"Destilar", cientificamente, é "separar componentes químicos que constituem uma substância através de vaporização seguida de condensação". Serve para muita coisa, nomeadamente, para produzir bebidas espirituosas. Aqui, é uma tentativa de purificação da mistura de tudo o que sinto, penso e vivo. A aguardente do que sou.
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Testes
Como tenho uma qualquer veia científica, provavelmente herdada do meu avô paterno que era investigador (engenheiro de origem), decidi pensar numa série de testes para alminha que resolveu engraçar-se por mim.
Confesso que, ao pensar nisto a princípio, dei por mim a sorrir maliciosamente e a dizer-me “ele esta nunca vai passar!”... Depois achei que é, e será sempre, demasiado cedo na minha vida para me transformar numa daquelas horríveis professoras velhas, chatas e azedas que tinha no liceu, e que faziam testes para lixar o pessoal. Enfim... a bem da justiça e das oportunidades, e essa treta toda, pus umas coisas mais rebuscadas de lado.
O danado tem-se safado. Por exemplo, já aguentou estoicamente quase 1 hora e meia de messenger em conversa séria, até dá boas respostas, e encaixou todas as minhas fugas às insinuações, ou melhor, declarações mais ousadas. Dessa vez, só nos últimos 10 minutos é que assumiu uma clara mudança de assunto, e pronto, até teve a sua graça. Noutra ocasião, também já resistiu à conversa da astrologia e saiu-se muito bem (esta adoro, é um bocadinho perversa – porque ficou sem saber até ao fim se eu era ou não uma maluquinha esotérica, que não sou nem por sombras, mas nem por isso se demoveu...). E em conversa mais aquecida, nunca passa o risco, fica lá sempre muito, muito perto, cada vez mais perto, mas não passa. E também reagiu muito bem a um travão que pus nesse registo, e a uma certa gestão de expectativas que fiz em relação ao nosso encontro. Inspirou-me confiança.
De repente fiquei a pensar se não fazemos sempre isto mais ou menos inconscientemente. Estes pequenos “testes”, geralmente perguntas aparentemente inofensivas, pequenas curiosidades, ou afirmações potencialmente chocantes, fazem-me lembrar um cross examining numa sala de tribunal. O único senão é que ninguém jura nada sobre coisa nenhuma, e não há polígrafo para confirmar a autenticidade das respostas. É uma questão de intuição e montagem, aos poucos, do puzzle do outro com aquilo que se vai sabendo, sendo que só ao fim de algum tempo é que se percebe o que se está a construir, e se há ou não peças que não encaixam em lado nenhum, e onde estão as peças em falta. Este puzzle tem-se montado num instante e já dá para perceber muita coisa, mas ainda há demasiadas peças soltas.
Não sei que puzzle é que ele construiu de mim e espanta-me, confesso, este entusiasmo tão galopante. Já percebi que ele apanhou muita coisa, assustadoramente mais do que pensei ter dado, mas a última foi chamar-me “cocktail explosivo”, num sentido muito positivo, e na sequência de uma conversa sobre razão vs emoção... Nem o facto de eu ser o montinho de paradoxos que aqui me conhecem parece que o afecta, antes pelo contrário. Imagino que também me deve ter submetido aos seus próprios testes, e a julgar pela “animação”, passei a todos... With flying colours, parece.
Mas o grande teste só mesmo ao vivo e a côres. Espero que sem tremores... Esse vai ser o primeiro polígrafo. Se passar, o veredicto do jurí pode levar menos tempo a sair.
Engatar ou cortejar?
As mulheres passam a vida a queixar-se que os homens, hoje em dia, são uns atadinhos, que não tomam iniciativas, que não sabem o que querem ou que têm medo de se assumir na conquista “activa” de uma mulher. Partilho dessa opinião, e também me tenho queixado do mesmo. Por outro lado, queixamo-nos dos tais homens-melga, que também não gostamos de insistências idiotas, sobretudo quando não estamos mesmo interessadas e eles não há maneira de perceberem.
E agora cai-me no colo um homem que sabe claramente o que quer, que assume frontalmente uma postura de conquista, e me faz um cerco cerrado. Ele é Face Book, ele é Messenger - e longas conversas, números de telefone trocados – e usados, e um convite para jantar com direito a dança a seguir, “até nascer o sol”.
E o que é que eu acho disto?... Acho piada. Gostei dele, conversamos imenso no dia em que nos conhecemos, através de uma amizade comum. Temos afinidades diversas, é certo, somos ambos pais divorciados e por isso entendemos bem essa dimensão especial das nossas vidas, e ele não se “assustou” com a minha vida complicada. É um homem maduro, inteligente, gosto da conversa dele e do sentido de humor. Mas...
Isto é rápido. Muito rápido! Jantar a dois assim sem mais nem menos assusta-me um bocado. Resolvi aceitar o convite, mas felizmente, por um acaso do destino, afinal não seremos só dois. E fiquei aliviada mas a pensar porque é que me havia de assustar com uma postura que é frontal, honesta, afinal aquilo que advogo que todos devemos ser uns com os outros. Desde que não haja leviandade na abordagem, o que é cedo para determinar, é assim que acho que devia ser. E também desde que não se torne demasiado “pavão”, que não há paciência para shows de vaidade nesta idade... mas o certo é que ainda não sei se a ideia dele é "engatar" ou "cortejar" - e são coisas muito diferentes.
Até agora nada me faz crêr que ele não seja boa pessoa (até porque as “referências” são muito positivas). Mas o certo é que me custa acreditar em pureza de motivos. É que neste novo caminho, ando sem ilusões de contos de fadas e princesas. Ando a escrever linhas novas sem poesia, e já não espero milagres. A questão é se me terei tornado demasiado céptica, ou antes absolutamente lúcida.
Raios o partam

Gostava de perceber que bruxedo é este, que de cada vez que finco os pés no chão e me sinto capaz de voar, sua excelência, o senhor do meu coração em tempos que queria idos, tem a amabilidade de me invadir a vida outra vez. Assim como que a marcar presença, a fazer-se notado e lembrado. Até parece que lhe “cheirou” que ando tão bem que nem fechei a porta a uma nova possibilidade que surgiu inesperadamente e que me fez pensar, pela primeira vez, “why not?...”.
Mas a lembrança que ele hoje me traz, já não é só dos sorrisos, dos beijos, dos abraços, da química e do fogo da pele com pele. Hoje lembro-me também dos meses de mim escaqueirada em mil pedacinhos que andei a custo a varrer do chão, e com muita ajuda a colar com esmero, na reconstrução do puzzle de mim. E sei que não quero voltar a ter esse trabalho todo, não quero voltar ao limbo do sofrimento em que andei entre os "quero mas não quero". Basta-me reler o que escrevi para me arrepiar, e arrepiar caminho.
Como sempre, não o consigo ler e sei que qualquer tentativa de leitura me pode fazer mal. Porque sei que ele é um poço de dualidades, de repentes e coisas ditas sem consequência, mas que têm em mim em efeito poderoso. Sei que ele é perigo, sei que sou inflamável e que ele é chama. Não o quero tão perto, porque tenho medo de inflamar mesmo de novo e não quero mais “days after” dolorosos.
Por isso agora não vou teorizar, não vou sequer tentar interpretar. Numa variante nova da minha estratégia de sobrevivência, serei literal e lerei literalmente. Não embarco no jogo da advinha ou da insinuação, porque não quero mais zonas cinzentas. Para mim é amizade com uma história, que está lá atrás e não continua nem se repete. E se houver uma nova história, desta vez escreve-se com linhas direitas, palavras claras e frases completas. Seja em que registo fôr, e para mim pode ficar no registo da amizade, que era até a forma que eu gostava de arrumar o assunto, dando pelo menos a esta história um desfecho mais bonito. Ele não me é indiferente, nem nunca será. É verdade que apesar de tudo me sabe bem tê-lo por perto, e gostava de o manter na minha vida. Mas só se fôr sem lágrimas.
Aqui estou eu, sei que de alguma forma perversa lhe pertenço, mas também sei que, antes de mais, me pertenço a mim e me cabe a mim evitar o curto-circuito. E o primeiro passo para isso é manter a porta aberta e uma visão de helicóptero que me permita não perder os outros olhares que se cruzam convidativamente com o meu, e não perder de vista o rumo que me tracei e este caminho que agora me sinto bem a trilhar. E se a coisa se complicar, peço aos céus que me iluminem e que descarreguem sobre ele um raio... que o parta!
Das escolhas e riscos do Amor
Amar alguém será sempre um risco para mim, algo que verei como perigoso, que sei que pode doer, e muito. Noutros riscos que assumo na vida, sou obrigada pelo meu lado racional a pesar prós e contras, analisar o grau de risco e tentar montar redes de segurança para as eventuais desgraças que possa antever. Mas esta racionalização no Amor é, para mim, quase impossível. Ao contrário do que alguns pensam, eu - e acho que a maioria das mulheres - não escolhemos um homem para nos apaixonarmos de check-list na mão, a pensar muito bem na escolha que fazemos. Pelo contrário, acho que não escolhemos ninguém - é o Amor que nos escolhe e escolhe por nós e, de repente, estamos apaixonadas.A única alternativa é escolher não correr o risco, não dar azo a sofrimentos, mesmo que tenhamos de nos afastar de pessoas por quem nos começamos a apaixonar, ou que até preenchem uma série de requisitos de uma teórica "wish list" de sonho. Essa agora é a minha máxima: o meu lema por estes dias é "chega para lá". Não quer dizer que não olhe à volta, mas sei que o Amor é perigoso e para assumir o risco tinha de ser uma coisa tão, tão poderosa, que sei que não vai acontecer. Já cresci o suficiente para saber que essas listas não são fiáveis, não há coisas "poderosas" dessas a cada esquina, e também já calejei o suficiente para saber que amor com amor se paga, e não há quem aguente financiar um relacionamento a solo, hipotecar-se até à raíz do cabelo, assinando sozinho todas as letras e livranças.
É verdade que também há quem escolha alguém conscientemente, calculada e friamente. Mas essa não é uma escolha de Amor. Essa é uma escolha diferente e sinceramente não acredito que seja assim que a maioria das pessoas escolha os seus companheiros. Eu não sou assim com certeza, pois só soube "escolher" idiotas toda a vida. Se tivesse sido por escolha, tinha muito que me chicotear, ou aceitar uma tremenda falta de inteligência que acho que não me define. Os idiotas da minha vida por quem me apaixonei não se classificaram por lista nenhuma, por nenhum tipo de escolha racional. A idiota no Amor fui eu, não por me apaixonar, mas por ter investido demais em pessoas que, na realidade, ou não me mereciam ou não eram as certas para mim. No fundo, juntei ao azar uma enorme casmurrice, uma persistência que se tornou teimosia (e por essa sim, mereço um certo auto-flagelo).
Mas convenhamos que aos 35 já era tempo de ter um pouco de sorte e ter acertado num homem de jeito. Mais um bocadinho e acho que desafio a lei das probabilidades, por muito que o mundo esteja cheio de idiotas. Mas como devem ser assim à razão de uns 10 idiotas para 1 decente, ainda devo ter mais uns quantos na calha. Só espero que não tenha que chegar ao décimo para acertar...
Modernices, sem género
Escrevi há tempos que somos todos muito mais parecidos do que se pensa, mas todos muito mais complexos do que gostaríamos, e a conjugação de tanta complexidade começa a tranformar-se numa equação absurda.Fui repescar esta frase por várias razões. Lembro-me de me ter surpreendido a mim própria ao escrevê-la, mas hoje conclúo que a escrevi iluminada por um espírito qualquer (“Santo”, é que duvido), porque descreve perfeitamente a imbecilidade do mundo em que vivemos. E é a conclusão também dos meus exercícios sobre lógicas femininas e masculinas. Mas mais que isso, ocorreu-me pela sugestão de uma querida amiga, na tentativa de me fazer conhecer pessoas novas, fora dos meus círculos habituais, provavelmente a “teoria da substituição” na melhor das intenções. Sugere ela... “Speed dating”!
OK. Primeiro ri – a bom rir. Ela a insistir e manda-me um link. Depois ri mais um bocado e disse-lhe que provavelmente não encontraria aí o tipo de pessoa compatível, porque teria a mesma reserva que eu tenho a embarcar numa coisa dessas. Ela contra-ataca e enquanto eu leio “testemunhos”, mostra-me a “garantia” da empresa do dito link (que é qualquer coisa como “se não encontrar ninguém interessante, o evento seguinte é grátis” – e eu pergunto-me para que é que uma pessoa quererá aturar uma segunda estucha e repetir a figura, mesmo que seja de graça, se for para provar que aquilo não funciona!). Eu rio ainda mais um bocado (sim, já começa a ser demais), e por fim franzo o nariz. Ela insiste, diz-me que os tempos são outros, diz-me que é muito "internacional", e oferece-se para ir comigo. Quando lhe recordo que é casada, diz-me que leva o marido também, e que ele ía achar a ideia fantástica...
Somos todos almas da mesma espécie, vivemos todos neste mesmo único mundo, há de haver por aí algures as “outras metades” de cada um de nós, apesar da complexidade da equação que deve dar um grau de improbabilidade estapafúrdio, e de facto desencontramo-nos muito. A vida é a correr, não sobra tempo nem espaço para muito mais do que aquilo que se “tem de” fazer, mas... speed dating???...
Não sou preconceituosa, mas sou desconfiada. Ou se calhar apenas pouco moderna, ou pouco internacional, mas no meu tempo conheciam-se pessoas saindo, andando por aí, os amigos dos amigos, as amigas das amigas, jantares, festas, etc., até que surgia um interesse mútuo, ou surgia um “clima”, trocavam-se números de telefone, conversava-se, as pessoas íam-se conhecendo, e depois, era o que fosse o destino.
Agora, passar uma hora com “potenciais interessantes” a rodar a cada 5 minutos, apontar os “aparentemente interessantes” num cartão (ao fim de 4 minutos de conversa – qual conversa em 4 minutos???), para depois receber os contactos se eles também me acharem a mim interessante, parece-me mesmo, mesmo, mesmo, decadente. Se alguém tem um "testemunho" positivo duma experiência destas, que não se ofenda, cada um é como cada qual.
Sorry dear... Not my thing! Antes dar conversa ao próximo que se meta comigo de forma inteligente (bocas patéticas não contam). Curioso que, a última vez que me lembro de uma abordagem inteligente dessas, e que até me fez rir, foi na madrugada do primeiro dia do ano, no Kubo (quando é que aquilo reabre, por amor de Deus?!), na fila do bengaleiro, e com “ele” à minha espera para nos irmos embora. Se soubesse o que sei hoje, tinha dado seguimento à conversa, até trocado números de telefone, e quem sabe se não tinha mudado de ideias sobre "ele"?... Back to the dating scene I am, but the old fashioned way...
Quero o último amor
Dei por mim a pensar que pode muito bem acontecer que os anos vão passando e nunca encontre “o” homem da minha vida. Ou que simplesmente, mesmo que vá encontrando umas promessas de amor, a vida não permita concretizar essas promessas em algo sólido e duradouro, “para a vida”. Assim sendo, terei de encarar a possibilidade de ser solteira até à morte. Mas não pretendo desistir de procurar.Por enquanto tenho o meu filho a depender de mim, e assim será durante ainda muitos anos. Isso deixa pouco espaço a outras coisas, e é um desafio extra para qualquer relacionamento que venha a tentar. Agora, ocupa-me a vida, e não me deixa sentir totalmente só. Um dia seguirá a sua vida, porque os filhos não nos pertencem, e sabe-se lá por onde andará quando eu chegar à velhice e não me puder bastar. Também tenho e terei amigos, pretendo continuar a manter-me ocupada e activa, idependentemente da passagem dos anos, embora com as devidas adaptações que a idade certamente irá impondo. Mas não procuro o amor por medo da solidão, procuro-o por missão.
Sei que muitas mulheres vivem hoje em dia solteiras, por opção, e muitas são felizes. Para mim, no entanto, é uma opção de vida que nunca me ocorreu, não é “opção”, é apenas desígnio da vida que me foi calhando. Sinto realmente falta desse amor que procuro. Sei que seria mais feliz se tivesse um companheiro de vida, com quem dividir os vários momentos e fases da vida, com quem crescer, vincar rugas e celebrar cabelos brancos, e com quem cimentar o amor, numa partilha de planos e prazos até ao fim dos meus dias, mesmo que acabem na saudade.
Acho que serei a eterna romântica, sempre à procura. Preocupa-me um bocadinho saber que posso nunca encontrar. Mas sei que nem que tenha 70 anos, estarei num qualquer chá dançante à espera que um charmoso octagenário de flôr na lapela se aproxime e pergunte “A menina dança?”. Estou a ver-me perfeitamente, num momento desses, por mais cataratas que tenha, a olhar para ele com a mesma expectativa e a mesma vontade de que seja ele, finalmente, o “tal”. É que mesmo que seja aos 70, ou aos 80, encontrar o amor será para mim cumprir essa missão de vida.
Há um poema que me é muito especial e já o referi aqui. Para mim, é como quero viver qualquer amor que tenha a sorte de ainda encontrar nesta vida. Sobretudo, quando morrer, que “Eu possa me dizer do amor (que tive):/ Que não seja imortal, posto que é chama,/ Mas que seja infinito enquanto dure".
Mas também por isso não quero encontrar muitos nem poucos amores, quero encontrar o último, que é aquele que conta – é o que me aquecerá o coração num último sorriso, o que me sossegará o espírito no último fechar de olhos, e o que permanecerá na eternidade de depois da morte. Quer ali esteja de mão na mão no momento do adormecer, quer por o saber do outro lado, à minha espera para a eternidade. Esse amor assim, que vai connosco na morte, é o único que realmente contraria este poema. O último amor é o único que conseguirá ser imortal "e" infinito, porque a sua chama nunca se apagará, mesmo que se apague a chama das nossas vidas. E é na crença de que ele existe, e de que um dia o encontro, que me vou apoiando para deixar passar o tempo do entretanto como apenas um compasso de espera.
Quem me dá um abraço
O que é um abraço?
Numa definição de dicionário diz-se que é "acto de apertar alguém nos braços; expressão de afecto ou amizade".
Quantas dimensões têm os nossos afectos? Provavelmente tantas quantos os tipos de abraços que existem. Abraçar um Pai não é igual a abraçar um filho. Abraçar um amante não é igual a abraçar um amigo.
Mas não é só "afecto" - é "expressão".
Dou poucos abraços e tenho poucas pessoas, muito poucas, que me dão abraços. Não me lembro do meu Pai me abraçar a não ser numa ocasião muito especial, muito triste e muito dura, mas desse não me hei-de esquecer por mais anos que viva. Também me lembro apenas de um abraço da minha mãe, ou melhor, à minha mãe, também num momento de enorme dor, minha, que nesse instante senti que era um pouco dela também.
Abracei os Homens da minha vida, os poucos que amei, muito e tanto, mas sempre de maneiras diferentes, com medidas diferentes.
Não sei abraçar os meus pais, os amigos, e perguntava-me se hoje ainda saberia abraçar um homem, porque mesmo que voltassee a amar algum, iria ter de reaprender a "expressar" esse amor.
Só sei realmente abraçar o meu filho, que amo e sei dizer, sei mostrar que amo. E sei que gosto muito quando a minha mana me abraça. Não sei se a sei abraçar de volta, mas gostava de pensar que sim. O afecto está lá, mas a expressão é que custa.
O acto de abraçar alguém, de "apertar alguém nos braços", oferece uma proximidade tremendamente assustadora, tremendamente íntima, para mim. É expor o coração, no meio do peito aberto, a um contacto que tenho medo que me possa ferir.
Afinal, tenho muito ainda que curar em mim, tenho muito ainda para aprender. Mas tenho muito, ainda, para dar.
E depois de escrever isto, veio a insónia... Passei uma noite a pensar na distinção entre o "sentir" e o "expressar". Pensei: será que ainda sei realmente sentir? Será que ainda saberei amar?
Queria saber responder. E um dia, tempos depois, um homem entrou na minha pele e na minha alma, não sei de onde, não sei porquê, e dei por mim num abraço, bom, apertado, sem defesas, numa entrega que teve tanto de mágico como de absurdo. E depois, o medo, o susto, a ferida re-aberta, num repente insano. E deixei-o de fora, não soube mostrar-lhe o porquê. Neguei-lhe o abraço. E cá ando até hoje com ele impregnado em mim, estranhamente apaixonada, mas à distância... de um abraço.
Por isso, acho que, mesmo passado tanto tempo, mesmo feito tanto caminho ao longo dos últimos meses, realmente já não sei amar, mesmo quando me apaixono, porque não me sei dar sem reservas por mais do que uns poucos momentos que dura o ímpeto da química, da mágica, da paixão.
E o pior é que eu queria tanto dar esse abraço, abrir o meu coração, mais do que os braços, e tenho tentado tanto, e não consigo evitar a antecipação da dor. E assim me prendo a uma outra dor.
Numa definição de dicionário diz-se que é "acto de apertar alguém nos braços; expressão de afecto ou amizade".
Quantas dimensões têm os nossos afectos? Provavelmente tantas quantos os tipos de abraços que existem. Abraçar um Pai não é igual a abraçar um filho. Abraçar um amante não é igual a abraçar um amigo.
Mas não é só "afecto" - é "expressão".
Dou poucos abraços e tenho poucas pessoas, muito poucas, que me dão abraços. Não me lembro do meu Pai me abraçar a não ser numa ocasião muito especial, muito triste e muito dura, mas desse não me hei-de esquecer por mais anos que viva. Também me lembro apenas de um abraço da minha mãe, ou melhor, à minha mãe, também num momento de enorme dor, minha, que nesse instante senti que era um pouco dela também.
Abracei os Homens da minha vida, os poucos que amei, muito e tanto, mas sempre de maneiras diferentes, com medidas diferentes.
Não sei abraçar os meus pais, os amigos, e perguntava-me se hoje ainda saberia abraçar um homem, porque mesmo que voltassee a amar algum, iria ter de reaprender a "expressar" esse amor.
Só sei realmente abraçar o meu filho, que amo e sei dizer, sei mostrar que amo. E sei que gosto muito quando a minha mana me abraça. Não sei se a sei abraçar de volta, mas gostava de pensar que sim. O afecto está lá, mas a expressão é que custa.
O acto de abraçar alguém, de "apertar alguém nos braços", oferece uma proximidade tremendamente assustadora, tremendamente íntima, para mim. É expor o coração, no meio do peito aberto, a um contacto que tenho medo que me possa ferir.
Afinal, tenho muito ainda que curar em mim, tenho muito ainda para aprender. Mas tenho muito, ainda, para dar.
E depois de escrever isto, veio a insónia... Passei uma noite a pensar na distinção entre o "sentir" e o "expressar". Pensei: será que ainda sei realmente sentir? Será que ainda saberei amar?
Queria saber responder. E um dia, tempos depois, um homem entrou na minha pele e na minha alma, não sei de onde, não sei porquê, e dei por mim num abraço, bom, apertado, sem defesas, numa entrega que teve tanto de mágico como de absurdo. E depois, o medo, o susto, a ferida re-aberta, num repente insano. E deixei-o de fora, não soube mostrar-lhe o porquê. Neguei-lhe o abraço. E cá ando até hoje com ele impregnado em mim, estranhamente apaixonada, mas à distância... de um abraço.
Por isso, acho que, mesmo passado tanto tempo, mesmo feito tanto caminho ao longo dos últimos meses, realmente já não sei amar, mesmo quando me apaixono, porque não me sei dar sem reservas por mais do que uns poucos momentos que dura o ímpeto da química, da mágica, da paixão.
E o pior é que eu queria tanto dar esse abraço, abrir o meu coração, mais do que os braços, e tenho tentado tanto, e não consigo evitar a antecipação da dor. E assim me prendo a uma outra dor.
Planos
A certa altura, quando o outro blogue, o primeiro e privado, já começava a ganhar tamanho, comecei a olhar para as coisas que tinha escrito e comecei a pensar que tinha mesmo de começar a fazer por mim e pelo resto do meu futuro: planos. Para sobreviver e depois progredir.
Tenho de fazer aquela pós-graduação. Só não sei como vou integrar mais uma exigência na minha vida. Digo-vos, não é fácil investir na carreira e ser mãe, sobretudo quando se faz isso sozinha. Não estou contente profissionalmente. E tenho de remediar um erro do passado. O meu primeiro casamento fez-me desistir da faculdade no último ano. O segundo, pôr a carreira em segundo plano. Nunca terminei a licenciatura, por uma meia dúzia de cadeiras. Mas eis que veio Bolonha. Posso fazer uma pós-graduação. Só não sei a que custo. E não, não é quanto custa a propina.
Este parece ser o meu problema central – integrar as exigências de ser mãe, inegociáveis e irrenegáveis, com a vontade de ser tanto mais. E tudo parece resumir-se a dois verbos: planear e escolher. Só que há coisas que estão escolhidas, algumas mal escolhidas, e agora tenho mesmo de viver com elas. Às vezes pergunto-me onde sobra espaço para mim.
Tenho uma Mãe que adoptei, a que chamo mesmo a minha Mãe adoptada. E tem realmente sido mais minha Mãe que a verdadeira. É uma amizade muito especial.
Ela conhece-me bem. E goza comigo por causa da minha mania dos planos. Já teve umas tiradas fantásticas à cerca dessa minha mania – ok, há que reconhecer que teve piada... Um dia conto.
O problema dos planos é que são escolhas que raramente se conseguem implementar, concretizar, à risca. Há sempre inesperados, adaptações, atrasos para compensar. Novas escolhas para fazer. E reviravoltas tremendas que nos mandam todo o plano para o lixo - coisas que não podemos controlar, outros que não querem ir connosco. Escolhas que nos são negadas. Confesso que lido mal com isso. Tenho sempre um plano B, um plano C muitas vezes. Mas irrita-me profundamente não conseguir seguir os meus planos, não conseguir o que escolhi.
Fico muito organizadinha, mas perco a espontaneadade e, de certa forma, alguma liberdade. E à medida que o tempo passa, não sei se não comecei a deixar de querer fazer planos simplesmente para não ter de lidar com a frustação de ter de os mudar. Acho que é o mesmo com as relações. O medo que corra mal é tão grande que nem quero tentar. Afinal será esse o plano?... Sem espaço para espontaneadade? Mas é uma escolha, pois é?
Só que não era bem isto que eu queria. Não era este o plano.
E isto fez-me ir destilar um outro escrito de há uns meses, sobre o HTML e os homens. Dizia eu então:
E não há mesmo, e mal sabia eu então que havia de estar hoje a sofrer disso mesmo, porque a viver uma angustiante história de quase-amor, “quase” porque não há botão de “anular” para corrigir um momento insano que hei-de destilar à frente, “quase” porque não se pode realmente estar apaixonada por alguém que mal se conhece, “quase” porque está tão perto e tão longe, “quase” porque é tudo e não é nada.
Tenho de fazer aquela pós-graduação. Só não sei como vou integrar mais uma exigência na minha vida. Digo-vos, não é fácil investir na carreira e ser mãe, sobretudo quando se faz isso sozinha. Não estou contente profissionalmente. E tenho de remediar um erro do passado. O meu primeiro casamento fez-me desistir da faculdade no último ano. O segundo, pôr a carreira em segundo plano. Nunca terminei a licenciatura, por uma meia dúzia de cadeiras. Mas eis que veio Bolonha. Posso fazer uma pós-graduação. Só não sei a que custo. E não, não é quanto custa a propina.
Este parece ser o meu problema central – integrar as exigências de ser mãe, inegociáveis e irrenegáveis, com a vontade de ser tanto mais. E tudo parece resumir-se a dois verbos: planear e escolher. Só que há coisas que estão escolhidas, algumas mal escolhidas, e agora tenho mesmo de viver com elas. Às vezes pergunto-me onde sobra espaço para mim.
Tenho uma Mãe que adoptei, a que chamo mesmo a minha Mãe adoptada. E tem realmente sido mais minha Mãe que a verdadeira. É uma amizade muito especial.
Ela conhece-me bem. E goza comigo por causa da minha mania dos planos. Já teve umas tiradas fantásticas à cerca dessa minha mania – ok, há que reconhecer que teve piada... Um dia conto.
O problema dos planos é que são escolhas que raramente se conseguem implementar, concretizar, à risca. Há sempre inesperados, adaptações, atrasos para compensar. Novas escolhas para fazer. E reviravoltas tremendas que nos mandam todo o plano para o lixo - coisas que não podemos controlar, outros que não querem ir connosco. Escolhas que nos são negadas. Confesso que lido mal com isso. Tenho sempre um plano B, um plano C muitas vezes. Mas irrita-me profundamente não conseguir seguir os meus planos, não conseguir o que escolhi.
Fico muito organizadinha, mas perco a espontaneadade e, de certa forma, alguma liberdade. E à medida que o tempo passa, não sei se não comecei a deixar de querer fazer planos simplesmente para não ter de lidar com a frustação de ter de os mudar. Acho que é o mesmo com as relações. O medo que corra mal é tão grande que nem quero tentar. Afinal será esse o plano?... Sem espaço para espontaneadade? Mas é uma escolha, pois é?
Só que não era bem isto que eu queria. Não era este o plano.
E isto fez-me ir destilar um outro escrito de há uns meses, sobre o HTML e os homens. Dizia eu então:
Primeiro criei o blogue, com base num modelo, super-rápido e super-fácil. Depois comecei a mexêr nas cores das letras, nas fontes, a pôr umas imagens, etc., mas tudo simples – é só seguir passos pré-definidos, carregar em botões – brincadeira de crianças.
Agora descobri o HTML........................
Pode-se mexer em quase tudo! Quanto mais se escolhe, menos se acerta, porque mais se tenta, mais se quer. É uma canseira. Pré-visualizo, mexo mais um bocadinho, e acabo sempre a carregar no botão de “anular modificações”.
No fundo, também é assim com os Homens. Só não há o botão de "anular"...
E não há mesmo, e mal sabia eu então que havia de estar hoje a sofrer disso mesmo, porque a viver uma angustiante história de quase-amor, “quase” porque não há botão de “anular” para corrigir um momento insano que hei-de destilar à frente, “quase” porque não se pode realmente estar apaixonada por alguém que mal se conhece, “quase” porque está tão perto e tão longe, “quase” porque é tudo e não é nada.
Mais valia estar calado
Depois de me separar, toda a gente me queria levar a saír e me queria apresentar a amigos. Gente que gosta de mim, são uns queridos, querem animar-me. Eu também queria ir, descobrir os sítios novos que não conheço, e redescobrir outros onde não ía há anos. Mas às vezes a coisa corre mesmo mal.
Uma vez fui com uma das minhas irmãs (não a minha “Mana”) a uma festa num desses sítios onde nunca tinha ido. Apresentou-me a um amigo. Ele era giro, a conversa era gira. Tudo muito promissor até ele dizer (ele é professor) qualquer coisa como que a culpa da indisciplina não era das crianças, mas do facto de virem de “famílias destruturadas”.
A minha irmã: mãe solteira. Eu: mãe divorciada.
Fogo...
Uma vez fui com uma das minhas irmãs (não a minha “Mana”) a uma festa num desses sítios onde nunca tinha ido. Apresentou-me a um amigo. Ele era giro, a conversa era gira. Tudo muito promissor até ele dizer (ele é professor) qualquer coisa como que a culpa da indisciplina não era das crianças, mas do facto de virem de “famílias destruturadas”.
A minha irmã: mãe solteira. Eu: mãe divorciada.
Fogo...
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