"Destilar", cientificamente, é "separar componentes químicos que constituem uma substância através de vaporização seguida de condensação". Serve para muita coisa, nomeadamente, para produzir bebidas espirituosas. Aqui, é uma tentativa de purificação da mistura de tudo o que sinto, penso e vivo. A aguardente do que sou.
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Epílogo
Tenho andado a debater uma série de coisas, e muitas acabam por pôr em causa a existência deste blog, pelo que dei por mim a pensar no assunto em si. Sei que o blog acabou por ser muito diferente do que inicialmente pretendia, mas nunca deixou de ser o que sou vertida em textos, destilados da minha vida e da minha alma, tanto com o sabor acre do desencantamento e do sofrimento, como com o sabor doce dos momentos de encantamento e alegria. Este blog foi o que quis num aspecto: a voz da minha intimidade audível, ainda que anoninamente.
Nunca escrevi para uma audiência, embora tenha dirigido perguntas ou dedicado linhas a quem me lia. Nunca escolhi temas em função de comentários, muitas vezes pelo contrário, confesso que sobretudo quando começava a achar o blog demasiado populado. Mas é certo que houve uns quantos que me acompanharam, e que eu aceitei nessa intimidade que partilhei sem rosto, e que me fizeram muito bem. A esses, um enorme obrigada, pela paciência, pelas palavras de alento, ou pelas palavras de contentamento pelo meu contentamento, ou pelas sacudidelas ocasionais, ou pelas perguntas difíceis. Houve coisas dessas que nunca vou esquecer, e verdadeiras amizades que estão a crescer.
Mas se é verdade que soube bem, e sabe, sentir uma companhia em certos momentos, empatias, identificações, também é verdade que não procurava pela escrita que os outros me compreendessem. A tal "voz audível" não era tanto para os outros mas mais para mim própria. Procurava entender-me, conhecer-me melhor, arrumar as minhas gavetas. Mas esse propósito também se baralhou por vezes, e cheguei a irritar-me ao sentir que tinha, por vezes, de me justificar perante quem me lia. E algumas vezes a irritação era comigo própria, porque de alguma profundeza houve momentos em que também me quis sentir compreendida. Mas foi sempre uma tentativa, honesta, de encontrar uma forma de avançar mais serenamente, num caminho que era novo na altura em que me estreei nos blogues.
Hoje sei que a estrada que percorremos é sempre nova, na medida em que cada dia é diferente, e nunca sabemos o que nos pode saltar ao caminho a seguir à próxima curva. Hoje sei que o conta é o que levamos por dentro a cada passo que damos e nos permite lidar, melhor ou pior, com os solavancos e os saltimbancos desta vida. E também sei que o passado que carregamos é apenas excesso de bagagem. Vive-se, aprende-se, integra-se, e o resto tem de ficar para trás. Também o blog.
Considero agora que, tal como o primeiro foi um ensaio deste, este é um ensaio de um eventual terceiro. Para quando não sei, mas tenho a certeza que há de surgir. Este, hoje chega ao fim, por razões que não vou discutir com ninguém, nem aqui nem em lado nenhum. Não me arrependo nem por um segundo, por nenhuma palavra ou linha, foi uma excelente terapia ao longo de quase 1 ano, foi importante para todos os passos que tinha de dar, e foi a porta para uma nova dimensão, de mim e da vida. Esta porta fecha-se, mas descobri uma enorme janela aberta na alma.
Desejo a todos os que me leram tudo de bom, e brindo a um eventual reencontro num outro espaço qualquer, numa qualquer curva da estrada. Eu sou rápida no gatilho porque já deixei para trás muitos saltibancos, mas pergunto sempre primeiro quem vem lá. E tenho a certeza que vou gostar de reencontrar alguns de vocês. Deixo-vos com uma citação do Dalai Lama que se pode aplicar a quase tudo nesta vida, e que agora aplico ao blog:
"Old friends pass away, new friends appear. It is just like the days. An old day passes, a new day arrives. The important thing is to make it meaningful: a meaningful friend - or a meaningful day."
A "meaningful blog". Para mim foi, e isso é que conta.
O amor não existe
A propósito do Facebook, alguém me disse que, supostamente, os tais 6 elos de ligação da famosa teoria do “Six Degrees of Separation” equivalem à “distância” entre um Europeu e algum esquimó. Pensei então que, se calhar, era no Polo Norte que me esperava o Amor, sentadinho num igloo qualquer, já a desintegrar-se de tão enregelado.
Até há pouco tempo, pensei que fosse suficientemente louquinha para, se soubesse que o amor que queria viver estava no Alasca, apesar de detestar o frio e mesmo de nariz gelado, ir ao encontro do destino nesse igloo. Mas hoje sei que não. Hoje percebi que não sou assim tão louca – percebi, fria e tristemente, que já não acredito no amor. Acho que a minha insatisfação crónica, e o meu “azar” crónico com os homens, são produto um do outro, resultam de procurar o que não existe, e assim se traduziram em experiências que me tornaram céptica. Não estou disposta a correr a distância, ou o risco, para procurar uma coisa que agora acho que é uma quimera. De uma forma irónica, tornei-me quase no mesmo dos que sempre condenei, e hoje só sou capaz de olhar para um possível relacionamento com a frieza de quem aceita incontestável o facto de que o amor não existe mesmo – o que existe é tesão, a que chamamos paixão, mas que também dura muito pouco – dizem que 7 meses em média. E é incontestável que todos passam, tal como nós passamos pelos outros, e até o “amor apaixonado”, que dizem que se pode seguir à paixão e será, talvez, o mais próximo do idealizado “grande amor”, dura em média 3 anos. Não existe “para sempre” em nenhuma história, e muito menos o “felizes para sempre”. E há certas coisas que não se justificam se não forem no pressuposto da eternidade.
Essa promessa eu não posso fazer a ninguém, nem aceito que ma façam, simplesmente porque não acredito. Por ora, é apenas isso que ainda me distingue do que não queria ser – mesmo chocada por me ouvir e chocando quem me ouve, sou honesta, claríssima, transparente, não prometo nem quero promessas, não embelezo nada dando nomes falsos às coisas, e só vou a jogo nessas condições. E mesmo assim, só se for por aqui, porque não vou ao Alasca, ou à Austrália, por isso – é que não se justifica mesmo.
E o certo é que, munida desta nova convicção, se torna tudo muito mais fácil, muito mais simples e descomplexado. E acho que é só porque cheguei a esta conclusão que estou a dar hipótese a que alguém entre na minha vida. Depois do choque de parte a parte, a realidade é que uma situação clara, sem ilusórias expectativas, acaba por ser muito mais confortável para que se expresse numa relação a dois aquilo que nos é mesmo intrínseco. Talvez seja antes este o caminho, talvez permita alicerçar as coisas até com maior solidez. Mas seja como for, e dure o que durar, é autêntico desde o princípio. Pode até acabar com lágrimas de desgosto e saudade, mas não acabará com culpas nem com recriminações, e deixará memórias felizes de momentos bons vividos intensamente e descomplexadamente. Se é amor? Certamente que agora não. Será um dia esse tal “amor apaixonado”? Quem sabe? E por quanto tempo? Uma incógnita. Mas não me importa. O que é agora, é bom. E assim se mantenha (mesmo que se só esses tais 7 meses).
Andando
Tenho para aqui um monte de linhas soltas a popular uma página desorganizada. Uma série de ideias, de pensamentos, coisas que me andam na cabeça a rodar e que ainda não consegui destilar. Apetece-me escrever, mas não sei por onde começar.
Partir e voltar tem duas chegadas e dois destinos, mas divide o tempo em três – antes da partida, na duração da viagem, e no regresso à base. Do primeiro tempo está tudo aqui, mais que escrito e destilado. Do segundo tempo, tenho as fotografias e as memórias, envoltas numa bruma estranha ao som de kizomba, e que não se encaixa na linearidade que habitualmente damos ao tempo. Parece que não fui eu que estive lá, parece quase que não foi real. E o terceiro tempo, que corre agora, ando ainda a aprender a contar, e tenho dificuldade de o apreender antes de se evaporar.Tanto o tempo em que estive lá como estes três dias desde que regressei me sabem a passado longínquo. Estranhamente, enquanto lá estive, parecia-me que o tempo não passava, e agora que voltei, acho que foge de mim como um louco, ou me empurra desvairadamente para um lugar estranho.
Ocorre-me que são novos caminhos, que não seguem os trilhos conhecidos e expectáveis dos mapas que já sabia de cor. Desembarquei do avião uma outra, por duas vezes, e a cada aterragem deparei-me com essas novas realidades. Sei que o mal destas linhas soltas aqui espalhadas, a razão porque não consigo articulá-las, é porque misturam esses três tempos, esses três eus em que me plasmei. Tenho de apagar umas quantas linhas que já não pertecem ao aqui e agora de mim e da minha vida. Quero separar umas outras para marcar a memória, e quero fazer as restantes crescer, com o passar dos dias, passando de linhas e parágrafos a textos consequentes, à medida que se define o meu novo contorno, num traço mais nítido, a cada passo em frente.
Lá chegarei
Pacifico-me, entendendo que não quero mesmo baixar os braços. Sereno, debitando palavras que me fogem como um sorriso involuntário que se desenha nos meus lábios. Levanto a cabeça, com a convicção, talvez idiota, que já estou no caminho.
Não sei qual é o meu caminho, mas não é desistir. Começo a sentir nítidos os contornos de brumas que vagueiam por mim em sonhos. E sinto um fervilhar qualquer que me deixa na antecipação de que está a começar. O futuro, está a começar.
Sísifo – o herói absurdo
Sísifo é um personagem, não é só o o título do famoso poema de Torga. Sísifo-personagem é a metáfora do esforço inútil e incessante do homem que vive uma vida sem sentido mas que o procura eternamente.
Albert Camus (filósofo e escritor francês que ganhou um Nobel) utilizou a metáfora de Sísifo para sustentar a sua “filosofia do absurdo” segundo a qual as nossas vidas são insignificantes e não valem mais do que o valor do que criamos. Como o homem em geral nos dias de hoje não cria nada de valor, vivendo num mundo estéril e desumanizado que aceita, diz Camus que a alternativa a ser-se Sísifo é o suicídio. Porque Sísifo-personagem foi cruelmente castigado pelos Deuses devido às suas virtudes, condenado à cegueira no fundo de um vale, de onde só pode sair se escarpar uma perigosa falésia e ainda por cima empurrando o enorme peso de um pedregulho. E Sísifo não desiste, escala a falésia vezes sem conta apenas para rebolar de novo até ao fundo sempre que está prestes a alcançar o topo.
Para Camus, Sísifo é o expoente daquilo que chama o “homem absurdo” ou o homem com uma “sensibilidade absurda”. Este é o homem perpetuamente consciente da inutilidade e futilidade da sua vida, que ainda assim não desiste de a transformar em algo maior. Os Sísifos de hoje serão aqueles que desejam e procuram claridade e sentido num mundo e numa condição que não oferece nenhuma das duas coisas. Na metáfora, Sísifo um dia chega ao topo, e antes de voltar a caír na sua repetitiva e eterna desgraça, quer olhar à volta e experimentar a sensação de liberdade. Mas é cego. Não verá o que se espraia à sua volta com os olhos. Verá apenas com a alma, e mesmo que por um breve instante apenas, sentir-se-á grandioso e feliz. E isso fá-lo-á recomeçar, preferir a dureza da sua caminhada ao suicídio, à morte. Por isso, Sísifo é o tal herói absurdo.
O poema de Miguel Torga anda por aí. Já quase toda a gente o conhece e, no entanto, quase todos o citam e gostam dele pela primeira estrofe. Mas tem mais, muito mais. A primeira estrofe é positiva, a exortação à coragem, palavras que parecem de esperança, apenas com as ressalvas do “se puderes” e a adjectivação do caminho como “duro”. Mas a segunda estrofe é essencialmente um aviso, é a constatação das agruras inevitáveis e do perigo da loucura – são fatalísticas as “ilusões sucessivas” e o “logro da aventura” – porque Sísifo sempre cai de novo e sempre tem de recomeçar, e mesmo no breve instante em que alcança o topo, não pode olhar à volta porque é cego. As duas últimas linhas são fortíssimas – seremos loucos se nos reconhecermos na loucura, e a loucura é parar, é achar que nos conhecemos. Porque aqui parar é mesmo morrer, e morrer às nossas próprias mãos.
Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
Por muito que custe, por muito que às vezes não veja onde vou buscar a força, por muito o desespero da consciência da inutilidade do esforço, anseio por esse breve instante de libertação no topo do penhasco, de alguma profundeza minha acredito que chego lá, e a cada queda recuso-me a parar. Sísifo, na interpretação própria que faço dele à luz do que entendo da teoria de Camus, é irmão para mim, somos da mesma natureza, embora eu seja mais fraca e tenha os meus momentos de dúvida. Mas somos ambos absurdos.
Epílogo

Já está. Finalmente acabou a espera. A onda bateu e vamos ver o que leva. A espera custou, mas também me preparou. E agora é altura de meter mãos à obra. É um novo ciclo, que espero e acredito que vai ser melhor. E vai ser um novo ciclo total.
Eu estou de pé. E sei que tenho comigo uns quantos de pedra e cal. Obrigada.
De dentro

As palavras arrastam-se, estendem-se languidamente pelo etéreo do pensamento. Às vezes, assomam quase à superfície, quase se materializam. Outras vezes ecoam no profundo da alma. É inútil, é absurdo, porque a realidade que traduzem em código não muda nem se adia.
Procuro agora, como sempre, um sentido. Penso na insatisfação, o descontentamento, o desconforto que sentia por carregar um destino de que reclamava mas tacitamente aceitava. E tento pensar, acreditar, que quando se fecha uma porta se abre uma janela. Sinto que esta agora é a minha janela, um empurrão, um safanão, que me permite pegar na minha vida e assumir um “basta” por mim própria. Que é altura de olhar para tudo com verdade, de me permitir o compromisso com a vida que me liberte para algo mais feliz. “Verdade” porque é preciso que eu agora seja realmente capaz de assumir o que me faz feliz. Tudo nos faz "falta", mas nem sempre pensamos naquilo de que podemos prescindir, e nem sempre descodificamos a escala de tudo o que fica entre o claramente indispensável e o francamente supérfluo.
É com o coração e alma que tenho de decidir, descodificar-me, temperando a decisão com a razão que, desta vez, não posso deixar levar a melhor. Só posso permitir-me bom-senso q.b., mas quero assumir o risco de dar o passo que me reflecte autêntica.
Tento pensar que não é uma espada o que tenho sobre a cabeça. É uma chave que tenho na mão.
Procuro agora, como sempre, um sentido. Penso na insatisfação, o descontentamento, o desconforto que sentia por carregar um destino de que reclamava mas tacitamente aceitava. E tento pensar, acreditar, que quando se fecha uma porta se abre uma janela. Sinto que esta agora é a minha janela, um empurrão, um safanão, que me permite pegar na minha vida e assumir um “basta” por mim própria. Que é altura de olhar para tudo com verdade, de me permitir o compromisso com a vida que me liberte para algo mais feliz. “Verdade” porque é preciso que eu agora seja realmente capaz de assumir o que me faz feliz. Tudo nos faz "falta", mas nem sempre pensamos naquilo de que podemos prescindir, e nem sempre descodificamos a escala de tudo o que fica entre o claramente indispensável e o francamente supérfluo.
É com o coração e alma que tenho de decidir, descodificar-me, temperando a decisão com a razão que, desta vez, não posso deixar levar a melhor. Só posso permitir-me bom-senso q.b., mas quero assumir o risco de dar o passo que me reflecte autêntica.
Tento pensar que não é uma espada o que tenho sobre a cabeça. É uma chave que tenho na mão.
In motion
Um simples momento, um milisegundo, e tudo muda. Um choque em onda percorre o corpo, o coração dispara e corre pela garganta acima. Há náusea, há tontura, luz ofuscante por todo o lado. O cérebro acelera e de repente os olhos absorvem por completo aquela realidade, ensopando a alma de grito que não se solta.
Há momentos assim, devastadores. Deixam uma faca espetada no peito, uma dôr por dentro das costelas que não permite um respirar fundo. A pele exala o cheiro do medo, tacteia-se a vertigem do abismo ali à frente. Os pés não caminham, as mão estão imóveis, a boca fecha-se com força para reprimir o eco do golpe.
Saber que está tudo a outro milisegundo de se tornar real é penoso. Uma realidade absurda que entra pela vida adentro, derrubando todas as peças do cerco pacientemente construído à volta da última peça. A respiração sustem-se na antecipação. Todos os músculos do corpo se contraem num último esforço de resistência. O sono foge, acossado pela angústia das dúvidas do “e depois?”. Mas aquela peça não tem salvação – o impacto está em marcha e é imparável.
Num milisegundo é preciso encontrar a força para não desfaceler. Para não gritar. Não chorar. É preciso pensar, raciocinar, forçar a lucidez ao cérebro para que este pense nos passos a dar, no que fazer, como caminhar.
E no momento seguinte é preciso acreditar. É preciso encontrar a luz ao fundo do túnel. Encontrar os prós, identificar as oportunidades, e acolher os desafios, reconhecendo os contras. É preciso encher as mãos com mãos de carinho, encher os braços com abraços de conforto, secar as lágrimas com ventos de encorajamento, encher a alma com esperança. E seguir caminho. Vertical.
Há momentos assim, devastadores. Deixam uma faca espetada no peito, uma dôr por dentro das costelas que não permite um respirar fundo. A pele exala o cheiro do medo, tacteia-se a vertigem do abismo ali à frente. Os pés não caminham, as mão estão imóveis, a boca fecha-se com força para reprimir o eco do golpe.
Saber que está tudo a outro milisegundo de se tornar real é penoso. Uma realidade absurda que entra pela vida adentro, derrubando todas as peças do cerco pacientemente construído à volta da última peça. A respiração sustem-se na antecipação. Todos os músculos do corpo se contraem num último esforço de resistência. O sono foge, acossado pela angústia das dúvidas do “e depois?”. Mas aquela peça não tem salvação – o impacto está em marcha e é imparável.
Num milisegundo é preciso encontrar a força para não desfaceler. Para não gritar. Não chorar. É preciso pensar, raciocinar, forçar a lucidez ao cérebro para que este pense nos passos a dar, no que fazer, como caminhar.
E no momento seguinte é preciso acreditar. É preciso encontrar a luz ao fundo do túnel. Encontrar os prós, identificar as oportunidades, e acolher os desafios, reconhecendo os contras. É preciso encher as mãos com mãos de carinho, encher os braços com abraços de conforto, secar as lágrimas com ventos de encorajamento, encher a alma com esperança. E seguir caminho. Vertical.
Vazio de um fim anunciado

Fecha-se a porta, duas voltas na chave. Antes, um último olhar para dentro, um dentro despojado, vazio, abandonado, no silêncio. Um aperto no peito a relembrar o que ali esteve. Não tanto os móveis, os quadros, aquele tapete. Saíram as caixas, as malas, os objectos que se amontoam agora numa carrinha de mudanças. Mas ecoam os risos que ali se viveram, as palavras e promessas que ali se ouviram. E sentem-se as lágrimas que ali secaram, como o sonho que ali queria ser vivido.
Fecha-se a porta e roda a chave. Ali fica vazia a casa que era para a vida de uma família feliz. Do lado de fora, fica um coração vazio, uma chave que já não abre o futuro, uma promessa que não se cumpriu. É triste, mas pacífico. Passos lentos levam-me para longe daquele passado, e desço no poço do elevador. A vida é lá fora, contínua a luta, e algures o verdadeiro amor.
Agora sim: fim.
Fecha-se a porta e roda a chave. Ali fica vazia a casa que era para a vida de uma família feliz. Do lado de fora, fica um coração vazio, uma chave que já não abre o futuro, uma promessa que não se cumpriu. É triste, mas pacífico. Passos lentos levam-me para longe daquele passado, e desço no poço do elevador. A vida é lá fora, contínua a luta, e algures o verdadeiro amor.
Agora sim: fim.
Quando nos supreendemos a nós próprios

Ontem fui à inauguração de um novo espaço em Lisboa. Era festa, eu não queria faltar. Estou farta da minha clausura e agora que já não tenho gesso, apesar da tala inestética que parece uma prótese e me obriga a usar calças, produzi-me o melhor que pude e lá fui eu de muletas. Até dancei (dentro do possível), não empatei ninguém, arejei e diverti-me. Sobretudo, não fiquei a lamentar-me de estar a perder mais alguma coisa. Cheguei a casa tarde e exausta, mas valeu a pena.
No lado negativo, encontrei o meu chefe... Estando eu de baixa, certamente não terá causado a melhor impressão, mas hei de dar a volta ao assunto. No lado positivo, senti-me bem, independentemente de toda a atenção desnecessária que as muletas atraem. É que estava-me borrifando para o que os outros pudessem pensar. Claro que foi bom ouvir de um estranho que “isso é que é espírito – força!”, e irritei-me quando ouvi uma parva comentar “quem é que vem para aqui de muletas?”. Mas o que me apeteceu responder a essa alminha idiota foi simplesmente: “Quem? Eu. Alguém que não se deixa vencer pela vida e se recusa a baixar os braços”. Apesar da irritação com o comentário, saber que fui, que estive bem, que me diverti e que esta frase me descreve, deu-me um fôlego. E iluminou-me com um sorriso.
No lado negativo, encontrei o meu chefe... Estando eu de baixa, certamente não terá causado a melhor impressão, mas hei de dar a volta ao assunto. No lado positivo, senti-me bem, independentemente de toda a atenção desnecessária que as muletas atraem. É que estava-me borrifando para o que os outros pudessem pensar. Claro que foi bom ouvir de um estranho que “isso é que é espírito – força!”, e irritei-me quando ouvi uma parva comentar “quem é que vem para aqui de muletas?”. Mas o que me apeteceu responder a essa alminha idiota foi simplesmente: “Quem? Eu. Alguém que não se deixa vencer pela vida e se recusa a baixar os braços”. Apesar da irritação com o comentário, saber que fui, que estive bem, que me diverti e que esta frase me descreve, deu-me um fôlego. E iluminou-me com um sorriso.
Excertos de mim #2

“Encostava a cabeça ao vidro frio e húmido da janela embaciada, a separar o mundo quente, iluminado e conhecido que habitava, e a noite escura de inverno, o desconhecido porque ansiava. Na cabeça o filme das recordações, ora em câmara lenta agonizante, ora num cruel tropel de imagens rápidas a sucederem-se aceleradamente. No olhar a sombra do passado e a luz da procura do caminho do futuro, que sentia como a noite lá fora. Escorreu um dedo pelo vidro, abrindo um traço de transparência para o exterior mas criando uma gota de água que ganhou vida a escorrer pela sua própria cara.”
Este excerto para me lembrar que o mundo, às vezes, vê-se a sofrer as nossas dores, tanto que parece que o mundo as espelha e as sente, nas coisas, na luz, na sombra, em tudo o que nos rodeia. E assim não vemos mais nada e perdemos tanta coisa.
Este excerto para me lembrar que o mundo, às vezes, vê-se a sofrer as nossas dores, tanto que parece que o mundo as espelha e as sente, nas coisas, na luz, na sombra, em tudo o que nos rodeia. E assim não vemos mais nada e perdemos tanta coisa.
O rio
Este rio tem uma nascente, um curso, uma foz, num percurso de linhas rectas e curvas. Este rio tem correntes e contra-correntes, às vezes é calmo outras vezes é veloz. Este rio tem águas límpidas e turvas. Este rio tem remoinhos dementes.
Este rio às vezes alarga-se, às vezes estreita-se, dependendo das chuvas e dos verões quentes. Este rio beija locais ora de suaves cores de verde ora de ásperas cores cinzentas. Este rio tem a força da água em movimento e a fragilidade das suas margens lamacentas. Este rio tem afluentes e convergentes.
Movo-me nas águas deste rio de mim. Mas este rio não corre sempre para o mar. Este rio às vezes não corre, às vezes corre para trás em movimento pendular. Este rio às vezes afoga-me, outras deixa-me a flutuar. Estou à tona e a aprender a navegar.
Este rio às vezes alarga-se, às vezes estreita-se, dependendo das chuvas e dos verões quentes. Este rio beija locais ora de suaves cores de verde ora de ásperas cores cinzentas. Este rio tem a força da água em movimento e a fragilidade das suas margens lamacentas. Este rio tem afluentes e convergentes.
Movo-me nas águas deste rio de mim. Mas este rio não corre sempre para o mar. Este rio às vezes não corre, às vezes corre para trás em movimento pendular. Este rio às vezes afoga-me, outras deixa-me a flutuar. Estou à tona e a aprender a navegar.
Como dizia o Poeta, "o rio corre, bem ou mal, sem edição original".
No dia em que te encontrar
Um dia vou ver-te chegar. E tu vais ver-me e entrar. Um dia trocamos um sorriso e prendemo-nos num olhar. Um dia saberei de que côr são os teus olhos e de que brilhos se faz o teu sorriso.
Um dia oiço a tua voz. Como queria ouvi-la... A minha dizem que é doce. Como será a tua? Um dia bebo a música das tuas palavras e revelo-te as minhas noutra melodia. Quero conhecer-te todas as cambiantes e subtilezas do som, até nos murmurarmos ao ouvido.
Um dia sinto-te a pele e deixo-me tocar. Descubro os teus caminhos e tu fazes o meu mapa. Um dia damos as mãos e acertamos o passo. Um dia desperto pelo teu cheiro e inundo-te com a minha fragrância. Um dia cabemos num abraço.
Um dia chego-te à alma e tu ensopas a minha. Conjugamos ser feliz e amar.
Um dia descubro-te. Um dia completo-me. Tudo isso no dia em que te encontrar.
Um dia oiço a tua voz. Como queria ouvi-la... A minha dizem que é doce. Como será a tua? Um dia bebo a música das tuas palavras e revelo-te as minhas noutra melodia. Quero conhecer-te todas as cambiantes e subtilezas do som, até nos murmurarmos ao ouvido.
Um dia sinto-te a pele e deixo-me tocar. Descubro os teus caminhos e tu fazes o meu mapa. Um dia damos as mãos e acertamos o passo. Um dia desperto pelo teu cheiro e inundo-te com a minha fragrância. Um dia cabemos num abraço.
Um dia chego-te à alma e tu ensopas a minha. Conjugamos ser feliz e amar.
Um dia descubro-te. Um dia completo-me. Tudo isso no dia em que te encontrar.
Vai

Fumo um cigarro. O último cigarro de ti. Não te volto a tragar numa inspiração que traz à minha boca o teu sabor, ao meu peito aquele tremor invasivo mas que me preenche. Não volto a sentir-te de olhos fechados num exalar de fumo que me acalma os sentidos. Abro os olhos sempre para rever no fumo do cigarro as imagens de nós que se me impregnaram na alma. O meu vestido era verde naquela noite de finalmente. Lembras-te? Seda verde esmeralda que escorreste pela minha pele. A minha pele muito branca, em contraste com as tuas mãos morenas. Será que te lembras? Mais uma passa deste cigarro a relembrar as tuas mão por mim. Dançamos tanto, a química era poderosíssima. Amamos o mesmo poema que mais ninguém sentiu daquela forma intensa. Foi explosivo, desde o primeiro instante. Lembras-te? Foi um tumulto, emocional e físico, a dança, os olhares, os beijos. Foi mais forte que eu em tudo. Não sei de onde me veio aquela determinação de não te largar, de não querer que as tuas mãos se afastassem de mim, não querer desprender-me do teu abraço. Sentiste? Tu também não te desprendias de mim. Tu também me procuravas, sôfrego, intenso, com os dedos cravados em mim num vincar de posse sem dúvida. Não era? Era, pois, era magia. Os beijos foram mágicos, sim. E tu soubeste quando me invadir, quando hesitei, num enlace total do corpo, com as tuas mão e boca por mim a sossegarem-me numa descoberta apaixonada, tudo a dizer-me que realmente me querias, e eu a sentir e mostrar-te o quanto te queria também. Tu sabes, soubeste sempre.
Mas a vida tem vertigens e abismos. Depois de tanto arrebatamento, a dúvida. A insegurança, um fantasma a tomar-me. Num repente. E tu a olhares-me. E eu a fugir, para longe, muito longe, bem dentro de mim. E tu não querias seguir-me. Eu sei. Era um abraço, sabes? Eu acho que sabes, sim. Porque sabes que fugi de ti, porque sabes que eu vi. Tu não querias seguir-me, porque esse caminho não era de corpo, não era de pele. Nesse repente, o que era mágico de tão inexplicavelmente bom transformou-se em absurdo de tão assustadoramente inexplicável. Chamamos-lhe depois estranheza. Sem porquês. Depois mostraste desejo. Senti de novo as tuas mãos por mim, aquela forma de me agarrares, de me tomares por tua, a que eu não resisto. Mas nunca pode ser mais que isso, porque nos prendemos para sempre naquele momento mau, fechamo-nos naquele repente, instalamo-nos na estranheza. Sem futuro. Num repente. E tu sabes, sabes sim.
De repente, acaba o cigarro. Tem existência curta, arde num instante. Como nós. A mim deixou-me um cancro, a ti uma beata no cinzeiro. Ando a lutar pela cura e cada cigarro que fumo de ti intoxica-me. Porque os fumo? Porque és um vício que me consome. Mas hoje chega ao fim. Exalo-te uma última vez. Vai. Vai nesse fumo que se dispersa. Vai assim, desvanece-te. Não me levantas mais os pés do chão. Não és mais o homem, as mãos, a boca. Agora, foste fogo, foste inspiração de prazer, foste doença e vício, e és finalmente uma alma que se foi em fumo e um corpo no cinzeiro. Não te quero pelo que tive de ti, nem mesmo na sensualidade das memórias em espiral de fumo azul. Não quero a beira do abismo, não quero a vertigem, não quero o sonho. Quero o real com os dois pés no chão, o todo, com fogo a arder, sim, mas num caminho de corpo e alma, que não posso fazer contigo, que não sabes fazer comigo. Não te quero por tão pouco. Porque eu sou mais. Porque mereço mais. Muito mais.
Mas a vida tem vertigens e abismos. Depois de tanto arrebatamento, a dúvida. A insegurança, um fantasma a tomar-me. Num repente. E tu a olhares-me. E eu a fugir, para longe, muito longe, bem dentro de mim. E tu não querias seguir-me. Eu sei. Era um abraço, sabes? Eu acho que sabes, sim. Porque sabes que fugi de ti, porque sabes que eu vi. Tu não querias seguir-me, porque esse caminho não era de corpo, não era de pele. Nesse repente, o que era mágico de tão inexplicavelmente bom transformou-se em absurdo de tão assustadoramente inexplicável. Chamamos-lhe depois estranheza. Sem porquês. Depois mostraste desejo. Senti de novo as tuas mãos por mim, aquela forma de me agarrares, de me tomares por tua, a que eu não resisto. Mas nunca pode ser mais que isso, porque nos prendemos para sempre naquele momento mau, fechamo-nos naquele repente, instalamo-nos na estranheza. Sem futuro. Num repente. E tu sabes, sabes sim.
De repente, acaba o cigarro. Tem existência curta, arde num instante. Como nós. A mim deixou-me um cancro, a ti uma beata no cinzeiro. Ando a lutar pela cura e cada cigarro que fumo de ti intoxica-me. Porque os fumo? Porque és um vício que me consome. Mas hoje chega ao fim. Exalo-te uma última vez. Vai. Vai nesse fumo que se dispersa. Vai assim, desvanece-te. Não me levantas mais os pés do chão. Não és mais o homem, as mãos, a boca. Agora, foste fogo, foste inspiração de prazer, foste doença e vício, e és finalmente uma alma que se foi em fumo e um corpo no cinzeiro. Não te quero pelo que tive de ti, nem mesmo na sensualidade das memórias em espiral de fumo azul. Não quero a beira do abismo, não quero a vertigem, não quero o sonho. Quero o real com os dois pés no chão, o todo, com fogo a arder, sim, mas num caminho de corpo e alma, que não posso fazer contigo, que não sabes fazer comigo. Não te quero por tão pouco. Porque eu sou mais. Porque mereço mais. Muito mais.
A cada um, o seu caminho
Ao longo dos anos vamos mudando, nem para melhor nem para pior, apenas para algo diferente. Num casal o que tenho visto, e senti eu própria, é que a certo momento as pessoas já são tão diferentes do que eram que já não se encontram, já não se identificam, não têm a mesma ligação, a convivência torna-se difícil se não mesmo impossível e, no fundo, mais importante que tudo, não são felizes. Alguns têm a sorte de ir mudando ao longo do tempo em sintonia, mas é raro, e esse é verdadeiramente o maior desafio de qualquer relação. Nem sempre se conseguem sintonizar vontades, ambições, simples gostos ou evolução natural da maneira de ver e estar na vida. As prioridades de cada um podem tornar-se mesmo incompatíveis, os ressentimentos vão crescendo, instala-se o desinteresse pelo outro, cresce a distância.Quando acontece esse afastamento, há quem ignore e aceite não ser feliz mas manter a relação, por diversos motivos, desde razões práticas, às preocupações com os filhos. Mas há quem não o consiga fazer e quem veja que isso também é uma forma de fazer os filhos sofrer. Porque se os pais não estão bem e mascaram as coisas numa escalada de indiferença e incompatibilidade, a instabilidade, o desamor e as tensões, às vezes em discussões audíveis, outras de formas mais subtis, revelam-se facilmente às crianças, que intúem estas coisas, e sofrem com isso. Na minha opinião, ninguém devia viver assim, a perpetuar um relacionamento oco que impede ambos de serem felizes. E impede porque desse modo não se admite que o caminho já não é com aquela pessoa, já não é por ali, e assim não se procuram outros caminhos.
Deve-se tentar salvaguardar a amizade e o respeito que tenha havido, sobretudo se há filhos comuns, e eu tentei isso com o meu segundo marido, embora ele não o tenha merecido. Nunca compreendeu que eu não lhe queria mal, muito pelo contrário, logo a começar pelo facto de ser o pai do meu filho. Disse-lhe isso já quando as coisas tinham azedado muito, disse-lhe que tive muita pena que as coisas não tivessem resultado de melhor maneira, mas que nos tinham pelo menos deixado o L. e que era nele que tínhamos de nos concentrar, ele que é, de uma forma muito especial, algo que nos une eternamente.
Mas o orgulho ferido de quem é "deixado" não deixa ver mais nada para além da revolta da rejeição, mesmo que não tenham também já amor, e nisso ele não é diferente de nenhum dos homens do meu passado. Inevitavelmente, culpa-se a outra parte, não se aceita que o outro admita conseguir melhor que eles – não percebendo que não se parte à procura de “alguém” melhor, mas de uma relação, de uma vida, melhor para o “eu” que somos nesse momento. Em resposta a isso, invariavelmente tentam dificultar o processo de separação, ou no caso, de divórcio. É o lavar de roupa suja, os jogos e mesquinhezes em que, infelizmente, usam de tudo, desde questões materiais aos filhos. Não percebem que ao transformarem-se, (ou revelarem-se?), dessa forma vil, só dão mais argumento a quem quer partir e ainda se arriscam a estilhaçar qualquer réstia de amizade ou carinho que tenha sobrevivido ao desgaste do desamor. E mesmo hoje, já meses passados sobre a separação e sobre o divórcio oficial, é triste que o meu ex-marido ainda tenha a necessidade de continuar em guerra comigo.
Ele tinha que “culpar” alguma coisa ou alguém, escolheu culpar-me a mim. É fácil. Por isso, tento “desculpá-lo” a ele. Mas é difícil. Entristece-me que se porte assim, que se revele assim, e sei que, no fundo, um dia terá de admitir que a culpa não é minha, nem dele. É da vida, do destino, do que lhe quisermos chamar. Cabe a cada um de nós tomar as rédeas e andar para frente, re-erguer a cabeça e tentar sermos nós próprios, reencontrar o nosso espaço e o nosso eu, e fazê-lo com integridade e humildade. É o caminho que tenho andado a fazer. E sei que o homem com quem casei um dia não estava preso no passado, era um homem de força, de imensa força, sempre a andar para a frente, a lutar pela vida com garra, e era um homem íntegro e de bom coração. Entristece-me que se tenha perdido de si mesmo e desejo-lhe, sinceramente, que se reencontre. Para bem dele, do nosso filho, e da minha paz de espírito, que estou farta de carregar pela vida os ressentimentos e amargos dos outros. Bastam-me os meus.
Não compreendo porque é que é tão difícil aceitar que, apesar de cada um ter de seguir o seu caminho, não precisamos de o fazer em guerra.
A colar os cacos

Já acordei. Doeu, sim, doeu. Mas colei uns adesivos, uns remendos nos cacos, que com o tempo sei que hão de cicatrizar. Estou viva. Sabia que caía de pé. Caio sempre, embora nunca tenha percebido como o faço. Os adesivos e ligaduras ninguém vê. Além de gostar de estar viva, gosto de pisar terra firme. É verdade, vou tendo os meus "tristinhos". São lembranças que voltam, aos poucos, e que mando embora, agora sem raiva, apenas com uma tristeza de despedida. Como se fosse a última vez que saboreio a recordação de cada coisa que me vem à cabeça. Se calhar é mesmo a última vez. E espero que sim, que assim seja. Porque ainda doi lembrar, e ainda doi sentir, e ainda doi saber que é lembrança de despedida.
Está um dia horrível, estou absolutamente farta de chuva e frio. Francamente, apetece-me emigrar. Não é normal voltar a calçar botas no fim de Maio! E o sol e o bom tempo são sempre a desculpa de maior peso para a defesa deste nosso país. Sem isso, não sei bem o que sobra. Hoje é daqueles dias em que, ultrapassados ou ignorados os problemas legais de guardas e tutelas, pegava no meu filho, uma mala para o caminho, e apanhava o primeiro avião rumo a um destino, pelo menos, mais solarengo.
Mas sou daqui, estou aqui presa, e estarei durante muito tempo. Esse sonho é só para um dia daqui a muitos anos, provavelmente com mais bagagem e sem o meu filho que já andará a fazer as suas próprias viagens.
De qualquer forma, apesar de uma certa melancolia, esses tais "tristinhos", e apesar do mau tempo, sei que entro nesta nova semana com um passo mais seguro, do alto dos saltos das minhas botas (como gostava de poder escrever "sandálias"...). Diz que o tempo vai melhorar já amanhã. Espero bem que sim. De qualquer forma, andarei por aí esta semana, numa roda viva o mais possível, a soprar em mim uma brisa leve de tempo ido, acabado. E sei, porque sei, porque quero, porque faço por isso, porque luto, porque não desisto, que em breve cantarei: “I’m off to see the wizard, the wonderful wizard of Ozz!”…
Batimento
Bateu, bateu por ti. Com tristeza e alegria, ora num sossegado sopro de vida ora numa enorme ventania. Sofreu, sofreu por ti, em angústias e dúvidas dilacerantes, em lágrimas de saudade desesperantes. Abriu-se, abriu por ti, na dádiva imensa de mim, nos sorrisos e nos olhares em que me aqueci. Bateu forte, fortemente, a cada enlace, abraço e beijo ardente. Sofreu muito, sofreu tanto, na distância, frieza e desencanto. Cantou alto, altíssimo, na certeza de te conquistar e ver amor no teu olhar.Agora bate lento, ao ritmo de outra dança, a esvaziar-se de ti e da esperança. Morre aos poucos, cada bocadinho que vai, dizendo adeus a cada enlace, cada abraço, cada beijo ardente, cada angústia, cada dúvida, cada lágrima quente, cada ventania e cada sopro de vida que lhe deste... e lhe tiraste.
Respirei por ti, respirei de ti, tive-te impregnado na pele e no sopro, impresso na alma e no corpo. Tive-te nos sonhos, em cada anoitecer e em cada acordar, o desejo a arder e o pensamento a voar.
Fui-te buscar e não quiseste vir. Ficas portanto, que eu tenho de partir. O vento vai amainar e o meu coração vai parar. De te amar.
O poder dos sorrisos
Pelas 7 da manhã foi o sorriso sonolento do meu filho. Soltei um de volta, claro... Depois o senhor de uma mercearia tradicional que passamos no caminho para o carro, a meter-se com o miúdo que ía em modo “George Lucas”... Sorriu para mim como quem diz “boys will be boys”, e eu sorri de volta. Depois foi uma senhora que assitiu à despedida à porta da escola, com o L. a recomendar-me “porte-se bem no trabalho, mãe, está bem?”. Pois, lá segui com um sorriso...
A seguir, foi o o Sr. I., Segurança da portaria do escritório, e a D. L., a nossa empregada de limpeza mais entradota, que me cumprimenta todos os dias com as mesmas frases: “Bom dia, menina ‘Princesa’. O seu menino está bem?”. Sorri-lhe de volta com as mesmas respostas de sempre, “Bom dia D. L.. Está bem sim, obrigada. E a D. L? Passou bem?”. Tenho de dar sempre um minutinho para os lamentos do costume, mas diz-me sempre tudo com um sorriso e um resignado encolher de ombros, ao que eu respondo qualquer coisa apropriada e um “Então um bom dia” com outro sorriso que tento que seja de ânimo (e carinho, que ela parece uma avozinha e adoro que me trate por “menina”!). Depois colegas, de várias nacionalidades, a caminho do meu poiso. “Bom dia ‘Princesa’” – “Bom dia N.”, “’Morning Grils!” – “Good morning sweetie”, “Good morning H.”, Hey guys!”. E todos respondem com sorrisos e bom-dias, etc.
Gosto de espalhar os meus sorrisos e sabe-me bem receber de volta. Um sorriso tem um poder imenso, porque é quase impossível não mimetizar. E quando nos deixamos sorrir, e quando desencadeamos um sorriso, de certeza que sofremos algum processo químico ou alquímico, porque nos faz sentir tão bem. Se há dias em que temos de purgar coisas com lágrimas, outros há em que temos de nos encher de sorrisos, muitos sorrisos, nossos e dos outros. Hoje espalho-os e apanho todos, com gratidão.
A seguir, foi o o Sr. I., Segurança da portaria do escritório, e a D. L., a nossa empregada de limpeza mais entradota, que me cumprimenta todos os dias com as mesmas frases: “Bom dia, menina ‘Princesa’. O seu menino está bem?”. Sorri-lhe de volta com as mesmas respostas de sempre, “Bom dia D. L.. Está bem sim, obrigada. E a D. L? Passou bem?”. Tenho de dar sempre um minutinho para os lamentos do costume, mas diz-me sempre tudo com um sorriso e um resignado encolher de ombros, ao que eu respondo qualquer coisa apropriada e um “Então um bom dia” com outro sorriso que tento que seja de ânimo (e carinho, que ela parece uma avozinha e adoro que me trate por “menina”!). Depois colegas, de várias nacionalidades, a caminho do meu poiso. “Bom dia ‘Princesa’” – “Bom dia N.”, “’Morning Grils!” – “Good morning sweetie”, “Good morning H.”, Hey guys!”. E todos respondem com sorrisos e bom-dias, etc.
Gosto de espalhar os meus sorrisos e sabe-me bem receber de volta. Um sorriso tem um poder imenso, porque é quase impossível não mimetizar. E quando nos deixamos sorrir, e quando desencadeamos um sorriso, de certeza que sofremos algum processo químico ou alquímico, porque nos faz sentir tão bem. Se há dias em que temos de purgar coisas com lágrimas, outros há em que temos de nos encher de sorrisos, muitos sorrisos, nossos e dos outros. Hoje espalho-os e apanho todos, com gratidão.
Atrás da porta
Há muitos anos atrás eu era uma alma solta no mundo, sociável e de muito fácil conquista, porque não fechava a porta a ninguém. E conquistadora também, que gostava de bater a outras portas que se me abriram com imensa facilidade. Um dos adjectivos que usavam para me definir era “desarmante”. Com o tempo, com os roubos e assaltos, rapidamente fui pondo trancas à porta, alarmes e armadilhas, correntes e cadeados. De tanto trancar a porta, tranquei-me, isolei-me, afastei muita gente que até queria entrar, ou foi expulsa num repente.Mas essa não é a minha verdadeira natureza. De origem, eu era uma porta aberta. Por isso ver-me ali trancada foi um susto e um sofrimento. De porta trancada não entra ninguém, mas também não saímos para entrar em outras portas. Mas acostumamo-nos a não querer os outros por perto, por dentro.
De vez em quando, há alguém que sabe bater à porta, que não se assusta com os avisos de que o cão morde e de que o alarme está ligado directamente à central. E acho que é precisamente a coragem que isso revela, a vontade mesmo a sério de entrar, que torna essas pessoas tão especiais para mim tão rapidamente. E nessa altura, a minha verdadeira essência apodera-se de mim, tolda-me o juízo, curto-cicuita o alarme, adormece o cão que morde, abre as fechaduras e correntes, e tenho tendência a escancarar a porta depressa demais. Só que exponho-me ao perigo da invasão do meu território tão diligentemente preservado, à devassa do espaço que cultivei só para mim e que já não sei partilhar. E, claro, num instante de dúvida, de desconfiança, por menor que seja o gesto ou quase inaudível a palavra, desperta em mim o medo de sobrevivência e é cerrar fileiras com as tropas para expulsar o intruso, o mais rápido que consigo. Acorda o cão, morde mesmo com ferocidade, trancas, fechaduras e cadeados na porta. E atrás dela, ficam os restos de mim, numa segura solidão, mas com o pesar do arrependimento, o sufoco da minha própria prisão.
Esforço-me genuinamente por encontrar um meio termo que me permita entreabrir a porta, sem me expôr demais, mas sem me fechar por completo à hipótese de valer a pena deixar entrar. E acertar no “ângulo de abertura” é uma dificuldade tremenda porque também depende de quem quer entrar.
Há quem bata vigorosamente à porta na exigência da imediata admissão. Há quem bata já entrando. E há quem entre sem pedir licensa. Não gosto – é a tal devassa, a invasão, que acaba por me pôr em guerra. Depois há quem queremos convidar a entrar, mas que fica ali na soleira da porta, “obrigada, mas tenho de ir andando”, a pensar “que susto!” à vista de tanta defesa para ultrapassar. Ou quanto muito no hall, com um olho na besta e outro na porta (não vá a primeira acordar e a segunda fechar-se), com a cerimónia do “não quero incomodar”. Mas incomoda. Também não gosto. Talvez por isso raramente entreabra a porta sem que ninguém bata, sem que alguém me demonstre essa coragem, e pachorra, e determinação em entrar. Já passei por aí, já chorei lágrimas por isso, não quero lá voltar, não me quero "pôr a jeito" como ensino ao meu filho.
Tal como a minha história de antes, ele entrou sem bater e sem pedir licensa, e eu escancarei-lhe a porta num impulso que acho que ele nem percebeu. Quando me assustei com a devassa, fechei-lhe a porta, com tal estrondo que ele me fechou a dele a seguir. O pior é que não consegui que as tropas o expulsassem por completo, a sombra dele permaneceu e, quando deixei de lutar contra isso, e lhe abri a minha porta outra vez, ele já não quis entrar. O susto foi demasiado, as dificuldades muito óbvias, e impôs-se a distância que levei muito tempo a entender. Que continuo sem perceber se ele quer realmente ultrapassar.
De mim, neste momento, sei que a porta está encostada, levemente aberta, sem trancas nem cadeados. O cão dorme, e também anda mais manso. O alarme está no silêncio – mas continua ligado à central... Aqui estou à espera que ele bata à porta de mansinho, “posso entrar?...”, e entre cerimoniosamente devagar. Estou à espera disso e capaz de abrir. E até quase tenho vontade de me encher de coragem e fazer o convite – “bates-me à porta?”. E acrescento-lhe que as tropas estão tranquilamente aquarteladas...
Mas não sou capaz de dar esse privilégio de mim a quem não mo mereça. Se calhar sou egoísta, retorcida, ou simplesmente um bocadinho louca. Provavelmente projecto hoje a imagem, não dessa alma solta e de porta aberta, conquistadora e de fácil conquista, que já fui, mas de uma pessoa distante, fechada, complicada, e pouca gente verá motivo para enfrentar tanta dificuldade. E sei que assim, nem os sapos terão pachorra para me aturar. Mas a minha verdadeira natureza já não é a de origem, a outra enraizou-se, e não sei se ainda vou a tempo de me recuperar porque há cicatrizes que nunca vão desaparecer, que vão lá estar sempre a lembrar-me, a alertar-me, a fechar-me a porta.
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