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Parte 8

(...)

E enquanto o combóio seguia para Norte, levando Sofia adormecida, Pedro seguia para casa entorpecido. Sabia que lhe tinha sido negado mudar o seu destino. Que não tinha escolha, ou salvação. Sabia que tinha de esquecer aquele dia e continuar a pagar a sua penitência de existência. Ler os emails e ouvir as mensagens, usar a cabeça para fazer o que melhor sabia: ilibar um criminoso e depositar o cheque no banco.

Apesar dessa constatação factual do homem racional que era, tinha tentado saber mais dela, tinha voltado ao hotel, até lá tinha mandado um detective particular com quem trabalhava por vezes. Mas o que sabia dela materialmente era muito pouco e não conseguira obter mais informações.

Num impulso, um dia meteu-se no carro e rumou a Norte, pensando infantilmente que o destino se encarregaria de permitir o reencontro. Passeou horas pela cidade, nas zonas mais antigas que poderiam encaixar com a breve descrição que Sofia tinha feito da sua rua e do seu prédio. Mas não a viu, não a ouviu, não a cheirou. Apenas sentiu, sabendo que ela estava ali, naquela cidade algures, debaixo da mesma luz e a respirar o mesmo ar que ele. E senti-la tão perto e tão perdida acabou por fazê-lo, finalmente, largar as lágrimas que a razão continha havia tempo de mais. Soluçou-a ali, incontrolavelmente, naquelas ruas escuras onde talvez ecoassem às vezes os passos dela, pensando que não havia melhor lugar para deixar o seu sal.

Depois voltou, à realidade, à sua vida, à sua cidade a Sul, onde prosseguiu os dois meses de trabalho intenso em que conseguiu habilmente dar a volta à má publicidade que o caso gerara, escudando-se em subterfúgios legais e capas de ética deontológica. Tinha afastado as dúvidas sobre a sua tese de defesa, que fora posta em causa com a publicação de umas cartas que a vítima teria escrito pouco antes de morrer. Pedro conseguira gerar suficiente dúvida sobre a autenticidade e proveniência das cartas para que o assunto deixasse de ser notícia. Chegava a passos largos a data do julgamento.

Mergulhava incansavelmente no trabalho e saía do escritório tarde e directamente para casa, onde se fechava na companhia de uma garrafa qualquer e da sua música a tocar. Breves instantes de paragem que usava para a tentar esquecer, mas que apenas a traziam para mais perto, mais real e nítida quanto mais a garrafa ficava vazia, a pairar desenhada no fumo azul dos seus cigarros. Quase sempre adormecia de exaustão na sala, onde acordava às vezes de madrugada, outras vezes já de manhã. E assim seguiam os seus dias, cada vez mais magro, cada vez mais cinzento, mais hermético, mas alheado. Algumas pessoas sugeriam que tinha um ar adoentado, que estava a trabalhar demais e que devia ir ao médico. Ele desprezava estes conselhos. Sabia que a doença dele era da alma, e que médico nenhum o podia curar.

Ansiava o julgamento daquele caso. Era mesmo como uma penitência, e uma de que ele se queria livrar o mais rapidamente possível. Queria fechar aquele capítulo, aquela história, não ter de pensar nela, instintivamente, a cada momento que tinha de dedicar àquilo. E finalmente chegava a data. No primeiro dia do julgamento tudo correu como pevisto e, nessa noite, pela primeira vez em dois meses, adormeceu na sua cama, sem garrafa por companhia. Sentia o fim perto.

Mas depois, em mais um dia de julgamento, um acontecimento inesperado atirou-o de novo para o turbilhão do pesadelo. O Ministério Público chama uma testemunha. Pedro lera o seu nome de passagem, pois estava arrolada numa longa lista e tinha lidado com a personagem nas suas teses de defesa – mas era um personagem abstracto, apenas um nome. E no entanto, por algum motivo que não entendeu, gelou ao ouvir chamar aquele nome com voz, o nome que já tinha lido sem comoção. E virou-se instintivamente para ver entrar na sala a irmã da vítima, Maria Sofia Atena Claro, o anjo de olhos verdes e cabelos côr de avelã dourada que lhe fugira meses antes, depois de lhe ter aberto a alma à luz do dia, deixando-lhe aquelas palavras e aquele beijo cravados no coração.

Sofia. Ali estava ela. Ali estava a razão da fuga tão desesperada. Ali estava o olhar da vítima a saír do papel da fotografia nauseante. Ali estava a promessa de redenção dos seus pecados, feita tormenta maior que o inferno.

(continua...)

Mais uma - a Parte 7

(...)

Pedro andou pelas ruas, com a imagem dela na cabeça ao mesmo tempo que ecoavam as perguntas dos jornalistas, fazendo o percurso inverso ao que tinha feito nessa tarde com Sofia. Parou frente à esplanada onde se tinham sentado e relembrou fragmentos da conversa que lhe vinham à memória sem qualquer sequência de tempo ou de lógica. Num turbilhão. De repente, lembrou-se que sabia em que cidade ela morava e olhou para o panfleto com o horário dos combóios que lhe tinham dado no hotel. O último combóio era um Inter-Cidades, que partia às 21:39. Tinha 18 minutos para chegar à estação.

Meteu-se no primeiro táxi que passou e prometeu uma generosa gorjeta para chegar a horas. O taxista pisou o acelerador com um pé pesado e um sorriso de satisfação. Pedro perguntou-se por instantes se teria tido sorte ou azar, porque não percebia bem se o sorriso do motorista era apenas de gozo se de loucura. O certo é que aquele carro voava baixinho pelas estradas e Pedro sabia que cada minuto e cada quilómetro devorado naquela corrida eram vitais para si. O nome dela explodia-lhe na cabeça e no peito. “Sofia.” Tinha de alcançá-la, e um semáforo vermelho. “Sofia.” Tinha que agarrá-la, parar-lhe a fuga, e passava mais um minuto. “Sofia.” Tinha de chegar a tempo, precisava dela para se salvar, e o taxímetro contava. “Sofia. Sofia. Não vás. Não me deixes!”. Num nervoso intenso que se via na expressão contorcida e no semblante transpirado, as mão furiosamente a esfregar-lhe a cara à lembrança dela, do nome, do olhar, do toque, do som das palavras e do beijo. E, de repente, a estação a recortar-se no horizonte. Cruzamentos e rotundas que nunca pareceram tão despropositados, os segundos a correr. “Sofia, por favor, espera por mim.”

Ao chegar à estação correu à procura da plataforma certa. Os 4 minutos que lhe tinham sobrado chegaram apenas para assomar à superfície onde viu o combóio prestes a partir. Já não havia gente no cais de embarque e apenas a cabeça do revisor assomava de uma porta. O revisor olhou para ele, na expectativa de ser um último passageiro a querer embarcar, e Pedro ecoava um monstruoso “não” na sua cabeça, “não me rendo, não desisto”, enquanto corria pela plataforma a tentar olhar para dentro do combóio, em busca dela. O sinal de partida ecoou nos altifalantes e ele não conseguiu reprimir um grito de desespero com o nome dela a voar pela noite, lancinante, vindo do mais fundo de si, perdendo-se no vazio do ar e esvaziando-lhe a alma simultaneamente.

- Sofia!!!!

O revisor recolheu-se e o combóio pôs-se em marcha, partindo, lentamente, e deixando no cais de embarque um homem e sombras. Luzes pardas dos candeeiros da estação, destinos escritos em placards electrónicos, bancos de espera vazios, ecos de passos que se foram e do trepidar do combóio que partia.

Lá dentro, ela seguia de volta a casa, com o olhar perdido no infinito, a tentar conter as emoções que queriam transbordar. Não se queria mexer, porque se controlava à força de conter o corpo, numa tensão louca, como que a reprimir a passagem do tumulto que lhe ía dentro. Sabia que se mexesse um músculo, um só, se desconjuntaria e não conseguiria conter a torrente. Aquele homem ficava para trás. Não interessava saber porquê, por que crueldade o destino os tinha feito cruzar caminhos. Não pensaria nunca mais naquele olhar, naquele cheiro, naquele toque ou naquele beijo. Não recordaria nunca mais aqueles breves instantes. Não se permitiria chorar. Não por ele. Sentia nojo de si, dele, repulsa incontrolável. Fechou os olhos e tentou dormir, para calar o que lhe ía na alma. Para tentar calar-lhe a voz, o grito, do nome dela, que ecoara na noite da cidade de onde partia e que não queria ouvir na sua cabeça quando respirasse o ar da noite da cidade onde havia de chegar.

(continua)

Segue-se a Parte 6

(...)

Enquanto Sofia tomava o seu duche, umas ruas acima, Pedro estava de volta ao escritório, ao seu mundo. Era a hora em que muitos já tinham saído e os poucos que restavam se preparavam para o fazer em breve. Os telefones já não tocavam e o silêncio voltava gradualmente a encher o espaço. Fechou a porta do seu gabinete onde só se ouvia o trânsito da avenida, ainda em hora de ponta, que chegava ao 7º piso através de boas janelas de vidros duplos, por isso já bastante abafado. Sentou-se e voltou-se para a enorme vidraça, que raramente contemplava, e recapitulou os acontecimentos da tarde, enquanto as luzes dos carros se moviam lentamente no lusco-fusco do fim do dia e tomavam conta de lhe manter todo o resto do cérebro dormente.

Que mulher aquela... Sabia tão pouco dela e tanto ao mesmo tempo. Que vontade que tinha dela. Quase explodira com aquele beijo ardente. Relembrava o primeiro contacto, o primeiro toque dos lábios dela, a surpresa agradável de os encontrar à mesma temperatura dos seus, a boca dela húmida e moldável à sua boca, receptiva e responsiva à exploração da língua, e à pressão dos lábios que se tinham encontrado com força e procura equivalentes. Sentia um frio na base do estômago e sentia a resposta do seu corpo à recordação daquele momento quase como se o revivesse. Sentia-lhe o sabor.

Esfregou a cara com as mãos, como fazia sempre que precisava de se impor auto-controlo, sobretudo quando o desejo por uma mulher explodia, o que se tinha tornado raro, raríssimo. Tinha repetido esse gesto muitas vezes por um longo período, uns anos antes, sempre por causa da mesma mulher, e isso não lhe trazia boas recordações. Sentiu de novo uma certa inquietação de perigo. Mas ao mesmo tempo queria mesmo voltar, como prometera, precisava de entender o porquê daquela atracção por uma desconhecida que lhe falara de almas. Almas... Ao tempo que sequer pensava em coisas tão metafísicas, quanto mais articular frases como a que lhe tinha dito. E lembrou-se da sua frase, palavras suas a supreendê-lo. “ A minha alma está há muito vendida para se manter em silêncio”. E era mesmo.

Na sua mesa estavam as fotografias que o tinham nauseado, diversos processos e inúmeros recados em post-its amarelos. O ecrã do computador, que tinha ficado ligado, voltou à vida ao seu comando, revelando-lhe vários novos emails dessa tarde na Inbox, muitos marcados como urgentes. Decidiu nem olhar para os papeis, nem para os emails. Pegou no telemóvel que tinha deixado para trás na urgência de sair umas horas antes, e viu que tinha também várias mensagens e chamadas perdidas. Desligou o computador e resolveu que tinha de ir à procura dela. Saiu determinado a voltar ao hotel e esperá-la.

Enquanto descia no elevador, ia crescendo nele a excitação da antecipação de a ver de novo, de tocá-la, de beijá-la, e crescia a adrenalina por aquela sensação de desafio, de perigo. Deu consigo a sorrir. Nem reparou no Segurança que lhe dizia aflitivamente “Sr. Doutor, olhe que...”. Respondeu um automático “boa noite” enquanto saía para a rua, para ser assaltado por um bando de jornalistas, e encadeado pelos holofotes. Estava perante câmaras de directo, no meio de uma balbúrdia de perguntas de que não conseguia fazer sentido.

Não tinha lido os recados ou os emails ou os post-its. Não tinha recebido as chamadas nem ouvido as mensagens do voice mail. E agora percebia que havia desenvolvimentos no caso que aceitara dias antes e estava em directo para o mundo, exposto como conivente numa história que sempre tinha sido sórdida, mas que era agora publicamente escandalosa.

Desembaraçou-se dos jornalistas o melhor que pode sem responder a perguntas, com a cabeça a explodir e o coração a bater a um ritmo pouco saudável enquanto se dirigia apressadamente à garagem onde estacionara o carro. Trancou-se e instintintivamente dirigiu-se à segurança da clausura da sua casa. À porta havia mais jornalistas, mas o acesso à garagem fazia-se pelo portão automático que se fechou deixando a confusão lá fora.

Entrou em casa transpirado, já com o nó da gravata desapertado, e enquanto desabotoava o colarinho dirigiu-se de imediato à sala onde se serviu de um generoso whiskey. Deixou-se cair no sofá, exausto e com uma sensação terrível de estar a viver um pesadelo repentino. Sabia que devia ouvir as mensagens e ler os emails e meter mãos à obra para conter os estragos e proteger o seu cliente. E no entanto, não o queria fazer. Pela primeira vez em muitos anos, sentia-se contaminado pelo caso que aceitara, pelo cliente que representava.

Era óbvio porquê. Só pensava nela e se saberia, o que pensaria dele depois de saber. E incomodava-o o que ela pudesse pensar. Sentia vergonha. E medo de a perder.

Deambulou pela sala a tentar desacelarar a vertiginosa velocidade do seu pensamento, a debater-se com a imagem dela tal como a vira naquele primeiro instante, a reviver o beijo, a senti-la ali mesmo nos seus braços, a ver-lhe os olhos verdes mergulharem por ele adentro. Até à alma, que ele agora sentia mas sabia escura. Apetecia-lhe gritar de raiva. Porque é que isto tinha de acontecer? Naquele preciso momento em que, por algum desígnio misterioso, aparecia alguém na sua vida a devolver-lhe a consciência e a acordar sentimentos e sentires esquecidos, a fazê-lo sentir-se humano? Turtuoso destino.

Sabia que esta era uma encruzilhada difícil da sua vida e que tinha de tomar uma decisão importante. Decidiria com a razão ou com o sentimento? Queria o quê para si, por si próprio? Deitar a perder uma brilhante carreira de advocacia e perder uma invejável carteira de clientes? Ou perder a hipótese de se sentir humano outra vez, digno do ar que respirava e do chão que pisava, e dela?

Calculou que os jornalistas se tivessem ido embora e resolveu chamar um táxi. Ía procurá-la, explicar-lhe e dizer-lhe que abandonava o caso, que não queria voltar a ser aquele homem. Ía beber dela a redenção e afogar-se na pureza da alma dela para reencontrar a sua. Ía voltar ver o mundo com o olhar limpo da imundice em que se tinha deixado prender ao longo dos anos. Ía por um novo caminho de paz. E o caminho no táxi foi feito em silêncio de contemplação da cidade que redescobria, no resenho dos prédios e as suas janelas iluminadas em padrões do acaso, no traçado das estradas que percorria e nas gentes que ainda se viam pelas ruas. Cada vez mais próximo do destino, cada vez mais próximo dela.

Chegou ao hotel e dirigiu-se à Recepção para a chamar. Só nessa altura se apercebeu que não sabia o seu apelido, apenas o nome próprio, Sofia. Por um instante, assaltou-o a dúvida. O que estava a fazer era uma loucura, era perigoso. Mas sentia a força de algo maior que ele próprio e pulsava-lhe nas veias a determinação de lutar contra tudo e contra todos para seguir aquele caminho. O empregado reconheceu-o e, antes que pudesse fazer a pergunta que não sabia como fazer, disse-lhe:

- A senhora saiu. Deixou o hotel há cerca de meia hora.

- E não sabe se demora?

- Se demora? Não, ela não volta hoje com certeza! A senhora fez mesmo check out. Disse que tinha uma emergência e que tinha de voltar mais cedo. Cancelou o resto da estadia e nem se importou de ter de pagar uma taxa. Eu até nem queria cobrar-lhe, coitada, e até era uma senhora tão simpática. E educada. Olhe que hoje em dia já é raro encontrar alguém assim, e digo-lhe que neste ramo conhece-se muita gente...

Pedro sentiu-se gelar às primeiras palavras do empregado e continuou a ouvir aquele discurso de quem não tem quem o ouça com a cabeça a latejar. Sofia fugira. Tinha a certeza que fugira dele. E ele não tinha como segui-la, como procurá-la. Mesmo fazendo uso da sua perícia e da vontade de falar do empregado, apurou apenas que tinha chamado um táxi. Não conseguiu que lhe desse o apelido ou a morada dela. Nada. Mas o empregado, ao vê-lo desesperado, tentou consolá-lo dizendo-lhe que ela tinha ido para a estação de combóios. Solícito, estendeu-lhe um panfleto de horários e Pedro agradeceu, pegou no panfleto e saiu à deriva.

(continua)

Segue a parte 5

(...)

Era um hotel de três estrelas, um edifício antigo recentemente recuperado e pintado de um azul forte. Tinha a particulariedade de manter um antigo poço, que datava o local emprestando-lhe, simultaneamente, um certo ar romanesco de contos de encantar. Não era luxuoso, nem pretendia ser, mas era obviamente limpo e o serviço era bom. Portanto, honesto. À chegada, Sofia pensava no que dizer àquele homem de quem queria mais sem perceber porquê. Virou-se para ele e encontrou-o na expressão óbvia do mesmo dilema. Sorriu-lhe e ele devolveu-lhe um sorriso quase infantil.

- Quero mais de ti – disse-lhe ele baixinho.

Respirando fundo, tanto de alívio como de contentamento, ela respondeu-lhe apenas - Estou aqui até Domingo.

Os olhos dos dois seguravam-se mutuamente numa corrente invisível mas palpável, que os puxava um para o outro. Estavam no meio da rua estreita, já escura pelo fim de tarde e pela natural penumbra da sombra dos edifícios à volta. Estavam à porta do hotel, na mira do olhar inquisitivo do pessoal da recepção que os observava dissimuladamente pela transparência dos vidros da porta da entrada.

E então tornou-se ímpossível resistirem-se, e alguma coisa os empurrou num pequeno passo simultâneo em frente, que os pôs nos braços um do outro. Naquela sombra aconteceu o beijo, arrepiante, quente, molhado, num entendimento instintivo perfeito de mais do que bocas e línguas a deslizar. Doce e intenso, tão intenso que catapultou os dois corpos para uma proximidade de encaixe quase total, com ela entre os braços dele e ele a envolvê-la na totalidade, ambos a sentirem o contacto dos dois corpos desconhecidos mas que parecia que se reencontravam. E as mão dele pela cintura e pelas costas dela, a quererem muito mais, agarrando-a com uma força imensa mas com a delicadeza de quem segura algo frágil e precioso. E ela sentindo-lhe as mãos com um arrepio de calor e escorrendo as suas pelos ombros, pescoço e nuca dele, a mergulhar naquele calor e naquele cheiro, a querer fundir-se com a sua pele.

Sôfregos. Electrizados. Alvoraçados. Vibrantes de desejo e de contentamento inexplicável. Olhos nos olhos no fim do beijo, a ponta dos narizes colada e as bocas húmidas da saliva trocada, bocas semi-abertas, a recuperar o fôlego e a procurar mais. Ela mordeu ligeiramente o lábio inferior, no esboço de um sorriso de perplexidade e embaraço, e ele pousou um dedo sobre o lábio que os dentes dela vincavam, soltando-o da tortura, com um sorriso um pouco malicioso no meio da expressão de desejo que lhe brilhava nos olhos. Percorreu com o dedo uma linha recta do meio da boca dela, pelo queixo, e pelo longo pescoço abaixo, detendo-se no fim do decote, e afastou-se ligeiramente. Sofia estremeceu mergulhando nos olhos dele, e mordendo de novo o lábio instintivamente.

- Eu volto. - disse-lhe ao abrir a porta para que entrasse no hotel. E antes de largar a porta acrescentou – Não me perco de ti.

Pedro seguiu o seu caminho enquanto Sofia se situava na realidade do espaço e do tempo, de que tinha perdido noção por completo. O lobby do hotel tinha azulejos antigos e tocava Fado em pano de fundo. O bar era acolhedor, com as paredes de pedra antiga à vista, com madeiras quentes à mistura, e uma iluminação apropriada. Decidiu seguir para ali e beber alguma coisa alcoólica, bem forte, para recuperar a lucidez que lhe roubara aquele beijo estonteante e pôr ordem nas ideias. Que momento... Que homem era aquele? O que se passava consigo para desejar assim um desconhecido, beijá-lo daquela forma ao fim de poucas horas de um encontro fortuíto?

Estava um bocado assustada mas acalmou com o alcool, decidida a pôr o episódio para trás, e subindo ao quarto, que o dia tinha sido longo e cansativo, e nem queria pensar que ainda tinha de voltar a sair para jantar.

Tomou um longo duche e mesmo assim sentia o cheiro dele. Vestiu roupa lavada, perfumou-se, e mesmo assim sentia o cheiro dele. Quanto mais tentava afastar a recordação dele, mais sentia o mesmo tremor avassalador do momento do beijo. Que beijo... “Mais. Mais! Quero mais dele. Quero mais daquilo.” Era só nisso que pensava. Imaginava onde estaria ele, no que estaria a pensar, e de repente entrou em pânico a pensar que ele certamente teria ficado com uma péssima imagem dela. Que mulher se entregava assim num beijo a um desconhecido ao fim de pouco mais de uma hora de conversa? E que homem era aquele, o que é que ele quereria realmente dela? Deveria ter medo? Provavelmente. Mas não tinha.

No meio da ventania de perguntas que ecoavam na sua cabeça, cheirava-o por todo o lado. Levou a mão à boca recordando o toque da boca dele, fechando os olhos e sentindo a contracção de prazer a percorrer-lhe o corpo, quase a sentir as mãos dele a agarrarem-na outra vez, a sentir o calor do corpo dele e o enlace daquele beijo mágico.

Sentou-se à janela a olhar a mesma rua onde se haviam beijado e recordou a conversa na esplanada. Espantoso como se recordava de tantos detalhes. Tudo o que ele lhe tinha dito estava como que tatuado na sua memória. Resolveu que tinha de o ver de novo. Perguntava-se se ele realmente voltaria, como lhe tinha dito na despedida. E quando?... Não sabia dele o suficiente para o procurar, mas sentia que o conhecia o suficiente para saber que ele voltava mesmo. Estava ainda confusa com tudo o que se tinha passado.

Finalmente, resolveu sair para jantar. Não queria ter de andar por aquelas ruas sozinha a horas tardias. Pegou nas suas coisas e saiu do quarto, passou pela Recepção e, de repente, deteve-se no noticiário que passava na televisão do bar. Começou a aproximar-se, lentamente, suspensa nas imagens que estava a ver, com um aperto, uma dor, a tomar conta dela toda quanto mais se aproximava do detalhe da imagem e à medida que a locução se tornava mais audível e compreensível. Mas incompreensível. Assustadora. Uma agonia a invadi-la. E uma força a puxá-la na direcção do ecrã, até ficar quase colada a ele.

Depois de uns minutos, subiu ao quarto em transe e tomou uma decisão, sem escapar ao aperto de dentro que levara para cima, e uma lágrima que se insinuou com força suficiente para lhe escorrer pela face.

(continua)

Seguindo na parte 4

(...)

Fizeram o mesmo movimento sincronizado em espelho, descendo da visão improvável do céu para o encontro horizontal do olhar de um no outro. O sorriso dela era agora diferente, mais fechado, inquisitivo, mas doce. Os olhos grandes a quererem mergulhar para lá do vidrado dos olhos negros dele. Ele estava num suspenso, como se realmente não tivesse peso, e estava preso no olhar e no sorriso dela, que inevitavelmente mimetizou. Foi apanhado de surpresa, tanto pelas palavras como por toda a situação. Era como se não fosse ele, o que conhecia de si próprio, que tinha construído ao longo dos anos e que domava. Alguma força maior se apoderara dele, sentia-se literalmente enfeitiçado.

Um homem inteligente, como era, saberia o que responder num ápice, mas não conseguia articular nada. Ficou apenas a contemplá-la e então ela baixou o olhar e disse-lhe - Mas não sabe o que fazer com isto. Deu-se conta da máquina fotográfica suspensa a meio caminho, levantou-a, voltou-se de novo para cima e disparou. O som do disparo da máquina fê-lo voltar à realidade e conseguiu finalmente falar-lhe: - Você foi os meus olhos. E sim, agora não sei o que fazer.

Ela abriu o sorriso enquanto ainda olhava para cima, sem se mexer. - Mas foi a sua alma que viu o que os meus olhos apontaram. E foi a sua alma que sentiu, e é ela que tem a resposta à pergunta do que fazer.

Ele estava totalmente confuso, até porque conversas sobre almas não faziam parte da sua realidade. Mas aquelas palavras ecoavam numa parte de si, bem dentro, que já nem se lembrava que existia. Aquelas palavras feriram-no.

- A minha alma... a minha alma está há muito vendida para se manter em silêncio. Já não sabe dizer-me o que fazer. - Ela voltou-se para ele, estendendo uma delicada mas decidida mão.

-O meu nome é Sofia. E deixe-me dizer-lhe que a nossa alma permanece, mesmo que deixemos de saber ouvi-la. E podemos sempre reaprender.

O seu sorriso era agora desarmantemente aberto, quase condescendente, como se percebesse o desconforto dele, a sua insegurança. Ele estendeu também a sua mão levantando os olhos para a olhar de frente.

- Chamo-me Pedro - enquanto as suas mãos se encontravam, num primeiro toque físico electrizante, que ele sentiu no corpo todo. Em mais um impulso perguntou-lhe se aceitava tomar um café e ela anuiu, sempre sorrindo, enquanto os dois faziam a travessia da avenida em direcção à mesma esplanada de onde a tinha visto pela primeira vez minutos antes.

Dada a generosidade que tinha patenteado, o empregado arranjou-lhes de imediato uma mesa simpática. Foi diligente no serviço, e assim rapidamente se encontravam frente às suas bebidas, ele um café e uma água, ela um chá gelado. Ele sentia-se ligeiramente ridículo, e não fazia a mínima ideia nem porque tinha voado pela avenida em busca de um contacto com aquela mulher, nem porque queria manter-se na sua presença, nem muito menos o que lhe havia de dizer. Acendeu um cigarro para disfarçar o nervoso. E mais uma vez, ela salvou-o.

- Podemos falar apenas do tempo... - disse-lhe num tom leve, com um sorriso ligeiramente irónico. Ele não conseguiu evitar soltar uma pequena gargalhada, que ela acompanhou, derretendo instantaneamente o gelo entre os dois.

Passaram uma hora à conversa naquela esplanada, entre risos e olhares inquisitivos, mas escaldantes. Mantiveram um registo leve, sem mais conversa de almas, anjos ou demónios. Falaram um pouco de si e do porquê de ali se encontrarem. Falaram do que faziam, onde viviam e das coisas que mais gostavam de fazer. Passaram a tratar-se por “tu”. Descobriram afinidades de preferências gastronómicas e de destinos de viagem. Partilharam pequenas estórias de viagens a esses destinos. Ela ficou a saber que ele era advogado, solteiro, nascido na capital. Que trabalhava no centro e vivia numa zona antiga e prestigiada da cidade.

Sofia estava de passagem, em turismo. Era professora numa cidade a norte, de onde era originária e onde vivia num pequeno apartamento de um dos prédios mais antigos, e estava de férias na capital. Não revelara muito de si àquele estranho, por quem se tinha sentido tremendamente atraída, que pressentira aproximar-se na avenida sem ter olhado para ele, e a quem sentira o desconcerto da visão que lhe indicara. Tinha intuído nele uma tristeza imensamente profunda, um vazio, um desnorteamento, que lhe despertava uma certa pena. E intrigava-a aquele homem em quem era palpável uma enorme força e inteligência, e porém tinha uma sensibilidade especial adicional. Sabia que ele também era capaz de mais do que lógica e razão – sabia que ele também via. Mas estava preso algures.

Quando olhou realmente para ele, teve uma sensação estranha de “dejá vu”. Tudo o que observava nele, pela primeira vez, era como uma recordação. A aproximação dele e o convite para tomar um café foram vividos como capítulos de um livro que já tinha lido, e a conversa com aquele estranho sabia-lhe a lembrança de outros tempos. Até a forma como acendia o cigarro, o cheiro daquele tabaco, e o cheiro dele, sabiam a memórias de tempos idos. E no entanto, cada olhar dele, cada gesto, cada detalhe que lhe re-descobria em surpresa, incendiava-a numa vontade inegável de mais.

Tinha sentido o aperto de mão com que se apresentaram como uma onda de calor que a percorreu da ponta da mão ao seu interior mais profundo. Tinha sentido que Pedro também não tinha sido indiferente àquele toque. Via perfeitamente nos olhos dele, ouvia claramente nas suas palavras, que tinha por ela a mesma ânsia inexplicável que ela tinha por ele. Era um homem inegavelmente atraente, do ponto de vista físico. Mas não só. Sofia tinha vontade de o tocar de novo, imaginava-lhe o beijo ao observar o movimento da boca enquanto falava ou quando tirava uma baforada de cada cigarro que acendia. Mas tinha também uma vontade louca de percebê-lo, de se entranhar na aura de mistério que o envolvia.

Ao fim de uma hora de conversa, o empregado pousou a conta na mesa, e ambos se aperceberam que tinham esgotado aquele tempo. Sofia não se recordava de algum dia ter sentido nada semelhante por homem nenhum e de uma forma estranha, que não conseguia explicar, sabia que aquele encontro era destino, e não ficava por ali. Ambos sorriram com um misto de pena pelo fim do momento e de vontade de mais. Pedro perguntou-lhe para onde ía e Sofia, por sua vez, não recusou nem temeu a oferta dele para a acompanhar ao hotel onde se alojara, que era próximo.

Deixaram a esplanada para trás, mais uma vez atravessando a avenida larga em direcção à grande praça central, antes de se embrenharem pelas perpendiculares muito mais estreitas. Subitamente tinham deixado de falar e caminhavam simplesmente lado a lado, sem se tocarem, ambos a fervilhar por dentro num caldeirão de sentimentos e pensamentos desconexos, tudo fervido pela força de um desejo de toque que era quase visível. Mas ambos evitavam os olhos do outro, suspensos na mínima inflexão de movimento ou respiração do outro, a tentar controlar os seus próprios movimentos e a sua própria respiração. Agora, nenhum deles sabia o que dizer.

(continua)

Segue a parte 3

(...)

Num impulso, deixou uma nota generosa em cima da mesa e atravessou a avenida, sempre com os olhos fixados nela, sem se importar com nada do que acontecia à sua volta, nem pensar sequer se algum carro o atropelava naquela travessia. Movia-se com se voasse baixinho, quase deslizante, e quase sem esforço, tal era o magnetismo daquela atracção e a certeza daquele movimento de ímpeto.

À medida que se aproximava, ía percebendo os pormenores da figura. O desenho do corpo delgado, esguio, mas muito feminino. Foi distinguindo as várias curvas que se advinhavam por baixo da roupa leve e clara que vestia. Apercebeu-se das várias tonalidades de ouro que lhe brilhavam no cabelo. Tudo o maravilhava. Era a visão mais sublime que tinha experimentado na vida. Ao mesmo tempo, alguma coisa gritava dentro dele que parasse, que voltasse atrás, que ali havia perigo. Continuava a mover-se determinado, mas a sentir o tremor da adrenalina, não sabendo bem se pelo desafio do perigo, instinto de sobrevivência, se pelo fascínio da atracção que sentia por aquele anjo.

Deteve-se mesmo junto dela, ainda a focar a vista no seu rosto que não perdia o mesmo sorriso que ele intuíra da esplanada do outro lado da avenida. A máquina fotográfica ainda na mesma posição. Os olhos dela eram verdes, como azeitonas brilhantes, mas desenhados como amêndoas e emoldurados por umas longas pestanas. Quando estava ao seu lado, seguiu-lhe a direcção do olhar e viu. A copa da árvore formara uma abertura, por algum capricho da mãe natureza, e no meio das cores castanhas e lilazes dos ramos e das flores surgia um céu azul desenhado em forma de coração perfeito, com o sol a brilhar no meio. Mesmo ao centro. Pasmou-se com aquela visão. Era coisa que nunca veria por mais que olhasse para cima, se não tivesse seguido aquele olhar. Olhar que nunca encontraria se não tivesse saído do escritório a meio da tarde para vaguear pelas ruas que já mal conhecia. O que nunca teria contecido se não fossem aquelas fotografias tremendas. Sentiu um murro no estômago com a tomada de consciência do quão desumanizado se tornara, do quão fria e desprovida de encantos se tornara a sua vida. Ao perceber que os seus olhos não sabiam já procurar a beleza em nada, porque já não saía em procura de nada.

Ainda olhava para cima, num misto de quente e frio, de maravilha e crueza, quando a ouviu pela primeira vez. Ela não se tinha mexido, continuava também a olhar para cima. Tinha uma voz doce, ligeiramente grave, mas melodiosa, e baixa, tranquila, quase um sussurro. Tal como a imagem que tinha visto do outro lado da estrada, a voz não parecia deste mundo.

-Você também vê...

(continua)

Segue assim a parte 2

(...)

É um homem grande. Alto e de ombros largos, possante até, mas sem excesso de peso. É uma figura de força. Os cabelos negros levemente ondulados, pele morena e olhos escuros, grandes e luminosos, num rosto largo inequivocamente masculino. Consegue ver o brilho dos seus próprios olhos reflectido pelo espelho do outro lado do quarto, sem conseguir discernir mais pormenores naquela meia luz. Observa-se ali reflectido e sente um aperto ao saber o que se esconde para lá daquele brilho. Recorda-se da primeira vez que os seus olhos encontraram os dela. Pergunta-se como seria possível que tivesse passado tão pouco tempo desde aquela tarde solarenga, e como tinha sido possível ter merecido a sorte daquele encontro.

A sua vida era agora dois capítulos. O primeiro antes dela, e o segundo era ela. Antes dela, ele era um homem solitário, sem raízes, sem amarras, embrenhado no trabalho que lhe absorvia mais que o tempo, absorvia-lhe a alma. Era advogado criminal, passava os dias envolto em dossiers de histórias lúgubres, macabras, coisas doentes, e pessoas de alma negra. Entre o seu escritório confortável e movimentado, e o silêncio gélido de salas cinzentas atrás dos muros intransponíveis de prisões. Entre o Código Penal e os jornais do dia. Entre a sua casa fechada ao mundo e a exposição das salas dos Tribunais.

Estava bem de vida. Não lhe faltava nada que o dinheiro pudesse comprar. O dinheiro comprava-lhe o conforto em que vivia e comprava-lhe ocasionalmente a companhia, mais de uma forma física, de satisfação do corpo, do que propriamente de intimidade. Prostitutas de luxo entituladas de “acompanhantes”, a quem pagava jantares caros nos melhores restaurantes, e em cujos corpos se saciava em quartos de hotel de cinco estrelas. Com quem mal falava e que pagava com um misto de tristeza e de desencantamento. Por elas, e por ele. Ficava sempre vazio, na penumbra das recordações mais antigas que o tinham empurrado para aquele destino, para aqueles quartos e aqueles corpos pagos para o satisfazer.

Um dia tinha aceite um novo caso, mediático, mas pelos piores motivos. Envolvia a violação e o assassinato de uma mulher jovem, pelo seu próprio marido. O cliente era um homem de prestígio na sociedade, financeiro, detentor de uma enorme fortuna, filho de uma das famílias mais antigas da cidade. Pagava-lhe a peso de ouro e a estratégia passava por denegrir ao máximo a imagem da mulher morta, alegando insanidade temporária para o homem que lhe teria descoberto os podres. Passava por estabelecer a imagem de um homem loucamente apaixonado, um marido e pai exemplar, pilar da comunidade, que teria sofrido um choque tremendo. Crime passional.

Mas a verdade era outra e ele sabia-a. E nisso, nada neste caso era diferente do habitual. Era raro defender réus que julgasse efectivamente inocentes. Nunca tal o havia incomodado. Mas este caso tornara-se diferente a partir do momento em que vira as fotografias da cena do crime, como milhares que havia visto antes, e se deteve, não no horror da cena, que tinha visto já bem pior, mas na beleza e na expressão da mulher que ali se mostrava morta. Por instantes, julgou que aquela mulher lhe falava, que os seus olhos de terror gritavam por ajuda, e sentiu uma náusea incontrolável.

Saiu a porta do escritório e do edifício com a cabeça a latejar, e perante o ar atónito dos seus assistentes, que nunca o tinham visto sair sem comunicar onde ía e nem nunca lhe tinham visto outra expressão senão a inexpressão, excepto nos raros momentos de boa disposição em que se permitia uns sorrisos, em geral na celebração da vitória dos casos mais difíceis.

Saiu para a rua com uma ânsia de respirar ar fresco que lhe era totalmente desconhecida. Vagueou pelas ruas até sentir a pulsação voltar ao seu ritmo normal. Sentou-se então numa esplanada e pediu qualquer coisa, na tentativa de fazer passar o nó no estômago que era a única réstia do descontrolo físico que aquelas fotografias tinham provocado. Soube-lhe bem estar ali, naquela tarde fresca mas cheia de sol. Pensou que havia anos que não se sentava numa esplanada de rua, simplesmente a ver quem passava.

E de repente, numa fracção de segundo, os seus olhos detiveram-se numa mulher que mais lhe parecia um anjo. Estava parada no meio do passeio largo da avenida, a olhar para cima, para a copa de um dos frondosos jacarandás, com uma máquina fotográfica ao pescoço que tinha ficado suspensa a meio caminho, entre a posição de transporte e a posição de fotografar. Ela sorria, um sorriso plácido de encantamento, e ele pensou que ela estava tão ausente que nem se apercebia das cabeças que se voltavam para a olhar, a admirar. Era uma mulher bonita, sem ser deslumbrante, mas que transpirava uma leveza que não era deste mundo.

(Continua)

Um dia terá título, e começa assim...

Ela dorme. A cama branca e revolta, o lençol enrolado no corpo, enquadrado por uma quase penumbra que só não é escuridão porque os primeiros raios de luz lutam por passar em cada frincha das persianas da janela. O quarto e a rua estão em silêncio sintonizado. A respiração dela mal se ouve, e parece que marca gentilmente o compasso do canto das aves lá fora.

Ele olha-a. Contempla o quadro e absorve todas as tonalidades, todas as curvas, todas as sombras, todos os sons. Revivendo as suas mãos a percorrerem o que percorre agora o olhar, a tocar e a envolver o que agora cobre o lençol. Branco, e ela quase tanto como o lençol, num contraste que é de pouco mais do que um tom, o tom da vida que pulsa nela.

Um perna esguia e a planta de um pé delicado, que se deixaram descobertos, recordam-lhe um caminho que percorreu horas antes. Segue a linha da coxa e do fundo das costas marcadas pelo lençol, recordando como as suas mãos grandes, desproporcionadas para aquela figura fina, envolvem toda a sua cintura delgada e gentilmente se alargam sobre as ancas que depois firmam possessivamente. Advinha a sua barriga do outro lado, sentindo com um arrepio a contração dela quando a toca, quando a beija, quando deixa a boca percorrê-la até ao fundo do tremor, ao âmago dela.

A transpirar, esfrega a cara com as mãos, levanta-se para acender um cigarro. Olha-a agora do lado da janela com a pouca luz por trás a recortar-lhe a figura. A dela recorta-se pelo brilho levemente contrastante entre a carne e a cama, e pelos longos cabelos côr de avelã com brilho de ouro, em desalinho, espalhados pela almofada que abraça de um lado. Com um daqueles braços magros que conseguem de repente uma força imensa para o apertar, ou que se lançam noutras direcções, abandonados em ondas de prazer. E as mãos. São como tudo o resto nela, esguias, alvas, dedos muito longos e unhas de desenho perfeito cobertas de um verniz transparente e brilhante. Aquelas mãos que ele beija mas que também o percorrem, ora com curiosidade suave, ora agarrando-o com a força do desejo.

Sobe o olhar agora a partir da cintura, observando as pregas do lençol que se enchem na zona do peito, duas colinas suaves, curvas surpreendentes e improváveis naquele corpo. Consegue ainda senti-las nas mãos e na boca. Sabe exactamente o sabor daquela pele, as suavidades e os contrastes de tons e texturas. Concentra-se na curva dos ombros e na extensão do seu longo pescoço que ele beija e morde e marca, e que ele sabe que é chave para os primeiros estremecimentos dela.

Apaga o cigarro sem olhar para o cinzeiro, detendo-se no rosto dela, de olhos fechados pelas longas pestanas, com uma expressão serena de satisfação e abandono ao sono. Pergunta-se se sonhará. A boca está ligeiramente entreaberta. A boca, aquela boca...

Esfrega novamente a cara com uma mão e de repente vê-se reflectido no espelho em frente. Quase só um vulto, que a luz da manhã ainda é pouca a atravessar as persianas antigas de ripas de madeira.

(Continua...)