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Sonho



Não me acordes. Deixa-me ficar aqui, assim, quieta. Não me despertes o pensamento. Deixa-me ficar lá, no reino dos sentidos, dos etéreos, do tempo sem nexo. Lá, onde escorres por mim, pelos meus caminhos, onde escorro por ti, mãos nas mãos.

Não me faças abrir os olhos. Não quero ver o sol que desponta, nem as núvens no céu. Quero recordar a luz de prata que se derramava na pele despida. Não quero olhar-te os olhos. Quero vêr por dentro das pálpebras o teu sorriso, quero sentir na pele o arrepio que me desenhas.

Shiuuu. Não fales. Deixa-me deslizar neste silêncio, nesta música que me embala numa sinfonia de acordes sem som. Não quero ouvir as tuas palavras. Quero ouvir-te no abraço dos corpos e guardar-te a alma entrelaçada na minha.

Não me acordes. Lá onde estou estás comigo por inteiro e é assim que te quero, sempre. Acordo quando aqui te puder encontrar da mesma forma, no mesmo equilíbrio, na mesma harmonia, no mesmo enlace.

Um dia, talvez



Um dia vou ter um Natal só meu em algum lugar longínquo. Onde as chamas de uma lareira de facto me aqueçam, e onde um abraço especial não me deixe a saudade de todos os que faltam.

Um dia vou ter um Natal que seja um dia feliz, apenas por ser mais um dia, tão feliz como os demais, apenas por ser mais uma noite, em que sei ter atracado segura na paz do derradeiro cais.

Lá chegarei



Pacifico-me, entendendo que não quero mesmo baixar os braços. Sereno, debitando palavras que me fogem como um sorriso involuntário que se desenha nos meus lábios. Levanto a cabeça, com a convicção, talvez idiota, que já estou no caminho.

Não sei qual é o meu caminho, mas não é desistir. Começo a sentir nítidos os contornos de brumas que vagueiam por mim em sonhos. E sinto um fervilhar qualquer que me deixa na antecipação de que está a começar. O futuro, está a começar.

Let's Tango


Gosto de dançar contigo. Sinto que dançamos realmente como um par. O enlace que nos une os corpos é perfeito. Consigo soltar-me e seguir-te, sentindo no teu toque e no balanço do peso dos corpos por onde me queres levar. Sabes que me levas para onde quiseres, e que me rodopias tantas as vezes quantas as que puderes. Pois é... Mas é bom, foi tão bom... Voar nos teus braços sem saber para onde vou. Mas o meu corpo sabe, sabe sempre, sente e segue o teu corpo, sem perder nunca o equilíbrio. Uma sintonia estranha instala-se, e o desejo de manter o enlace faz o resto para que não nos desprendamos e não nos desencontremos. Na pista de dança, pelo menos...

Mas falta-nos dançar um tango, sabes? Sim, imagina... A forma mais sublime de uma dança de par, de uma dança de amor, que sei que podíamos dançar. Um tango não é só um monte de passos bonitos, e uns quantos floreados mais ou menos acrobáticos. Um tango é emoção pura. É paixão, desejo, luxúria, ciúme e ira, e ternura e amor. E a música que quase hiptoniza, que vibra por dentro enquanto alterna entre momentos de doçura, que se traduzem em movimentos lânguidos e suaves, e momentos de stacatto, com passos marcados com som no chão e ritmo acelerado. É os nossos corpos a moverem-se em sintonia de encaixe amoroso, fluindo num desejo sereno de abraço com ternura, espelhado pelo olhar. E os nossos corpos que se repelem para logo depois se prenderem com fúria, num impulso de desejo irrestível, que se expressa na força quase violenta com que se agarram e se puxam um ao outro.

Cada um dança um tango de forma única, e tenho a certeza de que cada um que se dança há de ser único. Porque um tango, a sério, só depende do sentir - da música e, sobretudo, do outro que se tem nos braços. É muito mais que uma dança. É a linguagem autêntica do corpo e da alma. Nós nunca dançamos um tango, mas sempre que dançamos foi assim. Talvez por isso nos consiga imaginar tão facilmente nesses passos de dança de paixão.

É. Tudo isto porque ouvi na rádio que a TAP pode vir a voar directo para Buenos Aires. É uma das viagens que quero muito fazer, mas não a quero fazer sozinha. Pensei logo em ti. A primeira coisa que me veio à cabeça foi uma imagem de nós enlaçados num tango. Por uns momentos, enquanto corriam os últimos quilómetros do meu regresso a casa, embalei-me nesse sonho. Quase te senti... Talvez seja o mais perto que alguma vez chegue desse momento. Mas soube-me tão bem aquele bocadinho de ti.

Não sei dançar o tango, mas vou aprender. Um dia há de haver alguém que não hesite em se meter num avião comigo para ir soltar uma paixão assim numas ruas argentinas. Gostava que fosses tu. E, no entanto, não te posso propôr um “let’s tango”. Mas fico ainda a pensar, talvez um dia, quem sabe?... Até lá, e enquanto não danço, vou ouvindo. E sonhando a recordar.

Sonhar é Fundamental



Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria,
ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama


Também chamo a isto a força de acreditar.

Encontro - Um Pequeno Conto


Era uma noite escura, com um céu carregado de núvens densas e vagarosas, a encobrir as estrelas que não tinham força para fazer derramar a sua luz sobre a estrada. Chovia aquela chuva miudinha, insidiosa, que nem chega a ser fria, nem água pura, que invade até o oxigénio do ar e contamina tudo com uma humidade peganhenta.

De vez em quando, um clarão de luz, como se fosse uma ideia luminosa carregada de uma raiva eléctrica, atravessava o céu e podia mais que as núvens, derramando uma fracção de luz mentirosa, enganadora, inconstante, que apenas deixava vislumbrar o caminho por um breve instante.

Logo no segundo seguinte havia sombra e tudo eram sombras, cores pardas e sons abafados, pelas núvens, e pelo chuvisco, e pela noite. Uns segundos, e o rugido da fúria a tomar conta do lugar, primeiro mais lento e distante, ecoando ao longe, depois mais presente e furioso e dilacerante. E depois mais distante.

No caminho ecoavam passos pequeninos. Eram passos difíceis e inseguros, que o caminho era de terra feita lama, do mesmo breu da noite, invisível de tão indistinto o caminho e o céu e tudo à volta. Os pés afundavam-se apesar do pouco peso do corpo, e quanto mais o cansaço, e quanto mais a humidade, mais os pés se afundavam. A alma pesava-lhe também de tão nublada. As recordações, as dúvidas dilacerantes, as incertezas de outros passos, as lágrimas já choradas, a sua história enfim, era mais peso que o corpo esbelto, quase magro demais, frágil e cansado, e ainda assim a opôr-se à intempéride para avançar. Ele estava no fim do caminho e ela pertencia àquele destino.

Cada avanço era mais penoso que o anterior e não se vislumbrava o destino, nem se avistava a sombra que ela esperava ver de mão estendida à sua procura, vinda em seu auxílio. “Onde andarás?” – perguntava-se ela. O desânimo consumia a força que a seguir consumia a vontade. E a cada passo, mais um bocadinho de lama do caminho se colava e se impregnava naqueles pés delicados mas feitos de barro, do barro da estrada, desesperados pelo avanço mas que na lama se afundavam. Também chovia dentro dela aquela chuva miudinha, húmida e peganhenta. Também disparavam dentro da sua cabeça rasgos de luz mentirosa que por momentos a enganavam na certeza do caminho e no vislumbre fugaz daquela sombra que não existia. E a desilusão e a mágoa e o arrependimento rugiam tão alto como os trovões.

Então levantou-se o vento. Fresco, surpeendente, vindo não se sabia de onde, de que ponto cardeal e de que altura. Soprou de mansinho e depois ganhou pujança e fez-se dono do lugar. Alvoraçou-a. Espantou as sombras da paisagem, secou-lhe a humidade da roupa e do corpo e dos longos cabelos. Deixou de chover e o ar limpava-se. Mais passos, cansados mas agora com a leveza da esperança, a tornarem-se mais seguros, a espinha dorsal a reencontrar a sua posição natural. O briho das estrelas já chegava e o caminho tornou-se mais claro, tanto que nem era preciso fixar os olhos no chão para ver e seguir em frente. A lama foi secando e tornando a progressão mais fácil, porque a lama seca se solta do que antes emparedou e faz-se em pó com apenas um toque.

De repente, os seus olhos encontraram o céu. O vento dela e de um ponto cardeal indefinido, que tinha subido também acima do lugar, dispersara as núvens. Com espanto, viu uma lua redonda, brilhante, dourada, prenhe. Pensou que de promessas e de sonhos. Ali assim, ao alcance da vista que se desocupara de perscutar cada centímetro do caminho que agora se fazia de cor, já sem pensar na sombra da mão de ajuda porque ansiava. Pensou como era mais fácil fazer o caminho assim. Inspirou o ar agora respirável e deixou-se em contemplação por momentos, estendendo a mão esguia como que a tocar o astro e a sentir a sua força.

Ao voltar a olhar para a frente viu-se na chegada. Sem saber como tinha chegado e o que era feito do seu cansaço e desespero. Olhou de novo a lua e, então, concedeu-se um sorriso. E toda ela irradiou com a força dos raios da luz que contemplava e que a enchiam. Ela era lua. Brilhante, dourada e prenhe, da força das promessas e dos sonhos realizados. Subitamente dentro do abraço da sombra que procurara e que a tinha também buscado no caminho. Cumprindo-se o destino.

“Chegamos”, dito em simultâneo num beijo. “Andemos”, dito no primeiro passo a dois do novo caminho.

Carrossel Encantado

Um dia desencantei-me. Desencantei-me comigo e com a vida. Isso foi há muito tempo atrás. Depois encantei-me por mim. Reconquistei-me e libertei-me de muitas maneiras diferentes. Com isso a vida passou a ser mais fácil, e o carrossel rodou. Tornei-me mais mulher. Encantei-me pelo meu filho e tornei-me mais mãe. Os outros encantaram-se comigo e eu com eles, tornei-me mais amiga. No fim, até mais filha me tornei.

Depois apaixonei-me, quando pensava que nunca tal me iria acontecer. Por uns poucos momentos, encantei-me com a vida em todo, pensando que encontrara "aquele" amor. Tornei-me mais alegre, mais feliz, o carrossel em voltas mais mágicas. Mas também me tornei mais descuidada, muita velocidade. Desequilibrei-me e sofri, desencantei-me outra vez, o carrossel andava sem mim.

Mas tornei-me mais forte, reforcei o sonho, ganhei balanço, gira, gira o carrossel. Continuo Princesa, mulher, e mãe, e amiga, e filha, e ainda me encanta a vida, e ainda encanto outros, e ainda há outros que me encantam, e ainda me encanta a ideia de um dia encontrar esse amor. Mesmo sabendo que a probabilidade é ínfima, que talvez o amor que idealizo seja um ideal irreal, um sonho. Mas encanta-me sonhar, e o carrossel a rodar, rodar.

Encanta-me acreditar. Encanta-me a ideia de que uma surpresa boa pode acontecer. Encanta-me a ideia de me poder encantar. Até me encanta andar às voltas neste carrossel encantado e não saber onde vou parar, girando e girando, na esperança de no todo me re-encantar.

Mas devagarinho...

PS: Pronúncia, este escrevi ontem mas não publiquei porque entretanto escrevi o outro texto. Sai da gaveta hoje por causa de palavras tuas. ... Vou andando, mas ainda não cheguei, não é ainda o tempo de mudar o nick...

Um dia não são dias

Hoje apetecia-me ter podido chegar a casa sem pensar em practicalidades. Apetecia-me uma boa música a tocar e uma companhia para uma daquelas conversas abandonadas, com silêncios, mas com alguma risota, algumas profundidades, sem grande nexo ou preocupação de articulação de ideias. Aquelas conversas em que se vai dizendo o que nos vem à cabeça e nos vai na alma, e vamos ouvindo o mesmo registo, e de mansinho vamos dizendo e ouvindo as coisas mais verdadeiras de nós. A conivência de um momento de retempero merecido, após um longo dia cansativo e uma semana que ainda vai a meio e já pesa. Partilhar uma garrafa de um bom vinho e deixar-me levar devagarinho por tudo isso: a música, a companhia, a conversa, o vinho. Sem pensar em mais nada. Sentir-me relaxar, sentir-me confortável, e segura, e acompanhada. Acompanhada não só por uma presença, mas por esse confortável abandono partilhado. A verdadeira intimidade.

É disso que sinto mais falta.

E agora a realidade... (imaginem uma agulha a atravessar um disco de vinil)...

O que tive foi a correria do trânsito para ir buscar o miúdo, a luta do estacionamento, o carro longíssimo de casa, negociar o caminho entre as pedras da calçada centenariamente mal mantida, do alto dos meus saltos, hoje bem altos (quem me manda a mim ser fashion). O miúdo todo ranhoso e rabugento, a espernear para ir para o banho, a espernear para saír do banho. O jantar, a cozinha suja para limpar e arrumar. O miúdo a rabujar com a comida, com os medicamentos, com a hora de ir para a cama. Uma montanha de histórias para dormir, e “a mãe tem de ficar aqui a dormir comigo”, eu toda torta na cama minúscula, a ver as horas passarem até ele adormecer e a pensar no que ainda tinha de fazer. Carregar a máquina de lavar, preparar roupas e mochila do dia seguinte. Basicamente, cheguei a casa e o que tive foi mesmo um monte de practicalidades, imperativos da rotina de uma mãe e dona de casa.

E agora uns minutos para escrever e dar uma vista de olhos por aí, e o cansaço e o sono já não me deixam força para mais. É verdade que ainda tive uns momentos bons - fartei-me de rir quando o meu miúdo deu largas à imaginação a descrever as nossas supostas férias na neve lá para a época do Natal. Mas hoje não era bem isto. Um bocadinho ao lado....

Enfim, lá está... Posso sempre sonhar. E hoje se me tirassem o sonho, tiravam-me quase tudo. Levavam-me a esperança de dias melhores. Mas um dia não são dias e isto é só um desabafo.

Quando Morre o Sonho Morremos Para a Vida

Um sonho pode ser uma escapadela do nosso subsconsciente, alguma coisa que não queremos ver com os olhos da razão a forçar a sua ida à superfície. Muitas vezes assoma num código que nós próprios não entendemos. Pode ser bom, expressão de uma vontade ou de um desejo que se concretiza na nossa cabeça, assim para nos dar um gostinho daquilo que podia ser, quem sabe para nos despertar a vontade de fazer por isso. Ou pode ser mau - um pesadelo, um medo qualquer enterrado lá atrás, um bicho de estimação das nossas memórias ou da nossa célula primordial, alguma coisa de que fugimos, um fantasma, uma assombração.

Pode ser no plano do consciente, uma vontade, um querer. Mas nem sempre assumido e verbalizado, às vezes tido por impossível, mais uma vez a desenrolar-se num plano irreal, na nossa cabeça, um pouco mais lógico porque mais consciente, mas ainda assim a experiência do gosto da concretização do sonho. Construções mentais de cenários irreais, o famoso "sonhar acordado". Geralmente é bom, às vezes pode ser tão, mas tão bom... Só custa um bocadinho o acordar.

Mas pode ainda ser alguma coisa que é tão fundamental, que queremos tanto, de que precisamos tanto, em que acreditamos tanto, que se torna numa razão de ser, de nós próprios ou do que fazemos com a nossa vida, por onde nos levamos e como. E pode assim comandar a vida.

Porque é que não comanda sempre? Porque é que não conseguimos passar todos os sonhos que expressam o mais essencial sentir da nossa alma para o plano do consciente, e daí para o plano do possível?

Às vezes são os sonhos maus, os medos primordiais, na maior parte resultantes dos sonhos que perdemos antes. É fácil desanimar. É fácil deixar de acreditar. É difícil a coragem de continuar a lutar pelos sonhos, é difícil calar fantasmas, é difícil perdoar. É difícil espantar o medo e viver com o risco.

Eu confesso que tenho medos. Queria espantá-los, viver os meus sonhos. Queria acreditar, arriscar. Mas não sofrer, claro, ninguém quer sofer... Por isso tive medo de sonhar. Tive medo de amar. Tive tanto medo de viver. Mas, hoje, tenho medo é da força do acreditar que vou descobrindo, tenho medo do sonho que passei para o plano da consciência, e que lá vai ganhando raízes. Tenho, paradoxalmente, medo de perder o medo e me lançar. Porque ainda tenho medo de sofrer.

E depois, às vezes temos de largar os sonhos. É diferente de os matar. Às vezes temos de aceitar a impossibilidade do real, e isso custa muito, doi muito. Mas não nos pode impedir de sonhar outra vez ou matar os outros sonhos que temos, recusando-lhes a subida à consciência e a oportunidade de se realizarem. A oportunidade de viver.

Acredito que o ser humano tem de se sublimar, não pode ser uma mera existência, uma sobrevivência. E não há viver sem amar, sem realizar sonhos, e sem sofrer. Por isso o sonho comanda a vida, sim. Temos é que encontrar a coragem de o deixar assomar à superfície e não o deixar morrer. De não nos deixarmos morrer. Eu sobrevivi e, mais que isso, quero viver.

Vivo No Sonho

E volto às minhas próprias palavras para tentar andar para a frente, apenas para esbarrar com a impossibilidade de me libertar. Desculpem-me, é maior que eu. A lógica não seca o amor. Escrevi há dias na resposta a um comentário: "Antes a luta contra todos os muros e barreiras, e a dor da impossibilidade do caminho. Também custa, claro. Mas pelo menos pode-se lutar e pode-se gritar de revolta contra algo tangível. Eu, neste momento, não sei nada. Nem por onde quero ir, nem se posso, nem se luto, nem se esqueço, nem se aguento, nem se morro de amor, nem se me matou já a dor."

E de repente, percebi que não estou a viver uma história de amor, ou desamor. Ele e o que sinto, e o que vivo em volta dele, são apenas construções mentais. Não são reais. Não têm existência, porque não há substância. São sonhos. O que existe é apenas meu: o amor que sinto e alimento com essas construções mentais, que por isso não é nada. E não vale a pena morrer por algo que não é. E assim, devia conseguir desconstruir na mente o suporte que alimenta o sentimento. Mas não consigo.

O amor só pode "ser" quando se alimenta de amor. Não quando se alimenta de futuros que não existem, ou de ilusões - mesmo que muitíssimo bem articuladas na lógica da mente, ou mesmo que muito vívidos os sonhos, real e físico o cheiro de um ausente que me invade pelo nariz. Será realmente amor aquilo que sinto? Tem de ser menos, muito menos. Talvez seja apenas uma semente, cuja angústia é não ter onde beber para "ser" o que podia germinar. E a minha luta é encontrar razões para esquecer a semente enterrada na terra, e deixar de espreitar todos os dias pelo rebento verde a subir acima do nível do chão. E deixar de a regar com aquilo que nunca poderá fazê-la germinar. Só a chuva que não controlo, que é dele, e que teima em não cair ali, pode, eventualmente, fazer a semente germinar. E se não chover, a semente há de apodrecer, secar enterrada na terra fértil. Um desperdício, sim. Mas a terra continua fértil, e não pode deixar de chover um dia. E a semente que receber essa chuva há-de germinar para "ser". E então eu não a deixo secar.

Queria poder escrever apenas adeus. E dizer-lhe: adeus meu amor ou minha dor, adeus ilusão. Não és nada, não existes, a não ser nas minhas lágrimas. Lágrimas que vão da minha alma aos meus olhos. Mas dos olhos teimam em não escorrer. Lágrimas que não quero, não consigo chorar. Para não secar, não gritar a despedida. Porque posso construir todas as lógicas de desconstrução, posso escrever todas as palavras de adeus, mas não te posso tirar de mim, não consigo deixar-te ir, não consigo não sonhar, não consigo não te cheirar. Não consigo chorar nem deixar de te chamar meu amor. Sou fraca, ou muito burra, e muito triste. Não posso gritar contigo, que me largues, que te vás. Porque não estás aqui, mas estás em mim, de onde não te consigo arrancar. E não te esqueço, nem aguento, morro mesmo de amor, mata-me um dia essa dor. E só assim morrerás também - comigo.

Mas não quero morrer. Por isso, fecho a porta devagarinho, deixo-me deslizar pelos lençóis, fecho os olhos com vontade de te encontrar em mim, de te cheirar de novo, a cada noite antes de adormecer e nos sonhos que acalento. E só te consigo dizer: até amanhã meu amor. E cada despertar desses sonhos, que custa na tua ausência, dói precisamente no sítio onde estás – dói em mim. És de mim e não me posso libertar, porque morria se te tentasse matar. E assim, sonho.


PS: Encontrei o que melhor descreve o que são estes sonhos para mim aqui, num blog de que sou completamente viciada, onde releio muitos textos, e este especialmente. A "estranheza" aí referida é tal e qual, misturada com a doçura. Foi também uma "estranheza", de outro género, que me matou assim, e de que hei de poder falar um dia.

Quero asas


Deu-me para ouvir Lenny Kravitz... Não precisava de ir tão longe para ver a Via Láctea ou Marte. Bastava-me ir ali a Bazaruto, ou ao Mussulo, Hawai, Caraíbas, uma ilha tropical qualquer. Só precisava de ser longe, muito longe, e voar alto, muito alto. Ter o mar como pano de fundo, e o som das ondas a embalar-me, um calor de corpo e alma, dentro do abraço que quero tanto, para disfrutar de um pôr-do-sol assim, e perder-me nuns certos olhos depois do sol descer a linha do horizonte.


Tenho uma coisa pelo pôr-do-sol... E hoje o que sinto cá dentro é que quero mesmo ir à procura deste pôr-do-sol, e desse abraço, e desse olhar. Conheço o abraço, conheço os olhos, deixei fugir, fugi de mim. Mas agora quero voar, sem paraquedas, sem medo de caír. Ele está ali mesmo, afinal à espera, simplesmente, que eu deixe as minhas asas abrirem-se, e me deixe ir, com ele, a voar ao sabor do vento, entregar-me aos elementos, sustentada na leveza do que sinto e com a força do abraço dele, sentido.

E hoje quero a força de acreditar que tenho asas e posso voar.