"Destilar", cientificamente, é "separar componentes químicos que constituem uma substância através de vaporização seguida de condensação". Serve para muita coisa, nomeadamente, para produzir bebidas espirituosas. Aqui, é uma tentativa de purificação da mistura de tudo o que sinto, penso e vivo. A aguardente do que sou.
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Caminho do fim
Faz-me uma cara de espanto e clama “olha!”, repetidas vezes, enquanto parece querer absorver-me com os olhos. Não consegue dizer mais nenhuma palavra, mas repete o “olha!” de tantas maneiras diferentes, passando da surpresa e do contentamente à comoção de um timbre mais baixo e lento, que me comove a mim também.
Passo com ela uma manhã, tratando-a como se fosse uma criança. Que anda devagarinho e com apoios porque pode cair, que não consegue segurar em nada que pese mais do que umas quinhentas gramas, que não consegue vestir-se sozinha, quase não consegue comer sozinha, e nem sequer consegue articular as palavras que permitam estabelecer a sua vontade. Penteio-lhe os cabelos já todos brancos, mas muito macios, e ela fecha os olhos em frente ao espelho. Ponho-lhe os ganchos com cuidado, que sei que é frágil e duvido da minha competência, tenho medo de a magoar. Depois pergunto-lhe se ficou bem, e ela olha-se e diz com um sorriso “ena!”. E “ena!” repete-se também um número de vezes em diferentes entoações.
Não me larga as mãos das suas, muito magras e quase tranparentes, que evito olhar porque me ofende ver-lhe os ossos e as veias, e a vida a fugir dali. Olha-me para dentro dos olhos, com os seus lindos olhos verdes raiados de azul, que parecem ser a única coisa que não envelhece. À sua maneira, com o pouco que consegue articular, vai-me perguntando pelo meu filho. Lembra-se do abraço que ele lhe deu no Natal, sabe o nome dele mas não consegue dar-lhe a volta na boca. Franze a testa enrugada, contorce a expressão e fecha os olhos num misto de frustração, zanga e tristeza, a cada palavra que quer dizer e não consegue. E eu tenho de lhe dizer que não faz mal, já se lembra e diz-me mais tarde, devagarinho avó, com calma.
Saio de lá sem conseguir almoçar, um nó no estômago. Doi-me a cara de tanto me forçar sorrisos para disfarçar. Invade-me uma tristeza e uma revolta, e sinto o peso da culpa. De facto, não sei lidar com isto, com a morte a chegar, a comer aos poucos os corpos e as palavras dos que amo. Devia ser mais forte, devia saber vesti-la sem me chocar com o corpo definhado, devia aceitar que o braço direito já não mexe e ficar feliz porque ainda mexe o esquerdo, devia contentar-me com as palavras que ainda me consegue dizer e ler o resto no olhar. Mas não consigo, estrangula-me, agonia-me, numa recusa mista da realidade dela hoje e do que pode ser o meu próprio destino. Percebo que já encerrei dela as memórias que quero manter de quando “era uma senhora tão alta”, como diz tristemente a empregada que me vem render e apoia suavemente o braço daquela senhora agora tão pequenina, curvada, mirrada.
Pergunto-me como não enlouqueceu ainda, sabendo que a cabeça ainda funciona perfeitamente, entende tudo, ouve muito bem, reage com a expressão ou com o riso com todo o entendimento do que se lhe diz, mas perdeu a capacidade de falar. Tem as palavras na boca e não as consegue articular. Que sofrimento há de ser. Fico a pensar que tantas vezes calo as minhas palavras de dentro, e o que daria ela por poder fazer-se ouvir. Diz-me que lhe faz impressão olhar para os meus olhos. Mas não consegue explicar porquê. Faz apenas um sorriso triste, mexe em tudo o que pode à volta dela, mas não me larga as mãos nem desvia os olhos, e eu fico sem saber que me viu ela no olhar, que memória ou identificação lhe terá cruzado o pensamento e ficado presa na garganta. Na minha ficaram as lágrimas, que me faltou chorar. As lágrimas que lhe devo no dia em que não a puder mais olhar, mas puder vê-la como a quero recordar.
Por fim
Sobrevivo. Amachucada, com uns nós por desatar, umas tristezas na alma e mais uns milímetros de carapaça que, espero, me proteja melhor no futuro. Podia escrever um texto só de chavões sobre tempo e esperança. Nao tenho nenhum dos dois. Podia escrever um texto sobre o desejo de voltar a acreditar no amor. Mas não tenho nenhum. Podia escrever um texto sobre como vale sempre a pena tentar, mas não acredito. Podia fazer um texto sobre como é sempre bom dar de nós, mas não é. Podia fazer um texto para fazer os outros sorrirem, mas não tenho sorrisos para dar.
Nesta curta viagem fui passageira renitente, depois fui passageira interessada e mais tarde rendida, conquistada. Fiei-me nos anúncios escritos em vários placards e confiei que ía na direcção certa, em direcção ao destino onde queria chegar. Mas afinal, fico-me por um apeadeiro no meio do nada, quando percebo que não vou na direcção certa, ou que comprei o bilhete errado. E fico ainda mais longe do meu destino almejado. Fico de novo no charco das desilusões, das demasiado sucessivas repetições, onde afundo de cada vez um pouco mais de fé, um pouco mais de esperança, um pouco mais de amor. Até não ter mais nada, nem mesmo a ilusão de que qualquer maré me trará de volta o que aqui deixo. Até não ter mais nada, se não a memória de ser enganada, usada, desrespeitada. Salto fora num inóspito apeadeiro, porque assim não podia continuar a viagem. Mas sobrevivo.
Insónia
Umas horas perdida entre a vontade do descanso e o desassossego. Sei que quando me foge o sono, é porque ando a fugir. Mesmo sem eu querer, nessas horas passo na minha cabeça o filme dos acontecimentos em que procuro sentidos. Às vezes segundos. Segundos sentidos. Como se ao recordar revivesse e fosse mais tranquila essa segunda ou terceira, ou quarta vez.
Parte-se em cada missão na vida, desejavelmente, ciente dos riscos, e dos obstáculos ou dificuldades. Escolhe-se e, portanto, aceita-se o desafio. Claro que, após sucessivas desilusões ou provas falhadas, se parte com cada vez maiores cautelas. Mas é só à partida, como um caminho exploratório. Depois vai-se andando, e vai-se ganhando equilíbrio e momentum, e chega a um ponto em que não dá para voltar atrás. É nesse momento que é preciso sentir confiança e tranquilidade.
Começa-se por tentar deixar tudo fluir. Dar tempo ao tempo, e todos os demais chavões por essa linha. Mas o certo é que, por mais que se vão encaixando certas coisas em parâmetros de “normalidade”, seja lá o que isso fôr, esse exercício em si é prova de que essas coisas nos incomodam. Pequeninas pedras, pequenos tropeções. Então, se se quer seguir o caminho, a sério, com empenho, o que é que se faz? Tenta-se tirar as pedras do caminho, recorrendo à sinceridade e frontalidade de as apontar e à cooperação para arranjar formas de as remover.
Num relacionamento, faz-se com conversa franca. Tenta-se, pelo menos. Mas é o diabo quando se fica com a sensação que, de alma aberta, palavras sinceras e sentimentos despidos, se falou num código que não é comum. Parece que não, no momento, pelas respostas, argumentos, tentativas de solução da engenharia de remoção das pedras. E depois... uma palavra ou um gesto e afinal percebe-se que as pedras que nos incomodam continuam lá.
Já é demais sabido que homens e mulheres falam línguas diferentes. E vivem os relacionamentos com prioridades em planos diferentes. Mas quando o que damos de nós em sinceridade e frontalidade é ignorado, ou não compreendido, quando se sente que as atitudes e comportamentos não acompanham as palavras que ouvimos, e se pressente que o esforço de conciliação de vontades não é reciprocado, algo vai mal, algo vai muito mal no país do pai natal.
Mais do Tempo
E pronto, é isso. Ainda não sei se é Príncipe, mas é, definitivamente, uma espécie de sapo diferente. E assim são, sem sombra de dúvidas, tempos diferentes, e o tempo a correr de forma diferente.
Isso continua a ser a minha angústia, a minha dúvida, porque as vidas que levamos nos obrigam a uma certa distância. Por causa da minha “vertente mãe”, com disponibilidade mais reduzida e horários mais limitados em semanas alternadas. E por ele, os compromissos profissionais, viagens pré-marcadas, etc. Azar, é que têm calhado muitas dessas coisas nos dias da minha “vertente mulher”.
Ou seja, a gestão dos nossos dois tempos traduziu-se em poucas horas partilhadas presencialmente, e quase todas concentradas na mesma semana. Ele aponta que houve coincidências azaradas. Promete-me que não costuma ter a vida assim tão ocupada, e reiteira que se vai “organizar melhor”. Tenta compensar com SMS’s e telefonemas, espalhados ao longo do dia, e ainda não falhou um bom dia. Almoçamos sempre que possível e até já virou a vida do avesso por uns minutos só para me dar um abraço. Há que dar-lhe crédito, ainda por cima porque eu não cobro.
Mas isto para mim é tortuoso. É assim um limbo. Mas afinal eu tenho namorado, ou não tenho? Partilha? Partilho? Como é isso de ter um namorado e estar sozinha?... É quase um namoro à distância.
É difícil, e demasiado perigoso, sobretudo numa fase tão inicial em que se quer tempo e espaço ocupados pelo outro, progressivamente, mas a ganhar balanço e não com interrupções abruptas que nos param a meio o mergulhar da descoberta e da entrega. É que nos espaços vazios de entretanto, crescem outras coisas. Dizia-me alguém que tudo seria melhor se o incluísse mais na minha vida. É verdade, mas isso pressupõe apresentá-lo ao meu filho, algo que acho ainda muito cedo para equacionar. E depois, isso é um caminho que também é preciso que ele queira fazer. E na realidade, não consigo perceber isso com SMS’s, telefonemas e Messenger. Há coisas que só serão claras com o passar do tempo e, sobretudo, com o passar do tempo juntos.
O futuro é sempre uma incógnita. A vida está cheia de surpresas, e eu que o diga, que tenho tido uma catadupa delas nos últimos tempos. Mas é complicado viver quase permanentemente na dúvida, e viver quase sempre num futuro projectado que se torna presente esporadicamente, e que voa demasiado depressa.
Trânsito sentimental
Todos os dias sentimos um monte de coisas. Experimentamos uma panóplia vasta de emoções, muitas das quais nem percebemos, não ligamos, porque são coisas menores, sem importância, que sentimos tanta vez que já não marca, ou a que nos habituamos a não dar valor. Mas há dias em que sentimos coisas especiais, mais intensas e mais vivas, talvez por serem pouco usuais. No fim, são essas as coisas que marcam o dia, e por isso há tantos dias que não nos marcam. Apenas passam.
Se fôssemos a assentar numa lista tudo o que sentimos a cada momento de um dia, não só nos surpreenderia o tamanho da lista como a velocidade com que passamos de sentimento para sentimento. Podemos irritar-nos no trânsito, vociferar uns impropérios contra um qualquer idiota desconhecido, e a seguir sentirmos paz com a música que toca no rádio. Podemos sentir alegria com um abraço de um amigo, e a seguir sentir inveja pelo que nos conta. Podemos sentir satisfação por uma coisa qualquer que acabamos, e a seguir sentir tristeza com uma notícia má. Podemos sentir ao longo do dia, geralmente em pequenas doses quase inofensivas, quase todos os sentimentos que existem. Felizmente, não é comum ser assim. Felizmente, há em geral um sentimento dominante, que no meu caso tende a acordar comigo e raramente se corrompe por completo à medida que tudo o resto passa. E esse sentimento domina porque damos a quase tudo luz vermelha, e apenas a certas coisas luz verde. No fundo, regulamo-nos inconscientemente, num complicado sistema de semáforos e prioridades, que supostamente põe ordem no nossa mapa rodoviário interno.
Hoje senti duas coisas fortes, uma a seguir à outra, e não consigo decidir a qual dar luz verde para se estender para lá deste dia, a qual dar a prioridade. Aaaah, o poder das revelações... Aquele milisegundo em que coisas que nos atormentaram, que nos contorcemos em incríveis ginásticas mentais para entender sempre nos fugindo o sentido, se tornam claras, límpidas, transparentes. Pode ser bom, sentido como uma vitória, uma conquista, uma pacificação. Mas às vezes é duro e frio o sentir destas revelações. Não é à toa que se diz “a verdade nua e crua”. Para mim foi uma revolução, e um enorme engarrafamento cresceu-me no coração.
Integridade
Começo a ficar paranóica sobre a reserva de identidade no blog. Sei que tenho aqui a minha vida quase toda e tanto sobre mim que pouco mais falta do que o meu nome, morada e número de telefone. Só partilhei a existência do blogue com 4 pessoas, as 4 pessoas que não tenho dúvida de que são mesmo minhas amigas, e sei que apenas duas delas realmente o lêem e acompanham. Muitas outras pessoas com quem me relaciono sabem da sua existência, mas não sabem como encontrá-lo. E não quero que o encontrem, porque não me sinto confortável com tamanha exposição.
Por isso, fiquei perplexa quando, há uns meses, um amigo que vejo de vez em quando passou um jantar a fazer conversa à volta do tema “Princesa”. Na altura ocorreu-me que pudesse ter descoberto o blog, mas depois descartei a ideia. Mais recentemente, fui jantar a casa dele na altura em que publiquei um texto entitulado “Agridoce” e que me dá ele ao jantar? Um prato de peixe com ananás bem condimentado. Pergunta se está bom, eu respondo que é... original, mas sim, está bom, e ele faz uma piada sobre aquilo ser... agridoce.
Coincidências, pensei. Não é pessoa de andar pelos blogs, e que interesse poderia ter no meu? Além de que, se o descobrisse, ou me dizia, ou ficava bem calado para eu não perceber. É lógico, não? Mas agora, dá-me de presente de anos um CD. “Chill&Tango”...
Não sei se estou paranóica, mas é muita coincidência. Por isso não sei se essa pessoa vai ler isto, mas se lêr, é para que saiba que não gosto. Apesar de isto ser um espaço público, este também é um espaço de introspeção e intimidade, que por isso protejo com um nick. Se essa pessoa sabe que sou eu, peço-lhe que respeite por favor a minha privacidade, e não insulte a minha inteligência. Se fosse a situação inversa, talvez contasse que tinha descoberto o blogue, ou talvez simplesmente reservasse isso para mim, por respeito e para não causar constrangimentos. Mas não leria mais o blogue e certamente não o iria usar para fazer piadinhas desconfortáveis. Não é bonito.
Espero que isto seja tudo apenas coincidência, que a minha paranóia desproporcionou. Espero mesmo.
Por isso, fiquei perplexa quando, há uns meses, um amigo que vejo de vez em quando passou um jantar a fazer conversa à volta do tema “Princesa”. Na altura ocorreu-me que pudesse ter descoberto o blog, mas depois descartei a ideia. Mais recentemente, fui jantar a casa dele na altura em que publiquei um texto entitulado “Agridoce” e que me dá ele ao jantar? Um prato de peixe com ananás bem condimentado. Pergunta se está bom, eu respondo que é... original, mas sim, está bom, e ele faz uma piada sobre aquilo ser... agridoce.
Coincidências, pensei. Não é pessoa de andar pelos blogs, e que interesse poderia ter no meu? Além de que, se o descobrisse, ou me dizia, ou ficava bem calado para eu não perceber. É lógico, não? Mas agora, dá-me de presente de anos um CD. “Chill&Tango”...
Não sei se estou paranóica, mas é muita coincidência. Por isso não sei se essa pessoa vai ler isto, mas se lêr, é para que saiba que não gosto. Apesar de isto ser um espaço público, este também é um espaço de introspeção e intimidade, que por isso protejo com um nick. Se essa pessoa sabe que sou eu, peço-lhe que respeite por favor a minha privacidade, e não insulte a minha inteligência. Se fosse a situação inversa, talvez contasse que tinha descoberto o blogue, ou talvez simplesmente reservasse isso para mim, por respeito e para não causar constrangimentos. Mas não leria mais o blogue e certamente não o iria usar para fazer piadinhas desconfortáveis. Não é bonito.
Espero que isto seja tudo apenas coincidência, que a minha paranóia desproporcionou. Espero mesmo.
Contagem descrescente
Esta semana é a última semana do passado da minha vida.
Forço-me um respiro fundo, bem fundo. Fecho os olhos concentrando-me do que tenho à fente, e tento perceber que sensação isso me traz. É um exercício que me ensinaram a fazer. Pode parecer coisa de bruxa, mas parece que resulta. Nesse momento, sinto uma certa leveza, até alegria, sinto que vai ser bom para mim. Mas quando abro os olhos tenho medo. Assusta-me o que tenho à minha frente, todas as incertezas, os cenários mais negros que já manipulei vezes sem conta na minha cabeça. E tenho de caminhar de olhos abertos.
Sei que daqui a uma semana terei de dizer que é o primeiro dia do resto da minha vida, que não sei o que me trará. Mas agora o desafio é sobreviver a esta semana. Não sei como, mas sei que tenho que chegar ao fim deste último pedaço de caminho. E sempre, sempre, vertical.
Forço-me um respiro fundo, bem fundo. Fecho os olhos concentrando-me do que tenho à fente, e tento perceber que sensação isso me traz. É um exercício que me ensinaram a fazer. Pode parecer coisa de bruxa, mas parece que resulta. Nesse momento, sinto uma certa leveza, até alegria, sinto que vai ser bom para mim. Mas quando abro os olhos tenho medo. Assusta-me o que tenho à minha frente, todas as incertezas, os cenários mais negros que já manipulei vezes sem conta na minha cabeça. E tenho de caminhar de olhos abertos.
Sei que daqui a uma semana terei de dizer que é o primeiro dia do resto da minha vida, que não sei o que me trará. Mas agora o desafio é sobreviver a esta semana. Não sei como, mas sei que tenho que chegar ao fim deste último pedaço de caminho. E sempre, sempre, vertical.
Espaços

Fiz há pouco uma viagem rumo a sul, ao local onde passei os verões de que me lembro da minha infância, adolescência, e pimeiros verões quentes do início da idade adulta. Desta vez, na companhia do meu filho, na qualidade de mãe-divorciada. Regressei ao passado quando fomos e regressei ao presente quando voltamos. Estivemos duas semanas, fomos outros estes dias, vivemos outras realidades, ecoamos noutros espaços, mas reconhecemo-nos sempre no que somos e não muda, apesar das readaptações constantes a um ser em crescimento e outro em metamorfose. É constante o amor de que comungamos e conhecemos um do outro.
Ali andei uns dias também num canto escuro, caverna de ecos impartilhados. Precisei desse espaço. Precisei dessa gaveta só minha, fechada à chave com um cadeado inviolável. Precisei da liberdade de escrever sem condicionantes emocionais e psicológicas, com a liberdade do escritor eremita e sem público, produzindo textos para que logo a seguir se perdessem também de mim, sem outros olhos que os lessem. E ainda assim foi pouco. Foi pouco o tempo e poucos os textos que efectivamente consegui arrancar de mim e lançar para a inexistência.
Mas foi um respiro, um intervalo, de que precisava antes de voltar. E queria voltar e voltei para destilar outra vez, apenas essência, novamente com total liberdade e com a mesma autenticidade que sempre me exigi, sem condicionantes de espécie nenhuma, inclusivé das minhas próprias palavras de capítulos anteriores. Que me desculpem, mas não quero saber de consistências. Assumi este como o espaço que abri para me verter, o espaço que me permite delinear-me e entender-me, o espaço onde me sinto confortavelmente exposta. Na alma, só na alma, a essência que tenho procurado (re)descobrir.
Tenho outros espaços físicos onde me revelo mais completa, amizades de entendimento longínquo, apesar de algumas serem recentes. Não tenho medo de me dar assim a esses poucos, pouquíssimos, alguns dos quais até lêm o blog. Mas esse é outro espaço onde o caminho se faz a dois, dando e recebendo, com entrega e confiança recíprocas. Laying the bricks, one at a time, erguendo as paredes que imaterialmente definem essa construção.
O blog é o espaço onde sou eu só para mim, sem expectativas de retorno ou reciprocidade de quem, por algum motivo, me lê. E se desses alguns tiram daqui alguma coisa de positivo, pois sejam bem vindos, que regressem sempre, e se estiverem para isso, que me digam que andam por aqui, me dêm uma achega ou um safanão, me mandem um beijo ou um abraço. Acarinho-os todos, porque a amizade faz-se de partilhas e presenças, de construção dos tais espaços que não são físicos, cada um à medida do seu lugar próprio, e por isso também se faz por aqui.
Ali andei uns dias também num canto escuro, caverna de ecos impartilhados. Precisei desse espaço. Precisei dessa gaveta só minha, fechada à chave com um cadeado inviolável. Precisei da liberdade de escrever sem condicionantes emocionais e psicológicas, com a liberdade do escritor eremita e sem público, produzindo textos para que logo a seguir se perdessem também de mim, sem outros olhos que os lessem. E ainda assim foi pouco. Foi pouco o tempo e poucos os textos que efectivamente consegui arrancar de mim e lançar para a inexistência.
Mas foi um respiro, um intervalo, de que precisava antes de voltar. E queria voltar e voltei para destilar outra vez, apenas essência, novamente com total liberdade e com a mesma autenticidade que sempre me exigi, sem condicionantes de espécie nenhuma, inclusivé das minhas próprias palavras de capítulos anteriores. Que me desculpem, mas não quero saber de consistências. Assumi este como o espaço que abri para me verter, o espaço que me permite delinear-me e entender-me, o espaço onde me sinto confortavelmente exposta. Na alma, só na alma, a essência que tenho procurado (re)descobrir.
Tenho outros espaços físicos onde me revelo mais completa, amizades de entendimento longínquo, apesar de algumas serem recentes. Não tenho medo de me dar assim a esses poucos, pouquíssimos, alguns dos quais até lêm o blog. Mas esse é outro espaço onde o caminho se faz a dois, dando e recebendo, com entrega e confiança recíprocas. Laying the bricks, one at a time, erguendo as paredes que imaterialmente definem essa construção.
O blog é o espaço onde sou eu só para mim, sem expectativas de retorno ou reciprocidade de quem, por algum motivo, me lê. E se desses alguns tiram daqui alguma coisa de positivo, pois sejam bem vindos, que regressem sempre, e se estiverem para isso, que me digam que andam por aqui, me dêm uma achega ou um safanão, me mandem um beijo ou um abraço. Acarinho-os todos, porque a amizade faz-se de partilhas e presenças, de construção dos tais espaços que não são físicos, cada um à medida do seu lugar próprio, e por isso também se faz por aqui.
Snowed under...

Misturo muito a língua Portuguesa e a língua Inglesa, até por motivos profissionais e porque tenho amigos estrangeiros com quem falo uma verdadeira mistura das duas línguas. E há coisas em Inglês que me enchem melhor as medidas para retratar certas situações, emoções, etc., e já não consigo encontrar verdadeiros equivalentes em Português de forma tão sucinta.
Hoje, é assim que estou. Para além de exausta com o regresso ao trabalho em conjunto com o regresso das noites mal dormidas (the joys of motherhood...), estou verdadeiramente, completamente, e quase literalmente, snowed under!...
Hoje, é assim que estou. Para além de exausta com o regresso ao trabalho em conjunto com o regresso das noites mal dormidas (the joys of motherhood...), estou verdadeiramente, completamente, e quase literalmente, snowed under!...
Vazio de um fim anunciado

Fecha-se a porta, duas voltas na chave. Antes, um último olhar para dentro, um dentro despojado, vazio, abandonado, no silêncio. Um aperto no peito a relembrar o que ali esteve. Não tanto os móveis, os quadros, aquele tapete. Saíram as caixas, as malas, os objectos que se amontoam agora numa carrinha de mudanças. Mas ecoam os risos que ali se viveram, as palavras e promessas que ali se ouviram. E sentem-se as lágrimas que ali secaram, como o sonho que ali queria ser vivido.
Fecha-se a porta e roda a chave. Ali fica vazia a casa que era para a vida de uma família feliz. Do lado de fora, fica um coração vazio, uma chave que já não abre o futuro, uma promessa que não se cumpriu. É triste, mas pacífico. Passos lentos levam-me para longe daquele passado, e desço no poço do elevador. A vida é lá fora, contínua a luta, e algures o verdadeiro amor.
Agora sim: fim.
Fecha-se a porta e roda a chave. Ali fica vazia a casa que era para a vida de uma família feliz. Do lado de fora, fica um coração vazio, uma chave que já não abre o futuro, uma promessa que não se cumpriu. É triste, mas pacífico. Passos lentos levam-me para longe daquele passado, e desço no poço do elevador. A vida é lá fora, contínua a luta, e algures o verdadeiro amor.
Agora sim: fim.
Só para que conste...

... estou farta de hospitais.
E tenho muito maus sentimentos e desejos para o piiiiiiiiiiiiiiiiiiii do enfermeiro que, como se não bastasse tudo o resto, me rebentou uma veia. E mais não digo.
E tenho muito maus sentimentos e desejos para o piiiiiiiiiiiiiiiiiiii do enfermeiro que, como se não bastasse tudo o resto, me rebentou uma veia. E mais não digo.
Quando o mau pode ser pior – e é
Ía escrever este post com uma nota positiva, por tudo o que estou a aprender que consigo fazer sozinha. As coisas mais básicas do quotidiano passaram a ser enormes desafios. Estou sozinha, com pouca ajuda, e não é do meu feitio pedir a não ser em último caso. Mas vou superando os desafios, com maior ou menor dificuldade, com mais ou menos criatividade (e as canadianas passaram a ser extensões de mim com funções cada vez mais alargadas – e mais certeiras). Fui jantar fora no sábado de pé entrapado mas com um lindo vestido, maquilhagem, etc (só o sapato raso é que destoava, mas há que fazer concessões).Estava a começar a acreditar que afinal isto não era tão mau, àparte o facto de estar condenada a um afastamento forçado e longo, muito longo, do meu filho. Mas eis que saio hoje da consulta de ortopedia com uma sentença pior: além da "fractura do tarso" já diagnosticada, diz o especialista que esta paciente “apresenta arrancamento capsular do escafoide.” Traduzido por mim: era para engessar e não foi, há que corrigir a posição do pé (dor, muita dor!), engessar da ponta dos dedos ao joelho (e lá vai mais metade das opções de vestimenta que ainda tinha, fora o desconforto adicional), 3 semanas para voltar e tirar o gesso para substituir por uma “tala de posicionamento articular da tibiotársica AFO”. A tradução desta última colecção de palavras incompreensíveis é que são mais umas semanas com uma tala horrorosa que vai ter de ser adaptada a um sapato ténis, que é só o que posso calçar enquanto andar com a tala.
E por fim, sentencia o médico: “sendo provável período de incapacidade para o trabalho de 4 semanas”, isto dada a necessidade de manter a perna elevada a maior parte do tempo, e isto apesar das adicionais injecçõezinhas diárias agradáveis para prevenir embolias e sei lá mais o quê.
Agora sim. É pior que mau, e hoje não me resta nenhuma centelha de humor para deitar nisto. A única coisa que me anima é que vou passar 5 dias com o meu filho com a ajuda dos meus pais. Mas depois cá volto para a minha casa na solidão e na saudade dele até poder bastar-me e poder re-assumir o meu papel de mãe. Hoje mandou-me uma flôr pelo pai, que ele próprio apanhou do jardim do pai e escolheu por ser branca e "das que a mãe gosta". Falei com ele ao telefone há pouco, e fiquei com um aperto indescritível, depois de me perguntar se já estava boa do "dói-dói" e quando é que voltava para casa. É o aperto de me sentir incapaz, insuficiente, de sentir que estou a falhar-lhe. E ao mesmo tempo a sentir a falta que ele me faz, o simples facto de não o ter "comigo" faz-me faltar uma parte de mim, a melhor parte de mim.
Be careful with what you wish for...
Passei uma noite infernal, apesar das gargalhadas que ainda dei, à mistura com a dor e o desespero, na companhia de 3 amigas numa sala de espera de hospital. Na tentativa de deitar um bocado de humor no caldo, acabei por escrever isto para registar.
Fui jantar um belo sushi que eu adoro, e que é obrigatório nos meus fins de semana de dias de mulher. A seguir resolvemos dar um saltinho a uma discoteca Lisboeta onde consegui fazer a habilidade de dar uma queda. Pois eu não queria o "turbilhão"? Lá perto - tive o "trambolhão"...
Mas isto não tem graça, porque depois de cair a dor do meu pé era absolutamente insuportável. Gelo do bar, ajuda das amigas, e eu a torcer-me toda para não desatar a chorar. Tento calçar o sapato e nem pensar! Ao fim de alguma discussão, acabei por me render às evidências e lá aceitei que era melhor ir ao hospital.
Um àparte para comentar que o pessoal do dito estabelecimento se portou para lá de pessimamente mal. Ninguém veio saber se era preciso ajuda, se estava bem, nada! Foram as minhas amigas que tiveram de ir exigir ajuda. Acabei transportada ao colo de um segurança que me levou pelas escadas até ao piso térreo. Pois eu não queria braços? Outros "braços quaisquer"?? Toma lá para aprenderes... Só que o destino foi um cantinho no chão na base das escadas junto à entrada, com toda a gente que entrava e saía a ver-me naquela figura, de salto num pé e o outro descalço, já inchado e negro nesta altura, com o saco de gelo em cima. Não pensem que caí por causa dos saltos - não, foi mesmo um degrau que não se vê, e onde outra rapariga caiu nem 5 minutos depois, apesar de ter tido mais sorte que eu nas consequências.
Resolveram chamar uma ambulância (as minhas amigas, e não o prestável pessoal do estabelecimento) achando que seria mais rápido. Mas as duas que foram buscar o carro chegaram primeiro que a ambulância e eu pedi que me levassem que não queria esperar mais e continuar naquela figura. A outra que ficou comigo estava tão passada com a indiferença que pediu o livro de reclamações, que claro que não lhe deram.... Em vez disso lá me deram uma água, que eu tinha uma sede imensa.
Mais braços (de dois seguranças desta vez - ganda maluca, hem?!) e lá me transportam para o carro. Pois eu não tinha “urgência de animação, de turbilhão, de movimento desabrido”? Toma lá a "urgência hospital", depois do "trambolhão" e um carro "a abrir" por essas estradas fora... Vou para um hospital particular, pensando que seria rapidamente atendida. Engano... Apesar de estar pouquíssima gente e da admissão em tempo record, já numa cadeira de rodas, esperei meia hora para ser vista por uma médica. Aqui já tinha mesmo lágrimas a escorrer pela cara abaixo, que a viagem foi um tormento, com um grito de dor a cada trepidação do carro. Em 2 minutos de observação manda-me para o Raio-X (brilhante...).
Mais uma espera e lá vou a mais um pequeno tormento. Vire o pé assim e assado, e eu com vontade de bater em alguém. Gani e gani, mas lá tiraram os primeiros dois Raio-X. Não parece partido, mas a médica acha estranho, e por isso manda tirar outros em outras posições. OK, aí gritei.
De volta à sala de espera, deparo-me com um sujeito recém-chegado que se sentou ao pé de nós. A cena seguinte parecia um episódio do Sexo na Cidade, e nós até éramos quatro raparigas jeitosas e todas aperaltadas. Deu-nos para a parvoíce, que já eram lindas horas e estavamos exaustas, e eu, depois do traumatismo do Raio-X (aquele técnico nem sonha o perto que esteve de levar um murro!), até já me parecia que quase não tinha dores, desde que estivesse com o pé quieto. A nossa conversa foi qualquer coisa... E o sujeito obviamente a segui-la e a rir-se connosco (não, não era de nós, garanto!). A certa altura eu disse que dava tudo para ir fumar um cigarro e ele levanta-se passados uns minutos e pergunta-me se eu não quero ir fumar, enquanto me agarra o ombro... Claro que lhe disse que bem gostava, e tal, mas não podia, e ele todo solícito faz-me uma festa, "pois já percebi, coitada, precisas de alguma coisa?". Nessa altura, atinge-me o bafo... :S
Ficamos todas a rir e, quando ele voltou, eu fui finalmente chamada de novo, para ouvir a médica anunciar que os segundos Raio-X confirmavam a fractura... Nice... Não é "engessável", meia elástica impossível dado o inchaço do pé e as dores de cada vez que lhe tentavam mexer, portanto acabei por saír de pé ligado, de canadianas, com receita de analgésicos e anti-inflamatórios, e volta marcada para consulta de ortopedia na 2ª feira. À saída comento que o "tipo do bafo" até era giro (pena o bafo!) e elas dizem-me que, enquanto eu fui atendida, ele contou que lá estava por ter uma dor de cabeça "como nunca tinha tido"... Ri a bom rir! Quem é que apanha uma bebedeira e vai ao hospital queixar-se de dores de cabeça??? OK, assunto arrumado, apesar da insistência delas em que lhe pedisse o número de telefone, que ele até foi dizer a uma delas “a tua amiga é muita gira”... Resumo colectivo: isto é que é, e não é para qualquer uma – atrair um desconhecido até na sala de espera da urgência de um hospital! Claro que retorqui com a probabilidade do grau de alcoolémia do referido sujeito... No meio daquela cena toda, com a noite lixada, rimos mais do que se tivessemos tido uma “noite normal”. E eu não pedi riso?... Ah, pois era...
Final da noite, pelas 5 da madrugada, depois de paragem na farmácia e já com os analgésicos a fazer efeito, foi a estafa de subir as escadas do meu prédio centenário, de canadianas. "Cansar o corpo"?? Check. E agora "ocupar a mente", e muito, a tentar resolver o que fazer da minha vida nas próximas semanas, sobretudo por causa do meu filho, sem poder conduzir, sem poder ir trabalhar, sem me poder bastar a mim própria, logo eu que prezo tanto a minha independência... Fora as dores que ainda tenho, o pé entrapado com os dedos roxos, stresses de mulher fashion que já está a consumir-se a pensar no que vai vestir e calçar (no pé disponível) porque andar de muletas em cima de um salto como os que eu uso é capaz de ser desafio demasiado, e de mulher activa que não quer nem pensar em ficar fechada em casa! Logo à noite vou sair, de pé entrapado, canadianas e tudo! E no entretanto, nos tempos de prisão em casa, faço crescer o meu conto (mesmo que vocês não gostem!).
Fui jantar um belo sushi que eu adoro, e que é obrigatório nos meus fins de semana de dias de mulher. A seguir resolvemos dar um saltinho a uma discoteca Lisboeta onde consegui fazer a habilidade de dar uma queda. Pois eu não queria o "turbilhão"? Lá perto - tive o "trambolhão"...
Mas isto não tem graça, porque depois de cair a dor do meu pé era absolutamente insuportável. Gelo do bar, ajuda das amigas, e eu a torcer-me toda para não desatar a chorar. Tento calçar o sapato e nem pensar! Ao fim de alguma discussão, acabei por me render às evidências e lá aceitei que era melhor ir ao hospital.
Um àparte para comentar que o pessoal do dito estabelecimento se portou para lá de pessimamente mal. Ninguém veio saber se era preciso ajuda, se estava bem, nada! Foram as minhas amigas que tiveram de ir exigir ajuda. Acabei transportada ao colo de um segurança que me levou pelas escadas até ao piso térreo. Pois eu não queria braços? Outros "braços quaisquer"?? Toma lá para aprenderes... Só que o destino foi um cantinho no chão na base das escadas junto à entrada, com toda a gente que entrava e saía a ver-me naquela figura, de salto num pé e o outro descalço, já inchado e negro nesta altura, com o saco de gelo em cima. Não pensem que caí por causa dos saltos - não, foi mesmo um degrau que não se vê, e onde outra rapariga caiu nem 5 minutos depois, apesar de ter tido mais sorte que eu nas consequências.
Resolveram chamar uma ambulância (as minhas amigas, e não o prestável pessoal do estabelecimento) achando que seria mais rápido. Mas as duas que foram buscar o carro chegaram primeiro que a ambulância e eu pedi que me levassem que não queria esperar mais e continuar naquela figura. A outra que ficou comigo estava tão passada com a indiferença que pediu o livro de reclamações, que claro que não lhe deram.... Em vez disso lá me deram uma água, que eu tinha uma sede imensa.
Mais braços (de dois seguranças desta vez - ganda maluca, hem?!) e lá me transportam para o carro. Pois eu não tinha “urgência de animação, de turbilhão, de movimento desabrido”? Toma lá a "urgência hospital", depois do "trambolhão" e um carro "a abrir" por essas estradas fora... Vou para um hospital particular, pensando que seria rapidamente atendida. Engano... Apesar de estar pouquíssima gente e da admissão em tempo record, já numa cadeira de rodas, esperei meia hora para ser vista por uma médica. Aqui já tinha mesmo lágrimas a escorrer pela cara abaixo, que a viagem foi um tormento, com um grito de dor a cada trepidação do carro. Em 2 minutos de observação manda-me para o Raio-X (brilhante...).
Mais uma espera e lá vou a mais um pequeno tormento. Vire o pé assim e assado, e eu com vontade de bater em alguém. Gani e gani, mas lá tiraram os primeiros dois Raio-X. Não parece partido, mas a médica acha estranho, e por isso manda tirar outros em outras posições. OK, aí gritei.
De volta à sala de espera, deparo-me com um sujeito recém-chegado que se sentou ao pé de nós. A cena seguinte parecia um episódio do Sexo na Cidade, e nós até éramos quatro raparigas jeitosas e todas aperaltadas. Deu-nos para a parvoíce, que já eram lindas horas e estavamos exaustas, e eu, depois do traumatismo do Raio-X (aquele técnico nem sonha o perto que esteve de levar um murro!), até já me parecia que quase não tinha dores, desde que estivesse com o pé quieto. A nossa conversa foi qualquer coisa... E o sujeito obviamente a segui-la e a rir-se connosco (não, não era de nós, garanto!). A certa altura eu disse que dava tudo para ir fumar um cigarro e ele levanta-se passados uns minutos e pergunta-me se eu não quero ir fumar, enquanto me agarra o ombro... Claro que lhe disse que bem gostava, e tal, mas não podia, e ele todo solícito faz-me uma festa, "pois já percebi, coitada, precisas de alguma coisa?". Nessa altura, atinge-me o bafo... :S
Ficamos todas a rir e, quando ele voltou, eu fui finalmente chamada de novo, para ouvir a médica anunciar que os segundos Raio-X confirmavam a fractura... Nice... Não é "engessável", meia elástica impossível dado o inchaço do pé e as dores de cada vez que lhe tentavam mexer, portanto acabei por saír de pé ligado, de canadianas, com receita de analgésicos e anti-inflamatórios, e volta marcada para consulta de ortopedia na 2ª feira. À saída comento que o "tipo do bafo" até era giro (pena o bafo!) e elas dizem-me que, enquanto eu fui atendida, ele contou que lá estava por ter uma dor de cabeça "como nunca tinha tido"... Ri a bom rir! Quem é que apanha uma bebedeira e vai ao hospital queixar-se de dores de cabeça??? OK, assunto arrumado, apesar da insistência delas em que lhe pedisse o número de telefone, que ele até foi dizer a uma delas “a tua amiga é muita gira”... Resumo colectivo: isto é que é, e não é para qualquer uma – atrair um desconhecido até na sala de espera da urgência de um hospital! Claro que retorqui com a probabilidade do grau de alcoolémia do referido sujeito... No meio daquela cena toda, com a noite lixada, rimos mais do que se tivessemos tido uma “noite normal”. E eu não pedi riso?... Ah, pois era...
Final da noite, pelas 5 da madrugada, depois de paragem na farmácia e já com os analgésicos a fazer efeito, foi a estafa de subir as escadas do meu prédio centenário, de canadianas. "Cansar o corpo"?? Check. E agora "ocupar a mente", e muito, a tentar resolver o que fazer da minha vida nas próximas semanas, sobretudo por causa do meu filho, sem poder conduzir, sem poder ir trabalhar, sem me poder bastar a mim própria, logo eu que prezo tanto a minha independência... Fora as dores que ainda tenho, o pé entrapado com os dedos roxos, stresses de mulher fashion que já está a consumir-se a pensar no que vai vestir e calçar (no pé disponível) porque andar de muletas em cima de um salto como os que eu uso é capaz de ser desafio demasiado, e de mulher activa que não quer nem pensar em ficar fechada em casa! Logo à noite vou sair, de pé entrapado, canadianas e tudo! E no entretanto, nos tempos de prisão em casa, faço crescer o meu conto (mesmo que vocês não gostem!).
O chocolate é bom, é bom, é!
Eu sou gulosa, em geral. Confesso que gosto de doces e como não preciso de transformar tudo o que como em quantidade de calorias, também não me coíbo de os comer. E gosto, sobretudo, de chocolate. Gosto sempre, e de quase todos os géneros. Mas ainda mais quando como de consolo por substituição de uma qualquer outra vontade. Experimentem esta receita... Vou fazer com o miúdo, que adora tanto fazer como lambuzar-se todo a comer e dizer: “É deli-xi-ôôô-ju” (experimentem a fonética disto...).*****************************************************************************
BRIGADEIROS
Ingredientes:
125g de chocolate culinária em barra (branco ou preto)
2 colheres de sopa de margarina (+/- 75g)
Meio copo de leite
1 lata de leite condensado
Chocolate granulado, ou côco se for com chocolate branco
Deitar a margarina num tacho anti-aderente e deixar derreter. Juntar o leite e o chocolate em barra partido em pedaços. Mexer até derreter bem o chocolate. Deitar o leite condensado e incorporar muito bem. Deixar cozer em lume brando, sempre sem parar de mexer.
Quando a mistura começar a descolar-se das paredes do tacho, e/ou se tentar fazer um risco e vir o fundo do tacho, é porque está pronto. Untar uma travessa com óleo e despejar a mistura. Deixar arrefecer. Moldar e passar pela cobertura escolhida e... voilá!
*****************************************************************************
Pode-se fazer “n” variações com a cobertura mas para mim é indiferente – esta é uma das coisas que eu como sem olhos mesmo, e que me sabem muito bem... Não aconselhado se a satisfação da vontade é urgente (aí mais vale ir directo para a barra de chocolate puro!). Seja como fôr, enjoy!

(Ah, pois – giro e tal... mas hoje eu quero é o chocolate!!!)
A cada um, o seu caminho
Ao longo dos anos vamos mudando, nem para melhor nem para pior, apenas para algo diferente. Num casal o que tenho visto, e senti eu própria, é que a certo momento as pessoas já são tão diferentes do que eram que já não se encontram, já não se identificam, não têm a mesma ligação, a convivência torna-se difícil se não mesmo impossível e, no fundo, mais importante que tudo, não são felizes. Alguns têm a sorte de ir mudando ao longo do tempo em sintonia, mas é raro, e esse é verdadeiramente o maior desafio de qualquer relação. Nem sempre se conseguem sintonizar vontades, ambições, simples gostos ou evolução natural da maneira de ver e estar na vida. As prioridades de cada um podem tornar-se mesmo incompatíveis, os ressentimentos vão crescendo, instala-se o desinteresse pelo outro, cresce a distância.Quando acontece esse afastamento, há quem ignore e aceite não ser feliz mas manter a relação, por diversos motivos, desde razões práticas, às preocupações com os filhos. Mas há quem não o consiga fazer e quem veja que isso também é uma forma de fazer os filhos sofrer. Porque se os pais não estão bem e mascaram as coisas numa escalada de indiferença e incompatibilidade, a instabilidade, o desamor e as tensões, às vezes em discussões audíveis, outras de formas mais subtis, revelam-se facilmente às crianças, que intúem estas coisas, e sofrem com isso. Na minha opinião, ninguém devia viver assim, a perpetuar um relacionamento oco que impede ambos de serem felizes. E impede porque desse modo não se admite que o caminho já não é com aquela pessoa, já não é por ali, e assim não se procuram outros caminhos.
Deve-se tentar salvaguardar a amizade e o respeito que tenha havido, sobretudo se há filhos comuns, e eu tentei isso com o meu segundo marido, embora ele não o tenha merecido. Nunca compreendeu que eu não lhe queria mal, muito pelo contrário, logo a começar pelo facto de ser o pai do meu filho. Disse-lhe isso já quando as coisas tinham azedado muito, disse-lhe que tive muita pena que as coisas não tivessem resultado de melhor maneira, mas que nos tinham pelo menos deixado o L. e que era nele que tínhamos de nos concentrar, ele que é, de uma forma muito especial, algo que nos une eternamente.
Mas o orgulho ferido de quem é "deixado" não deixa ver mais nada para além da revolta da rejeição, mesmo que não tenham também já amor, e nisso ele não é diferente de nenhum dos homens do meu passado. Inevitavelmente, culpa-se a outra parte, não se aceita que o outro admita conseguir melhor que eles – não percebendo que não se parte à procura de “alguém” melhor, mas de uma relação, de uma vida, melhor para o “eu” que somos nesse momento. Em resposta a isso, invariavelmente tentam dificultar o processo de separação, ou no caso, de divórcio. É o lavar de roupa suja, os jogos e mesquinhezes em que, infelizmente, usam de tudo, desde questões materiais aos filhos. Não percebem que ao transformarem-se, (ou revelarem-se?), dessa forma vil, só dão mais argumento a quem quer partir e ainda se arriscam a estilhaçar qualquer réstia de amizade ou carinho que tenha sobrevivido ao desgaste do desamor. E mesmo hoje, já meses passados sobre a separação e sobre o divórcio oficial, é triste que o meu ex-marido ainda tenha a necessidade de continuar em guerra comigo.
Ele tinha que “culpar” alguma coisa ou alguém, escolheu culpar-me a mim. É fácil. Por isso, tento “desculpá-lo” a ele. Mas é difícil. Entristece-me que se porte assim, que se revele assim, e sei que, no fundo, um dia terá de admitir que a culpa não é minha, nem dele. É da vida, do destino, do que lhe quisermos chamar. Cabe a cada um de nós tomar as rédeas e andar para frente, re-erguer a cabeça e tentar sermos nós próprios, reencontrar o nosso espaço e o nosso eu, e fazê-lo com integridade e humildade. É o caminho que tenho andado a fazer. E sei que o homem com quem casei um dia não estava preso no passado, era um homem de força, de imensa força, sempre a andar para a frente, a lutar pela vida com garra, e era um homem íntegro e de bom coração. Entristece-me que se tenha perdido de si mesmo e desejo-lhe, sinceramente, que se reencontre. Para bem dele, do nosso filho, e da minha paz de espírito, que estou farta de carregar pela vida os ressentimentos e amargos dos outros. Bastam-me os meus.
Não compreendo porque é que é tão difícil aceitar que, apesar de cada um ter de seguir o seu caminho, não precisamos de o fazer em guerra.
É que o meu Chefe é Peixes...
Desculpem lá o desabafo de ontem, mas foi de desespero… O meu chefe é um homem encantador, é fantástico em muitos aspectos, super cool, mas o rei do “last minute”, e do “I was thinking that maybe we should do this differently” (com olhar vago e sonhador, em cima de deadlines...). Muda de ideias umas 20 vezes ao dia, logo, 20 metades de trabalho acabam no lixo. É preciso quase empurá-lo para um canto para o obrigar a decidir coisas, que se vão amontoando na minha mesa e na dos outros. Mas depois quando decide, é tudo "para ontem se faz favor", e aquilo que não é humanamente possível fazer “ontem”, tem que se resolver no improviso. E não – ele não é sequer português...Eu gosto de planos, lembram-se? Organização e métodos. Uma pessoa disse-me, eu no meio de um verdadeiro ataque de nervos, em tom de desculpa, mas com um fatalismo absoluto, “é que ele é Peixes…”.
Fiquei pasmada pelo tom da afirmação, e como não sou perita nessas coisas das astrologias, não tinha a mínima ideia do que é que aquilo queria dizer. Fui ver no Google, claro, e encontrei isto:
“Either way, Pisceans are not by nature great leaders. Forgetful, spacey, and emotional they are drawn more to conceptual work than details. They can also seem unbearably inconsistent at times -- flip flopping between the conventional and unconventional. Beneath their surface lies uncertainty and an unwillingness to make decisions. Despite their lack in leadership ability, they are usually well-liked in the office. Their employees are generally loyal and sympathetic to this understanding and humanistic, if absent-minded, boss. (…) be sure to avoid pressuring them. Solve your own problems and come to them with ways of making their imaginative ideas fly."
“Making their imaginative ideas fly”??? Eu cá sei o que é que voava se pudesse! Fiquei esclarecida... Somos, portanto, verdadeiramente incompatíveis, e se ele não for corrido daqui rapidamente, preciso de mudar de emprego antes que ele dê comigo em doida varrida, de internamento compulsivo (ou voluntário, por esta altura do campeonato!). E preciso de uns Xanaxes até lá, e uns desabafos de vez em quando...
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