Mostrar mensagens com a etiqueta Sou ouvir o coração. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sou ouvir o coração. Mostrar todas as mensagens

Sopros



Há momentos que não se completam por faltar uma pequena coisa qualquer. Há momentos que podiam ser felizes mas, de uma forma quase turtuosa, são tristes pela alegria que queremos partilhar nos fazer sentir, ainda mais, a falta do alguém com quem queríamos partilhá-la.

Há momentos em que a alegria que se vê por fora em sorrisos é por dentro também um aperto, um nózinho. A sentir uma falta, uma ausência que se desenha ali ao lado, como o espectro de um fantasma.

E nesses momentos, em instantes quase mágicos, as sombras podem tornar-se quase palpáveis. Estranha coisa essa que põe um ausente ali ao lado. Presente sem toque nem voz, mas presente. E ausente, com cheiro, mas ausente. Como um sopro, a passar por dentro de mim.

O que é que se passa aqui?



Não tenho escrito aqui e tinha vontade de não escrever mais. Pensei seriamente em criar um novo espaço. Levou o seu tempo a assentar a poeira mas agora é menos confuso e decidi-me voltar. Preciso tanto de escrever. E este é mesmo o meu espaço.

O ano começou bem para mim. Estou a pisar novos caminhos ainda um pouco insegura, e muitos trilhos ao mesmo tempo. Mas entusiasmada com as várias perspectivas. O meu filho também está bem, de volta em semana de mãe, cheio de mimo e saudades. E eu dele, apesar dos desesperos do costume...

Tenho novos desafios profissionais aliciantes e tenho ocupado parte do meu tempo a aprender e a sentir as coisas para me decidir. Tem corrido muito bem, em vários aspectos, tem-me feito um bem enorme, não só o ocupar-me de forma diferente, mas também o desafio de aprender e experimentar coisas novas.

No plano afectivo, muita coisa aconteceu nos últimos tempos, e muita coisa mais de trás de repente começou a encaixar-se, a cimentar-se, aos poucos. Sabe-me bem a vida assim, sabe-me bem o desafio e esta estranha sensação de destino, de certezas quase absurda desde o primeiro momento. Dá-me uma paz enorme a partilha de momentos inesquecíveis, os abraços, os silêncios entendidos de parte a parte, encaixados com toda a naturalidade e fluidez em conversas profundas. Arrepia-me a intensidade do que tem sido, e do que sinto que está para vir. Embala-me e adormece-me tranquila, acorda-me leve e bem disposta. É quase como uma magia, ou algo muito próximo pela banda dos ocultos, tal a estranheza de coincidências e compatibilidades, situações e empatias.

Talvez se pegue, não sei, ou talvez também seja pelos projectos e novas experiências profissionais. Mas o certo é que me sinto cheia de uma energia imensamente positiva, sinto-me de facto feliz, e também sinto imensa vontade de acreditar, de ter fé, na vida em todos os sentidos. É verdade que tenho também a correr nas veias a adrenalina dos perigos que sinto, e os meus medos atávicos à espreita, sei bem. Mas por agora, tenho os medos açaimados e a adrenalina da sensação de perigo não me pôs a fugir - estou apenas alerta, muito alerta, mas a adorar cada passinho de conquista, e a apreciar cada momento feliz que me ilumina e que arquivo, em película de um filme que se vai desenrolando docemente, suavemente, um argumento que flui fazendo as peças encaixarem-se uma a uma nos seus devidos lugares.

Sombras do Futuro



Um segundo a mais, ou um segundo a menos, e todo o curso de uma história, de uma vida, se modifica. Uma volta para a esquerda, em vez da volta para a direita, a decisão de milisegundo que tomamos sem pensar e sem saber o que acarreta. Fazemo-lo todos os dias, a toda a hora, e raras vezes nos apercebemos do que mudamos na nossa história por optarmos inconscientemente por isto ou por aquilo, por cada segundo que nos atrasamos ou adiantamos no curso programado dos nossos dias.

Mas também acontece sabermos que estamos prestes a dobrar uma esquina de destino. Acontece às vezes suster a respiração sem saber se estugamos o passo ou se arrepiamos caminho. Se nos lançamos no que quer que esteja do outro lado da esquina ou se lhe fugimos ao avistar as sombras que projecta.

Todos os futuros não são mais do que sombras projectadas retrospectivamente. Sombras de alguma coisa que ainda não é mas que se esboça lentamente à frente do caminho. Como todas as sombras, as do futuro não trazem os contornos precisos e reais dos originais ainda inexistentes que projectam, não trazem o detalhe, o pormenor, e não trazem para o aqui e agora aquilo que não existe ainda se não em mera sombra projectada.

Cada dobrar do tempo é um sol a iluminar uma nova realidade que se vê sem sombras. É uma descoberta, uma surpresa, que pode ser boa ou má. Reconhecendo o momento, é preciso saber bem, muito bem, se se está realmente disposto a, e capaz de, lidar com esse futuro feito hoje, independentemente do que traga, independentemente de não corresponder às sombras que projectou no momento do primeiro passo. Ou do primeiro beijo.

Brisa do mar





Confidente do meu coração
Me sinto capaz de uma nova ilusão
Que também passará,
Como ondas na beira de um cais
Juras, Promessas, Canções
Mas por onde andarás
Pra ser feliz não há uma lei
Não há, porém, sempre é bom
Viver a vida atento ao que diz
No fundo do peito o seu coração
E saber entender
Os segredos que ele ensinar
Mensagens subtis
Como a brisa do mar.


De Chico Buarque

Ultimatum


Muito bem. Assumi o risco, abri-te a porta. Tu foste entrando. Devagar, fui-te deixando puxar as pontas do meu emaranhado próprio e único, talvez um pouco assustador, eu sei. Não tiveste medo e disse-te: Toma. Dou-te. Está tudo aí. Grandezas e miudezas, grandiosidades e pequenezas, bons e maus, claros e escuros, sopros e ventanias, sussurros e gritos, certezas e dúvidas, alegrias e angústias. Mas espera... tens de puxar os fios todos. É que enredada no emaranhado por desfazer eu sei viver. Solta dele, um dia, talvez seja mais feliz. Mas a meio não. Se só puxas uns quantos fios, conforme o que te agrada ou te convem, eu puxo de volta. E sabes?... Pôr-te os fios todos na mão, até os que me custam mais, que me prendem mais, é acto de fé, e de coragem. É despir-me. É dar-me. Sim eu sei... É o tudo ou nada. É corpo “e” alma que te dou. É um dar que não me faz sentido quantificar. Não é muito nem pouco. É dar, simplesmente.

Toma. Dou-te. Aqui está. Sou eu. Toda de mim. Vê bem agora se me queres assim, toda, ou larga os fios que te sabe bem puxar. Fazes-me mal assim. Tenho frio.

Andando



Tenho para aqui um monte de linhas soltas a popular uma página desorganizada. Uma série de ideias, de pensamentos, coisas que me andam na cabeça a rodar e que ainda não consegui destilar. Apetece-me escrever, mas não sei por onde começar.

Partir e voltar tem duas chegadas e dois destinos, mas divide o tempo em três – antes da partida, na duração da viagem, e no regresso à base. Do primeiro tempo está tudo aqui, mais que escrito e destilado. Do segundo tempo, tenho as fotografias e as memórias, envoltas numa bruma estranha ao som de kizomba, e que não se encaixa na linearidade que habitualmente damos ao tempo. Parece que não fui eu que estive lá, parece quase que não foi real. E o terceiro tempo, que corre agora, ando ainda a aprender a contar, e tenho dificuldade de o apreender antes de se evaporar.Tanto o tempo em que estive lá como estes três dias desde que regressei me sabem a passado longínquo. Estranhamente, enquanto lá estive, parecia-me que o tempo não passava, e agora que voltei, acho que foge de mim como um louco, ou me empurra desvairadamente para um lugar estranho.

Ocorre-me que são novos caminhos, que não seguem os trilhos conhecidos e expectáveis dos mapas que já sabia de cor. Desembarquei do avião uma outra, por duas vezes, e a cada aterragem deparei-me com essas novas realidades. Sei que o mal destas linhas soltas aqui espalhadas, a razão porque não consigo articulá-las, é porque misturam esses três tempos, esses três eus em que me plasmei. Tenho de apagar umas quantas linhas que já não pertecem ao aqui e agora de mim e da minha vida. Quero separar umas outras para marcar a memória, e quero fazer as restantes crescer, com o passar dos dias, passando de linhas e parágrafos a textos consequentes, à medida que se define o meu novo contorno, num traço mais nítido, a cada passo em frente.

Confiança rima com perdão



Muito se fala sobre confiança nos outros, sobre a sua importância num relacionamento e sobre a forma como se gere o processo. Nos extremos, há quem confie cegamente e quem seja incapaz de confiar. Pelo meio, combinações infinitas de fórmulas próprias, umas mais bem sucedidas que outras. Penso que em geral todos concordam que ambos os extremos são caminhos quase certos de sofrimento. A diferença é que quando se é capaz de confiar, sempre há a hipótese de um dia acertar em alguém que não nos decepcione e não nos torne miseravelmente infelizes. Desconfiar sempre não traz tantas lágrimas e desilusões pelo caminho, é mais "seguro", mas nunca abrirá a porta à surpresa da felicidade, o que acaba por ser um sofrimento morno, mas perpétuo.

E no meio? Como chegar a uma das tais combinações? Confiança é mais do que um processo mental, é também um processo emotivo. Nada mais explosivo que a articulação de razão e emoção, por isso tantas fórmulas pelo meio causam enorme devastação. Do que não há dúvida, penso eu, é que é um “processo”. E do que não tenho dúvida agora é que o “processo” de confiar nos outros começa com a confiança em nós mesmos.

É diferente no amor e na amizade. Eu sou patologicamente desconfiada mas, quase bipolar como sou, há certas pessoas que conseguem rebentar-me com os muros e defesas, e nessas confio mesmo, construindo o processo na emoção. Mas também com elas aprendo depois, seja pela desilusão seja pelo retorno positivo, a construir com a razão. Assim se aprende, por exemplo, a voltar atrás, a ir buscar alguém que nos é especial de volta. No fundo, aprende-se a perdoar, porque se confia que aquela pessoa é, no seu todo, maior do que a pequenez dos seus erros. É da nossa condição humana errar, e quando gostamos de alguém que erra, de certa forma sentimo-nos traídos, e custa perdoar. Mas tal como a confiança, o perdão só se consegue dar aos outros quando o sabemos dar a nós próprios. Perdoar é renovar a confiança. Estende-se a mão das duas maneiras, e só depois se pode continuar de mão na mão, ou separar caminhos, mas sempre verdadeiramente em paz.

Os amigos em quem confio são pouquísimos, mas existem. E acarinho-os porque me fazem tão bem, porque me fazem sentir humana, me ensinam a confiar em mim própria e a perdoar os meus próprios erros, e porque me desafiam a preserverar nessa luta de acreditar que às vezes vale a pena – tanto o impulso emotivo como a consciente e racional escolha de confiar e perdoar. Essas amizades são talvez o que me levará, um dia, a arriscar outra vez a confiar com Amor.

Lá onde doi



Há uma expressão da BD da Mafalda que sempre me foi especial, porque acho que retrata tão bem o que às vezes sentimos: “uma pedrinha na alma”. Serve para aqueles momentos em que qualquer coisa toca uma nota especial na nossa alma, nos entristece e nos comove, fazendo sentir um pequeno peso no peito.

Outras vezes, o que nos invade é tão maior, o que nos faz sentir de dentro e o peso que lhe sentimos é tão grande, que nem substituindo “pedrinha” por “pedregulho” faz a expressão alcançar essa realidade. Para mim, a viver uma dessas outras vezes, é tão avassalador que chego a sentir que me matou a alma e secou o coração.

Cheia de zanga e de raiva, não quero deixar-me sentir a dor. Não quero derramar lágrimas para não dar a ninguém essa “satisfação”. No fundo, não quero dar parte de fraca. Racionalizo as coisas por forma a que chame outros nomes ao que sinto e não quero admitir. Fiz isso assim, tal e qual, num instinto de sobrevivência. Ou enlouquecia. Mas cresceu dentro de mim uma vaga imensa de dor. De tanto querer fugir-lhe e negar-lhe a existência, deixei-a crescer. E de repente, uma pequena coisa, que põe ao que não queria admitir sentir o nome que lhe compete, que me desarma pela forma improvável como acontece, rebenta o dique que pensei indestrutível, e por momentos, penosos momentos, verti essa dor violentamente, sacudindo-me o corpo e implodindo-me a alma. E só depois a escrevi.

Não há como medir uma dor de dentro, tal como não há como medir o Amor. Porque não cabem na alma, são muito maiores que nós. E levam tudo de nós, levaram-me a mim para lá, dentro, lá onde doi.

Dúvidas



Uma boa garrafa de vinho depois, uma conversa de duas amigas que não se encontravam há muito tempo leva a conclusões surpreendentes. É uma amiga daquelas que, por mais que passem os anos e nos afastemos fisicamente, cada uma a seguir o seu caminho, por mais namorados e separações, casamentos e divórcios, por mais encontros falhados, quando nos reencontramos é como se nos tivessemos visto ontem. Fomos melhores amigas nos últimos três anos de liceu, e o que cimentamos nesses anos é tão forte que sobrevive a nós próprias, nas nossas individuais transmutações.

Recuperamos num instante os pedaços de vida uma da outra que não couberam nos emails, e ao fim de uma hora já acabamos as frases pela outra. Foi óptimo. Soube-me mesmo bem. E se tivesse mais vinho em casa, teria ido bem para lá das 3 e meia da manhã. Mas no fim, depois de ouvir o meu relato sobre a história do que vivi, e do que não vivi, com o homem por quem me apaixonei tontamente, pergunta-me simplesmente, com ar incrédulo: “E tu achas mesmo que isso não tem volta?!”

E lá fico, a abanar a cabeça que não, não tem, e o coração ligeiramente embriagado a encher-se de coragem para me fazer ouvir por dentro “terá?”... Mas agora estou sóbria e dou por mim a pensar nisto e a ter que escrever este post.

Doce


Que dádiva imensa podem ser as palavras escritas. Que força extraordinária têm de ter para conseguirem saltar de uma folha ou de uma tela directamente para o coração. Que magia têm que ter para transformar a mera fonética que representam em acordes que vibram na alma e se espalham em sentidos corpóreos. Mas é: nas palavras que nos correm viajam sentidos. Mais que os significados e as linhas de pensamento, viajam sensações, emoções. Viajam, curiosamente, nos dois sentidos - aqui de direcção. Há palavras que se escrevem a duras penas e outras que se escrevem em paz. Há palavras que se escrevem e nos esvaziam, enquanto outras nos enchem derramando-se. E há palavras que se lêm com a razão e outras que se lêm com o coração. Destas últimas, há palavras que se sentem na pele, de que se sente o toque, o calor. Há palavras que podemos sentir como um beijo. Doce. Tão doce.

Excertos de mim #3 (adaptado)

Não existem verdades absolutas, mas existem verdades. E a verdade é sempre preferível à mentira, por mais crua e dura que possa ser a primeira e mais doce e suave possa ser a segunda.

Tento sempre alcançar a verdade dos outros, da mesma maneira que tento alcançar a minha verdade. Mas sentir com verdade e falar com verdade é apanágio de poucos. Agir com verdade, é ainda mais difícil. Porque às vezes impomos filtros de lógica ao que sentimos, espartilhando-nos em códigos que nos impuseram. Às vezes calamos a verdade que ecoa em nós, seja por cobardia, conveniência ou piedade. Às vezes agimos contra a nossa essência, a nossa verdade, por mais motivos dos que razoavelmente poderia discorrer numa frase. Mas essa verdade intrínseca não se altera, continua ali, apenas se encobre, se esconde debaixo de uma segunda camada de pele que é falsa, uma casca, que se não tomamos cuidado se torna mesmo uma segunda pele. Se não quisermos ver, ouvir e libertar em palavras.

Mas que atire a primeira pedra quem nunca pecou...

De dentro


As palavras arrastam-se, estendem-se languidamente pelo etéreo do pensamento. Às vezes, assomam quase à superfície, quase se materializam. Outras vezes ecoam no profundo da alma. É inútil, é absurdo, porque a realidade que traduzem em código não muda nem se adia.

Procuro agora, como sempre, um sentido. Penso na insatisfação, o descontentamento, o desconforto que sentia por carregar um destino de que reclamava mas tacitamente aceitava. E tento pensar, acreditar, que quando se fecha uma porta se abre uma janela. Sinto que esta agora é a minha janela, um empurrão, um safanão, que me permite pegar na minha vida e assumir um “basta” por mim própria. Que é altura de olhar para tudo com verdade, de me permitir o compromisso com a vida que me liberte para algo mais feliz. “Verdade” porque é preciso que eu agora seja realmente capaz de assumir o que me faz feliz. Tudo nos faz "falta", mas nem sempre pensamos naquilo de que podemos prescindir, e nem sempre descodificamos a escala de tudo o que fica entre o claramente indispensável e o francamente supérfluo.

É com o coração e alma que tenho de decidir, descodificar-me, temperando a decisão com a razão que, desta vez, não posso deixar levar a melhor. Só posso permitir-me bom-senso q.b., mas quero assumir o risco de dar o passo que me reflecte autêntica.

Tento pensar que não é uma espada o que tenho sobre a cabeça. É uma chave que tenho na mão.

Batimento

Bateu, bateu por ti. Com tristeza e alegria, ora num sossegado sopro de vida ora numa enorme ventania. Sofreu, sofreu por ti, em angústias e dúvidas dilacerantes, em lágrimas de saudade desesperantes. Abriu-se, abriu por ti, na dádiva imensa de mim, nos sorrisos e nos olhares em que me aqueci. Bateu forte, fortemente, a cada enlace, abraço e beijo ardente. Sofreu muito, sofreu tanto, na distância, frieza e desencanto. Cantou alto, altíssimo, na certeza de te conquistar e ver amor no teu olhar.

Agora bate lento, ao ritmo de outra dança, a esvaziar-se de ti e da esperança. Morre aos poucos, cada bocadinho que vai, dizendo adeus a cada enlace, cada abraço, cada beijo ardente, cada angústia, cada dúvida, cada lágrima quente, cada ventania e cada sopro de vida que lhe deste... e lhe tiraste.

Respirei por ti, respirei de ti, tive-te impregnado na pele e no sopro, impresso na alma e no corpo. Tive-te nos sonhos, em cada anoitecer e em cada acordar, o desejo a arder e o pensamento a voar.

Fui-te buscar e não quiseste vir. Ficas portanto, que eu tenho de partir. O vento vai amainar e o meu coração vai parar. De te amar.

Interno destacado


"The Detached

We die,
Welcoming Bluebeards to our darkening closets,
Stranglers to our outstretched necks,
Stranglers, who neither care nor
care to know that
DEATH IS INTERNAL.

We pray,
Savoring sweet the teethed lies,
Bellying the grounds before alien gods,
Gods, who neither know nor
wish to know that
HELL IS INTERNAL.

We love,
Rubbing the nakednesses with gloved hands,
Inverting our mouths in tongued kisses,
Kisses that neither touch nor
care to touch if
LOVE IS INTERNAL."

Maya Angelou


Eu destilo: numa primeira abordagem, leio que não há pior morte que a alma seca, pior inferno que o sofrimento sem sentido, nem fotografia, ou contacto de corpo, que capte ou toque o amor. A morte, o inferno e o amor são internos. Separados, desligados do exterior corpóreo, onde apenas se reflectem – em roupas carcomidas pelas traças e abandono, em enganos de preces a Deuses inexistentes, e em corpos despidos, beijos e línguas que tentam chegar onde não tocam: no interno. Nesse interno que não nos pertence, que não comandamos, não tocamos.

Depois reparo na subtileza do “if” da última estrofe e de repente esta ganha um sentido novo. E agora leio que o amar corpóreo não toca o interno “se” o amor for interno. O que é difícil de destilar...

Maya Angelou é uma das minhas poetisas favoritas. Mas geralmente deprime-me destilar os poemas dela. Só que não vivo sem poesia para encontrar caminhos. A poesia enche-me, embora às vezes de lágrimas também. Este desenterrei hoje pela sensação nova de sentir que, de alguma forma estranha, toquei involuntariamente o interno de alguém, de uma maneira positiva que me enche de satisfação. E nesse sentimento, alguma coisa, também involuntária e estranhamente, tocou o meu interno. E eu que não consigo compreender este poema plenamente, foi a ele que fui dar para reflectir isto, essa noção de “interno destacado”.

PS: Prometo que não há poesia por aqui nos próximos dias...

Sem Data

Não ouve “nunca”. Nem cratera. Nem jogos, nem fuga. Vale dar mais algum tempo. Quanto? Não sei. A esta pergunta, ironicamente, responderá o tempo. Mas alguma coisa mudou. Para melhor. Ainda não tenho as palavras agora. Ainda é "até amanhã meu amor" só que com uma surpreendente serenidade.

À espera

"Se o amor quiser voltar
Que terei pra lhe contar?
A tristeza das noites perdidas
Do tempo vivido em silêncio.
Qualquer olhar lhe vai dizer
Que o adeus me faz morrer
E eu morri tantas vezes na vida.
Mas se ele insistir
Mas se ele voltar
Aqui estou sempre a esperar."


Esperar na estrada já é um passo. Quer-se chegar lá longe, atrás da colina, a um sítio que não se vê. Sabe-se. Não se pode ir sozinho por essa estrada que se estende aos nossos pés. Espera-se.

E entretanto, contempla-se o horizonte. O mesmo sol que brilha do outro lado, no fim da estrada. Imagina-se o destino. Sonha-se o destino, sonhamo-nos lá. Mas também é bonito aqui à volta.

Há tempo.

NOTA: O poema é de Vinicius de Moraes

Estou aqui

É vê-lo, e venho sempre aqui parar.
Amanhã tenho de andar e não sei para que lado vou.
Depois contarei por qual dos caminhos a dúvida ou ele me levou.
Espero. Escuto. Por ele. O meu coração. Luto, ou continuo o luto?
Quero andar. Para a frente ou para trás? É a minha vez.
Mas preciso da palavra, sonora e clara, de uma vez.