1 decente, ainda devo ter mais uns quantos na calha. Só espero que não tenha que chegar ao décimo para acertar...

Brisas

Hoje corre uma brisa. Uma brisa fresca. Gosto de brisas a passar, não de grandes ventanias. Esta brisa percorre a casa arrefecendo-a, libertando-a do torpor do calor que a encheu demais nos últimos dias. Esta brisa traz outros sons à casa, a começar pelas janelas a bater levemente, de vez em quando, anunciando a sua passagem.

Também nós passamos na vida como brisas. Damos sons e mudamos temperaturas às casa por onde passamos. Às vezes as brisas passam mais fortes e talvez deixem uns estragos. Sei que já deixei alguns e também apanhei já muitos cacos de umas brisas desabridas que por aqui passaram. Às vezes, ocorre-me, trazem fragrâncias. Assim passaram algumas por mim, em fragrâncias que ainda recordo. Brisas de mar, brisas de flores, brisas de terra e outros sabores. Tocam os outros à passagem, às vezes podem envolvê-los. Já gostei de ser envolvida em brisas mornas e recordo outras que me arrepiaram, ou me despentearam.

Mas as brisas passam, breves, e não voltam. Não se pode prender uma brisa, não se pode mantê-la a soprar por nós nem pelos nossos lugares. A brisa corre enquanto quer, toca e envolve quem muito bem entende, e perfuma quem escolher. Não adianta insistir, implorar, fechar a janela. Que a brisa vai, quando tiver de ser.

Vou passar a lembrar-me disto. Abrir janelas às brisas e usufruir melhor de cada uma que passar. Esta que passa hoje sabe-me bem. Esta brisa veio para mim e esta noite adormeço sem pensar, e durmo bem.

No tempo dividido


As horas passam lentas, demoradas. Dias, manhãs frescas, tardes quentes, crepúsculos de promessa de noite. Luz coada pelas janelas da casa e de mim, rodando a sombra ao longo das horas. Noites compridas ainda quentes, madrugadas lentas mais frescas. Dia e noite, manhã e tarde e madrugada. Idas e vindas esporádicas, para manter a sanidade de saber respirar um ar de liberdade. Vou e venho, enquanto o tempo passa sem eu ver. Melhor quando me foge assim. Fico entretanto e espero, enquanto vejo o tempo passar. Compassado, lentamente. Mas fugindo a cada momento. Cada agora é um segundo que já foi, já passou. Em alternâncias de divisões, em antes e depois.

“E agora ó Deuses que vos direi de mim?
Tardes inertes morrem no jardim.
Esqueci-me de vós e sem memória
Caminho nos caminhos onde o tempo
Como um monstro a si próprio se devora.”

De Sophia de Mello Breyner Andresen, num livro de 1970, 2ª Edição de “Antologia”, que tenho naquele papel velho e amarelecido pelo tempo e por todos os muitos olhos e mãos que já o percorreram. Cheira a todas as casas por onde passou, a todos os tempos a que sobreviveu. Guardo-o com muito carinho. Tem uma dedicatória de Sophia a uma das minhas tias, que mais tarde me legou mais do que o livro - deu-me a poesia que eu sempre busquei, a que volto de vez em quando para me perder e encontrar, sem tempo.

Diálogos Crípticos II


- Aquela luz é vermelha.
- É vermelha, sim. É bonita.
- É uma côr demasiado forte, é cruel.
- Vermelho é morangos, é flores e alegria.
- Vermelho é sangue, dor e agonia.
- É intenso, sim, mas bom. É uma boa côr.
- Para mim, vermelho é morte.
- Credo. Para mim é côr de amor.
- Pois. Cruel, e demasiado forte.

Diálogos Crípticos I


- Dá-me um abraço!
- Claro! Mas o que tens?
- Nada. Só quero um abraço. Assim apertadinho, de aconchego.
- Como nada? Ninguém quer um abraço assim só por querer.
- Eu quero.
- Pronto. Eu dou.
- Não. Assim não. Não me queres dar um abraço.
- Então? Claro que quero! Gosto sempre de te abraçar.
- Mas com razões. Não é a mesma coisa.
- Não?!
- Com razões é conforto.
- E sem razões é o quê?
- É amor.

Quem manda aqui não sou eu

Ocorreu-me que é difícil distinguir entre objectivos e desejos. Mais feliz seria se pudesse apenas ter objectivos, que me coubessem apenas a mim alcançar, e não uma lista de desejos, de sonhos, de vontades, de intangíveis que não tenho nas mãos o poder de realizar.

Sempre me revoltei com a ideia de que não somos donos de nós próprios. Durante muito tempo, achei que cada um colhe o que planta e que cada um é livre de seguir pela estrada que escolhe. Mas com o tempo, com a desilusão e o desencantamento, fui percebendo que somos muito mais escravos do destino do que pensava. Não escapamos ao que nasce connosco, nem ao que nos rodeia e que cresce connosco, nem o que a vida nos vai fazendo viver.

Geralmente, vou atrás do que quero e luto por isso, às vezes até à exaustão. Mas, no fundo, essa rebeldia e essa teimosia só me têm trazido dissabores. Muitas vezes me pergunto se não teria sido mais feliz se tivesse simplesmente desistido de caminhos que não eram os certos, às primeiras dificuldades e avisos de perigo à navegação. Pergunto-me de que serve lutar contra o destino, que nos desgasta, leva tanto de nós, para no fim concluir que travamos uma batalha em vão. É que os sonhos que queremos realizar podem ser uma desilusão tremenda e razão de imensa infelicidade, sobretudo um amor que temos por alguém por quem lutamos, que acreditamos ser o caminho da felicidade, e que depois não é. Se esse sonho, esse amor, não são o nosso destino, lutar contra isso faz-nos mal, esgota-nos e não nos leva a lado nenhum. Mas saber reconhecer o que é possível e o que não é, não é nada fácil. Na maior parte das vezes, só percebemos que não é caminho quando já nos perdemos, já sangramos da batalha, já temos o nosso exército dizimado. Não resta se não a retirada, raras vezes honrosa, e voltar ao ponto de partida para tomar um caminho diferente, já traçado, que não exija ser desbravado.

No fundo, não escolhemos quase nada. Às vezes as escolhas que queremos fazer não são simplesmente possíveis, porque são caminhos inexistentes. Acabamos por ter de seguir os caminhos para onde nos empurra a vida. E cabe quase sempre ao destino, à sorte, escolher o que nos traz a vida. A mim, peço que me traga Paz. Pelo menos isso. Hoje, no silêncio de que preciso para respirar.

O que quer dizer com isso?

As palavras escritas são, geralmente, mais reflectidas. Há tempo para reler, clarificar, encontrar sinónimos mais apropriados. Suavizar mensagens duras arredondando a escrita, ou endurecer mensagens que a nossa voz não permitiria transmitir com a mesma segurança, ou dizer aquilo que não sentimos mas queremos ou precisamos de exorcizar. As palavras escritas só são lidas após este processo, são diferidas. As palavras faladas são mais espontâneas. Saiem-nos da boca com muito menos filtros. Podem-se suavizar ou embelezar com mais palavras, tentar clarificar quando não são bem ouvidas, ou quando nos traem a vontade, o sentir ou o pensar, mas não se podem apagar ou substituir as que já se disseram. As palavras faladas são instantâneas e imutáveis.

Um texto pode-se sempre interpretar de várias formas, é certo, mas é essencialmente uma articulação lógica de palavras cuja maior carga emocional é de quem lê. Quem lê um texto tenta geralmente perceber qual a verdadeira mensagem do escritor e, quando não entende, relê as mesmas palavras, a mesma cadência de pontuação, esforça-se por se afastar das suas próprias condicionantes emocionais, até que o todo faça sentido. Se o escritor não é uma nulidade, a mensagem passa.

Uma conversa, uma fala ou um discurso, carrega emoções de quem emite as palavras, antes de mais nas cambiantes da voz, na expressão do rosto e na linguagem do corpo, e quem ouve interpreta isso tudo ao mesmo tempo que significa as palavras em si. Se quem ouve não entende, só lhe resta pedir uma repetição ou uma clarificação, mas nunca ouve nem vê exactamente o mesmo que antes – ao contrário do texto escrito. E às vezes, quem fala também esconde as suas emoções num esforço cénico de esconder a alma, tornando mais complicada a interpretação das palavras. É muito mais difícil falar assim, mas há quem o consiga fazer e até se “profissionalize” nessa arte.

Hoje pergunto-me se essas pessoas, de tanto encenarem, não deixarão mesmo de sentir. Há uma pessoa assim que me é muito próxima e não lhe vejo emoção, sentimento, expressão. Reparo que falo com ela da mesma maneira, no mesmo tom frio e calculado, com pouquíssimas inflexões de voz, e o mínimo de contacto visual. Com uma diferença: a emoção e o sentimento estão cá, espartilhados pelo tal esforço cénico recíproco, e depois as minhas emoções exprimem-se em discursos interiores silenciosos a tentar apaziguar aquele desconforto que fica, e a pensar o que raio exactamente ela queria dizer com certas palavras, ou em revoltas partilhadas com quem me sabe ouvir e sentir.

Ao meu filho eu escondo as lágrimas, mas nunca o enorme amor que tenho por ele, que tenho a certeza que se vê nos meus olhos e se ouve na minha voz, mesmo quando lhe prego um raspanete. E só por ele mesmo é que me ponho a jeito destas setas envenenadas. Cinco dias disto valeram a pena por ele e por me recordarem porque tive tanta pressa de saír de casa. Luto tanto, ainda hoje, para me libertar da encenação que cresceu comigo, mas que detesto, e que sei que não é minha. Na escrita consigo libertar-me dela. Na fala, ainda não. Não sempre. E cada vez me apetece menos conversa, menos som. As palavras de mim são cada vez mais fundas mas cada vez mais silenciosas, e cada vez mais preciosas e impartilháveis. E não me apetece explicá-las, suavizá-las, contorná-las. Apenas materializá-las e deixá-las escritas, a definirem-me aos poucos apenas a quem me sabe ler, a quem consegue decifrar o código.

Quero o último amor

Dei por mim a pensar que pode muito bem acontecer que os anos vão passando e nunca encontre “o” homem da minha vida. Ou que simplesmente, mesmo que vá encontrando umas promessas de amor, a vida não permita concretizar essas promessas em algo sólido e duradouro, “para a vida”. Assim sendo, terei de encarar a possibilidade de ser solteira até à morte. Mas não pretendo desistir de procurar.

Por enquanto tenho o meu filho a depender de mim, e assim será durante ainda muitos anos. Isso deixa pouco espaço a outras coisas, e é um desafio extra para qualquer relacionamento que venha a tentar. Agora, ocupa-me a vida, e não me deixa sentir totalmente só. Um dia seguirá a sua vida, porque os filhos não nos pertencem, e sabe-se lá por onde andará quando eu chegar à velhice e não me puder bastar. Também tenho e terei amigos, pretendo continuar a manter-me ocupada e activa, idependentemente da passagem dos anos, embora com as devidas adaptações que a idade certamente irá impondo. Mas não procuro o amor por medo da solidão, procuro-o por missão.

Sei que muitas mulheres vivem hoje em dia solteiras, por opção, e muitas são felizes. Para mim, no entanto, é uma opção de vida que nunca me ocorreu, não é “opção”, é apenas desígnio da vida que me foi calhando. Sinto realmente falta desse amor que procuro. Sei que seria mais feliz se tivesse um companheiro de vida, com quem dividir os vários momentos e fases da vida, com quem crescer, vincar rugas e celebrar cabelos brancos, e com quem cimentar o amor, numa partilha de planos e prazos até ao fim dos meus dias, mesmo que acabem na saudade.

Acho que serei a eterna romântica, sempre à procura. Preocupa-me um bocadinho saber que posso nunca encontrar. Mas sei que nem que tenha 70 anos, estarei num qualquer chá dançante à espera que um charmoso octagenário de flôr na lapela se aproxime e pergunte “A menina dança?”. Estou a ver-me perfeitamente, num momento desses, por mais cataratas que tenha, a olhar para ele com a mesma expectativa e a mesma vontade de que seja ele, finalmente, o “tal”. É que mesmo que seja aos 70, ou aos 80, encontrar o amor será para mim cumprir essa missão de vida.

Há um poema que me é muito especial e já o referi aqui. Para mim, é como quero viver qualquer amor que tenha a sorte de ainda encontrar nesta vida. Sobretudo, quando morrer, que “Eu possa me dizer do amor (que tive):/ Que não seja imortal, posto que é chama,/ Mas que seja infinito enquanto dure".

Mas também por isso não quero encontrar muitos nem poucos amores, quero encontrar o último, que é aquele que conta – é o que me aquecerá o coração num último sorriso, o que me sossegará o espírito no último fechar de olhos, e o que permanecerá na eternidade de depois da morte. Quer ali esteja de mão na mão no momento do adormecer, quer por o saber do outro lado, à minha espera para a eternidade. Esse amor assim, que vai connosco na morte, é o único que realmente contraria este poema. O último amor é o único que conseguirá ser imortal "e" infinito, porque a sua chama nunca se apagará, mesmo que se apague a chama das nossas vidas. E é na crença de que ele existe, e de que um dia o encontro, que me vou apoiando para deixar passar o tempo do entretanto como apenas um compasso de espera.

A colar os cacos


Já acordei. Doeu, sim, doeu. Mas colei uns adesivos, uns remendos nos cacos, que com o tempo sei que hão de cicatrizar. Estou viva. Sabia que caía de pé. Caio sempre, embora nunca tenha percebido como o faço. Os adesivos e ligaduras ninguém vê. Além de gostar de estar viva, gosto de pisar terra firme. É verdade, vou tendo os meus "tristinhos". São lembranças que voltam, aos poucos, e que mando embora, agora sem raiva, apenas com uma tristeza de despedida. Como se fosse a última vez que saboreio a recordação de cada coisa que me vem à cabeça. Se calhar é mesmo a última vez. E espero que sim, que assim seja. Porque ainda doi lembrar, e ainda doi sentir, e ainda doi saber que é lembrança de despedida.

Está um dia horrível, estou absolutamente farta de chuva e frio. Francamente, apetece-me emigrar. Não é normal voltar a calçar botas no fim de Maio! E o sol e o bom tempo são sempre a desculpa de maior peso para a defesa deste nosso país. Sem isso, não sei bem o que sobra. Hoje é daqueles dias em que, ultrapassados ou ignorados os problemas legais de guardas e tutelas, pegava no meu filho, uma mala para o caminho, e apanhava o primeiro avião rumo a um destino, pelo menos, mais solarengo.

Mas sou daqui, estou aqui presa, e estarei durante muito tempo. Esse sonho é só para um dia daqui a muitos anos, provavelmente com mais bagagem e sem o meu filho que já andará a fazer as suas próprias viagens.

De qualquer forma, apesar de uma certa melancolia, esses tais "tristinhos", e apesar do mau tempo, sei que entro nesta nova semana com um passo mais seguro, do alto dos saltos das minhas botas (como gostava de poder escrever "sandálias"...). Diz que o tempo vai melhorar já amanhã. Espero bem que sim. De qualquer forma, andarei por aí esta semana, numa roda viva o mais possível, a soprar em mim uma brisa leve de tempo ido, acabado. E sei, porque sei, porque quero, porque faço por isso, porque luto, porque não desisto, que em breve cantarei: “I’m off to see the wizard, the wonderful wizard of Ozz!”…