"Destilar", cientificamente, é "separar componentes químicos que constituem uma substância através de vaporização seguida de condensação". Serve para muita coisa, nomeadamente, para produzir bebidas espirituosas. Aqui, é uma tentativa de purificação da mistura de tudo o que sinto, penso e vivo. A aguardente do que sou.
Gelou
Não sei se choro, se rio. Não quero verter mais lágrimas que não mas mereces. Mas isto não tem piada nenhuma. É duro, duríssimo, constantar o que dei de mim, o quão especial te fiz, o quanto te desculpei, julgando-te um homem que não és.
Não sei se devo sentir-me maior ou menor. Senti-me maior quando te fiz especial para mim, senti-me maior mesmo na forma como sofri por ti. Mas da mesma forma que fazer alguém especial para nós nos faz melhores e maiores, ser para alguém muito menos do que valemos também nos faz menores e piores. Isso não consigo evitar sentir, e isso não te desculpo. Não te perdoo que tenhas feito de mim o que não sou, que me tenhas feito sentir igual a quem desprezo, e que tenhas feito do que te dei algo tão baixo. Não te perdoo que deixes numa das coisas mais especiais da minha vida uma marca tão suja que chega a repugnar-me. Marcaste-me também agora da pior maneira possível. E levo essa mancha comigo.
Também sinto alívio, se queres saber. Rasga-me por dentro, fere-me a alma, vêr-te pelo que és. Mas percebo que tenho muito menos culpa do que a que andei a carregar tanto tempo. Percebo, claramente, que não me mereces, nem nunca mereceste. Foste para mim excepção em tudo, e com isso te fiz excepcional. Mas não o és. O homem que achei vislumbrar em ti não existe. A mulher que não soubeste ver em mim não te pertence nunca mais.
Quando digerir isto tudo, quando puder rir, digo-te apenas que me és tão estranho como eu te sou desconhecida, e assim quero permanecer. E digo-te que a vida dá muitas voltas, mas pelo que és nunca terás da vida mais do que tens, e eu, eu sei que terei muito mais e muito melhor que tu. Por mais feia que seja a vingança e o rancor, direi então que quem ri por último ri melhor.
Levem-me as Ondas do Mar
Ontem misturei desalento à ventania da minha raiva. Nada na minha vida parece que quer realmente andar para a frente e libertar-me. São outras histórias que não pertencem aqui, pertencem ao outro blog que é mais meu canto escuro, caverna dos detalhes e pormenores, nomes e datas.
Aqui sou quase ninguém. São só textos. Uns melhores, uns piores. Para a maioria dos que aqui voltam, apenas palavras que, de alguma forma, farão algum sentido, darão caminhos para explorar, ou permitem identificações e abraços à distância.
Oxalá ajudem alguém a compreender o que não alcanço, mas de que parece que finjo perfeitamente enorme sabedoria.
Hoje terei uma prova de fogo. Não queria. Não queria mesmo, não queria já.
Não pedi para encontrar Amor, antes pelo contrário - há uns meses atrás não me queria apaixonar. E zás... levo com uma paixão de caixão à cova, ando aí a voar, e acabo largada num trambolhão. Para quê, então?
É demais para a minha alma esfarrapada. Tenho tantas mazelas para tratar. A minha vida é de loucos. O mundo parece-me cada vez mais uma realidade insana. Eu estou a ensadecer. Todos os meus dias são provas de fogo. Estou farta destas Olimpíadas. Também não pedi para ser atleta.
Hoje precisava de ver o mar, sentir o mar. Mas não tenho tempo. Se pudesse, ía afogar-me no mar. Embalar-me no vai-vem das ondas. Respirar ao ritmo do rebentamento. Inspirar o sal da espuma no ar, para purificar a alma, para me sossegar. Para encontrar Paz, ou me perder.
Wish me luck...
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PS de dia seguinte: Não pude ontem, mas fui hoje. Troquei o almoço por uma sandwich. Fiz 30 minutos de caminho, metade para cada lado, a maior parte na marginal. Para os 15 minutos de contemplação do mar que me tinha prometido. O mar estava calmo. Azul de prata. O céu meio encoberto mas um sol quente. Até cheirava a mar. Um pássaro pousou bem perto, chilreou alegre o tempo todo. E isto é que é daquelas coisas que eu sei que valeu a pena. A alma não é pequena, e maior ficou.
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Uma após uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva espuma
No moreno das praias.
Uma após uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o espaço
Do ar entre as nuvens escassas.
Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.
Só uma vaga pena inconsequente
Pára um momento à porta da minha alma
E após fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada.