"Destilar", cientificamente, é "separar componentes químicos que constituem uma substância através de vaporização seguida de condensação". Serve para muita coisa, nomeadamente, para produzir bebidas espirituosas. Aqui, é uma tentativa de purificação da mistura de tudo o que sinto, penso e vivo. A aguardente do que sou.
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Ordem
Tem que se começar por algum lado, e resistir à tentação de brincar demais com os novelos, sob risco de se ficar enredado. Curioso que a vida às vezes nos surpreende, dando respostas inesperadas a perguntas que não chegamos a verbalizar. E pega-se nessas pontas, e vai-se puxando.
Dangerous Lines
“Os olhos cansados, ausentes, fixavam-se no infinito. Além, muito além, da linha visível do horizonte. Era também uma linha que flutuava naquele espírito, desassossegadamente, repelindo o sono. Era a linha que não sabia se queria cruzar.”
Há um limite para tudo, todos temos os nossos próprios limites. Limitamo-nos ou definimo-nos? Essas fronteiras que fixamos, seja por que razão fôr, são mais relevantes pelo que nos impedem de fazer ou, pelo contrário, pelo que nos fazem ser? São talvez limitativas, se são linhas que impomos inflexíveis. Mas quando são escolhas, serão então mais definidoras? Linhas que apenas nos desenham?
E onde arrumamos os princípios? Diria que são uma dessas fronteiras essenciais. E podem ser tão limitativos quanto definidores. São talvez, em mim, das fronteiras menos flexíveis, mais guardadas e defendidas. São, possivelmente, as linhas que mais batalhei para definir e que, por isso mesmo, mais me definem. E são também as linhas que mais me custa cruzar, ou redefinir.
Se são hoje as mesmas as fronteiras de mim? Não... nem por sombras. Subtilmente em geral, às vezes num repente de uma clarividência chocante, essas linhas movem-se, ajustam-se, podem esbater-se suavemente ou, pelo contrário, adensar-se em sulcos profundos.
“Ao saber-se hesitante na escolha, perguntava-se repetidamente porquê. Via as razões de ser, do seu ser, na escolha de não passar para o lado de lá. Cheirava a perigo. Mas o perigo também atrai. E via o que não queria perder do outro lado. Porquê?... Via nessa interrogação assim, também, que as razões do seu medo eram as razões da sua vontade. E via negar-se um querer, para não se perder. Porquê?... Porquê?...”
Nos porquês que se levantam sobre essas fronteiras, esquecemo-nos muitas vezes de uma coisa importante. É que esses porquês são, em si, andar perigosamente, num equilíbrio periclitante, sobre a linha da própria fronteira.
In motion
Um simples momento, um milisegundo, e tudo muda. Um choque em onda percorre o corpo, o coração dispara e corre pela garganta acima. Há náusea, há tontura, luz ofuscante por todo o lado. O cérebro acelera e de repente os olhos absorvem por completo aquela realidade, ensopando a alma de grito que não se solta.
Há momentos assim, devastadores. Deixam uma faca espetada no peito, uma dôr por dentro das costelas que não permite um respirar fundo. A pele exala o cheiro do medo, tacteia-se a vertigem do abismo ali à frente. Os pés não caminham, as mão estão imóveis, a boca fecha-se com força para reprimir o eco do golpe.
Saber que está tudo a outro milisegundo de se tornar real é penoso. Uma realidade absurda que entra pela vida adentro, derrubando todas as peças do cerco pacientemente construído à volta da última peça. A respiração sustem-se na antecipação. Todos os músculos do corpo se contraem num último esforço de resistência. O sono foge, acossado pela angústia das dúvidas do “e depois?”. Mas aquela peça não tem salvação – o impacto está em marcha e é imparável.
Num milisegundo é preciso encontrar a força para não desfaceler. Para não gritar. Não chorar. É preciso pensar, raciocinar, forçar a lucidez ao cérebro para que este pense nos passos a dar, no que fazer, como caminhar.
E no momento seguinte é preciso acreditar. É preciso encontrar a luz ao fundo do túnel. Encontrar os prós, identificar as oportunidades, e acolher os desafios, reconhecendo os contras. É preciso encher as mãos com mãos de carinho, encher os braços com abraços de conforto, secar as lágrimas com ventos de encorajamento, encher a alma com esperança. E seguir caminho. Vertical.
Há momentos assim, devastadores. Deixam uma faca espetada no peito, uma dôr por dentro das costelas que não permite um respirar fundo. A pele exala o cheiro do medo, tacteia-se a vertigem do abismo ali à frente. Os pés não caminham, as mão estão imóveis, a boca fecha-se com força para reprimir o eco do golpe.
Saber que está tudo a outro milisegundo de se tornar real é penoso. Uma realidade absurda que entra pela vida adentro, derrubando todas as peças do cerco pacientemente construído à volta da última peça. A respiração sustem-se na antecipação. Todos os músculos do corpo se contraem num último esforço de resistência. O sono foge, acossado pela angústia das dúvidas do “e depois?”. Mas aquela peça não tem salvação – o impacto está em marcha e é imparável.
Num milisegundo é preciso encontrar a força para não desfaceler. Para não gritar. Não chorar. É preciso pensar, raciocinar, forçar a lucidez ao cérebro para que este pense nos passos a dar, no que fazer, como caminhar.
E no momento seguinte é preciso acreditar. É preciso encontrar a luz ao fundo do túnel. Encontrar os prós, identificar as oportunidades, e acolher os desafios, reconhecendo os contras. É preciso encher as mãos com mãos de carinho, encher os braços com abraços de conforto, secar as lágrimas com ventos de encorajamento, encher a alma com esperança. E seguir caminho. Vertical.
Agri-Doce?

Hoje acordei de rastos – tipo: “não, não estou nada a ouvir o despertador... Está quieta Maria Princesa e deixa-te mas é dormir”. Tenho-me deitado tardíssimo todos os dias e ontem não foi excepção. Simplesmente nem quero pensar em ir para casa, não me apetece estar sozinha. Então fujo para a confusão. Tudo é mais fácil com o barulho das luzes. E as horas passam sem eu dar por isso mas depois é o diabo para me levantar de manhã. Acho que estou assim um bocadinho a fugir de mim – é que eu sou terrível comigo própria.
De facto, sou muito exigente e crítica de mim, em todos os aspectos. A minha mãe disse-me que tento ser, e projecto a imagem, da “super-mulher”. Não acho que seja bem assim. Eu não “tento ser” a super-mulher e até geralmente me sinto exactamente o contrário: sinto-me fraca e insegura, duvidosa e receosa, e por isso preciso de pensar tanto nas coisas. Mas admito que seja essa a imagem percebida por alguns, porque depois de tanto pensar, reflectir, analisar e, finalmente decidir, sou invariavelmente de uma convicção inabalável. É só isso que parece que os outros vêm, lendo portanto uma pessoa fria, calculada, cheia de força e certezas. Já alguém me disse que eu era uma mulher de coração com a ilusão de o temperar com a razão. E de facto sinto-me um coração a querer mandar, mas a razão a atrapalhar, a confundir sabores e a camuflar aromas com os temperos da lógica, do pensamento analítico, da crítica impediosa. Às vezes chego a perguntar-me se não serei um pouco esquizofrénica! E sei, admito embora não goste de o ouvir, que por vezes me projecto tão ácida como sou doce, sobretudo em situações em que me sinto ameaçada. E sei que isso confunde as pessoas que me conhecem menos, e mal sabem elas que me confunde a mim própria...
Talvez por sentir que sou demasiado coração, tenho uma necessidade absoluta de pensar nas coisas, tomar decisões consciente dos riscos, fundamentar certezas e reforçar convições com a trama da lógica. E tenho necessidade de esconder essa fragilidade no campo emocional, atrás de uma parede de acidez e uma expressão seráfica. Mas perco a espontaneidade, perco momentos e perco-me eu própria nesses raciocínios. Tenho-me esforçado, e quando consigo ser mais espontânea, realmente sinto-me quase sempre bem, apesar de algumas dessas espontaneidades acabarem a ser analisadas tempos depois na categoria a que dei o título (à moda de uma querida vizinha) de: “Loucuras que cometi no impulso do momento ou No que raio estava eu a pensar?! ou Não volto a beber tanto shot de vodka na mesma noite”...
Assim é a vida – um compromisso constante entre razão e emoção, entre planeado e espontâneo. Ainda tenho dificuldades com este equilíbrio e não me consegui decidir ainda se custa mais aceitar um erro resultante de over-analysing e planeamento detalhado, se um erro de impulsividade ou espontaneidade. A diferença mais óbvia é que, mesmo quando é erro, viver no espontâneo é mais fácil, é-se mais feliz pelo menos no imediato, e não se perdem certos momentos a ruminar argumentos e lógicas. E lá estou eu a entrar na análise, até para decidir se devo ou não ser mais espontânea... Mais paradoxos meus. Estas minhas incongruências admitidas, o facto de ser/parecer coração e razão, doce e ácida, insegura e forte, às vezes fazem-me sentir que não sou nem carne nem peixe. E de repente ocorreu-me que estou muito perto de ser um prato chinês agri-doce, um número cheio de “l’s” de uma ementa traduzida de mandarim... Qualquer dia alguém chama um “tlinta e quatlo” e eu respondo “Sim, sou eu...”
Lá se diz que a imagem que temos de nós próprios é sempre distorcida em relação à imagem que projectamos. E eu às vezes pergunto-me onde está realmente a distorção, acabando por concluír que está um pouco dos dois lados. Mas o que sei é que alguns outros por vezes nos vêm melhor que nós próprios, vêm as distorções que fazemos do nosso lado. Os que são nossos amigos têm a generosidade de nos reflectir mais autênticos, mesmo que seja através de uma discussão ou pelo menos de coisas que são duras de ouvir, ajudam-nos a alinhar as duas imagens, a focar no que interessa e a limpar ruídos da imagem distorcida. No fundo, dizem-nos que não somos um “tlinta e quatlo” e obrigam-nos a estudar o menu outra vez... Bem hajam esses amigos, que eu nem sou fã de agri-doce. Haja esperança.
Diálogos Crípticos II
- Aquela luz é vermelha.
- É vermelha, sim. É bonita.
- É uma côr demasiado forte, é cruel.
- Vermelho é morangos, é flores e alegria.
- Vermelho é sangue, dor e agonia.
- É intenso, sim, mas bom. É uma boa côr.
- Para mim, vermelho é morte.
- Credo. Para mim é côr de amor.
- Pois. Cruel, e demasiado forte.
Diálogos Crípticos I

- Dá-me um abraço!
- Claro! Mas o que tens?
- Claro! Mas o que tens?
- Nada. Só quero um abraço. Assim apertadinho, de aconchego.
- Como nada? Ninguém quer um abraço assim só por querer.
- Eu quero.
- Pronto. Eu dou.
- Não. Assim não. Não me queres dar um abraço.
- Então? Claro que quero! Gosto sempre de te abraçar.
- Mas com razões. Não é a mesma coisa.
- Não?!
- Como nada? Ninguém quer um abraço assim só por querer.
- Eu quero.
- Pronto. Eu dou.
- Não. Assim não. Não me queres dar um abraço.
- Então? Claro que quero! Gosto sempre de te abraçar.
- Mas com razões. Não é a mesma coisa.
- Não?!
- Com razões é conforto.
- E sem razões é o quê?
- É amor.
- E sem razões é o quê?
- É amor.
Memórias curtas
Tu devias saber, que me fazias sofrer. Tu devias saber, tu devias querer saber. Dei-te tudo de mim, sabes? Era capaz de te defender contra leões. Era capaz de me erguer contra monstros e marés, para te proteger e para proteger o que tínhamos. Engoli a minha tristeza quase chorada quando descobri o que fazias, pelas minhas costas, não pensavas que eu sabia. Na minha mais pura ingenuidade, acreditei que não percebias como o que fazias me magoava. Não quis chamar-lhe traição, mas tu sabias que o era, ou não o terias escondido de mim. Era mais importante para ti, certamente, pensei eu, pois era para ti maior que nós e ofuscava-te o que sabias de mim, onde devias ter sido capaz de ver a verdade. Era tão maior para ti que até me maltrataste com palavras injustas, que eu chorei em silêncio, até te amansares e pedires desculpas. Eu engoli, eu finji, eu escondi, eu fiz de conta que não era nada. Dei-te espaço, pensei que devia retirar-me, negar-me uma coisa que me era especial, porque merecias, claro. E vou-me lembrando de vez em quando, sobretudo quando me sinto de fora de algo que foi brevemente meu. Tomaste-o de mansinho com a tua irrestível vontade de seduzir e conquistar tudo e todos. Fizeste-o bem, mereceste. Espero que sejas feliz e que continues a merecer o que te ofereci. Eu, por mim, agora tomo mais cuidado. E materializo em palavras para não me voltar a esquecer.
Corpo ou Alma
Quem me vê não sabe. Quem me ouve a fala e o riso não me alcança. Só quem me lê as palavras que não digo consegue construir o meu mapa. Quem me vê a roupa e o corpo faz-me um ser material que não existe. Quem me lê a alma faz de mim um ser virtual que é o meu ser real. E, salvo raríssimas excepções, não consigo mostrar o meu mapa, a minha alma, o meu ser real, a quem me vê roupa e corpo, me ouve palavras e risos. A quem não consigo confiar as lágrimas, não posso levantar o véu. E a quem me viu a alma, não posso vestir o corpo. Corpo e alma sou só para mim, na minha intimidade impartilhada. Alma sou aqui – palavras e textos de dentro de mim. Corpo sou na vida – existência física que guarda oculta a essência de mim.Não há como misturar as duas coisas sem um cimento de mais do que mera curiosidade. Entregar a alma a quem vê o corpo só quando há um sentimento muito forte, uma confiaça cega, uma intimidade conquistada, que tornam natural que se levante o véu. E vice-versa – entregar o corpo a quem viu a alma só se há sentimento e confiança suficientes para acreditar que a materialização da alma em corpo não corrompe nem substitui a imagem da primeira pelo segundo.
Serei sempre esta dicotomia com quase todos os que passam na minha vida. Protejo a essência com o anonimato do nome e do corpo, e protejo o corpo pondo a alma na sombra. Faço mal, dizem-me. Devo revelar-me mais aos que estão na minha vida, à minha volta. Mas esse caminho que tenho feito não se tem revelado nem fácil nem seguro. E a cada revés que me acontece, mais me convenço que há quem não mereça mais que isso de mim – a alma na sombra, as dores ocultas, a minha essência protegida. São poucos, muito poucos, os que me merecem por inteiro, e eu inteira sou o meu mais precioso tesouro, que tenho de guardar para quem mereça e reconheça, e aprecie, e na volta me enriqueça. Prezo os tesouros desses poucos que me vêm inteira e se mostram inteiros, tanto mais valiosos quanto mais raros são. Só nesses poucos confio, e guardo essa confiança como uma pedrinha na mão.
É o dia

Hoje a Princesa não escreve. Hoje a Princesa chora e procura conforto nas coisa bonitas da vida.
Hoje a Princesa compra flores e aninha-se na sua concha, no silêncio do fundo do mar.
Hoje a Princesa volta a ser uma Bela Adormecida e talvez um dia possa acordar.
Caminho
Tenho umas pedras no meu caminho (alguns pedregulhos também...). Tenho andado a mexê-las, aos poucos, à medida que vou ganhando forças e equilíbrio, e vontade de andar para a frente.
Algumas dessas pedras até têm sido fáceis, outras escondem monstros assustadores. Algumas não me apetece levantar. Mas ao mesmo tempo que tenho medo de levantá-las, sei que deixando-as lá o monstro vai crescer. E o que é hoje, se calhar, bem vistas as coisas que isto tudo depende da perspectiva, apenas um monstrinho, deixado ali a crescer pode ser um monstrengo amanhã.
Faz-me lembrar que queria ser como o homem do leme: três vezes ao céu as mãos erguer, três vezes ao leme as reprender, e dizer no fim de tremer três vezes que "aqui ao leme sou mais do que eu"... Manda a vontade que me ata ao leme. Mas não é a de D. Joao II... É a vontade de viver o que vier, de não hipotecar o futuro. Tirar as pedras do caminho, destruír os monstros, antes que me destrúam a mim - ou me apanhem na curva, por assim dizer.
Vou à luta.
Isto é críptico, pois é, mas para mim não. E este blogue é meu.
Algumas dessas pedras até têm sido fáceis, outras escondem monstros assustadores. Algumas não me apetece levantar. Mas ao mesmo tempo que tenho medo de levantá-las, sei que deixando-as lá o monstro vai crescer. E o que é hoje, se calhar, bem vistas as coisas que isto tudo depende da perspectiva, apenas um monstrinho, deixado ali a crescer pode ser um monstrengo amanhã.
Faz-me lembrar que queria ser como o homem do leme: três vezes ao céu as mãos erguer, três vezes ao leme as reprender, e dizer no fim de tremer três vezes que "aqui ao leme sou mais do que eu"... Manda a vontade que me ata ao leme. Mas não é a de D. Joao II... É a vontade de viver o que vier, de não hipotecar o futuro. Tirar as pedras do caminho, destruír os monstros, antes que me destrúam a mim - ou me apanhem na curva, por assim dizer.
Vou à luta.
Isto é críptico, pois é, mas para mim não. E este blogue é meu.
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