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Não sei se peça mesmo...



Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

("Súplica" de Miguel Torga)


... porque me habituei demais a viver dessa sede de sal. Mas gosto do silêncio, da calmaria, e sei que o sal das palavras já não me chega.

Partida

As coisas que tenho e me vestem, me adornam, também são parte do que sou. Vão em malas a encher o carro, para que me possa transportar. Carrego comigo para férias o que sou e o que visto, tal como o que sinto e o que penso. De repente apetecia-me reduzir tudo ao mínimo, ao essencial, e viajar deixando quase tudo na gaveta. Apetecia-me chegar ao meu destino de férias e não me reconhecer no espelho, ou melhor, nem me ver no espelho. Apetecia-me deixar as roupas, as pulseiras, os sapatos, tudo guardado nas gavetas e armários. Mas por mais que me dispa de roupas e adornos, não posso deixar nas gavetas o que está guardado em mim. E carrego comigo também o que queria deixar, e assim deixo mais gavetas vazias do que precisava, porque assim me escondo mais. E quando olhar para o espelho verei o exterior que me define e oculta o interior que me extingue.

Estou presa ao que não quero sentir, ao que não quero pensar, ao que não quero ser. Estou presa e quero partir. Não tenho asas e quero voar. Tenho memória e quero esquecer. Sei que tenho de desistir, mas não deixo de acreditar. Sei que tenho de viver, mas continuo a esperar. Sei contar os dias, os meses, mas ainda não deixei o tempo fechar. Zango-me com tudo e comigo própria, não entendo, mas não me liberto. Quero fugir disto e de mim, mas não sei como. Já tentei parar, já tentei fingir que não sei, à espera que o tempo se encarregue de diluir no vácuo o que não me pertence mas me domina. Já tomei resoluções, já me impus penitências. Já me desculpei e recompensei. Mas acabo de volta ao inevitável de sentir que não me livrei, ainda me corre nas veias, ainda me aperta o peito, me consome, me entristece, me acorda e me adormece.

Os quilómetros da distância que vou percorrer não me levam para longe, não me levam de mim. Mas talvez o tempo que vou viver de outra maneira me possa ajudar e reecontrar uma forma de viver com isto em paz. Já que não posso expulsar, talvez consiga empurrar tudo isto para um cantinho mais escuro, arrumar muito arrumadinho, e aprender a viver sem o peso de o carregar comigo a cada passo, cada quilómetro, cada minuto do tempo que se desfia à minha frente, que devoro na ânsia de que acabe.

Boas férias para mim. Era bom serem férias de mim.

A Dançar na Bruma


Às vezes parece que tudo conjura para nos dar cabo da vida. Ou pelo menos da paciência. Amargura-me sentir que não consigo verdadeiramente andar para a frente. Amarras prendem-me. Sinto-me zangada, irritada, até com coisas menores que não são realmente importantes, mas não são realmente como queria que fossem. Por mais que o tempo passe, por mais que o tempo esteja fechado, por mais que o assunto esteja arrumado, o certo é que ainda tenho de lutar todos os dias para não pensar, não recordar, não me deixar afectar pela tristeza que cá mora. E esse mesmo esforço é uma forma de continuar afectada por isto, por ele, e reconhecê-lo é frustrante e enfurecedor.

Quero fugir-lhe. Quero não o ver. Quero não me lembrar dele, do rosto, do nome, do gosto, e de tudo o resto. É cada dia mais fácil, é certo. Cada dia é um pouco menos o tempo de luta, é um pouco menos dura a luta. Mas é ainda cada dia. E a cada dia fico mais vazia. A cada dia fico mais sozinha. Disfarce o que disfarçar, escreva o que escrever, distraia-me com o que seja. Sinto que me envolvi propositadamente num nevoeiro cerrado, para que nem eu veja. Mas sei. Sei muito bem.

Sinto a ventania de volta. Junto com a tristeza, a irritação e a raiva, a vontade de me encher de qualquer coisa que ensope os restos dele e me encha de novo de algo diferente. Tenho urgência de animação, de turbilhão, de movimento desabrido. É sempre assim quando me peso tão insignificante. Preciso de um milhão de actividades, gente, barulho, luzes e cores. Ocupar-me, cansar o corpo, ocupar a mente, recuperar-me o espaço que ele ocupou, expropriou de mim.

Apetece-me mandar tudo à merd@. Borrifar-me para tudo e para todos e sair por aí sem pensar no dia de amanhã. Beber mesmo uns shots de um trago e deixar-me ir. Rir, rir muito, para que as lágrimas nem cheguem aos olhos, espantar a desilusão. Cantar e dançar, dizer disparates, brilhar por aí, para espantar a solidão. Estou capaz de uma loucura só para sossegar esta besta que me consome. Procurar outros braços, outros braços quaisquer, não importa, não interessa. Queria provar que não preciso dele para nada, absolutamente nada. Provar-me a mim sei lá o quê e porquê. Até sei. Tanta coisa. Queria dar-me peso, significância. Ronda-me a tentação. Seria tão fácil.

Mas sei o que custa acordar. E sobretudo, sei que não lhe quero reconhecer esse poder sobre mim. Pode ter-me levado muita coisa, pode levar-me ainda muito mais, mas não posso deixar que me leve a essência. E sei que, na essência, não quero nunca mais nada pela metade, nunca mais quero um engano destes. Quero tudo, tudinho, um bilhete full fare, com tudo a que tenho direito, e em primeira classe. A mesma paixão doida, a mesma ternura inebriante, a mesma frescura, a mesma fogueira, a mesma intensidade de cor e sabor. E assim fico sem nada, a não ser uma recordação inútil, um desencantamento e uma tristeza, na solidão da bruma do que não foi, nem será. E que esconde o vazio de que não me consigo livrar.

Por isso também oiço outra música.

Vendaval

É uma tormenta que me assola, de tal ordem que nem escrevo há dias. Chego à conclusão que não sei escrever sobre raiva, sobre zanga. De outros sofrimentos é mais fácil por qualquer razão estranha. Estou zangada, sim. Tenho raiva, sim. Não sei escrever porque não sei dizer. Não gosto de gritos, de murros na mesa, de portas a bater. Não gosto de lágrimas de desespero, de lamentos audíveis, da voz a tremer. Aprendi a enterrar estas coisas para não admitir derrota. Afinal sou orgulhosa. Que coisa tão feia sou afinal. Que coisa abjecta que não quero sentir e não quero ser. O que fazer com esta fúria, com estas ganas de gritar? O que fazer com esta ventania de coisas que me desorganiza, que me desequilibra, que me dá um frio que não consigo aquecer?

Finalmente hoje gritei. Comigo, no espelho, com o murro no peito e minha própria porta a bater, na corrente de ar que me gela e despenteia. A maior zanga é comigo mesma. A raiva é com a minha culpa. Fiz das lágrimas estas linhas, silenciosas e mesmo assim a tremer. Apetece-me abandonar-me num choro, num lamento profundo e audível, mas não o consigo fazer. Apetece-me voar com a ventania e aterrar do outro lado de um tornado, num mundo em que nada faça sentido e onde, ainda assim, não me sinta perdida, por ser tão sem sentido como o resto dessa realidade insana. Rodopio com o vento, num emaranhado de mim, de roupagens rasgadas a expôr o que tento esconder. Sou trapos, hoje sou farrapos, e não sei coser.

Estou à deriva no vento da ira.