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Gula



Um bom-bom ou um rebuçado são o exemplo perfeito para certos momentos. O segurar nas mãos um lindo e pequenino embulho, que se abre com cuidado - que o papel é delicado. Na antecipação do que contem, de que se sente vontade, mais a cada voltinha que se desfaz nas pontas enroladas. Dentro, um momento feliz em miniatura, que se deixa derreter na boca, num doce prazer, num saciar da vontade.

Há momentos que vêm assim embrulhados e assim se degustam. Momentos como certos beijos. Perfumados de framboesa, doces como chocolate. E apetece sempre mais um.

Um dia, talvez



Um dia vou ter um Natal só meu em algum lugar longínquo. Onde as chamas de uma lareira de facto me aqueçam, e onde um abraço especial não me deixe a saudade de todos os que faltam.

Um dia vou ter um Natal que seja um dia feliz, apenas por ser mais um dia, tão feliz como os demais, apenas por ser mais uma noite, em que sei ter atracado segura na paz do derradeiro cais.

Os meus Gatos #2



O frio, as mantas e os dias tristes, fazem-me sempre recordar os meus gatos com mais saudade. Já escrevi sobre o primeiro, e hoje é tempo da história do segundo. Depois de ter perdido o Ludwig e decidir que não queria outro animal, o meu então ainda marido, um dia leva-me de surpresa a ver uma ninhada de persas para eu escolher um. Eu nem queria entrar, mas lá acabei por não resistir e fui sentar-me num canto. A ninhada era de quatro gatos, e ao fim de uns minutos tinha um cotumiço preto, de olhos côr de cobre e uma espécie de barba com as pontas brancas, a trepar-me pelas pernas e a brincar comigo. Se outra pessoa se aproximava, fugia logo. Levei-o para casa, pois...

Quando o larguei em casa, ele todo assustado, enfiou-se debaixo de um armário da casa de jantar e não saía dali nem por mais uma. Como não sabia do que ele gostava, pus à frente do armário uma série de pratinhos com várias iguarias. À noite, tinha amigos a jantar e a meio da refeição salta-me para o colo, depois de ter limpo os pratos todos, e a querer devorar tudo o que estava na mesa. Chamei-lhe Obelix...

Embora não fosse tão inteligente como o primeiro, era também meu, aliás, eu é que era dele, que ele é que me escolheu, e era muito carinhoso. Dormia sempre comigo, em cima dos meus pés, depois de um certo tempo de festas e ron-rons deitado na minha barriga. E isto foi depois de lhe ensinar que gatos não são bem gente, porque os primeiros dias queria dormir ao meu lado, com a cabeça na almofada e tudo.

Era cómico, mais brincalhão que o Ludwig, mas miava mais. Às vezes os miados dele pareciam sons humanos – sobretudo se levava um raspanete e o fechava longe de mim de castigo. É irreproduzível na escrita, mas era mesmo incrível. Parecia uma criança a choramingar, como quem diz “eu não fiz por mal, eu sou pequenino...”.

Este, perdi-o com o divórcio, cerca de um ano depois, uma vingançazinha mesquinha. Soube que o desgraçado do animal sentiu imenso a minha falta, caiu-lhe o pelo quase todo com uma coisa nervosa. Mas sei que recuperou. Eu é que ainda hoje tenho saudades dele.

Das coisas simples que me fazem sentir bem # 3




Um livro para desbravar.

Assim daqueles que às primeiras páginas já tenho pressa de acabar, mas que sei que chego ao fim com vontade de mais capítulos. Gosto muito de ler, e leio muita coisa variada, de muitos autores diferentes. Tanto gosto de uma escrita mais densa, como de uma escrita mais leve, tanto gosto de thrillers, policiais ou, de preferência, de espionagem, como de romances, e tanto leio prosa como poesia. Alguns livros leio e esqueço incólumes na prateleira, outros entranham-se em mim e deixo-os de cantos dobrados e frases sublinhadas, em locais que sei de cor na minha estante, tão marcados quanto me marcam a mim.
Agora leio “A Espuma dos Dias” de Boris Vian. Não é uma "novidade", é de 1946, mas que descoberta fabulosa, em todos os sentidos... Vou a meio e já sei que será daqueles que não vou esquecer, e que tenho a certeza que hei de querer reler.

Raisparta...



Quando alguém anda desde 4ª feira constipada, mas lá se vai arrastando para o trabalho enquanto se agravam os sintomas; quando o chefe desse alguém fica de cama na 5ª feira e também não vai trabalhar na 6ª; quando se piora de hora para hora e os colegas querem mandar esse alguém para casa; quando esse alguém vai ficando, na esperança de se aguentar e de que aquilo não piore; e de repente... recebe aquele SMS da DGS por causa da Gripe A...

... alguém se sente muito tentada a acreditar em teorias da conspiração e olhar à volta à procura das câmaras de vigilância! Há coisas do demo...

Mas alguém lá tem de se render às evidências de que tem sitomas de gripe e se sente doente, ir para casa para não espalhar mais virús por aí, na esperança de ser só uma gripe normal e não ser "A", e "que Deus a ajude" como lhe diz uma alma caridosa a seguir a uma série record de espirros ... E assim alguém tem pôr o miúdo a salvo (até 2ª feira pelo menos), medir a febre de hora a hora, rezar para que isto passe depressa, e incrivelmente, chorar por uma canja de galinha! "Raisparta", sim... Que isto agora não me convinha nada.

Das coisas simples que me fazem sentir bem # 2

Um abraço, um beijo ou um sorriso do meu filho.
Faz-me sentir viva, existente e consequente. Sei que vai aquecer-me o coração até ser velhinha, mesmo quando o tiver de largar do abraço dos meus braços para que possa ele abraçar o mundo.

Para ser grande


Muitas vezes me vejo como a lua. Gosto da lua, das suas fases, dos seus mistérios e do seu brilho. Em dias destes, sinto-me uma lua cheia e lembro-me de um pequeno poema de Fernando Pessoa de que gosto muito:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

É assim que eu vivo quase tudo, e é só assim que eu sei amar. No que estou, estou por inteiro. Quando amo, amo inteira. E quando me dedico a alguma coisa, dou tudo de mim, brilha toda a minha lua nesse lago. Talvez por isso a minha exigência seja elevada também com os outros. Talvez por isso um amor que não é inteiro não me chegue. Talvez por isso abandone aquilo em que não me consigo derramar por completo num brilho de prata sobre as águas. Mas hoje foi assim mesmo, a mergulhar no trabalho no meu regresso gradual à minha vida "normal", e soube-me bem. Gosto de mim nestes dias em que me sinto grande.

Cansaço - ou será da idade?...

Duas noitadas excelentes de seguida, com um dia de praia em cima, e cheguei hoje a casa completamente de rastos!... Mas foi um fim de semana tão bom, que até chegar ao fim sabe à tranquilidade e paz de um pôr-do-sol suave no mar.

Diverti-me imenso de novo ontem à noite, dancei, brilhei e parece que cativei. Ah pois é, a vida surpreende-nos mesmo nas alturas em que menos se espera. Soube-me tudo muito bem. E hoje o dia também foi bom, com amigos, petiscos e praia. Tudo a fazer bem ao corpo e à alma, tudo a alimentar o ego. Menos este cansaço absurdo, que me levou até a dormir na praia. Parece-me que se calhar já não tenho idade para aguentar este ritmo de madrugadas e tanto programa pelo meio. Ou estou muito destreinada?... Ainda rematei com um longa e divertidíssima conversa ao telefone com o meu filhote, todo bem disposto, a deixar-me com um sorriso ainda maior.

Apesar do cansaço e desta dúvida existencial sobre a sua origem, sinto-me agradecida por todas as coisas boas destes dias que quero preservar na memória.

Os meus Gatos #1

Gosto de animais, em geral, mas desenvolvi uma especial predilecção pelos gatos persa. Quando era miúda queria imenso ter um cão. Os meus pais até têm um óptimo jardim, mas nunca se deixaram convencer. Foram-me oferecendo substitutos com muito maus resultados. Acabei por desistir da ideia de ter um animal de estimação depois de ter morto vários peixes por indigestão, um piriquito ao qual dei um banho acidental, uns hamsters que acho que foi a minha mãe que fez desaparecer (mas disse-me que morreram para eu me sentir culpada) e finalmente uma tartaruga que fugiu da "casa" dela e se enfiou num chinelo do meu pai, onde encontrou a morte (e essa teve direito a enterro no jardim, com procissão solene e uma caixa de fósforos por caixão). Não pensem mal de mim que não fiz nada de propósito. Era uma criança - e também tive azar!

Muitos anos mais tarde, ofereci ao meu primeiro marido um persa azul, que era o que ele mais queria, e na verdade nem me ocorreu que acabava a viver eu com o gato, dado que só casamos um ano e tal depois. Mas, não sei porquê, o bicho escolheu-me a mim desde o primeiro momento. Chamava-se Ludwig e era um gato lindo, tinha uma elegância e uma agilidade espantosas, além de ser o animal mais afectuouso e inteligente com que me cruzei.

Tinha umas manias e manhas incríveis, esperava-me à janela todos os dias e mal me via na rua corria para a porta. Acabou por ser a minha companhia enquanto viveu, seguindo-me para todo o lado. Quase não miava e aprendia tudo - inclusive que se esperasse quieto ao pé de mim enquanto eu comia, eu lhe guardava qualquer coisa, mas que só lhe dava quando terminava. E percebeu que quando eu pousava os talheres no prato de lado era a "hora do biscoito". Empertigava-se logo e parecia um urso de circo, em pé sobre as patas traseiras, à espera da recompensa. E eu dava-lhe, claro.

Morreu com uma insuficiência renal, ao fim de 3 anos, e foi um fim muito triste. Esteve doente muito tempo, chegou a estar internado num hospital veterinário, e sofreu demais. Fiquei tão perturbada com aquilo que decidi que não queria mais nenhum. Mas tive mais três, que ficam para outros posts. Deste lembro-me especialmente quando faço malas, porque na altura viajava bastante em trabalho e ele depressa aprendeu a associar as malas com as minhas ausências. Então, quando dava por mim, tinha o gato deitado dentro da mala, em cima do que quer que lá estivesse, a fazer-me olhinhos, como quem diz "leva-me contigo...". Era um doce.

Luz


Adoro luz. Gosto de luz a jorrar pelas janelas. Gosto de beber no corpo a luz quente do sol. A razão principal pela qual comprei o apartamento onde vivo agora foi precisamente a luz que tem. E sei que, quando em breve começar à procura de uma nova casa, será o que vou procurar – janelas de luz.

A luz faz-me bem, enche-me de energia. É sempre o que guardo com mais nitidez na memória dos sítios por onde passei. É o que mais me marca nas cidades que conheço e o que me faz querer voltar a umas e não querer regressar a outras.

Gosto de me sentir iluminada e absorver a luz ajuda. Às vezes ajuda-me a encontrar a minha própria luz. Hoje estou assim. Há muito tempo que não me sentia tão luminosa sem nenhuma razão aparente. Simplesmente porque sei que a luz está cá e hoje dei-lhe soltura, jorra pelos meus poros. Sabe-me bem. Também sou luz.

Excertos de mim #1


... És tão meu quanto eu sou tua. Não te quero nem posso fugir. Não quero nem posso perder-te. Este vôo altíssimo em que nos levamos os dois faz-se de duas asas: uma minha, uma tua. Não te largo, não, não me largues, por favor, porque sem a asa de cada um de nós, nenhum dos dois pode voar. E a queda desta altura é a morte.

Das coisas simples que me fazem sentir bem #1


Morangos com chantilly.
Pode-se juntar mais umas coisas, e perfeito é juntar chocolate (que também adoro). Mas os morangos com chantilly são um regalo para a vista e para o paladar e transportam-me de volta à felicidade das coisas simples da infância.

Time Out


Entre hoje e domingo, não sei quando volto a ter net (tudo depende de uma coisinha chamada placa 3G, que não sei se terá rede no sítio para onde vou). Mas tenho o meu filho!

O que escrevo

Há uma pessoa que acha que, mais dia menos dia, irei “escrever um livro, e depois outro, e outro...". Gosto muito de escrever, cresci com esse exercício, mas um livro não acredito que conseguisse escrever. Como li recentemente, existem já mais livros do que aqueles que podemos ler no espaço de uma vida (sim, porque nós, meros humanos, não somos como o Prof. Marcelo...). É nossa responsabilidade escolher bem os que vamos efectivamente ler, mas maior ainda se os vamos escrever.

Não nego que é um sonho de muitos anos, mas disse a essa pessoa na altura que nem saberia como começar, nem sobre o que escrever. A escrita para mim, tal como a poesia, tem sido mais um caminho para chegar ao fundo da alma, ou o trazer de sentimentos que não entendo para a razão (possível) da linguagem... Sobretudo a poesia é uma coisa muito solitária, muitas vezes triste, de que talvez goste tanto precisamente por ser menos articulada, por ser palavras soltas da essência desses caminhos que procuro, que se podem usar para ir construindo os nossos próprios poemas vivos ou outra prosa que possamos viver. Para nos podermos ir encontrando, refinando, construindo a crescer.

Por isso, considero a minha escrita egoísta, e tenho dificuldade em escrever sobre outras coisas que não eu própria, os meus sentimentos, os meus medos, a minha vivência e os meus fantasmas. Se me lançasse assim a escrever um livro, o mais natural seria fazer um misto entre a realidade de mim e da minha vida, e a ficção dos vários “ses” que articulei. A personagem principal seria eu, o “eu-princesa”, mas com um pouco mais de sorte e, claro, um final feliz.

E isto ía interessar a quem? Em que é que isto iria enriquecer a humanidade? Portanto, minha querida “Mãe”, não creio que este sonho algum dia se realize. Os blogs têm sido quanto baste, e não vale a pena continuar a enviar-me informação sobre cursos de “escrita criativa”... Pronto, sim, entretanto aceitei o desafio e aventurei-me a escrever outras coisas, num registo diferente, mas em sistema auto-didacta. Há um desses desafios em curso, de que falarei brevemente, já aqui publiquei um pequeno conto, e resolvi que também vou publicar um outro mais elaborado que estou a escrever (mas que também não é nenhum romance que desse um livro). Irei publicar aos poucos, não faço ideia com que regularidade. E mesmo que digam muito mal (e estão sempre à vontade aqui para a total sinceridade), vou publicá-lo até ao final (que ainda não tem, mas lá hei de chegar). Não tem é título. Isto chega “Mãe”?...

Em todo o caso, prometo que, se um dia chegar a escrever um “livro”, levará uma bela dedicatória à minha “Mãe adoptada” (mas mais que mãe biológica, porque minha mãe do coração). Muito naturalmente, será um poema.

É que o meu Chefe é Peixes...

Desculpem lá o desabafo de ontem, mas foi de desespero… O meu chefe é um homem encantador, é fantástico em muitos aspectos, super cool, mas o rei do “last minute”, e do “I was thinking that maybe we should do this differently” (com olhar vago e sonhador, em cima de deadlines...). Muda de ideias umas 20 vezes ao dia, logo, 20 metades de trabalho acabam no lixo. É preciso quase empurá-lo para um canto para o obrigar a decidir coisas, que se vão amontoando na minha mesa e na dos outros. Mas depois quando decide, é tudo "para ontem se faz favor", e aquilo que não é humanamente possível fazer “ontem”, tem que se resolver no improviso. E não – ele não é sequer português...

Eu gosto de planos, lembram-se? Organização e métodos. Uma pessoa disse-me, eu no meio de um verdadeiro ataque de nervos, em tom de desculpa, mas com um fatalismo absoluto, “é que ele é Peixes…”.

Fiquei pasmada pelo tom da afirmação, e como não sou perita nessas coisas das astrologias, não tinha a mínima ideia do que é que aquilo queria dizer. Fui ver no Google, claro, e encontrei isto:

Either way, Pisceans are not by nature great leaders. Forgetful, spacey, and emotional they are drawn more to conceptual work than details. They can also seem unbearably inconsistent at times -- flip flopping between the conventional and unconventional. Beneath their surface lies uncertainty and an unwillingness to make decisions. Despite their lack in leadership ability, they are usually well-liked in the office. Their employees are generally loyal and sympathetic to this understanding and humanistic, if absent-minded, boss. (…) be sure to avoid pressuring them. Solve your own problems and come to them with ways of making their imaginative ideas fly."

Making their imaginative ideas fly”??? Eu cá sei o que é que voava se pudesse! Fiquei esclarecida... Somos, portanto, verdadeiramente incompatíveis, e se ele não for corrido daqui rapidamente, preciso de mudar de emprego antes que ele dê comigo em doida varrida, de internamento compulsivo (ou voluntário, por esta altura do campeonato!). E preciso de uns Xanaxes até lá, e uns desabafos de vez em quando...

Notes to Self

A minha lista vai crescendo... Eu até detesto palavrões, mas há coisas que merecem mesmo!!!


Para não esquecer:
  • Quando apetecer mandar alguém à M*E*R*D*A, é para mandar mesmo, e juntar uns quantos palavrões, de preferência todos os disponíveis, seja em que língua fôr.
  • Nota extra: aprender mais uns que o repertório é aparentemente limitado.
  • O resultado da não expressão é ficar a remoer e acabar com azia.
  • Se for o chefe, a casa de banho é mesmo ali ao virar da esquina, e de elevador vai-se lá fora num instante, dá para exprimir e ainda fumar um cigarro para acalmar os nervos...


Coragem


E é preciso coragem para reconhecer que só precisamos de ser corajosos...

Coisas de mãe, mesmo – não aconselhado para quem ainda pondera ter filhos

Mesmo para mim, só tem uma ligeira graça agora, que já passou algum tempo...

4 da manhã: "Mãããe... quero vomitaaar".

Corrida com o alguidar e... nada.

8:40, depois de ter sido uma luta para comer qualquer coisinha ao pequeno almoço, depois de termos saído de casa e quase chegado ao carro - apenas para voltar para trás porque queria vomitar "na sanita" (exigências macabras são especialidade dos miúdos de 3 anos!!!), acabando por não vomitar, depois de mais 15 minutos no sofá aparentemente melhor, ao ponto de estar tudo pronto para saír outra vez: "Mãããe... quero vomitaaar".

E desta vez... Oh, bless him...

Felizmente os meus pais poderam ficar com ele para eu ir trabalhar. E ainda me mandou embora, depois de instalado no sofá, com o alguidar de um lado e os mimos do avô do outro, porque tinha "uma coisa muito importante para dizer ao avô".

Oh, bless him...

Lá fui eu trabalhar, e lá fiquei todo o dia com aquele apertozinho no coração, da angústia de não "ver" como estava o meu filho a cada minuto, e com aquele maldito sentimento de culpa de não estar lá para ele nestes momentos. Isto custa. Mãe-mulher-trabalhadora por conta de outrém... Além de tudo o resto que sou e/ou quero ser... A gente mete-se em cada uma...

Lições de 2008

No último dia do ano, acordei a sentir ter chegada à meta. A uma meta inglória, sem troféu nem pódio, mas ainda assim, uma meta.

Referi 2008 como um ano mau, o “ano horribilis”, e por aí fora. Pensei em tudo o que o que me aconteceu ao longo do ano, tudo o que vivi, tudo o que sofri. Foi realmente duro. Chorei muito, penei muito. Lutei por tudo o que quiz fazer – o que tinha de fazer por mim.

Mas consegui. Ficaram marcas, claro. Umas ruguitas e alguns quilos perdidos, ainda às vezes uma angústia de não saber bem por onde vou, para onde e porquê. Mas sei que, pelo menos, já não vou no caminho que não queria, já não vivo presa a um eu que não era. Tenho um destino, uma nova meta. Dei-me a oportunidade de tentar ser “feliz” e hoje sinto que não só mereço, mas me devo, essa meta.

Pelo caminho, também aconteceram coisas maravilhosas. Despertei para mim, descobri no espelho, em conversas, e sobretudo na minha escrita, uma mulher que ainda é bonita, que tem boas coisas por dentro. Que gosto de mim como sou, e como começo de novo a mostrar que sou, e que ainda sei crescer e aspirar a ser muito melhor.

Fiz amigos, de vários géneros, mas todos me fazem hoje sentir que valho realmente a pena, que a minha existência é real para os outros, para o mundo, que outros gostam também do que vêem e ouvem em mim. E eu gosto de ter outros na minha vida, lembrando-me de algo, há muitos anos atrás, que me disse o meu Avô, uma das pessoas mais especiais da minha vida e a mais saudosa na minha memória. Disse-me ele, numa discussão sobre individualismo, porque eu achava que cada ser humano se devia poder bastar a si mesmo, que estava enganada e que os homens são ilhas que só prosperam se se ligarem a outras, se souberem construir pontes.

É.

Mas, sobretudo, ganhei uma amizade tão, tão especial, tão, tão profunda, que já não saberia viver sem ela. Mais que uma ponte, é um alicerce de mim mesma, que me tem ajudado a chegar ao meu melhor, a olhar para o meu pior, e a reunir as forças para lutar pelo que quero, contra o que não quero. Que me deu um ombro generoso para chorar quando não aguentava mais, abraços de reconforto e de partilha de pequenas felicidades. E que eu quero poder retribuir sempre que puder, sempre que ela precisar, não por gratidão, que tenho, mas simplesmente porque gosto tanto dela.

No final, cheguei ao fim de 2008 melhor do que 12 meses antes. Ainda com muito que resolver, que lutar, que sofrer, pela frente. Mas fechei um ciclo, andei para a frente, consegui o que queria, e foi o primeiro passo para que 2009 me possa trazer mais e melhor, e para ter esperança e confiança no amanhã.

Por isso, afinal, 2008 até foi um bom ano para mim. Fiz as pazes.

Silêncio

Na noite de Natal, a mãe da minha Mana tinha na árvore uns papelinhos dobrados. Explicou que cada um tirava um, ao calhas, e que esse papelinho continha uma virtude, que já possuímos, mas que nos vai acompanhar ao longo do ano e que temos de exercitar. Devemos pensar nela, e usá-la, sempre que enfrentarmos uma dificuldade ou uma tristeza.

A mim calhou-me o “Silêncio”. E diz:

“Eu pondero a grandeza da minha existência e o verdadeiro poder e amor sem fim que eu tenho dentro de mim”.

Depois disto, digo o quê?................