"Destilar", cientificamente, é "separar componentes químicos que constituem uma substância através de vaporização seguida de condensação". Serve para muita coisa, nomeadamente, para produzir bebidas espirituosas. Aqui, é uma tentativa de purificação da mistura de tudo o que sinto, penso e vivo. A aguardente do que sou.
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Por fim
Sobrevivo. Amachucada, com uns nós por desatar, umas tristezas na alma e mais uns milímetros de carapaça que, espero, me proteja melhor no futuro. Podia escrever um texto só de chavões sobre tempo e esperança. Nao tenho nenhum dos dois. Podia escrever um texto sobre o desejo de voltar a acreditar no amor. Mas não tenho nenhum. Podia escrever um texto sobre como vale sempre a pena tentar, mas não acredito. Podia fazer um texto sobre como é sempre bom dar de nós, mas não é. Podia fazer um texto para fazer os outros sorrirem, mas não tenho sorrisos para dar.
Nesta curta viagem fui passageira renitente, depois fui passageira interessada e mais tarde rendida, conquistada. Fiei-me nos anúncios escritos em vários placards e confiei que ía na direcção certa, em direcção ao destino onde queria chegar. Mas afinal, fico-me por um apeadeiro no meio do nada, quando percebo que não vou na direcção certa, ou que comprei o bilhete errado. E fico ainda mais longe do meu destino almejado. Fico de novo no charco das desilusões, das demasiado sucessivas repetições, onde afundo de cada vez um pouco mais de fé, um pouco mais de esperança, um pouco mais de amor. Até não ter mais nada, nem mesmo a ilusão de que qualquer maré me trará de volta o que aqui deixo. Até não ter mais nada, se não a memória de ser enganada, usada, desrespeitada. Salto fora num inóspito apeadeiro, porque assim não podia continuar a viagem. Mas sobrevivo.
Só para que conste...

... estou farta de hospitais.
E tenho muito maus sentimentos e desejos para o piiiiiiiiiiiiiiiiiiii do enfermeiro que, como se não bastasse tudo o resto, me rebentou uma veia. E mais não digo.
E tenho muito maus sentimentos e desejos para o piiiiiiiiiiiiiiiiiiii do enfermeiro que, como se não bastasse tudo o resto, me rebentou uma veia. E mais não digo.
Quando o mau pode ser pior – e é
Ía escrever este post com uma nota positiva, por tudo o que estou a aprender que consigo fazer sozinha. As coisas mais básicas do quotidiano passaram a ser enormes desafios. Estou sozinha, com pouca ajuda, e não é do meu feitio pedir a não ser em último caso. Mas vou superando os desafios, com maior ou menor dificuldade, com mais ou menos criatividade (e as canadianas passaram a ser extensões de mim com funções cada vez mais alargadas – e mais certeiras). Fui jantar fora no sábado de pé entrapado mas com um lindo vestido, maquilhagem, etc (só o sapato raso é que destoava, mas há que fazer concessões).Estava a começar a acreditar que afinal isto não era tão mau, àparte o facto de estar condenada a um afastamento forçado e longo, muito longo, do meu filho. Mas eis que saio hoje da consulta de ortopedia com uma sentença pior: além da "fractura do tarso" já diagnosticada, diz o especialista que esta paciente “apresenta arrancamento capsular do escafoide.” Traduzido por mim: era para engessar e não foi, há que corrigir a posição do pé (dor, muita dor!), engessar da ponta dos dedos ao joelho (e lá vai mais metade das opções de vestimenta que ainda tinha, fora o desconforto adicional), 3 semanas para voltar e tirar o gesso para substituir por uma “tala de posicionamento articular da tibiotársica AFO”. A tradução desta última colecção de palavras incompreensíveis é que são mais umas semanas com uma tala horrorosa que vai ter de ser adaptada a um sapato ténis, que é só o que posso calçar enquanto andar com a tala.
E por fim, sentencia o médico: “sendo provável período de incapacidade para o trabalho de 4 semanas”, isto dada a necessidade de manter a perna elevada a maior parte do tempo, e isto apesar das adicionais injecçõezinhas diárias agradáveis para prevenir embolias e sei lá mais o quê.
Agora sim. É pior que mau, e hoje não me resta nenhuma centelha de humor para deitar nisto. A única coisa que me anima é que vou passar 5 dias com o meu filho com a ajuda dos meus pais. Mas depois cá volto para a minha casa na solidão e na saudade dele até poder bastar-me e poder re-assumir o meu papel de mãe. Hoje mandou-me uma flôr pelo pai, que ele próprio apanhou do jardim do pai e escolheu por ser branca e "das que a mãe gosta". Falei com ele ao telefone há pouco, e fiquei com um aperto indescritível, depois de me perguntar se já estava boa do "dói-dói" e quando é que voltava para casa. É o aperto de me sentir incapaz, insuficiente, de sentir que estou a falhar-lhe. E ao mesmo tempo a sentir a falta que ele me faz, o simples facto de não o ter "comigo" faz-me faltar uma parte de mim, a melhor parte de mim.
Curta Sabedoria – Que me desculpe o Poeta

"Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas,
um dia vou construir um castelo..."
(Fernando Pessoa)
Pois sim… Mas é curto não acham?... Bonito claro, e toda a gente que aqui passa sabe que Pessoa é “o” meu poeta de eleição (embora o Vinicius venha a amadurecer melhor que muitos vinhos, e certamente bem melhor que muitos homens). Mas só um castelo de pedras, por muito auto-conhecimento, auto-estima e abenegação, não chega para a minha definição de “feliz”. Que me desculpe o Poeta, que lhe reconheço outros escritos absolutamente certeiros, como o que citei ontem, mas este não, que os meus sonhos são vôos um bocado mais altos...
Quem me conhece um bocadinho já percebeu que hoje a coisa também não corre assim tão bem, que este azedume não é muito normal em mim. O raio do tempo não passa, ainda por cima com o outro tempo acinzentado, indefinido, e as coisas mais chatas possíveis a nível profissional. Semana mázita esta, e ainda só é 4ª feira... Queria hibernar uns dias, ou como diz uma amiga minha, e hoje entendo bem, “quero voltar para a barriga da minha mãe”!!!
É solidão?
A vantagem de se viver sozinho é que temos o privilégio de decidir a cada instante o que fazer, e como, sem ter de prestar contas a ninguém (a não ser nós próprios). Ninguém tem de ver as nossas lágrimas se não quisermos. Podemos pôr a música que bem nos apetecer e no volume que mais bem souber. Não há lutas pelo comando da televisão - e isto se sequer nos apetecer ligar a besta. Não há horas para as refeições, nem necessidade de comer coisas apropriadas. Pode-se decorar a casa com o que gostamos e ninguém critica ou muito menos se opõe. É o que nos apetecer - é poder dizer “a casa é minha"!Isto sabe-me bem, tal como também poder acordar às horas que me apetecer no fim de semana, e não ter de fazer quase nada que não queira. Mas claro que, para mim, só funciona exactamente assim quando o miúdo está com o pai. E confesso que aproveito estes momentos de desforra o melhor que posso, apesar de não deixar de sentir a falta dele. Mas sei com certeza que ele volta e que esta também é a "nossa" casa quando ele está. É um equilíbrio.
A solidão até pode ser um conforto. Aliás, há pouco tempo li uma coisa interessante: "graças à solidão conheço-me, o que é fundamental para viver". Acho que é verdade. Sem um pouquinho de solidão não teria tempo para pensar, e muito menos para escrever. Para disfrutar de mim. Fazem-me falta os silêncios, as pausas, os tempos de reflexão. Mas depois preciso de ebulição, preciso de pôr para fora, preciso de gente à volta, e barulho, e animação. E claro, mimos e beijos e abraços. Confusão de brinquedos pelo chão. Refeições à séria e boas regras de educação. É mais uma das minhas muitas dualidades...
Mas a pior de todas é que, apesar de precisar e gostar de um pouquinho de solidão, preferia não me sentir só, gosto de ter a "minha" casa mas também gostava de ter uma "nossa" todos os dias. Poder chorar as minhas lágrimas em comunhão e secar as lágrimas de alguém que procure o meu conforto. Dar e ter colo. Ouvir música em conjunto, lutar em brincadeira pelo comando da televisão, partilhar refeições de coisas mesmo desapropriadas, ir decorando a casa como prova da capacidade de aceitação e enriquecimento pelas diferenças do outro, e no fim dizer com satisfação “a casa é nossa”.
Bem... lá vou eu. Isto hoje não está a correr lá muito bem.
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