Como é que uma mulher pode resistir?...
quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009
Das coisas simples que me fazem sentir bem # 4
Como é que uma mulher pode resistir?...
segunda-feira, 30 de Novembro de 2009
Ordem
Tem que se começar por algum lado, e resistir à tentação de brincar demais com os novelos, sob risco de se ficar enredado. Curioso que a vida às vezes nos surpreende, dando respostas inesperadas a perguntas que não chegamos a verbalizar. E pega-se nessas pontas, e vai-se puxando.
quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
Dangerous Lines
“Os olhos cansados, ausentes, fixavam-se no infinito. Além, muito além, da linha visível do horizonte. Era também uma linha que flutuava naquele espírito, desassossegadamente, repelindo o sono. Era a linha que não sabia se queria cruzar.”
Há um limite para tudo, todos temos os nossos próprios limites. Limitamo-nos ou definimo-nos? Essas fronteiras que fixamos, seja por que razão fôr, são mais relevantes pelo que nos impedem de fazer ou, pelo contrário, pelo que nos fazem ser? São talvez limitativas, se são linhas que impomos inflexíveis. Mas quando são escolhas, serão então mais definidoras? Linhas que apenas nos desenham?
E onde arrumamos os princípios? Diria que são uma dessas fronteiras essenciais. E podem ser tão limitativos quanto definidores. São talvez, em mim, das fronteiras menos flexíveis, mais guardadas e defendidas. São, possivelmente, as linhas que mais batalhei para definir e que, por isso mesmo, mais me definem. E são também as linhas que mais me custa cruzar, ou redefinir.
Se são hoje as mesmas as fronteiras de mim? Não... nem por sombras. Subtilmente em geral, às vezes num repente de uma clarividência chocante, essas linhas movem-se, ajustam-se, podem esbater-se suavemente ou, pelo contrário, adensar-se em sulcos profundos.
“Ao saber-se hesitante na escolha, perguntava-se repetidamente porquê. Via as razões de ser, do seu ser, na escolha de não passar para o lado de lá. Cheirava a perigo. Mas o perigo também atrai. E via o que não queria perder do outro lado. Porquê?... Via nessa interrogação assim, também, que as razões do seu medo eram as razões da sua vontade. E via negar-se um querer, para não se perder. Porquê?... Porquê?...”
Nos porquês que se levantam sobre essas fronteiras, esquecemo-nos muitas vezes de uma coisa importante. É que esses porquês são, em si, andar perigosamente, num equilíbrio periclitante, sobre a linha da própria fronteira.
sábado, 21 de Novembro de 2009
Será?...
Grande Vinicius de Moraes... Cada coisa que escreveu, com mais alegria ou tristeza, com mais humor ou mais seriedade, é sempre uma perfeita maravilha, e melhora com voz. Por acaso esta versão consta do CD que comprei acidentalmente e com que o descobri. Uma descoberta fatídica, mas ainda assim, uma grande descoberta.
Mas agora, àparte o humor, e numa perspectiva feminina, leio e oiço cada frase de uma forma diferente. E fico a pensar... será?... Abaixo o texto original, que ele não segue exactamente na versão declamada do vídeo.
"Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor."
Mais do Tempo
E pronto, é isso. Ainda não sei se é Príncipe, mas é, definitivamente, uma espécie de sapo diferente. E assim são, sem sombra de dúvidas, tempos diferentes, e o tempo a correr de forma diferente.
Isso continua a ser a minha angústia, a minha dúvida, porque as vidas que levamos nos obrigam a uma certa distância. Por causa da minha “vertente mãe”, com disponibilidade mais reduzida e horários mais limitados em semanas alternadas. E por ele, os compromissos profissionais, viagens pré-marcadas, etc. Azar, é que têm calhado muitas dessas coisas nos dias da minha “vertente mulher”.
Ou seja, a gestão dos nossos dois tempos traduziu-se em poucas horas partilhadas presencialmente, e quase todas concentradas na mesma semana. Ele aponta que houve coincidências azaradas. Promete-me que não costuma ter a vida assim tão ocupada, e reiteira que se vai “organizar melhor”. Tenta compensar com SMS’s e telefonemas, espalhados ao longo do dia, e ainda não falhou um bom dia. Almoçamos sempre que possível e até já virou a vida do avesso por uns minutos só para me dar um abraço. Há que dar-lhe crédito, ainda por cima porque eu não cobro.
Mas isto para mim é tortuoso. É assim um limbo. Mas afinal eu tenho namorado, ou não tenho? Partilha? Partilho? Como é isso de ter um namorado e estar sozinha?... É quase um namoro à distância.
É difícil, e demasiado perigoso, sobretudo numa fase tão inicial em que se quer tempo e espaço ocupados pelo outro, progressivamente, mas a ganhar balanço e não com interrupções abruptas que nos param a meio o mergulhar da descoberta e da entrega. É que nos espaços vazios de entretanto, crescem outras coisas. Dizia-me alguém que tudo seria melhor se o incluísse mais na minha vida. É verdade, mas isso pressupõe apresentá-lo ao meu filho, algo que acho ainda muito cedo para equacionar. E depois, isso é um caminho que também é preciso que ele queira fazer. E na realidade, não consigo perceber isso com SMS’s, telefonemas e Messenger. Há coisas que só serão claras com o passar do tempo e, sobretudo, com o passar do tempo juntos.
O futuro é sempre uma incógnita. A vida está cheia de surpresas, e eu que o diga, que tenho tido uma catadupa delas nos últimos tempos. Mas é complicado viver quase permanentemente na dúvida, e viver quase sempre num futuro projectado que se torna presente esporadicamente, e que voa demasiado depressa.
quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
Os Poetas
segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
Wake-Up Calls
Desengana-te se pensas que estico, que paro, ou que corro em duas pistas em simultâneo. Não penses que o tempo que te corre por dentro em momentos escapa do tempo que sou em segundos no relógio da vida. E não te iludas pensando que me agarras e me domas."
Acordo neste sobressalto. E agora?... Realmente como é que eu faço isto? Como é que integro mais um tempo de dentro, mais um tempo de presença, mais umas tarefas na lista, mais uma vontade, mais uma faceta de mim em alternância?
E depois liga a voz que me diz com calma que não oiça o tempo carrasco. Que me diz que não é uma “wake-up call”. Que me diz que acorde antes tranquila para deixar correr o tempo por aí, como ele quiser, que não importa. Que me diz que me deixe levar, pelos dias, pelas horas, até ser hora, e que por aí nos vamos encontrando, em novos tempos que vamos criando, e moldando os dias para que vá sendo também o nosso tempo entretanto.
Acordo a pensar que está a acontecer, independentemente do jogo do tempo, do que conto e do que vem de dentro. A vontade tem de comandar, e nesta nova faceta contarão os segundos de cada esperada presença. Até lá as tarefas realizam-se, a vida acontece, as outras facetas vivem o seu tempo e, devagarinho, deixo-me apenas “ser”. E tento aprender a integrar-me num todo, também com o tempo. É mais fácil bebendo da tranquila fé que me chega do outro lado da linha.
domingo, 15 de Novembro de 2009
Metamorfose
Passaram-me diversas alternativas pela cabeça, discuti algumas (obrigada mana, pela paciência!), e até disparatei com alguém ao ponto de chegar a pensar em combustíveis e inflamáveis, pelo que passaria a ser qualquer coisa como “Princesa Sem Chumbo 73”.
Princesa fica, que quero mesmo ser Princesa, e sou Princesa de muitas formas, e quero ser tratada como tal um dia pelo Príncipe que hei de encontrar (se não encontrei ainda...). Não quero usar o meu nome próprio, por isso também não quero usar outro nome próprio, que me sentiria enganadora. Assim, “Esmeralda”, a minha pedra preciosa favorita, ou “Clara”, em alusão a clareza, claridade e luz, não servem. Diz que tem de ser alguma coisa doce, que me reflicta de alguma forma, e lá percorremos as despensas e livros de receitas à procura de inspiração. Surge a baunilha, côr da pele em gelado, surge o praliné, muito doce e dourado, surge o merengue, branco, doce e leve, e quase me tento por “Princesa Merengada”.
Divagando também por outros caminhos, e em alusão a uma “private joke”, também me tentei com “Princesa Vesúvio”. Depois desisti, que ía ter muito que explicar... O que quero é ser Princesa que encante e que se encante, sempre e para sempre, mesmo que seja aos bocadinhos de cada vez. E acabo por quase resolver que passo simplesmente a “Princesa dos Encantos”. Mudava uma só letrinha e desapareciam os parêntises, mas fazia toda a diferença... Só que gostava, se possível, que tivesse a ver com destilar. Então, surge “Moscatel”, um doce destilado, dourado e enebriante, que ainda por cima é de Setúbal (e porque é que isso é relevante, agora não interessa nada). Quase, quase desisto, balanço com a hipótese dos encantos, mas depois decido-me e sou a partir de hoje, também como um acto de fé, a “Princesa Moscatel”.
PS: Depois descobri que é um "licoroso" e não exactamente um "destilado", mas isso agora também já não interessa nada!
sábado, 14 de Novembro de 2009
sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
É os olhos
Eu já aqui disse que gosto de gatos? E que há gatos que jogam bem? Pois... De vez em quando acerto em palavras e metáforas que nem imagino como vão fazer sentido tempos depois. Chamei-lhe gato, e andei a fazer de pantera, enquanto alguém me perguntava se ele me atraía e eu dizia “tem qualquer coisa, não sei bem o quê – talvez o olhar”. E é. Já percebi que é. São os olhos. De gato. Aquela côr meio indefinida entre avelã e verde azeitona, e o brilho, e... e... a intensidade? Custa-me, o que é raro, mas lá chego à palavra certa: magnetismo.
E depois... Eu já aqui disse que gosto de dançar? Eu já aqui disse que gosto de danças de par? Pois... E na dança me perco. É que o gato também dança, e em ritmos quentes. E eu já aqui disse como gosto de abraços? Aaah... pois é... Caibo tão bem dentro daquele abraço.
Mas mais que tudo, é os olhos. Como neles me vejo tão límpida e o que vejo brilhar neles. No segundo do reencontro, no momento da despedida. Na procura de mim e no fim de um beijo ou de um abraço. No frente a frente intencional de uma conversa e em silêncio, pressentidos e surpreendidos como que por magia. Na doçura de um sorriso terno e na quase malícia do desejo. Ao acordar para um olhar assim, sou eu que me sinto gata, que só quer aninhar-se naquele abraço e ali ficar. Sem tempo. Aqueles olhos prendem-me... Mas não gosto de estar presa, sei que acabo a querer fugir. E quase me sinto uma gata assustada, mas quero encontrar nos mesmos olhos o fim do medo.
quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
Às vezes...
Mais do que as palavras que se ouvem, conta a intenção que as dita. Nem sempre é fácil descortiná-la, mas às vezes trespassa-nos com uma imensa claridade. Podemos preferir negar-lhe a visão, seja porque nos magoa, seja porque não é o que queríamos ver ou não é o que pensamos que íamos ver. Mas às vezes... também é capaz de nos estampar um sorriso e elevar na onda dos sentimentos próprios de uma surpresa feliz.
Mais do que um “gosto de ti”, que qualquer um pode dizer ou escrever sem verdade, falam palavras que se traduzem em “vejo-te e sinto-te, entendo-te”. Mais do que um ramo de rosas comprado à pressa na esquina, falam gestos que nos mostram que alguém nos leva em pensamentos pelos seus dias. Mais do que uma qualquer desculpa por alguma falha, vale a preocupação de que entendamos que não há intenção de falhar, e um pedido de desculpas preocupado que nos surpreende, porque até achamos que não houve falha nenhuma. Mais do que um “tenho saudades”, fala a prova de alguém que muda o impossível, e vai chegar ao fim do dia exausto, para ganhar o tempo de nos ver e poder dar um abraço. Com um sorriso tão genuino e um olhar tão ternurento, que chega a doer reconhecer que não se esperava, que se desenhava essa pessoa como algo muito menor, à imagem e semelhança dos pequenos seres que popularam o passado.
Sinto-me muito menor que ele nestas tremendas generosidades. Confortavelmente instalada atrás dos muros que ainda imponho, no egoísmo do meu castelo só para mim, e ele a bater suavemente à porta, mas determinado e a todas as horas do dia, feliz com a possibilidade de poder provar que é digno de entrar, ciente das defesas e das reservas, mas confiante de que as ultrapassa. Já entrou, mas ainda não sabe bem o quanto, que ainda tenho medo de lhe dizer que tem a chave. Mas vou tendo vontade. Sobretudo quando me diz que, aconteça o que acontecer, sabe que não se vai arrepender. E não é ingenuidade, que já não tem idade para isso. É... confiança, ou esperança, ou fé. Que parece ter que chegue para os dois. Às vezes... que coisa... até dá vontade de acreditar também.
Porque sou mesmo retorcida
Escrevia-me a minha mãe adoptada há uns tempos atrás: "Bem.... é sempre assim! Snif, snif... é como ir às compras contigo. Pedes opinião e eu dou e tu fazes o oposto! És uma rapariga de fortes convicções! Está dito!"
E eu respondi: "Coitadinha... :)... Tenho tanta peninha... Deve ser por isso que ninguém quer ir às compras comigo... Mas é que eu preciso desse desafio de opinião, para testar até que ponto estou realmente convicta, percebe?? É um bocado perverso, eu sei, mas eu sou assim!"
E sou mesmo... O blog também tem muitas vezes funcionado assim...
terça-feira, 10 de Novembro de 2009
O amor não existe
A propósito do Facebook, alguém me disse que, supostamente, os tais 6 elos de ligação da famosa teoria do “Six Degrees of Separation” equivalem à “distância” entre um Europeu e algum esquimó. Pensei então que, se calhar, era no Polo Norte que me esperava o Amor, sentadinho num igloo qualquer, já a desintegrar-se de tão enregelado.
Até há pouco tempo, pensei que fosse suficientemente louquinha para, se soubesse que o amor que queria viver estava no Alasca, apesar de detestar o frio e mesmo de nariz gelado, ir ao encontro do destino nesse igloo. Mas hoje sei que não. Hoje percebi que não sou assim tão louca – percebi, fria e tristemente, que já não acredito no amor. Acho que a minha insatisfação crónica, e o meu “azar” crónico com os homens, são produto um do outro, resultam de procurar o que não existe, e assim se traduziram em experiências que me tornaram céptica. Não estou disposta a correr a distância, ou o risco, para procurar uma coisa que agora acho que é uma quimera. De uma forma irónica, tornei-me quase no mesmo dos que sempre condenei, e hoje só sou capaz de olhar para um possível relacionamento com a frieza de quem aceita incontestável o facto de que o amor não existe mesmo – o que existe é tesão, a que chamamos paixão, mas que também dura muito pouco – dizem que 7 meses em média. E é incontestável que todos passam, tal como nós passamos pelos outros, e até o “amor apaixonado”, que dizem que se pode seguir à paixão e será, talvez, o mais próximo do idealizado “grande amor”, dura em média 3 anos. Não existe “para sempre” em nenhuma história, e muito menos o “felizes para sempre”. E há certas coisas que não se justificam se não forem no pressuposto da eternidade.
Essa promessa eu não posso fazer a ninguém, nem aceito que ma façam, simplesmente porque não acredito. Por ora, é apenas isso que ainda me distingue do que não queria ser – mesmo chocada por me ouvir e chocando quem me ouve, sou honesta, claríssima, transparente, não prometo nem quero promessas, não embelezo nada dando nomes falsos às coisas, e só vou a jogo nessas condições. E mesmo assim, só se for por aqui, porque não vou ao Alasca, ou à Austrália, por isso – é que não se justifica mesmo.
E o certo é que, munida desta nova convicção, se torna tudo muito mais fácil, muito mais simples e descomplexado. E acho que é só porque cheguei a esta conclusão que estou a dar hipótese a que alguém entre na minha vida. Depois do choque de parte a parte, a realidade é que uma situação clara, sem ilusórias expectativas, acaba por ser muito mais confortável para que se expresse numa relação a dois aquilo que nos é mesmo intrínseco. Talvez seja antes este o caminho, talvez permita alicerçar as coisas até com maior solidez. Mas seja como for, e dure o que durar, é autêntico desde o princípio. Pode até acabar com lágrimas de desgosto e saudade, mas não acabará com culpas nem com recriminações, e deixará memórias felizes de momentos bons vividos intensamente e descomplexadamente. Se é amor? Certamente que agora não. Será um dia esse tal “amor apaixonado”? Quem sabe? E por quanto tempo? Uma incógnita. Mas não me importa. O que é agora, é bom. E assim se mantenha (mesmo que se só esses tais 7 meses).
segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
Jogo de Sedução
Chegou de mansinho, de surpresa e em surdina. Não tinha nada de especial a não ser uns olhos penetrantes, luminosos e um movimento de aproximação felino. Ía e vinha, e a cada distância lá estava o olhar, ou a palavra, sempre certeiro, desafiador, inegável. Depois a aproximação sempre inesperada, de uma direcção diferente da de onde tinha vindo a última abordagem. Na presença, dissimuladamente, um toque ao de leve, uma palavra sussurada. Um sorriso de caçador que já marcou a presa, que sabe o que quer e que sabe que consegue. A rondar, a estudar, mais próximo a cada aproximação, a exibir o porte e a fixar os olhos na exigência de um olhar de volta. E conversa, muita e boa conversa.
Mas não sabia ele que o jogo não é sempre esse. Que o caçador vira presa no instante em que quem era presa percebe que tem o poder de negar com inteligência o que lhe querem caçar. Vira a mesa nesse instante e aqueles olhos agora não brilham de certeza de conquista. Brilham de desejo, e de súplica, por mais, por muito mais do que aquilo que a suposta presa vai dando. E a presa caça o caçador só quando lhe apetecer – e é só mais um bocadinho. Entretanto, também se diverte um bocado. Vai e vem num bailado mais felino do que o do gato, porque essa presa tem alma de pantera, já foi caçada noutra vida, e não quer ser presa outra vez. Agora sabe pôr as unhas de fora, afiar o olhar e mover-se com muito mais subtileza, enquanto o gato se esforça desesperadamente por merecer ser caçado. Pobre gatinho...
Para panteras assim, “it’s not winning or loosing - it’s how you play the game…”. Mas alguns gatos jogam bem.
sábado, 7 de Novembro de 2009
Testes
Como tenho uma qualquer veia científica, provavelmente herdada do meu avô paterno que era investigador (engenheiro de origem), decidi pensar numa série de testes para alminha que resolveu engraçar-se por mim.
Confesso que, ao pensar nisto a princípio, dei por mim a sorrir maliciosamente e a dizer-me “ele esta nunca vai passar!”... Depois achei que é, e será sempre, demasiado cedo na minha vida para me transformar numa daquelas horríveis professoras velhas, chatas e azedas que tinha no liceu, e que faziam testes para lixar o pessoal. Enfim... a bem da justiça e das oportunidades, e essa treta toda, pus umas coisas mais rebuscadas de lado.
O danado tem-se safado. Por exemplo, já aguentou estoicamente quase 1 hora e meia de messenger em conversa séria, até dá boas respostas, e encaixou todas as minhas fugas às insinuações, ou melhor, declarações mais ousadas. Dessa vez, só nos últimos 10 minutos é que assumiu uma clara mudança de assunto, e pronto, até teve a sua graça. Noutra ocasião, também já resistiu à conversa da astrologia e saiu-se muito bem (esta adoro, é um bocadinho perversa – porque ficou sem saber até ao fim se eu era ou não uma maluquinha esotérica, que não sou nem por sombras, mas nem por isso se demoveu...). E em conversa mais aquecida, nunca passa o risco, fica lá sempre muito, muito perto, cada vez mais perto, mas não passa. E também reagiu muito bem a um travão que pus nesse registo, e a uma certa gestão de expectativas que fiz em relação ao nosso encontro. Inspirou-me confiança.
De repente fiquei a pensar se não fazemos sempre isto mais ou menos inconscientemente. Estes pequenos “testes”, geralmente perguntas aparentemente inofensivas, pequenas curiosidades, ou afirmações potencialmente chocantes, fazem-me lembrar um cross examining numa sala de tribunal. O único senão é que ninguém jura nada sobre coisa nenhuma, e não há polígrafo para confirmar a autenticidade das respostas. É uma questão de intuição e montagem, aos poucos, do puzzle do outro com aquilo que se vai sabendo, sendo que só ao fim de algum tempo é que se percebe o que se está a construir, e se há ou não peças que não encaixam em lado nenhum, e onde estão as peças em falta. Este puzzle tem-se montado num instante e já dá para perceber muita coisa, mas ainda há demasiadas peças soltas.
Não sei que puzzle é que ele construiu de mim e espanta-me, confesso, este entusiasmo tão galopante. Já percebi que ele apanhou muita coisa, assustadoramente mais do que pensei ter dado, mas a última foi chamar-me “cocktail explosivo”, num sentido muito positivo, e na sequência de uma conversa sobre razão vs emoção... Nem o facto de eu ser o montinho de paradoxos que aqui me conhecem parece que o afecta, antes pelo contrário. Imagino que também me deve ter submetido aos seus próprios testes, e a julgar pela “animação”, passei a todos... With flying colours, parece.
Mas o grande teste só mesmo ao vivo e a côres. Espero que sem tremores... Esse vai ser o primeiro polígrafo. Se passar, o veredicto do jurí pode levar menos tempo a sair.
quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
Engatar ou cortejar?
As mulheres passam a vida a queixar-se que os homens, hoje em dia, são uns atadinhos, que não tomam iniciativas, que não sabem o que querem ou que têm medo de se assumir na conquista “activa” de uma mulher. Partilho dessa opinião, e também me tenho queixado do mesmo. Por outro lado, queixamo-nos dos tais homens-melga, que também não gostamos de insistências idiotas, sobretudo quando não estamos mesmo interessadas e eles não há maneira de perceberem.
E agora cai-me no colo um homem que sabe claramente o que quer, que assume frontalmente uma postura de conquista, e me faz um cerco cerrado. Ele é Face Book, ele é Messenger - e longas conversas, números de telefone trocados – e usados, e um convite para jantar com direito a dança a seguir, “até nascer o sol”.
E o que é que eu acho disto?... Acho piada. Gostei dele, conversamos imenso no dia em que nos conhecemos, através de uma amizade comum. Temos afinidades diversas, é certo, somos ambos pais divorciados e por isso entendemos bem essa dimensão especial das nossas vidas, e ele não se “assustou” com a minha vida complicada. É um homem maduro, inteligente, gosto da conversa dele e do sentido de humor. Mas...
Isto é rápido. Muito rápido! Jantar a dois assim sem mais nem menos assusta-me um bocado. Resolvi aceitar o convite, mas felizmente, por um acaso do destino, afinal não seremos só dois. E fiquei aliviada mas a pensar porque é que me havia de assustar com uma postura que é frontal, honesta, afinal aquilo que advogo que todos devemos ser uns com os outros. Desde que não haja leviandade na abordagem, o que é cedo para determinar, é assim que acho que devia ser. E também desde que não se torne demasiado “pavão”, que não há paciência para shows de vaidade nesta idade... mas o certo é que ainda não sei se a ideia dele é "engatar" ou "cortejar" - e são coisas muito diferentes.
Até agora nada me faz crêr que ele não seja boa pessoa (até porque as “referências” são muito positivas). Mas o certo é que me custa acreditar em pureza de motivos. É que neste novo caminho, ando sem ilusões de contos de fadas e princesas. Ando a escrever linhas novas sem poesia, e já não espero milagres. A questão é se me terei tornado demasiado céptica, ou antes absolutamente lúcida.
quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
O sabor da dança
Numa cara de pele de chocolate preto, brilham uns olhos escuros que não se sabe onde vão buscar a luz que emanam. Brilha um maravilhoso sorriso branco, perfeito, rasgado como só os mais puros podem suportar. O corpo brilha da pele esticada sobre músculos rijos, em todos os contornos que parecem desenhados no embalo do som de uma kizomba. O corpo move-se de uma forma única, com uma segurança, uma altivez, que não é arrogância, é orgulho. Dança com leveza, num balanço incomparável porque é simplesmente a música a pulsar dentro do corpo sem resistência, a inundar a alma.
Estende-lhe a mão e convida-a para dançar. Ela hesita porque não conhece aquele ritmo e aqueles passos, não tem o balanço e a curvatura daqueles corpos escuros que observa na pista de dança, corpos opostos ao seu corpo, que é estreito e muito branco.
- Não sei dançar, desculpa.
- Não tem problema. Ninguém nasce ensinado. É muito simples. Vamos lá!
E lá foi. Lá foi ela. Ele contou os tempos do passo mais simples e disse-lhe que ouvisse a música e se deixasse levar. Ela ouviu, e sentiu, e deixou-se ir. Ao fim de duas danças já não contava passos. A música fluía também pelo seu corpo, numa cumplicidade crescente com o estranho sorridente. A atracção da noite foi aquele par de total contraste de branco e preto. Afinal também balança e se arredonda um corpo branco e esguio. Basta que deixe entrar e mandar a música, e é muito mais fácil com a ajuda de um corpo oposto que nasceu para aquele embalo. Experiência de chocolate puro, negro profundo, a envolver docemente um corpo de gelado de baunilha.
Inscrito no desafio da

terça-feira, 3 de Novembro de 2009
Andando
Tenho para aqui um monte de linhas soltas a popular uma página desorganizada. Uma série de ideias, de pensamentos, coisas que me andam na cabeça a rodar e que ainda não consegui destilar. Apetece-me escrever, mas não sei por onde começar.
Partir e voltar tem duas chegadas e dois destinos, mas divide o tempo em três – antes da partida, na duração da viagem, e no regresso à base. Do primeiro tempo está tudo aqui, mais que escrito e destilado. Do segundo tempo, tenho as fotografias e as memórias, envoltas numa bruma estranha ao som de kizomba, e que não se encaixa na linearidade que habitualmente damos ao tempo. Parece que não fui eu que estive lá, parece quase que não foi real. E o terceiro tempo, que corre agora, ando ainda a aprender a contar, e tenho dificuldade de o apreender antes de se evaporar.Tanto o tempo em que estive lá como estes três dias desde que regressei me sabem a passado longínquo. Estranhamente, enquanto lá estive, parecia-me que o tempo não passava, e agora que voltei, acho que foge de mim como um louco, ou me empurra desvairadamente para um lugar estranho.
Ocorre-me que são novos caminhos, que não seguem os trilhos conhecidos e expectáveis dos mapas que já sabia de cor. Desembarquei do avião uma outra, por duas vezes, e a cada aterragem deparei-me com essas novas realidades. Sei que o mal destas linhas soltas aqui espalhadas, a razão porque não consigo articulá-las, é porque misturam esses três tempos, esses três eus em que me plasmei. Tenho de apagar umas quantas linhas que já não pertecem ao aqui e agora de mim e da minha vida. Quero separar umas outras para marcar a memória, e quero fazer as restantes crescer, com o passar dos dias, passando de linhas e parágrafos a textos consequentes, à medida que se define o meu novo contorno, num traço mais nítido, a cada passo em frente.
domingo, 1 de Novembro de 2009
Voltei
Estou de volta, mas sinto-me de partida. Vou andando por aí e algumas linhas mais consequentes hei de escrever em breve. Levantei muita poeira nesta ida, e a aterragem da volta não foi suave. Está cá tudo na mesma, claro, nem esperava outra coisa. Mas sei que este respiro foi bom, muito bom, mesmo no inesperado que trouxe, ou talvez ainda mais por esse inesperado. E sinto-me cheia de força. Trouxe coisas novas na bagagem, algumas brutalmente esclarecedoras, mas deixei para trás umas quantas outras. Valeu a pena, valeu cada minuto e cada raio de sol, cada caminhada na areia e cada descoberta. E foi um privilégio o vislumbre de almas novas com quem me cruzei, que de uma forma tão simples, mas tão pura, me fizeram entender tanta coisa de mim e da vida. E de por onde quero ir.
sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
Vou ali, já venho
Depois de duas vezes adiada a partida, hoje também fecho a minha mala para ir para longe uma semana. Resolvi pegar no passaporte, um monte de livros, outro de biquinis, protector solar e repelente de insectos (que repelir outras coisas é-me natural) e partir para outras paragens, mais calmas e prazenteiras, solarengas e longe, bem longe disto tudo. Vou a África, não a um dos meus destinos de sonho que são um bocado mais fora de mão, e pouco propícios para o trabalho de casa que levo, mas ainda assim África, de praias, palmeiras, tempo lento e descontraído. Preciso mesmo desse respiro para voltar então para o recomeço da minha vida em força, com as ideias arrumadas e o corpo descansado (além de bronzeado, o que me vai dar um certo gozo no regresso, já que sofro geralmente de ser a eterna “branquela”). Preciso mesmo de uma fuga destes espaços e destes tempos, para poder mergulhar em mim mais fundo e não me deixar fugir. Preciso de sacudir a poeira da minha alma que se tingiu de escuro nestes dias. Preciso de inspirar profundamente e expirar convictamente, largando o peso no ar. Preciso de ir deixar em solo infértil, onde tão cedo não vou voltar, e que não vou regar, cheiros, memórias e imagens, restos de sonhos e ilusões, sobras de amor e de ódio que agora se misturam em mim e me agoniam. Preciso de ir buscar a paz, a força, a leveza da alma e do coração limpos, leves e arejados.
Trago fotografias. Ou não. Se calhar não é um tempo para recordar.
quinta-feira, 22 de Outubro de 2009
Fechar a mala
Mesmo quando é numa despedida para uma ausência curta, custa sempre fechar-lhe a mala. Há que deixá-lo ir, largá-lo na rotina das idas e vindas que a vida lhe impôs, e sorrir de volta, seja lá como fôr. Tento pôr-lhe dentro da mala mais do que posso. Sei que a encho de coisas inúteis e coisas demais. Acaricio as roupas que escolho e dobro, na ilusão de que ele me possa sentir as mãos quando outro alguém o vestir. É uma ilusão idiota. Sei que não vou lá dentro, não vou com ele. E quando fecho a mala sinto-me fechada do lado de fora, de fora desses espaços e desses dias dele sem mim.
E sobram-me dias de mim sem ele. Dias de que preciso, em que aproveito a liberdade e o silêncio ou a agitação dos meus dias de mulher, mas dias que vivo nunca me deixando de sentir mãe em vazio. São, desta vez, dias que me impus e lhe imponho, porque são dias que agora me são vitais. Desta feita, sou eu que o fecho de fora deste bocadinho de vida que vou viver mais longe, e desta vez não sinto culpa, ou remorso. Mas sei que sentirei saudade.
Das coisas simples que me fazem sentir bem # 3
Agora leio “A Espuma dos Dias” de Boris Vian. Não é uma "novidade", é de 1946, mas que descoberta fabulosa, em todos os sentidos... Vou a meio e já sei que será daqueles que não vou esquecer, e que tenho a certeza que hei de querer reler.
quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
Lá chegarei
Pacifico-me, entendendo que não quero mesmo baixar os braços. Sereno, debitando palavras que me fogem como um sorriso involuntário que se desenha nos meus lábios. Levanto a cabeça, com a convicção, talvez idiota, que já estou no caminho.
Não sei qual é o meu caminho, mas não é desistir. Começo a sentir nítidos os contornos de brumas que vagueiam por mim em sonhos. E sinto um fervilhar qualquer que me deixa na antecipação de que está a começar. O futuro, está a começar.
terça-feira, 20 de Outubro de 2009
Reminiscências
Fugi para a praia e sinto-me bem.
A areia molda-se-me ao corpo,
Apoia-me, entende-me, aquece-me também.
Recordo o passado, tempo já morto,
E perco o olhar
No azul infinito do céu e do mar.
Sinto que fugi para esse infinito.
Meu ser funde-se com aquele azul.
Quero ir à deriva num barco bonito,
Andando e andando, sempre para sul.
Deixando para trás
O norte e a vida, em busca da paz.
Eu só quero viver se puder levar
Uma vida sem culpas, sem lutas vencidas,
Ao sabor do vento e das ondas do mar.
Deixem-me partir, amarras vendidas,
Deixem-me ir
Com as ondas do mar.
Sonhar e partir
Para não mais voltar.
domingo, 18 de Outubro de 2009
Equilíbrios
Há alturas em que me sinto em guerra comigo própria. Sinto que sou prisma colorido de muitas faces e muitos brilhos, e que o conjunto não é uma forma harmoniosa, mas antes um obtuso objecto que quer rolar mas tropeça nas arestas e nos vértices, nunca se fixando numa côr definida. Sinto que tenho de escolher quais as faces do prisma que se podem ver, que podem brilhar, e que há sempre umas quantas que terão de ficar ocultas, porque o objecto tem de assentar em algum dos lados.
Senti muito isto em relação à minha dicotomia mulher/mãe aqui há um ano e pouco atrás. Foi um dos meus maiores desafios dos últimos tempos, arranjar um equilíbrio para o prisma de forma a que, tanto a face da mulher como a face da mãe, pudessem brilhar e ver a luz do sol, criando no conjunto uma paleta de côres harmoniosas. E agora, por força das circunstâncias, sinto de novo esse equilíbrio perigado, lutando entre uma enorme vontade de partir pelo mundo fora e uma inegociável necessidade de caminhar com o meu filho.
Queria fazer a mala e levantar amarras, partir à aventura, recomeçar a vida toda num outro lugar, encontrar o meu lugar. Mas ele prende-me aqui e não consigo sequer articular a hipótese de partir sem ele. Isso seria enterrar no chão uma das faces mais importantes do meu prisma e sei que seria desvirtuar-me, no sentido em que seria tornar-me incompleta, seria tornar mais pobre a paleta de côres que o meu prisma produz. Sei que não seria capaz, como uma amigdalite me faz claramente recordar, ao embalá-lo no colo uma noite inteira, sofrendo a agonia de o ver sofrer, correndo com ele para o pediatra com a instintiva mas inquestionável certeza de que ele estava mesmo doente. E estava.
Nas noites sobressaltadas a seguir, noites de ausência dele que ficou com o pai, mesmo sabendo-o medicado e a melhorar, sofro a distância e sinto o prisma desiquilibrado. Como poderia ir para mais longe ainda, e por muito mais tempo do que os 4 dias ou uma semana no máximo que ele passa com o pai a cada quinze dias?...
Não posso. Mas queria. Queria ir. E esse ímpeto de movimento negado ao prisma, desiquilibra-o perigosamente, e escurece assustadoramente a luz que me atravessa.
sábado, 17 de Outubro de 2009
Curiosidade
Coisa estranha a forma como alguns crescem em nós. Nunca tinha percebido como era possível. Sempre foi para mim uma coisa basicamente instintiva, e ainda mais com homens – gosto ou não gosto, simpatizo ou não simpatizo, confio ou não confio, atrai ou não atrai (e nesta vertente então, é mesmo instintivo e imediato). Depois normalmente o primeiro impacto vai-se consolidando e pode crescer, às vezes mais e às vezes menos, mas sobretudo se fôr positivo. Aí é como uma semente - se confio, confio cada vez mais, se gosto, gosto cada vez mais. Salvo, claro está, as desilusões que se tem pelo caminho. Se é negativo, normalmente acaba em simples indiferença porque me afasto diplomaticamente, detesto fazer fretes de politicamente correcto.
E no entanto, de repente dou conta de que, aos poucos, há mesmo quem ganhe espaço dentro de mim, quem se vá construindo em mim do quase nada e vá ganhando outros contornos, ganhando aos poucos a simpatia, o gosto, a confiança, e até a própria atracção, num crescer simultâneo das várias vertentes, e polarizado-se em algumas delas. Torna-se mais igual, deixa de ser um ser tão estranho e diferente que mais parece de outra espécie, no sentido em que vai sendo mais conhecido, mais compreendido. E sendo essa descoberta positiva, agradável, acaba por causar vontade de conhecer mais, de descobrir o resto, e acaba até por levar a dar atenção a aspectos que antes nem se olhavam, a somar identificações e compatibilidades dentro das diferenças que subsistem. Sei agora que é possível alguém passar de uma indiferença a uma vontade de presença, de um conhecido a um amigo, e até de uma resoluta falta de atracção a um curioso interesse de quase desejo. Esta curiosidade pode ser semente.
Mas... diz um popular ditado que “curiosity killed the cat” e, num plano um pouco mais elevado, dizia Nietzche que “quando nos vemos obrigados a mudar de opinião a respeito de um indivíduo, fazemos com que pague caro o trabalho que nos deu.” E isto preocupa-me e deixa-me a pensar...
quinta-feira, 15 de Outubro de 2009
Confiança rima com perdão
Muito se fala sobre confiança nos outros, sobre a sua importância num relacionamento e sobre a forma como se gere o processo. Nos extremos, há quem confie cegamente e quem seja incapaz de confiar. Pelo meio, combinações infinitas de fórmulas próprias, umas mais bem sucedidas que outras. Penso que em geral todos concordam que ambos os extremos são caminhos quase certos de sofrimento. A diferença é que quando se é capaz de confiar, sempre há a hipótese de um dia acertar em alguém que não nos decepcione e não nos torne miseravelmente infelizes. Desconfiar sempre não traz tantas lágrimas e desilusões pelo caminho, é mais "seguro", mas nunca abrirá a porta à surpresa da felicidade, o que acaba por ser um sofrimento morno, mas perpétuo.
E no meio? Como chegar a uma das tais combinações? Confiança é mais do que um processo mental, é também um processo emotivo. Nada mais explosivo que a articulação de razão e emoção, por isso tantas fórmulas pelo meio causam enorme devastação. Do que não há dúvida, penso eu, é que é um “processo”. E do que não tenho dúvida agora é que o “processo” de confiar nos outros começa com a confiança em nós mesmos.
É diferente no amor e na amizade. Eu sou patologicamente desconfiada mas, quase bipolar como sou, há certas pessoas que conseguem rebentar-me com os muros e defesas, e nessas confio mesmo, construindo o processo na emoção. Mas também com elas aprendo depois, seja pela desilusão seja pelo retorno positivo, a construir com a razão. Assim se aprende, por exemplo, a voltar atrás, a ir buscar alguém que nos é especial de volta. No fundo, aprende-se a perdoar, porque se confia que aquela pessoa é, no seu todo, maior do que a pequenez dos seus erros. É da nossa condição humana errar, e quando gostamos de alguém que erra, de certa forma sentimo-nos traídos, e custa perdoar. Mas tal como a confiança, o perdão só se consegue dar aos outros quando o sabemos dar a nós próprios. Perdoar é renovar a confiança. Estende-se a mão das duas maneiras, e só depois se pode continuar de mão na mão, ou separar caminhos, mas sempre verdadeiramente em paz.
Os amigos em quem confio são pouquísimos, mas existem. E acarinho-os porque me fazem tão bem, porque me fazem sentir humana, me ensinam a confiar em mim própria e a perdoar os meus próprios erros, e porque me desafiam a preserverar nessa luta de acreditar que às vezes vale a pena – tanto o impulso emotivo como a consciente e racional escolha de confiar e perdoar. Essas amizades são talvez o que me levará, um dia, a arriscar outra vez a confiar com Amor.
quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
Tempus fugit
Chego a meio de uma semana em que não tive de ir trabalhar a sentir-me exausta. Não parei um segundo, todos os dias tenho coisas na Agenda, algumas nem consigo fazer no dia em que planeei, e ainda tenho mesmo de coordenar agendas para marcar encontros com amigos – devia poder dizer que qualquer dia serve, mas são já tantas as coisas marcadas que não tenho essa liberdade. Ainda assim, vou vendo os amigos.
Nunca me tinha apercebido da imensidão de coisas que deixava de fazer antes, da quantidade de pequenas coisas que adiava sitemicamente por estarem sempre a ser relegadas para o fundo da inesgotável lista das prioridades, e também, por outro lado, o prazer que pode ser fazer algumas coisas que fazia antes a correr, mas fazê-las agora com tempo, na descontracção de quem não está a contar minutos. E hoje ainda vou fazer um demorado mas (espero eu) compensador risotto para o jantar, e receber uma amiga com calma.
Mas tudo o que é de dentro não se pacifica só com o tempo a escorrer. Tem-me atormentado o sono, impedido de me deitar a horas decentes, e de dormir sossegada. Tudo assoma no final da correria do dia, quando o miúdo dorme, a casa está tranquila, e eu não me encaixo nessa tranquilidade. Não me pacifica o sono, e não me pacifica o tempo. Pesa, enormemente, o tempo a passar. A fugir, alucinante. É isso que cansa. E sinto que preciso de parar o relógio um bocadino, só um bocadinho, para recuperar a distância que me fugiu e retomar o ritmo da passada.
terça-feira, 13 de Outubro de 2009
Sísifo – o herói absurdo
Sísifo é um personagem, não é só o o título do famoso poema de Torga. Sísifo-personagem é a metáfora do esforço inútil e incessante do homem que vive uma vida sem sentido mas que o procura eternamente.
Albert Camus (filósofo e escritor francês que ganhou um Nobel) utilizou a metáfora de Sísifo para sustentar a sua “filosofia do absurdo” segundo a qual as nossas vidas são insignificantes e não valem mais do que o valor do que criamos. Como o homem em geral nos dias de hoje não cria nada de valor, vivendo num mundo estéril e desumanizado que aceita, diz Camus que a alternativa a ser-se Sísifo é o suicídio. Porque Sísifo-personagem foi cruelmente castigado pelos Deuses devido às suas virtudes, condenado à cegueira no fundo de um vale, de onde só pode sair se escarpar uma perigosa falésia e ainda por cima empurrando o enorme peso de um pedregulho. E Sísifo não desiste, escala a falésia vezes sem conta apenas para rebolar de novo até ao fundo sempre que está prestes a alcançar o topo.
Para Camus, Sísifo é o expoente daquilo que chama o “homem absurdo” ou o homem com uma “sensibilidade absurda”. Este é o homem perpetuamente consciente da inutilidade e futilidade da sua vida, que ainda assim não desiste de a transformar em algo maior. Os Sísifos de hoje serão aqueles que desejam e procuram claridade e sentido num mundo e numa condição que não oferece nenhuma das duas coisas. Na metáfora, Sísifo um dia chega ao topo, e antes de voltar a caír na sua repetitiva e eterna desgraça, quer olhar à volta e experimentar a sensação de liberdade. Mas é cego. Não verá o que se espraia à sua volta com os olhos. Verá apenas com a alma, e mesmo que por um breve instante apenas, sentir-se-á grandioso e feliz. E isso fá-lo-á recomeçar, preferir a dureza da sua caminhada ao suicídio, à morte. Por isso, Sísifo é o tal herói absurdo.
O poema de Miguel Torga anda por aí. Já quase toda a gente o conhece e, no entanto, quase todos o citam e gostam dele pela primeira estrofe. Mas tem mais, muito mais. A primeira estrofe é positiva, a exortação à coragem, palavras que parecem de esperança, apenas com as ressalvas do “se puderes” e a adjectivação do caminho como “duro”. Mas a segunda estrofe é essencialmente um aviso, é a constatação das agruras inevitáveis e do perigo da loucura – são fatalísticas as “ilusões sucessivas” e o “logro da aventura” – porque Sísifo sempre cai de novo e sempre tem de recomeçar, e mesmo no breve instante em que alcança o topo, não pode olhar à volta porque é cego. As duas últimas linhas são fortíssimas – seremos loucos se nos reconhecermos na loucura, e a loucura é parar, é achar que nos conhecemos. Porque aqui parar é mesmo morrer, e morrer às nossas próprias mãos.
Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
Por muito que custe, por muito que às vezes não veja onde vou buscar a força, por muito o desespero da consciência da inutilidade do esforço, anseio por esse breve instante de libertação no topo do penhasco, de alguma profundeza minha acredito que chego lá, e a cada queda recuso-me a parar. Sísifo, na interpretação própria que faço dele à luz do que entendo da teoria de Camus, é irmão para mim, somos da mesma natureza, embora eu seja mais fraca e tenha os meus momentos de dúvida. Mas somos ambos absurdos.
segunda-feira, 12 de Outubro de 2009
Lá onde doi
Há uma expressão da BD da Mafalda que sempre me foi especial, porque acho que retrata tão bem o que às vezes sentimos: “uma pedrinha na alma”. Serve para aqueles momentos em que qualquer coisa toca uma nota especial na nossa alma, nos entristece e nos comove, fazendo sentir um pequeno peso no peito.
Outras vezes, o que nos invade é tão maior, o que nos faz sentir de dentro e o peso que lhe sentimos é tão grande, que nem substituindo “pedrinha” por “pedregulho” faz a expressão alcançar essa realidade. Para mim, a viver uma dessas outras vezes, é tão avassalador que chego a sentir que me matou a alma e secou o coração.
Cheia de zanga e de raiva, não quero deixar-me sentir a dor. Não quero derramar lágrimas para não dar a ninguém essa “satisfação”. No fundo, não quero dar parte de fraca. Racionalizo as coisas por forma a que chame outros nomes ao que sinto e não quero admitir. Fiz isso assim, tal e qual, num instinto de sobrevivência. Ou enlouquecia. Mas cresceu dentro de mim uma vaga imensa de dor. De tanto querer fugir-lhe e negar-lhe a existência, deixei-a crescer. E de repente, uma pequena coisa, que põe ao que não queria admitir sentir o nome que lhe compete, que me desarma pela forma improvável como acontece, rebenta o dique que pensei indestrutível, e por momentos, penosos momentos, verti essa dor violentamente, sacudindo-me o corpo e implodindo-me a alma. E só depois a escrevi.
Não há como medir uma dor de dentro, tal como não há como medir o Amor. Porque não cabem na alma, são muito maiores que nós. E levam tudo de nós, levaram-me a mim para lá, dentro, lá onde doi.
domingo, 11 de Outubro de 2009
Verdade
De Carlos Drummond de Andrade:
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Acho que por isso é tão difícil ver a verdade de quem amamos. E por isso duas pessoas podem ver duas verdades sobre a mesma realidade. Vemos o que queremos ver, escolhemos a verdade que queremos aceitar, e muitas vezes conformamo-nos com meias verdades, recusamos a parte da verdade que nos fere, porque é muito mais difícil aceitá-la. Quando não lhe podemos fugir, ou quando não nos contentamos com menos do que toda a verdade, há sempre alguém que nos critica, porque estamos a olhar para o que não devíamos, por estarmos a dar relevância ao que não é importante. Porque para muitos o importante é pintar tudo de côres bonitas e harmoniosas, mascarar os escuros e os imperfeitos. O meu maior problema é não ser míope e ser eternamente inconformada - não gosto de metades.
sábado, 10 de Outubro de 2009
Gelou
Não sei se choro, se rio. Não quero verter mais lágrimas que não mas mereces. Mas isto não tem piada nenhuma. É duro, duríssimo, constantar o que dei de mim, o quão especial te fiz, o quanto te desculpei, julgando-te um homem que não és.
Não sei se devo sentir-me maior ou menor. Senti-me maior quando te fiz especial para mim, senti-me maior mesmo na forma como sofri por ti. Mas da mesma forma que fazer alguém especial para nós nos faz melhores e maiores, ser para alguém muito menos do que valemos também nos faz menores e piores. Isso não consigo evitar sentir, e isso não te desculpo. Não te perdoo que tenhas feito de mim o que não sou, que me tenhas feito sentir igual a quem desprezo, e que tenhas feito do que te dei algo tão baixo. Não te perdoo que deixes numa das coisas mais especiais da minha vida uma marca tão suja que chega a repugnar-me. Marcaste-me também agora da pior maneira possível. E levo essa mancha comigo.
Também sinto alívio, se queres saber. Rasga-me por dentro, fere-me a alma, vêr-te pelo que és. Mas percebo que tenho muito menos culpa do que a que andei a carregar tanto tempo. Percebo, claramente, que não me mereces, nem nunca mereceste. Foste para mim excepção em tudo, e com isso te fiz excepcional. Mas não o és. O homem que achei vislumbrar em ti não existe. A mulher que não soubeste ver em mim não te pertence nunca mais.
Quando digerir isto tudo, quando puder rir, digo-te apenas que me és tão estranho como eu te sou desconhecida, e assim quero permanecer. E digo-te que a vida dá muitas voltas, mas pelo que és nunca terás da vida mais do que tens, e eu, eu sei que terei muito mais e muito melhor que tu. Por mais feia que seja a vingança e o rancor, direi então que quem ri por último ri melhor.
Trânsito sentimental
Todos os dias sentimos um monte de coisas. Experimentamos uma panóplia vasta de emoções, muitas das quais nem percebemos, não ligamos, porque são coisas menores, sem importância, que sentimos tanta vez que já não marca, ou a que nos habituamos a não dar valor. Mas há dias em que sentimos coisas especiais, mais intensas e mais vivas, talvez por serem pouco usuais. No fim, são essas as coisas que marcam o dia, e por isso há tantos dias que não nos marcam. Apenas passam.
Se fôssemos a assentar numa lista tudo o que sentimos a cada momento de um dia, não só nos surpreenderia o tamanho da lista como a velocidade com que passamos de sentimento para sentimento. Podemos irritar-nos no trânsito, vociferar uns impropérios contra um qualquer idiota desconhecido, e a seguir sentirmos paz com a música que toca no rádio. Podemos sentir alegria com um abraço de um amigo, e a seguir sentir inveja pelo que nos conta. Podemos sentir satisfação por uma coisa qualquer que acabamos, e a seguir sentir tristeza com uma notícia má. Podemos sentir ao longo do dia, geralmente em pequenas doses quase inofensivas, quase todos os sentimentos que existem. Felizmente, não é comum ser assim. Felizmente, há em geral um sentimento dominante, que no meu caso tende a acordar comigo e raramente se corrompe por completo à medida que tudo o resto passa. E esse sentimento domina porque damos a quase tudo luz vermelha, e apenas a certas coisas luz verde. No fundo, regulamo-nos inconscientemente, num complicado sistema de semáforos e prioridades, que supostamente põe ordem no nossa mapa rodoviário interno.
Hoje senti duas coisas fortes, uma a seguir à outra, e não consigo decidir a qual dar luz verde para se estender para lá deste dia, a qual dar a prioridade. Aaaah, o poder das revelações... Aquele milisegundo em que coisas que nos atormentaram, que nos contorcemos em incríveis ginásticas mentais para entender sempre nos fugindo o sentido, se tornam claras, límpidas, transparentes. Pode ser bom, sentido como uma vitória, uma conquista, uma pacificação. Mas às vezes é duro e frio o sentir destas revelações. Não é à toa que se diz “a verdade nua e crua”. Para mim foi uma revolução, e um enorme engarrafamento cresceu-me no coração.
sexta-feira, 9 de Outubro de 2009
Excertos de mim # 4 - O que não quero voltar a escrever
“Alguns dias passam bons, com muitas coisas a encher a vida, mas ainda assim fica aquela sensação de que falta qualquer coisa, que nada faz verdadeiramente sentido. Sinto que me esvazio em razões de ser que são só números, objectivos, necessidades práticas. Sinto que me falta um bocado, falta um bocado de mim, e falta-me um bocado de vida. Tenho vontade de muito mais, vontade de largar muitas coisas e me lançar à conquista e à descoberta, dessa vida que me fugiu, dessa parte de mim que adormeci.
Sei que tenho muita coisa. Sei que, materialmente, não me falta nada. Sei que faço o que faço e vivo como vivo porque foi assim que a vida me obrigou a ganhar a vida. Sei que não me devia queixar e sei que prezo o conforto que compro com outro desconforto.
Mas creio que há mais para além do que vivo, do que sinto, do que tenho. Creio que há mais de mim. E isto que vivo, sinto e tenho hoje não chega. Isto não chega, não me chega. Ou eu não chego lá.”
Mas chegarei.
quinta-feira, 8 de Outubro de 2009
Primeiro o verbo
Olho para esta página que quero encher e luto por encontrar o fio à meada dos meus pensamentos e sentires que se entrelaçaram e enovelaram, numa massa disforme e indistinta, mas de côr intensa e tamanho enorme. Quero puxar a ponta do fio e devagarinho desembaraçar a confusão de fios que são o mesmo fio em nós e voltas sobre si. Procuro o princípio, o primeiro verbo e o seu modo perfeito.
A página branca é oportunidade e desafio. Duas pontas. Não serve. A página branca é uma promessa de futuro, incerto e desconhecido, que não será uma página branca nesse futuro, será página tingida de linhas, os fios arrumados em palavras e frases direitinhas.
É isso que é agora a minha vida: uma página branca onde tenho de arrumar o fio do novelo que quero escrever. De repente, o tal tsunami de que aqui falei, apesar de ter trazido momentos de angústia, empurrou-me para a frente, fez-me voltar a página. De facto, estou agora capaz de, e capacitada para, fazer coisas que há muito adiava. Nos próximos meses, substitúo o escritório pela Universidade. Faço duas coisas de uma assentada: livro-me de um trabalho que não me realizava, onde não estava satisfeita profissionalmente, ainda me pagam para isso, e volto a estudar para resolver o handicap do meu background académico. Escrevi aqui há meses que queria ir fazer uma pós-graduação mas que não via como conciliar mais uma exigência na minha vida já tão atribulada. Eis que o destino me resolve o problema, pondo-me no bolso o que chamo de “mini-lotaria” e libertando-me o tempo. Não é a melhor forma de o fazer, mas é uma forma de o fazer, e sei que tenho de aproveitar a oportunidade. É agora ou nunca e este investimento em mim vai também permitir-me redireccionar a minha carreira profissional para uma área que sei que me satisfará muito mais. Paga é menos, em geral, e foi mesmo esse o factor essencial para me manter tanto tempo onde estava.
Mas agora, que o tsunami me fez perspectivar a relevância de algumas coisas, sinto-me tranquila na aceitação de que dinheiro nenhum no mundo paga o sentimento de realização pessoal, de orgulho no trabalho que produzimos, desde que as coisas básicas estejam asseguradas, naturalmente.
Está verdadeiramente tudo em branco, tudo em aberto. E eu senti-me crescer com isto, como uma bola de neve que foi ganhando tamanho dentro de mim. Cresceram as minhas vontades, as minhas certezas, as minhas verdades. Ainda estão um bocado desorganizadas, ainda não as encaixei perfeitamente num novo esquema mental, em gavetas arrumadas. Mas sinto-as. Também tenho medo, sim, sobretudo porque embarco nesta aventura de destino incerto com o meu filho. Mas também para ele sobra para já mais tempo, e sobra uma mãe mais feliz e disponível para embarcar nas suas intermináveis e inenarráveis produções cinematográficas. O resto virá. E tenho consciência de que nada nos faltará e sei que, infelizmente não é assim para todos os que apanham com estes tsunamis privados.
Quero olhar para esta página branca como uma benção, a segunda oportunidade que muita gente não tem na vida. Quero escrevê-la toda de linhas que, no fim, façam mais sentido do que as linhas que deixei em páginas anteriores de mim. E de repente dei comigo já a fazer o caminho, com os dias preenchidos de milhares de coisas de que ando a tratar, e a começar a ver traduzidos em factos concretos, papeis e carimbos, o princípio do que era até há um mês atrás apenas um sonho, um desejo, que impassivelmente me resignava a não prosseguir, que julgava não poder realizar.
O verbo é mesmo começar. O modo é o presente, primeira pessoa do singular – eu começo.
PS: De pura ironia, é que a empresa de onde saí bloqueou ontem o acesso aos blogues. Sem isso é que eu não tinha lá sobrevivido!...
quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
Dúvidas
Uma boa garrafa de vinho depois, uma conversa de duas amigas que não se encontravam há muito tempo leva a conclusões surpreendentes. É uma amiga daquelas que, por mais que passem os anos e nos afastemos fisicamente, cada uma a seguir o seu caminho, por mais namorados e separações, casamentos e divórcios, por mais encontros falhados, quando nos reencontramos é como se nos tivessemos visto ontem. Fomos melhores amigas nos últimos três anos de liceu, e o que cimentamos nesses anos é tão forte que sobrevive a nós próprias, nas nossas individuais transmutações.
Recuperamos num instante os pedaços de vida uma da outra que não couberam nos emails, e ao fim de uma hora já acabamos as frases pela outra. Foi óptimo. Soube-me mesmo bem. E se tivesse mais vinho em casa, teria ido bem para lá das 3 e meia da manhã. Mas no fim, depois de ouvir o meu relato sobre a história do que vivi, e do que não vivi, com o homem por quem me apaixonei tontamente, pergunta-me simplesmente, com ar incrédulo: “E tu achas mesmo que isso não tem volta?!”
E lá fico, a abanar a cabeça que não, não tem, e o coração ligeiramente embriagado a encher-se de coragem para me fazer ouvir por dentro “terá?”... Mas agora estou sóbria e dou por mim a pensar nisto e a ter que escrever este post.
segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
Integridade
Por isso, fiquei perplexa quando, há uns meses, um amigo que vejo de vez em quando passou um jantar a fazer conversa à volta do tema “Princesa”. Na altura ocorreu-me que pudesse ter descoberto o blog, mas depois descartei a ideia. Mais recentemente, fui jantar a casa dele na altura em que publiquei um texto entitulado “Agridoce” e que me dá ele ao jantar? Um prato de peixe com ananás bem condimentado. Pergunta se está bom, eu respondo que é... original, mas sim, está bom, e ele faz uma piada sobre aquilo ser... agridoce.
Coincidências, pensei. Não é pessoa de andar pelos blogs, e que interesse poderia ter no meu? Além de que, se o descobrisse, ou me dizia, ou ficava bem calado para eu não perceber. É lógico, não? Mas agora, dá-me de presente de anos um CD. “Chill&Tango”...
Não sei se estou paranóica, mas é muita coincidência. Por isso não sei se essa pessoa vai ler isto, mas se lêr, é para que saiba que não gosto. Apesar de isto ser um espaço público, este também é um espaço de introspeção e intimidade, que por isso protejo com um nick. Se essa pessoa sabe que sou eu, peço-lhe que respeite por favor a minha privacidade, e não insulte a minha inteligência. Se fosse a situação inversa, talvez contasse que tinha descoberto o blogue, ou talvez simplesmente reservasse isso para mim, por respeito e para não causar constrangimentos. Mas não leria mais o blogue e certamente não o iria usar para fazer piadinhas desconfortáveis. Não é bonito.
Espero que isto seja tudo apenas coincidência, que a minha paranóia desproporcionou. Espero mesmo.
domingo, 4 de Outubro de 2009
No limbo
Acordei na preguiça de quem não tem horas. Sem planos, compromissos, vontades ou determinações. Normalmente, tenho tudo isso. Mas hoje não. Hoje o tempo não conta, não tenho pressa de viver o dia.
Há muitas coisas para fazer, mas não tenho nenhuma vontade de as fazer. Não tenho nenhum sentido de urgência, nem sequer de ordem, o que é altamente incaracterístico. Estou a pairar. A pairar sem rumo e sem preocupação de definir destino. A retemperar forças, porque sei que tenho de meter mãos à obra em tanta e tanta coisa. Mas hoje não.
Estranha serenidade que de repente me deu. Depois de um dia tão mau, de tanta tristeza que ontem senti, de tanta perda e vazio. Dormi muito mal e hoje não encontrei nem enchi nada, mas a tristeza deu lugar à serenidade. Não é nada que se aproxime de alegria, mas também não é tristeza. Não é desânimo, mas também não é esperança. É simplesmente um limbo. Mas respiro fundo.
sábado, 3 de Outubro de 2009
3 de Outubro
Este é, verdadeiramente, o primeiro dia do resto da minha vida. Marca-se hoje o último dia de um ano de vida, e o primeiro de mais outro. Devia ser um dia de vitória. Um dia de dizer que ao longo deste último ano somei mais isto e mais aquilo à minha vida. Que cresci mais estes centímetros, mas já não de corpo. Que andei mais estes metros ou aqueles quilómetros. O balanço, neste dia, quer-se positivo. E querem-se promessas de novos centímetros, metros e quilómetros, com a confiança de que estamos mais perto do que estávamos um ano antes.
Mas hoje chego a este dia, que sempre foi para mim um dia que não gosto de festejar, a fazer um balanço ingrato. Não me vou pôr a listar tudo o que perdi, tudo o que não alcancei, tudo o que me fugiu, ou tudo o que chorei. Estou já suficientemente deprimida pela simples constatação de ter a partir de hoje um ano mais – e um ano menos. Pesa-me que seja um ano a mais de tempo vivido, tal como me angustia que seja um ano a menos do tempo que tenho para viver.
Também não me vou pôr a listar tudo o que somei, que claro que somei. Porque o que ganhei, e conquistei, e encontrei, e todos os sorrisos e gargalhadas que dei e recebi, não apagam a memória das coisas más, não as diminuem nem, sobretudo, mascaram o sabor azedo que se impõe a este ano que chega ao fim.
Não me apetece celebrar a vitória de ter sobrevivido, porque chego aqui, a este momento, demasiado cansada, demasiado desiludida e demasiado mutilada, ao mesmo tempo que entendo que lutei por chegar a uma meta que afinal é uma nova linha de partida, em todos os sentidos. Foge-me o tempo e foge-me a vontade. Sinto que me foge a vida.
Não quero parabéns. Não faz mesmo sentido nenhum. Não fiz mais que sobreviver, do que andar simplesmente, mecanicamente, pondo um pé à frente do outro. Não tenho mérito especial por me ter desviado de uns ocasionais golpes de pancada e encaixado outros que suportei, enquanto os hematomas passavam de negros e lilazes a sombras amareladas. Não tenho orgulho dos momentos de fraqueza em que quase desisti. Também não tenho orgulho dos rompantes de força e determinação que me fizeram levantar do chão e continuar. É apenas instinto.
Hoje queria apenas enrolar-me num colo. Encharcar um outro ombro com o carpir de todas as mágoas e desgostos, sem recriminações. Hoje não me apetece o esforço de mostrar ser mais forte. Queria apenas uma mão pela cabeça e em segredo uma promessa de que vai correr tudo bem. Hoje acho que tenho o direito de ser menina pequena. Hoje é o único dia em que posso chorar. Tento fazer o luto. Enterrar este ano numa cova funda, num canto esquecido do cemitério das memórias. E tem de ser rápido, porque o tempo não pára e a nova etapa já começou, quer eu queira quer não. E tenho de sobreviver a mais uma. Não posso parar. Amanhã sou mais crescida. Agora, vou ver o mar.
quinta-feira, 1 de Outubro de 2009
Epílogo

Já está. Finalmente acabou a espera. A onda bateu e vamos ver o que leva. A espera custou, mas também me preparou. E agora é altura de meter mãos à obra. É um novo ciclo, que espero e acredito que vai ser melhor. E vai ser um novo ciclo total.
Eu estou de pé. E sei que tenho comigo uns quantos de pedra e cal. Obrigada.
quarta-feira, 30 de Setembro de 2009
Mundos paralelos

É só meu

Claro que depois vieram umas gotas de chuva. E a partir daí foi um non-stop de tarefas e chatices. Mas retive uma certa serenidade, até boa disposição, e quando o dia chega ao fim, não penso na núvem, nem no pulinho ao supermercado que se tornou num martírio de uma enorme fila na caixa, nem na meia hora de voltas para arranjar estacionamento, nem no miúdo que adormeceu nessas voltas depois da seca do supermercado e com quem tive de negociar habilmente, para que se dignasse sair do carro e ir pelo seu pé até casa. Não penso na correria do banho já atrasado, e mais a negociação da lavagem do cabelo, nem no jantar menos saudável que tive de fazer à pressa, nem nas fardas que ainda tive de engomar, nem na empregada que foi para o Brasil e não sei se volta. Deito-me a pensar naquele arco-íris. E penso que foi só para mim.
Às vezes, somos irremediavelmente egoístas. Não há como a satisfação de saber, ou sentir, ou tomar, uma coisa bonita por nossa. Não há como não sorrir ao pensar que alguma coisa mágica é só nossa, ou é só para nós. Mesmo que esteja ali para todos verem, muitos passarão sem reparar, sem dar atenção, sem tomar por sua a magia. E por isso, nesse sentido, aquele arco-íris foi meu. E de vez em quando tenho uns assim.
terça-feira, 29 de Setembro de 2009
Este blog tem poderes mágicos

Há uns tempos atrás, escrevi um texto desejando-me um turbilhão, outros braços e vôos por aí. Na mesma noite, dei um trambolhão, fui carregada em braços por vários seguranças, e fui a voar baixinho para o hospital com um pé partido. No dia seguinte, até escrevi um texto que intitulei “Be carefull with what you wish for”. Quem não seguiu ou não acredita, é clicar nos links de prova.
Recentemente, inspirada pelo impulso incompreensível de ter salvo um livro em vez das coisas práticas e lógicas, quando uma onda imprevista avançou sobre mim no areal, escrevi que precisava de um pequeno tsunami privado, e já agora um tornadozito a seguir. Cinco dias depois, estou perante um tsunami “in motion”, e onze dias depois ando a voar em rodopio, a espalhar ecos ao vento.
Portanto, chego à conclusão que este blog tem um poder absurdo de me concretizar vontades, embora tenha um retorcido sentido de humor na forma como o faz, que chega a ser cruel, ou talvez uma certa limitação de compreensão. Assim, resolvi escrever, da forma mais simples e clara que consigo, exactamente aquilo que quero. A ver se é desta!
Querido blog mágico:
Quero que o tsunami que já não posso evitar me deixe de facto num sítio melhor, que me permita seguir num caminho que me faça mais feliz, mas que seja rápido lá chegar. Quero que me faça entender o que é realmente fundamental, sim, mas que para isso não me leve todos os supérfluos, que eu na realidade não os quero largar todos – só quero aprender a dar-lhes o real valor, basta a ameaça de os perder que eu sou muito boa aluna. Vá la vêr se isto se percebe melhor assim, e se ainda vamos a tempo de isto não me deixar mais angustiada, boa?
Quero realizar o amor, o amor inteiro, aquele que é o tal último, recíproco, completo em todas as dimensões. Quero tirar os pés do chão, mas sem rodopios e sem quedas dolorosas, nuns braços que me acolham num aconchego sem perguntas, e que me saibam tomar de e com desejo ardente, mas olhos nos olhos, sem hiden agendas, num caminho com futuro, que não seja nem só de pele, nem só de alma. Mas não, percebe bem: eu não quero esperar até aos 70 (e também dispenso as cataratas, já agora para saberes). Era assim coisa para mais perto. E também não me apetece ir agora para chás dançantes, portanto, que tal se desejar antes que ele me bata à porta ou tropece em mim na rua, assim tipo para a semana? Boa? Mas atenção que o tropeção não cause danos físicos!
Obrigada. Prometo continuar a alimentar-te.
Princesa
E agora, pózinhos de perlimpimpim! 1... 2...
segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
Let's Tango

Mas falta-nos dançar um tango, sabes? Sim, imagina... A forma mais sublime de uma dança de par, de uma dança de amor, que sei que podíamos dançar. Um tango não é só um monte de passos bonitos, e uns quantos floreados mais ou menos acrobáticos. Um tango é emoção pura. É paixão, desejo, luxúria, ciúme e ira, e ternura e amor. E a música que quase hiptoniza, que vibra por dentro enquanto alterna entre momentos de doçura, que se traduzem em movimentos lânguidos e suaves, e momentos de stacatto, com passos marcados com som no chão e ritmo acelerado. É os nossos corpos a moverem-se em sintonia de encaixe amoroso, fluindo num desejo sereno de abraço com ternura, espelhado pelo olhar. E os nossos corpos que se repelem para logo depois se prenderem com fúria, num impulso de desejo irrestível, que se expressa na força quase violenta com que se agarram e se puxam um ao outro.
Cada um dança um tango de forma única, e tenho a certeza de que cada um que se dança há de ser único. Porque um tango, a sério, só depende do sentir - da música e, sobretudo, do outro que se tem nos braços. É muito mais que uma dança. É a linguagem autêntica do corpo e da alma. Nós nunca dançamos um tango, mas sempre que dançamos foi assim. Talvez por isso nos consiga imaginar tão facilmente nesses passos de dança de paixão.
É. Tudo isto porque ouvi na rádio que a TAP pode vir a voar directo para Buenos Aires. É uma das viagens que quero muito fazer, mas não a quero fazer sozinha. Pensei logo em ti. A primeira coisa que me veio à cabeça foi uma imagem de nós enlaçados num tango. Por uns momentos, enquanto corriam os últimos quilómetros do meu regresso a casa, embalei-me nesse sonho. Quase te senti... Talvez seja o mais perto que alguma vez chegue desse momento. Mas soube-me tão bem aquele bocadinho de ti.
Não sei dançar o tango, mas vou aprender. Um dia há de haver alguém que não hesite em se meter num avião comigo para ir soltar uma paixão assim numas ruas argentinas. Gostava que fosses tu. E, no entanto, não te posso propôr um “let’s tango”. Mas fico ainda a pensar, talvez um dia, quem sabe?... Até lá, e enquanto não danço, vou ouvindo. E sonhando a recordar.
domingo, 27 de Setembro de 2009
In a manner of speaking
I just want to say
That I COULD NEVER FORGET THE WAY
You TOLD ME EVERYTHING
By SAYING NOTHING
In a manner of speaking
I DON'T UNDERSTAND
How LOVE IN SILENCE becomes REPRIMAND
But the way that I FEEL ABOUT YOU
Is BEYOND WORDS
Oh GIVE ME the words
Give me THE WORDS
That TELL ME NOTHING
Ohohohoh GIVE ME the words
Give me THE WORDS
That TELL ME EVERYTHING
In a manner of speaking
SEMANTICS WON'T DO
In this life that we live we only MAKE DO
And THE WAY THAT WE FEEL
Might have to be SACRIFIED
So in a manner of speaking
I just WANT TO SAY
That JUST LIKE YOU I SHOULD FIND A WAY
TO TELL YOU EVERYTHING
BY SAYING NOTHING
...
Ouvi num blog vizinho e não me sai da cabeça. Por isso veio aqui parar, e ao iPod também acompanhada de mais umas do mesmo grupo. Feliz coincidência. Há coisas assim.
sábado, 26 de Setembro de 2009
Raisparta...

... alguém se sente muito tentada a acreditar em teorias da conspiração e olhar à volta à procura das câmaras de vigilância! Há coisas do demo...
Mas alguém lá tem de se render às evidências de que tem sitomas de gripe e se sente doente, ir para casa para não espalhar mais virús por aí, na esperança de ser só uma gripe normal e não ser "A", e "que Deus a ajude" como lhe diz uma alma caridosa a seguir a uma série record de espirros ... E assim alguém tem pôr o miúdo a salvo (até 2ª feira pelo menos), medir a febre de hora a hora, rezar para que isto passe depressa, e incrivelmente, chorar por uma canja de galinha! "Raisparta", sim... Que isto agora não me convinha nada.
sexta-feira, 25 de Setembro de 2009
Não sei se peça mesmo...

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
("Súplica" de Miguel Torga)
quinta-feira, 24 de Setembro de 2009
Outros Espelhos

“Alguns não conseguem afrouxar as suas próprias cadeias e, não obstante, conseguem libertar os seus amigos.(...) Assim falava Zaratustra”.
(Citação de “Quando Nietzsche Chorou” e a imagem é do Google - um quadro de Picasso entitulado "Mujer ante el espejo").
terça-feira, 22 de Setembro de 2009
Fora de Jogo
Já me tinham dito que assusto os homens, afasto-os. Acho que é verdade, na maioria dos casos. O pior é que, ironicamente, os poucos que não assusto, assustam-me a mim.É o quê? O jogo do poder?!
Talvez, sim. É um “jogo”, termos de escolher comportamentos sabendo que a relação custo/benefício não é fixa, nem líquida, e depende da escolha de outros. Sabemos que a soma do jogo pode ser diferente de zero e é isso que ambicionamos. Mas embora saibamos que ambos podem ganhar, sabemos que podem ambos perder. E sabemos ainda que, pelo meio, a generalidade é que há um que perde ou ganha mais que o outro, e às vezes um que ganha tudo e outro que perde tudo. Porque não se sabe o que quer o outro ganhar, não se sabe como vai jogar, e não se pode ter a certeza nem de que o outro joga limpo, nem de que seguimos uma estratégia vencedora. Eu habituei-me a não acreditar que do outro lado haja intenção de jogo limpo. Acho sempre que querem tomar alguma coisa de mim, por isso parto de pé atrás, não sou “amável” – e eles fogem. Se eles não fogem, fujo eu, porque se eles não têm medo de mim é porque não sentem o perigo de perder.
Ou seja, teoricamente, isto devia ser um jogo de cooperação a tender para o equilíbrio. Enquanto cada um retira uma vantagem, em equilíbrio, a relação permanece, ambos ganham. Um comportamento positivo encoraja outro comportamento positivo. Mas se um traír o outro ou não cooperar, vai ser castigado na ronda seguinte. É o chamado “tit for tat” e, se pensarmos bem, é assim que funcionamos: um não ligou, o outro também não liga; um convidou para almoçar, agora convida o outro; mas se um aceitou o convite e o outro não aceita o seguinte, então um já não liga nem convida mais. O outro faz o mesmo, nunca mais se vêem. Empatam-se e saiem os dois a perder. Game over.
Ou seja, o “tit for tat” gera ciclos viciosos, positivos ou negativos, e pode degenerar em impasses. Cada um fica à espera que o outro dê mais para avançar e nenhum se move. A única forma de desempatar é... perdoar. É o que pode permitir recuperar uma relação, não alimentando o ciclo de comportamentos negativos, antes dando estímulo para uma retribuição positiva. Não é o perdão cego, nem infindável. É o que eu chamo o perdão exponencialmente reduzido (sim, sou um bocado retorcida - haverá certamente formas mais lineares de traduzir isto). O que quero dizer é que é o tipo de perdão que se torna mais difícil, de menor probabilidade, à medida que aumentam as situações que o exigem. É perdoar à primeira sem questões, com castigo à segunda, com gelo à terceira, e não dar perdão à quarta. Alguns têm ginástica para meter umas quantas mais parcelas na equação. Eu nem por isso, confesso. Já joguei no perdão sem fim, e dei-me muito mal.
Agora, fujo para não perder. Para não ter de jogar na retaliação e na desconfiança de que não gosto, mas que são só do que sou capaz. Porque sei que se me apaixono tenho maior hipótese de perder, e perder mais. Porque sei que o amor não se impõe nem obriga a retorno. E sei o que dói dá-lo sem receber. Fujo, porque sei que percebo as regras do jogo, mas não sei, nem quero jogar.
domingo, 20 de Setembro de 2009
Contagem descrescente
Forço-me um respiro fundo, bem fundo. Fecho os olhos concentrando-me do que tenho à fente, e tento perceber que sensação isso me traz. É um exercício que me ensinaram a fazer. Pode parecer coisa de bruxa, mas parece que resulta. Nesse momento, sinto uma certa leveza, até alegria, sinto que vai ser bom para mim. Mas quando abro os olhos tenho medo. Assusta-me o que tenho à minha frente, todas as incertezas, os cenários mais negros que já manipulei vezes sem conta na minha cabeça. E tenho de caminhar de olhos abertos.
Sei que daqui a uma semana terei de dizer que é o primeiro dia do resto da minha vida, que não sei o que me trará. Mas agora o desafio é sobreviver a esta semana. Não sei como, mas sei que tenho que chegar ao fim deste último pedaço de caminho. E sempre, sempre, vertical.
sábado, 19 de Setembro de 2009
Escrevi...

Não é só nos textos dos posts que me desvendo. Numa simples resposta de comentário escrevo coisas que me fogem e que depois me perseguem, porque me surpreende tê-las em mim, afinal tão claras, e deixá-las fugir, afinal tão facilmente.
sexta-feira, 18 de Setembro de 2009
Sonhar é Fundamental

Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria,
ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama
quarta-feira, 16 de Setembro de 2009
Doce

terça-feira, 15 de Setembro de 2009
Ecos ao vento
Sem fôlego, mando-te num sopro: Sente o vento. Pode ter soprado forte, e pode ainda arrepiar, e pode despentear, e pode fustigar o corpo, mas sente-o na pele, procura-lhe o sentido, embala-te nele e larga-te na corrente ascendente que hás de descobrir. Até ser só uma brisa, quente eu acho. Daquelas que envolvem com toque de seda, suavidade do silêncio a deslizar na pele, leveza de paz a entrar por todos os poros. Até logo.
segunda-feira, 14 de Setembro de 2009
Excertos de mim #3 (adaptado)
Tento sempre alcançar a verdade dos outros, da mesma maneira que tento alcançar a minha verdade. Mas sentir com verdade e falar com verdade é apanágio de poucos. Agir com verdade, é ainda mais difícil. Porque às vezes impomos filtros de lógica ao que sentimos, espartilhando-nos em códigos que nos impuseram. Às vezes calamos a verdade que ecoa em nós, seja por cobardia, conveniência ou piedade. Às vezes agimos contra a nossa essência, a nossa verdade, por mais motivos dos que razoavelmente poderia discorrer numa frase. Mas essa verdade intrínseca não se altera, continua ali, apenas se encobre, se esconde debaixo de uma segunda camada de pele que é falsa, uma casca, que se não tomamos cuidado se torna mesmo uma segunda pele. Se não quisermos ver, ouvir e libertar em palavras.
Mas que atire a primeira pedra quem nunca pecou...
domingo, 13 de Setembro de 2009
sexta-feira, 11 de Setembro de 2009
De dentro

Procuro agora, como sempre, um sentido. Penso na insatisfação, o descontentamento, o desconforto que sentia por carregar um destino de que reclamava mas tacitamente aceitava. E tento pensar, acreditar, que quando se fecha uma porta se abre uma janela. Sinto que esta agora é a minha janela, um empurrão, um safanão, que me permite pegar na minha vida e assumir um “basta” por mim própria. Que é altura de olhar para tudo com verdade, de me permitir o compromisso com a vida que me liberte para algo mais feliz. “Verdade” porque é preciso que eu agora seja realmente capaz de assumir o que me faz feliz. Tudo nos faz "falta", mas nem sempre pensamos naquilo de que podemos prescindir, e nem sempre descodificamos a escala de tudo o que fica entre o claramente indispensável e o francamente supérfluo.
É com o coração e alma que tenho de decidir, descodificar-me, temperando a decisão com a razão que, desta vez, não posso deixar levar a melhor. Só posso permitir-me bom-senso q.b., mas quero assumir o risco de dar o passo que me reflecte autêntica.
Tento pensar que não é uma espada o que tenho sobre a cabeça. É uma chave que tenho na mão.
quarta-feira, 9 de Setembro de 2009
In motion
Há momentos assim, devastadores. Deixam uma faca espetada no peito, uma dôr por dentro das costelas que não permite um respirar fundo. A pele exala o cheiro do medo, tacteia-se a vertigem do abismo ali à frente. Os pés não caminham, as mão estão imóveis, a boca fecha-se com força para reprimir o eco do golpe.
Saber que está tudo a outro milisegundo de se tornar real é penoso. Uma realidade absurda que entra pela vida adentro, derrubando todas as peças do cerco pacientemente construído à volta da última peça. A respiração sustem-se na antecipação. Todos os músculos do corpo se contraem num último esforço de resistência. O sono foge, acossado pela angústia das dúvidas do “e depois?”. Mas aquela peça não tem salvação – o impacto está em marcha e é imparável.
Num milisegundo é preciso encontrar a força para não desfaceler. Para não gritar. Não chorar. É preciso pensar, raciocinar, forçar a lucidez ao cérebro para que este pense nos passos a dar, no que fazer, como caminhar.
E no momento seguinte é preciso acreditar. É preciso encontrar a luz ao fundo do túnel. Encontrar os prós, identificar as oportunidades, e acolher os desafios, reconhecendo os contras. É preciso encher as mãos com mãos de carinho, encher os braços com abraços de conforto, secar as lágrimas com ventos de encorajamento, encher a alma com esperança. E seguir caminho. Vertical.
terça-feira, 8 de Setembro de 2009
Parte 8
E enquanto o combóio seguia para Norte, levando Sofia adormecida, Pedro seguia para casa entorpecido. Sabia que lhe tinha sido negado mudar o seu destino. Que não tinha escolha, ou salvação. Sabia que tinha de esquecer aquele dia e continuar a pagar a sua penitência de existência. Ler os emails e ouvir as mensagens, usar a cabeça para fazer o que melhor sabia: ilibar um criminoso e depositar o cheque no banco.
Apesar dessa constatação factual do homem racional que era, tinha tentado saber mais dela, tinha voltado ao hotel, até lá tinha mandado um detective particular com quem trabalhava por vezes. Mas o que sabia dela materialmente era muito pouco e não conseguira obter mais informações.
Num impulso, um dia meteu-se no carro e rumou a Norte, pensando infantilmente que o destino se encarregaria de permitir o reencontro. Passeou horas pela cidade, nas zonas mais antigas que poderiam encaixar com a breve descrição que Sofia tinha feito da sua rua e do seu prédio. Mas não a viu, não a ouviu, não a cheirou. Apenas sentiu, sabendo que ela estava ali, naquela cidade algures, debaixo da mesma luz e a respirar o mesmo ar que ele. E senti-la tão perto e tão perdida acabou por fazê-lo, finalmente, largar as lágrimas que a razão continha havia tempo de mais. Soluçou-a ali, incontrolavelmente, naquelas ruas escuras onde talvez ecoassem às vezes os passos dela, pensando que não havia melhor lugar para deixar o seu sal.
Depois voltou, à realidade, à sua vida, à sua cidade a Sul, onde prosseguiu os dois meses de trabalho intenso em que conseguiu habilmente dar a volta à má publicidade que o caso gerara, escudando-se em subterfúgios legais e capas de ética deontológica. Tinha afastado as dúvidas sobre a sua tese de defesa, que fora posta em causa com a publicação de umas cartas que a vítima teria escrito pouco antes de morrer. Pedro conseguira gerar suficiente dúvida sobre a autenticidade e proveniência das cartas para que o assunto deixasse de ser notícia. Chegava a passos largos a data do julgamento.
Mergulhava incansavelmente no trabalho e saía do escritório tarde e directamente para casa, onde se fechava na companhia de uma garrafa qualquer e da sua música a tocar. Breves instantes de paragem que usava para a tentar esquecer, mas que apenas a traziam para mais perto, mais real e nítida quanto mais a garrafa ficava vazia, a pairar desenhada no fumo azul dos seus cigarros. Quase sempre adormecia de exaustão na sala, onde acordava às vezes de madrugada, outras vezes já de manhã. E assim seguiam os seus dias, cada vez mais magro, cada vez mais cinzento, mais hermético, mas alheado. Algumas pessoas sugeriam que tinha um ar adoentado, que estava a trabalhar demais e que devia ir ao médico. Ele desprezava estes conselhos. Sabia que a doença dele era da alma, e que médico nenhum o podia curar.
Ansiava o julgamento daquele caso. Era mesmo como uma penitência, e uma de que ele se queria livrar o mais rapidamente possível. Queria fechar aquele capítulo, aquela história, não ter de pensar nela, instintivamente, a cada momento que tinha de dedicar àquilo. E finalmente chegava a data. No primeiro dia do julgamento tudo correu como pevisto e, nessa noite, pela primeira vez em dois meses, adormeceu na sua cama, sem garrafa por companhia. Sentia o fim perto.
Mas depois, em mais um dia de julgamento, um acontecimento inesperado atirou-o de novo para o turbilhão do pesadelo. O Ministério Público chama uma testemunha. Pedro lera o seu nome de passagem, pois estava arrolada numa longa lista e tinha lidado com a personagem nas suas teses de defesa – mas era um personagem abstracto, apenas um nome. E no entanto, por algum motivo que não entendeu, gelou ao ouvir chamar aquele nome com voz, o nome que já tinha lido sem comoção. E virou-se instintivamente para ver entrar na sala a irmã da vítima, Maria Sofia Atena Claro, o anjo de olhos verdes e cabelos côr de avelã dourada que lhe fugira meses antes, depois de lhe ter aberto a alma à luz do dia, deixando-lhe aquelas palavras e aquele beijo cravados no coração.
Sofia. Ali estava ela. Ali estava a razão da fuga tão desesperada. Ali estava o olhar da vítima a saír do papel da fotografia nauseante. Ali estava a promessa de redenção dos seus pecados, feita tormenta maior que o inferno.
(continua...)
domingo, 6 de Setembro de 2009
Espaços

Ali andei uns dias também num canto escuro, caverna de ecos impartilhados. Precisei desse espaço. Precisei dessa gaveta só minha, fechada à chave com um cadeado inviolável. Precisei da liberdade de escrever sem condicionantes emocionais e psicológicas, com a liberdade do escritor eremita e sem público, produzindo textos para que logo a seguir se perdessem também de mim, sem outros olhos que os lessem. E ainda assim foi pouco. Foi pouco o tempo e poucos os textos que efectivamente consegui arrancar de mim e lançar para a inexistência.
Mas foi um respiro, um intervalo, de que precisava antes de voltar. E queria voltar e voltei para destilar outra vez, apenas essência, novamente com total liberdade e com a mesma autenticidade que sempre me exigi, sem condicionantes de espécie nenhuma, inclusivé das minhas próprias palavras de capítulos anteriores. Que me desculpem, mas não quero saber de consistências. Assumi este como o espaço que abri para me verter, o espaço que me permite delinear-me e entender-me, o espaço onde me sinto confortavelmente exposta. Na alma, só na alma, a essência que tenho procurado (re)descobrir.
Tenho outros espaços físicos onde me revelo mais completa, amizades de entendimento longínquo, apesar de algumas serem recentes. Não tenho medo de me dar assim a esses poucos, pouquíssimos, alguns dos quais até lêm o blog. Mas esse é outro espaço onde o caminho se faz a dois, dando e recebendo, com entrega e confiança recíprocas. Laying the bricks, one at a time, erguendo as paredes que imaterialmente definem essa construção.
O blog é o espaço onde sou eu só para mim, sem expectativas de retorno ou reciprocidade de quem, por algum motivo, me lê. E se desses alguns tiram daqui alguma coisa de positivo, pois sejam bem vindos, que regressem sempre, e se estiverem para isso, que me digam que andam por aqui, me dêm uma achega ou um safanão, me mandem um beijo ou um abraço. Acarinho-os todos, porque a amizade faz-se de partilhas e presenças, de construção dos tais espaços que não são físicos, cada um à medida do seu lugar próprio, e por isso também se faz por aqui.
sábado, 5 de Setembro de 2009
Travessias

Mas pensava sob o céu redondo
- Onde
O limite do meu amor da minha força?
E eis que morro antes do próximo oásis
Com a garganta seca e o peso
Ilimitado do sol sobre os meus ombros
Eis que morro cega de brancura
Cansada demais para avistar miragens
Eu sabia
Que alguém
Antes do próximo oásis morreria
(“Caminho" de Sophia de Mello Breyner Andresen)
Ainda acredito no amor, sim. Sei que existe e só não sei se um dia o realizo. E por um defeito genético qualquer, não consigo deixar de querer procurar, por uma loucura qualquer, sinto-me capaz de mergulhar inteira se ele me quiser receber. Mas é duro libertar-me da tortura de conhecer o sabor do que quero e não tenho. Pergunto-me se sobreviveria a esse mergulho de que me sinto capaz, pois continuo presa na convicção de que mais nenhum amor substitui aquele que me assolou, que mais nenhum homem substituirá aquele que me fez sua. Mas também não sobrevivo à apneia de esperar pelo que queria e não tenho, à marcha lenta sob o sol, na perseguição da miragem que não se alcança, e que me fará morta no deserto.
sexta-feira, 4 de Setembro de 2009
A (Nossa) Natureza

Esta semana, pela primeira vez, enchi um dia inteiro fora de casa, sozinha sem me sentir só. Foi o meu último dia de férias e passeio-o na praia, sem o meu filho e com um bom livro por companhia. Soube-me tão bem. Nessas horas de praia li o livro do princípio ao fim, enquanto durante duas semanas de férias com o miúdo não consegui sequer acabar o primeiro que levei. Tempo bom e silêncio de palavras não pronunciadas que me sossegou. Liberdade que soube bem. Que prezei acima de tudo no momento em que uma onda desgovernada avançou intrépida pelo areal sem que eu a visse, a não ser quando estava na eminência de ser rodeada por ela. Tinha tudo na toalha, Blackberry, carteira, chaves, roupa e sapatos. Levantei-me de um salto e salvei... o livro. Foi só no que pensei... O meu Blackberry foi para as urtigas – so what? Tudo ficou encharcado – so what? Tive uns 5 segundos de stress, sim. Depois decidi que nada me estragava o dia. Mudei de poiso, pus tudo a secar, sentei-me no canto menos encharcado da toalha, e terminei o meu livro enquanto esperava por uma amiga que não chegou. Depois rumei ao escritório para me substituirem o Blackberry, daí liguei à amiga que afinal também não ía lá ter de qualquer forma, e a vida seguiu, eu segui com ela, novamente contactável, e com a sabedoria de mais um livro inteiro por dentro, a fazer-me companhia. Não me falhei.
Mas sei que estes dias e esta leveza, esta satisfação, é sol de pouca dura. Sei que em breve terei outro dia em que me vou sentir só, em que vou desperdiçar as horas fechada em casa sentindo-me a perder o mundo lá fora e sem coragem de o enfrentar sozinha. Sei que estou ainda em guerra e esta é a pior das guerras – uma guerra que perco e ganho cada dia, em que sou inimiga de mim própria, em que mino o caminho dos meus passos, e em que também me condecoro com medalhas e prémios em dias bons, para depois me bombardear no dia seguinte. Pode ser que venha uma onda que avance pelo areal de mim adentro e de repente me obrigue a salvar apenas o que interessa. Fiquei a pensar no que seria, pois se pensasse para trás teria julgado que sensatamente salvaria o Blackberry, e no momento da verdade salvei o livro.
Fico a pensar porque carregamos tudo o que levamos connosco, de nós, pela vida fora. Porque guardamos as coisas, porque lhes damos valor, porque as incorporamos em nós sem que pesem na balança mas pesando tanto na alma. Fico a pensar que preciso de um pequeno tsunami privado que me faça perceber o que é realmente essencial, me faça agarrar essa essência e largar tudo o resto para que se dissipe na espuma do mar, sem stress e sem culpa. E já agora, um tornadosito a seguir, que eu gosto de voar bem leve.
quinta-feira, 3 de Setembro de 2009
Prémios por atacado
1 – Voltar a ler mais (e acabar primeiro com os que já tenho, antes de comprar os próximos)
2 – Não desmarcar uma ida a Barcelona em Outubro, e marcar uma ida ao Brasil em Fevereiro
3 – Fazer um programa especial com o meu filho em todos os fins de semana em que fica comigo
O segundo selo que recebo da Pronúncia diz que “vale a pena ficar de olho nesse blog”. As regras para os dois, para além do extra dos objectivos do primeiro, são exibir a imagem do selo, publicar o link do blog de quem ofereceu o prémio, indicar 10 blogs de preferência e avisar os respectivos bloggers. O prémio do “ficar de olho” ainda exige que se confira se os boggers que premiamos repassam o selo e as regras...
Eu publico o link para a Pronúncia (acima e ao lado) e ponho a imagem dos selos, aqui:
Nomeio os mesmos para os dois prémios, que tal como fez a Pronúncia são os que tenho no blog roll aqui ao lado (os links estão lá todos e estes são mesmo os blogs que eu sigo, mais ou menos assiduamente conforme posso, e que gosto realmente de ler mesmo quando não comento – e alguns não comento nunca). Mas não me interessa se já o têm, se o aceitam, se o passam, etc e tal.
O terceiro prémio vem da XR, e diz que o meu blog é mágico, imagine-se! Vá lá que ainda não se evaporou... Este implica responder a isto:
1) Música mágica: Chopin
2) Filme mágico: Out of Africa
3) Viagem mágica: das que fiz: Paris (sempre!) e Croácia (lindo, lindo, lindo!); das que gostava de fazer: Buenos Aires e África do Sul.
4) Maquilhagem mágica: É o eyeliner köhl que torna o que quer que seja que faça mais em magia (um esfumado na pálpebra e um pó de ouro em certos sítios também ajuda).
Finalmente, devo escolher cinco blogs "mágicos" a quem repassar o selo, e que são:
1 - À Conversa
2 - A Minha Núvem
3 - Dry Martini (que eu espero que regresse em breve!)
4 - Tão cheia de tudo. Tão cheia de nada.
5 - Sussurros e Respiros
As regras são no resto iguais: link ao blogger que deu o prémio (a XR acima), imagem do selo no blog, que é esta:
Mágico mesmo é receber distinções destas, não pelo prémio ou pelo selo, mas porque dá um certo sentido à existência do blog sentir que as minhas palavras ecoam, acompanham alguns outros que as sentem e que aqui voltam, mesmo quando não comentam (pelos vistos, uns ficam viciados!). Obrigada pela vossa generosidade e paciência (e Pronúncia: também prometo controlar o meu ego! :) ).
terça-feira, 1 de Setembro de 2009
Das coisas simples que me fazem sentir bem # 2
Faz-me sentir viva, existente e consequente. Sei que vai aquecer-me o coração até ser velhinha, mesmo quando o tiver de largar do abraço dos meus braços para que possa ele abraçar o mundo.
segunda-feira, 31 de Agosto de 2009
De volta

De volta a casa. Passado o rio, descarregadas armas e bagagens que agora levo dias e reabsorver na minha casa, tenho um misto de contentamento, um sabor de missão cumprida, e uma tristeza de mais uma coisa que chegou ao fim. Para o ano há mais verão de azul e branco, como o mar revolto do meu Alentejo que também adoro e deixei para trás. Agora, há mais uns longos meses de luta da vida real, vida que pulsa aqui nesta cidade, alimentada por esta luz que é única e que me acolhe, sempre, quer eu queira quer não, e me faz estranhamente sentir em casa quando ainda rolo por cima de uma ponte vermelha sobre um rio azul.
Chegou o corpo mas o coração continua uma outra viagem. Continua a menina ansiosa por chegar ao seu destino, continua essa menina à espreita do vislumbre da paisagem que recorda imaginando, e do banho dessa luz que a fará, finalmente, sentir o coração chegado, iluminado, em casa. Continua o coração à procura da ponte.
sexta-feira, 28 de Agosto de 2009
Mais uma - a Parte 7
Pedro andou pelas ruas, com a imagem dela na cabeça ao mesmo tempo que ecoavam as perguntas dos jornalistas, fazendo o percurso inverso ao que tinha feito nessa tarde com Sofia. Parou frente à esplanada onde se tinham sentado e relembrou fragmentos da conversa que lhe vinham à memória sem qualquer sequência de tempo ou de lógica. Num turbilhão. De repente, lembrou-se que sabia em que cidade ela morava e olhou para o panfleto com o horário dos combóios que lhe tinham dado no hotel. O último combóio era um Inter-Cidades, que partia às 21:39. Tinha 18 minutos para chegar à estação.
Meteu-se no primeiro táxi que passou e prometeu uma generosa gorjeta para chegar a horas. O taxista pisou o acelerador com um pé pesado e um sorriso de satisfação. Pedro perguntou-se por instantes se teria tido sorte ou azar, porque não percebia bem se o sorriso do motorista era apenas de gozo se de loucura. O certo é que aquele carro voava baixinho pelas estradas e Pedro sabia que cada minuto e cada quilómetro devorado naquela corrida eram vitais para si. O nome dela explodia-lhe na cabeça e no peito. “Sofia.” Tinha de alcançá-la, e um semáforo vermelho. “Sofia.” Tinha que agarrá-la, parar-lhe a fuga, e passava mais um minuto. “Sofia.” Tinha de chegar a tempo, precisava dela para se salvar, e o taxímetro contava. “Sofia. Sofia. Não vás. Não me deixes!”. Num nervoso intenso que se via na expressão contorcida e no semblante transpirado, as mão furiosamente a esfregar-lhe a cara à lembrança dela, do nome, do olhar, do toque, do som das palavras e do beijo. E, de repente, a estação a recortar-se no horizonte. Cruzamentos e rotundas que nunca pareceram tão despropositados, os segundos a correr. “Sofia, por favor, espera por mim.”
Ao chegar à estação correu à procura da plataforma certa. Os 4 minutos que lhe tinham sobrado chegaram apenas para assomar à superfície onde viu o combóio prestes a partir. Já não havia gente no cais de embarque e apenas a cabeça do revisor assomava de uma porta. O revisor olhou para ele, na expectativa de ser um último passageiro a querer embarcar, e Pedro ecoava um monstruoso “não” na sua cabeça, “não me rendo, não desisto”, enquanto corria pela plataforma a tentar olhar para dentro do combóio, em busca dela. O sinal de partida ecoou nos altifalantes e ele não conseguiu reprimir um grito de desespero com o nome dela a voar pela noite, lancinante, vindo do mais fundo de si, perdendo-se no vazio do ar e esvaziando-lhe a alma simultaneamente.
- Sofia!!!!
O revisor recolheu-se e o combóio pôs-se em marcha, partindo, lentamente, e deixando no cais de embarque um homem e sombras. Luzes pardas dos candeeiros da estação, destinos escritos em placards electrónicos, bancos de espera vazios, ecos de passos que se foram e do trepidar do combóio que partia.
Lá dentro, ela seguia de volta a casa, com o olhar perdido no infinito, a tentar conter as emoções que queriam transbordar. Não se queria mexer, porque se controlava à força de conter o corpo, numa tensão louca, como que a reprimir a passagem do tumulto que lhe ía dentro. Sabia que se mexesse um músculo, um só, se desconjuntaria e não conseguiria conter a torrente. Aquele homem ficava para trás. Não interessava saber porquê, por que crueldade o destino os tinha feito cruzar caminhos. Não pensaria nunca mais naquele olhar, naquele cheiro, naquele toque ou naquele beijo. Não recordaria nunca mais aqueles breves instantes. Não se permitiria chorar. Não por ele. Sentia nojo de si, dele, repulsa incontrolável. Fechou os olhos e tentou dormir, para calar o que lhe ía na alma. Para tentar calar-lhe a voz, o grito, do nome dela, que ecoara na noite da cidade de onde partia e que não queria ouvir na sua cabeça quando respirasse o ar da noite da cidade onde havia de chegar.
(continua)
domingo, 16 de Agosto de 2009
Partida
As coisas que tenho e me vestem, me adornam, também são parte do que sou. Vão em malas a encher o carro, para que me possa transportar. Carrego comigo para férias o que sou e o que visto, tal como o que sinto e o que penso. De repente apetecia-me reduzir tudo ao mínimo, ao essencial, e viajar deixando quase tudo na gaveta. Apetecia-me chegar ao meu destino de férias e não me reconhecer no espelho, ou melhor, nem me ver no espelho. Apetecia-me deixar as roupas, as pulseiras, os sapatos, tudo guardado nas gavetas e armários. Mas por mais que me dispa de roupas e adornos, não posso deixar nas gavetas o que está guardado em mim. E carrego comigo também o que queria deixar, e assim deixo mais gavetas vazias do que precisava, porque assim me escondo mais. E quando olhar para o espelho verei o exterior que me define e oculta o interior que me extingue.Estou presa ao que não quero sentir, ao que não quero pensar, ao que não quero ser. Estou presa e quero partir. Não tenho asas e quero voar. Tenho memória e quero esquecer. Sei que tenho de desistir, mas não deixo de acreditar. Sei que tenho de viver, mas continuo a esperar. Sei contar os dias, os meses, mas ainda não deixei o tempo fechar. Zango-me com tudo e comigo própria, não entendo, mas não me liberto. Quero fugir disto e de mim, mas não sei como. Já tentei parar, já tentei fingir que não sei, à espera que o tempo se encarregue de diluir no vácuo o que não me pertence mas me domina. Já tomei resoluções, já me impus penitências. Já me desculpei e recompensei. Mas acabo de volta ao inevitável de sentir que não me livrei, ainda me corre nas veias, ainda me aperta o peito, me consome, me entristece, me acorda e me adormece.
Os quilómetros da distância que vou percorrer não me levam para longe, não me levam de mim. Mas talvez o tempo que vou viver de outra maneira me possa ajudar e reecontrar uma forma de viver com isto em paz. Já que não posso expulsar, talvez consiga empurrar tudo isto para um cantinho mais escuro, arrumar muito arrumadinho, e aprender a viver sem o peso de o carregar comigo a cada passo, cada quilómetro, cada minuto do tempo que se desfia à minha frente, que devoro na ânsia de que acabe.
Boas férias para mim. Era bom serem férias de mim.
sexta-feira, 14 de Agosto de 2009
Indigesto
quinta-feira, 13 de Agosto de 2009
Agri-Doce?

Hoje acordei de rastos – tipo: “não, não estou nada a ouvir o despertador... Está quieta Maria Princesa e deixa-te mas é dormir”. Tenho-me deitado tardíssimo todos os dias e ontem não foi excepção. Simplesmente nem quero pensar em ir para casa, não me apetece estar sozinha. Então fujo para a confusão. Tudo é mais fácil com o barulho das luzes. E as horas passam sem eu dar por isso mas depois é o diabo para me levantar de manhã. Acho que estou assim um bocadinho a fugir de mim – é que eu sou terrível comigo própria.
De facto, sou muito exigente e crítica de mim, em todos os aspectos. A minha mãe disse-me que tento ser, e projecto a imagem, da “super-mulher”. Não acho que seja bem assim. Eu não “tento ser” a super-mulher e até geralmente me sinto exactamente o contrário: sinto-me fraca e insegura, duvidosa e receosa, e por isso preciso de pensar tanto nas coisas. Mas admito que seja essa a imagem percebida por alguns, porque depois de tanto pensar, reflectir, analisar e, finalmente decidir, sou invariavelmente de uma convicção inabalável. É só isso que parece que os outros vêm, lendo portanto uma pessoa fria, calculada, cheia de força e certezas. Já alguém me disse que eu era uma mulher de coração com a ilusão de o temperar com a razão. E de facto sinto-me um coração a querer mandar, mas a razão a atrapalhar, a confundir sabores e a camuflar aromas com os temperos da lógica, do pensamento analítico, da crítica impediosa. Às vezes chego a perguntar-me se não serei um pouco esquizofrénica! E sei, admito embora não goste de o ouvir, que por vezes me projecto tão ácida como sou doce, sobretudo em situações em que me sinto ameaçada. E sei que isso confunde as pessoas que me conhecem menos, e mal sabem elas que me confunde a mim própria...
Talvez por sentir que sou demasiado coração, tenho uma necessidade absoluta de pensar nas coisas, tomar decisões consciente dos riscos, fundamentar certezas e reforçar convições com a trama da lógica. E tenho necessidade de esconder essa fragilidade no campo emocional, atrás de uma parede de acidez e uma expressão seráfica. Mas perco a espontaneidade, perco momentos e perco-me eu própria nesses raciocínios. Tenho-me esforçado, e quando consigo ser mais espontânea, realmente sinto-me quase sempre bem, apesar de algumas dessas espontaneidades acabarem a ser analisadas tempos depois na categoria a que dei o título (à moda de uma querida vizinha) de: “Loucuras que cometi no impulso do momento ou No que raio estava eu a pensar?! ou Não volto a beber tanto shot de vodka na mesma noite”...
Assim é a vida – um compromisso constante entre razão e emoção, entre planeado e espontâneo. Ainda tenho dificuldades com este equilíbrio e não me consegui decidir ainda se custa mais aceitar um erro resultante de over-analysing e planeamento detalhado, se um erro de impulsividade ou espontaneidade. A diferença mais óbvia é que, mesmo quando é erro, viver no espontâneo é mais fácil, é-se mais feliz pelo menos no imediato, e não se perdem certos momentos a ruminar argumentos e lógicas. E lá estou eu a entrar na análise, até para decidir se devo ou não ser mais espontânea... Mais paradoxos meus. Estas minhas incongruências admitidas, o facto de ser/parecer coração e razão, doce e ácida, insegura e forte, às vezes fazem-me sentir que não sou nem carne nem peixe. E de repente ocorreu-me que estou muito perto de ser um prato chinês agri-doce, um número cheio de “l’s” de uma ementa traduzida de mandarim... Qualquer dia alguém chama um “tlinta e quatlo” e eu respondo “Sim, sou eu...”
Lá se diz que a imagem que temos de nós próprios é sempre distorcida em relação à imagem que projectamos. E eu às vezes pergunto-me onde está realmente a distorção, acabando por concluír que está um pouco dos dois lados. Mas o que sei é que alguns outros por vezes nos vêm melhor que nós próprios, vêm as distorções que fazemos do nosso lado. Os que são nossos amigos têm a generosidade de nos reflectir mais autênticos, mesmo que seja através de uma discussão ou pelo menos de coisas que são duras de ouvir, ajudam-nos a alinhar as duas imagens, a focar no que interessa e a limpar ruídos da imagem distorcida. No fundo, dizem-nos que não somos um “tlinta e quatlo” e obrigam-nos a estudar o menu outra vez... Bem hajam esses amigos, que eu nem sou fã de agri-doce. Haja esperança.
segunda-feira, 10 de Agosto de 2009
Mea Culpa
Quis muito ter um filho, pensando que tinha encontrado o pai perfeito que ía comigo construir uma família. Não podia advinhar a volta que a vida ía levar. Não me arrependo de ter o L, mas também me entristece tremendamente que não o possa ver crescer no meio de uma família a sério. Não seria a minha escolha se tivesse visto o futuro.
Custa-me tê-lo longe, a chorar ao telefone a perguntar-me quantos dias faltam para eu o ir buscar, ou para ir “para casa da mãe” porque, dizia-me ele, está triste. Foi a primeira vez que me lembro de o ouvir verbalizar uma emoção espontaneamente, e foi logo a tristeza que escolheu. Fracasso de mãe, penso no imediato. Mas eu sei que sou para ele a melhor mãe que sei e consigo ser, nas limitações da minha condição humana e na impotência contra alguns desvios do destino. Sei que não posso evitar-lhe todo o sofrimento e não posso garantir-lhe felicidade permanente. Sei agora e sei agora o quanto dói.
Preferia não estar na situação de ter de o “visitar”, mas fui matar saudades, minhas e dele. Conversamos a vêr o mar e depois jantamos pizza. E lá tive de deixá-lo com o pai, com as lágrimas e os abraços que não se querem desfazer. “São só mais 5 dias e depois vamos de férias, só nós dois, 15 dias, que é imenso!”, digo-lhe eu com todo o entusiasmo que consegui espremer de mim. E ele responde que isso é “taaaanto”, que “é uma mão TODA”...
Ainda tinha esperança de viver a experiência da maternidade outra vez de uma forma mais tranquila, mais feliz, com uma verdadeira família. Mas não sei já se teria coragem. O que sei hoje é que, como ouvi alguém dizer, não quero mais nenhum filho “de” – quero eventualmente um filho “com”. E sei que mesmo com os sinais certos todos, e anos de provas olímpicas ultrapassadas, será sempre um risco, para mim e sobretudo para um hipotético segundo filho, a quem amando de antemão, assim talvez prefira não dar existência. Sei que para poder pensar no assunto a sério é preciso encontrar um Amor e que este, sem laços de sangue, não é matemático, não tem modelo, norma ou garantia. É um monte de sortes, acasos e paradoxos e, ainda por cima, é uma coisa volátil... Sei hoje o que sobra quando evapora, e sei que uma criança precisa tanto de uma mãe como de um pai, e mais que dos dois em alternância, precisa de uma família.
Mea culpa meu filho, que me perdoes um dia porque não soube o que fazia.
domingo, 9 de Agosto de 2009
Inconformada

Uma vez ouvi um Padre justificar a manutenção da virgindade até ao casamento de uma forma extraordinária. Dizia ele que assim não haveria no casal termos de comparação, o que tornaria o que quer que fosse a vida sexual dos dois absolutamente incomparável. Sem frustrações, sem desilusões, sem insatisfações.
À parte o que se pode argumentar contra esta tese, e pode muito, fica a questão genérica: a ignorância pode ser uma benção? Às vezes penso que sim. Se não soubesse o bom que pode ser, o medíocre chegaria. Se não soubesse o que é Amor total, um afecto menor seria suficiente. Se não soubesse o que é ser feliz, um contentamento morno bastava-me. Assim, o medíocre é apenas medíocre, um afecto menor é insignificante e um contentamento morno é um sofrimento.
Ecoam as palavras do meu saudoso avô a quem me queixava da Faculdade e do curso: “não me surpreende. As pessoas inteligentes são sempre inconformadas. Vais ter de aprender a viver com isso”. Desse-me Deus menos inteligência, menos profundidade e menos conhecimento, e seria talvez até feliz. Felizes serão os tolos?... Talvez. Se eu não conhecesse o Santini, com certeza achava a Olá um espectáculo e comia um gelado qualquer sem o desencanto de pensar que o de framboesa do Santini é mil vezes melhor.
quinta-feira, 6 de Agosto de 2009
Interregno

Assola-me a tristeza de uma nostalgia quase doce. É a necessidade de largar o que está para trás. Mas, ao mesmo tempo, apetece-me voltar no tempo e ser e sentir o que fui e senti nos momentos felizes passados. É um turtuoso raciocínio, esse sonho acordado, a nota mental de tudo o que houve de positivo. Aquela sensação de que "aquilo é que era", e era mesmo, foi mesmo, é tudo uma questão de tempo do verbo... Era, mas já não é, nem volta a ser, foi apenas... foi bom, mas "foi". O tempo escorreu. Caio de vez em quando nestas armadilhas e nestas rodas.
E depois tenho vertigens, fico na beira do passo que não percebo qual vai ser. E nessas alturas paro. E acho que é assim que tem de ser. Em compasso de espera, um dia de cada vez, sem over-analysing, a deixar as coisas arrumarem-se de mansinho, na cabeça e no coração. A largar o lastro, a levantar amarras, a olhar para o mar. E aí, de repente, sei para onde quero ir e como lá vou chegar. E afinal o tempo não foi perdido.
quarta-feira, 29 de Julho de 2009
Até ao meu regresso - fica o "Quase"

Quase
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
(Mário de Sá-Carneiro)
terça-feira, 28 de Julho de 2009
sábado, 25 de Julho de 2009
Ping-Pong

No fim disto, agora estou cansada. É bom andar a voar, mas não é bom não avançar. E para cada ping-pong, há uma pancada de impulso, e às vezes essas pancadas são quase destrutivas. Sobretudo quando são vôos de ciclos longos, porque a pancada é mais forte, e porque leva tanto tempo até sentirmos o impacto do fim do vôo que, mesmo com a antecipação da memória, não estamos realmente preparados para como doi.
O mais torcido no meio disto é tentar perceber quem é que tem as raquetes nas mãos, quem dá o impulso e a direcção à bola. Se fosse crente, punha Deus a jogar de um lado. Assim, talvez o destino jogue de um lado da mesa. Mas do outro, parece-me, preversamente, que estou eu própria. E é turtuoso por isso: serei bola ou jogador que controla a bola, pelo menos numa direcção? Se sou eu que jogo, a bola é o que vivo. Só que se é assim, esta jogadora não sobe ao pódio, porque às vezes não imprime à bola o movimento melhor, e consegue no máximo bater na bola de qualquer forma só para continuar em jogo, e por outro lado o adversário parece imbatível, rebatendo até as jogadas que pareciam perfeitas.
Lá continua a bola, lá continua o jogo que não se pode parar. E posso não ganhar medalhas, mas continuo a jogar, continuo a esforçar-me. E vou voando de cá para lá, e de lá para cá, até que um dia a bola há de conseguir livrar-se da tortura, ou a jogadora há de conseguir uma jogada realmente perfeita, fazendo a bola saltitar até parar em algum sítio melhor, levando a jogadora ao pódio. Amanhã é dia de ping, e depois logo se vê. Seja quem for o outro jogador, apanha lá esta...
quinta-feira, 23 de Julho de 2009
Snowed under...

Hoje, é assim que estou. Para além de exausta com o regresso ao trabalho em conjunto com o regresso das noites mal dormidas (the joys of motherhood...), estou verdadeiramente, completamente, e quase literalmente, snowed under!...
terça-feira, 21 de Julho de 2009
Para ser grande

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
É assim que eu vivo quase tudo, e é só assim que eu sei amar. No que estou, estou por inteiro. Quando amo, amo inteira. E quando me dedico a alguma coisa, dou tudo de mim, brilha toda a minha lua nesse lago. Talvez por isso a minha exigência seja elevada também com os outros. Talvez por isso um amor que não é inteiro não me chegue. Talvez por isso abandone aquilo em que não me consigo derramar por completo num brilho de prata sobre as águas. Mas hoje foi assim mesmo, a mergulhar no trabalho no meu regresso gradual à minha vida "normal", e soube-me bem. Gosto de mim nestes dias em que me sinto grande.
segunda-feira, 20 de Julho de 2009
É preciso falar de sexo?

Embora haja várias variantes, e uns mais claros, outros pouco nítidos, uns de sentimentos mais exaltados e outros um pouco mais articulados, parece que, genericamente, muita gente considera que um blog escrito por uma mulher que se foque sobre o que lhe vai na alma, que naturalmente acompanha os acontecimentos que vai vivendo, não sendo necessariamente um “diário”, se não falar de sexo não presta. Pior ainda se a dita mulher estiver solteira e não relatar aventuras e conquistas sexuais (é imediatamente categorizada e com requintes de malvadez), e ainda pior se estiver a viver uma história de amor impossível ou complicada.
Ora bem: não digo que não haja por aí muito blog côr-de-rosa, ao estilo de diário, na minha opinião muito pouco interessante simplesmente porque não revela nada de profundo, nenhuma reflexão sobre os acontecimentos, sobre a vida, ou sobre o que quer que seja. Há muita porcaria na blogosfera, mas se todos gostassem da mesma côr, o que seria do amarelo. Cada um é livre de ler ou não ler, comentar ou não comentar, voltar ou esquecer. Por mim, já encontrei alguns blogs que têm, pela mão de mulheres, e muitas vezes mais bem escritos que os “blogs de gajo” ou dos blogs de mulheres a falar de sexo, muitos textos com conteúdo de reflexão e interessantíssimas formas de olhar o mundo, os outros e o próprio. Coisas que me fazem a mim pensar ou re-pensar assuntos, que me permitem crescer como ser humano.
O meu blog relata-me, não exactamente como um diário de acontecimentos, mas sobretudo como um relato de pensamento. Muitos dos meus textos são conversas de mim para mim, são reflexões sobre coisas que me acontecem e sentimentos que vou experimentando, às vezes exorcismos, outras vezes partilha com os leitores de quem entretanto ganhei uma certa fidelidade e amizade. Não fala de sexo, por si só, porque simplesmente não me interessa por aí além discutir o assunto neste fórum, nem tenho necessidade de publicar, partilhar ou sequer analisar a minha vida sexual. Aí é uma esfera onde me considero uma mulher bem resolvida, sem tabús ou preconceitos, que vive muito bem com o seu corpo e com as suas opções, e que, simplesmente, não acredita em sexo vazio.
Se me custa um bocado perceber porque é que tanta gente acha perfeitamente normal envolver-se sexualmente com qualquer um, e mais que isso, acha louvável, acha que isso é que é “viver a vida”, e no caso das mulheres acha até que é um sinal de modernidade e emancipação, menos ainda percebo a necessidade de o publicar. E menos ainda entendo a necessidade de criticar quem pensa, e sente, e vive, de acordo com o princípio de que sexo é parte de um todo maior, embora parte muito importante, mas essencialmente uma intimidade que nem sequer nos é exclusiva, porque envolve outra pessoa. Respeito as opções dos outros, mas espero o mesmo respeito de volta. E se não gostava de um dia descobrir algum meu ex a relatar a nossa vida sexual num blog qualquer, certamente não vou fazer o mesmo.
Não sou puritana, já cometi as minhas loucuras, mas sei que tudo tem um tempo na vida, nunca desrespeitei ninguém, e hoje sinto-me suficientemente madura para dispensar days after manhosos apenas pela pura satisfação mecânica do corpo. Porque se é por isso, então que não se envolvam outras pessoas a quem se podem ferir sentimentos, há muitas formas alternativas até mais seguras de satisfazer a vontade, há imensa literatura disponível e as sex shops estão ao alcance de qualquer um. Para mim, o nosso corpo pertence-nos e é valioso, demasiado valioso para entregar ao desbarato, e só faz sentido entregá-lo quando acompanhado de intimidade, de afecto. Não tenho uma visão romanticizada, até porque entendo que é legítimo mesmo que não seja o amor da nossa vida (e quase nunca é), e mesmo nos dias em que é pura diversão, puro sexo, para os dois (o que até faz falta e faz bem em qualquer relação). Mas acredito que é oco se não houver mais nada. Nessa intimidade, nesse afecto, é que nenhuma relação fugaz de sexo por sexo, nem nenhuma técnica ou sex toy, substitui o sublime de um outro em comunhão de corpo e alma. E na minha opinião é disso que, no fundo, toda a gente sente a falta, uns admitidamente, outros nem por isso.
Abismo
É o medo que nos pára. É o medo que nos encalha na areia e é o medo que alarga o abismo. É o medo de saltar porque se tem medo de caír. É o medo de saltar porque se tem medo de que o outro lado seja também um engano. É o medo de ter medo quando se aterrar os pés no chão e não se souber para onde ir num novo caminho desconhecido, do outro lado. É o medo do arrependimento, tanto de ficar, como de arriscar.
Comanda o instinto e o nosso instinto geralmente varia entre a ousadia do risco e a cobardia da preservação. Há demasiados graus pelo meio, tingidos por sentimentos ou emoções assoladoras, como a paixão, a fúria, ou até o desespero e o abandono, que tanto nos pode encher num impulso de saltar, como esvaziar na cobardia de ficar. É na luta interior de compatibilização entre a razão e esses instintos, sentimentos e emoções, que me meço, e que tantas vezes me perco. Uns dias sinto-me corajosa, ousada, sinto que tenho de saltar porque não quero estagnar, quero acreditar, quero continuar a lutar, e não quero arrepender-me de não ter tentado. Outros dias sinto-me cobardemente presa ao medo de sofrer mais, outra vez, presa à negação da esperança, sentindo as minhas pernas curtas para a largura do salto sobre o abismo.
Não sei já se é pior sofrer de um lado ou do outro. No lado de cá, sofro por me saber negada a felicidade que julgo vislumbrar do outro lado, mas que sinto atrás de uma parede de vidro intransponível. Do outro lado, tenho medo de sofrer o engano, de embarcar na viagem e descobrir a meio que me afundo em alto mar. O salto é um duplo risco – a queda no abismo antes de aterrar e o afogamento pelo caminho se lá chegar. Aqui é mais tranquilo, menos arriscado, sei o que sofro e sei que não será nem melhor nem pior, mas perpetuamente um sofrimento morno que deixará de doer porque me deixará cada vez mais dormente. Só que nos meus dias de coragem, que são mais do que os outros, lá estou eu a medir a distância, a sentir o vento e a olhar para a largura do abismo a diminuir, a tentar certificar-me de que é ali que quero saltar. Nesses dias até me pergunto se não haverá outras passagens, outros lados e outros abismos, e apetece-me procurar. No final desses dias, acho que sou louca e devia era estar quietinha no meu canto, instalar-me sentada na beira do abismo, de malas prontas, mas esperar pela ponte. Só não quero morrer à espera.
sábado, 18 de Julho de 2009
Vazio de um fim anunciado

Fecha-se a porta e roda a chave. Ali fica vazia a casa que era para a vida de uma família feliz. Do lado de fora, fica um coração vazio, uma chave que já não abre o futuro, uma promessa que não se cumpriu. É triste, mas pacífico. Passos lentos levam-me para longe daquele passado, e desço no poço do elevador. A vida é lá fora, contínua a luta, e algures o verdadeiro amor.
Agora sim: fim.
quinta-feira, 16 de Julho de 2009
Sabe bem...

... ousar dar o passo no escuro, enfrentar o precipício, e depois perceber que é uma ilusão óptica enquanto se desce calmamente um pequeno degrau.
... ousar estender a mão com uma semente e encontrar um amigo para a fazer crescer.
quarta-feira, 15 de Julho de 2009
Raios o partam

Gostava de perceber que bruxedo é este, que de cada vez que finco os pés no chão e me sinto capaz de voar, sua excelência, o senhor do meu coração em tempos que queria idos, tem a amabilidade de me invadir a vida outra vez. Assim como que a marcar presença, a fazer-se notado e lembrado. Até parece que lhe “cheirou” que ando tão bem que nem fechei a porta a uma nova possibilidade que surgiu inesperadamente e que me fez pensar, pela primeira vez, “why not?...”.
Mas a lembrança que ele hoje me traz, já não é só dos sorrisos, dos beijos, dos abraços, da química e do fogo da pele com pele. Hoje lembro-me também dos meses de mim escaqueirada em mil pedacinhos que andei a custo a varrer do chão, e com muita ajuda a colar com esmero, na reconstrução do puzzle de mim. E sei que não quero voltar a ter esse trabalho todo, não quero voltar ao limbo do sofrimento em que andei entre os "quero mas não quero". Basta-me reler o que escrevi para me arrepiar, e arrepiar caminho.
Como sempre, não o consigo ler e sei que qualquer tentativa de leitura me pode fazer mal. Porque sei que ele é um poço de dualidades, de repentes e coisas ditas sem consequência, mas que têm em mim em efeito poderoso. Sei que ele é perigo, sei que sou inflamável e que ele é chama. Não o quero tão perto, porque tenho medo de inflamar mesmo de novo e não quero mais “days after” dolorosos.
Por isso agora não vou teorizar, não vou sequer tentar interpretar. Numa variante nova da minha estratégia de sobrevivência, serei literal e lerei literalmente. Não embarco no jogo da advinha ou da insinuação, porque não quero mais zonas cinzentas. Para mim é amizade com uma história, que está lá atrás e não continua nem se repete. E se houver uma nova história, desta vez escreve-se com linhas direitas, palavras claras e frases completas. Seja em que registo fôr, e para mim pode ficar no registo da amizade, que era até a forma que eu gostava de arrumar o assunto, dando pelo menos a esta história um desfecho mais bonito. Ele não me é indiferente, nem nunca será. É verdade que apesar de tudo me sabe bem tê-lo por perto, e gostava de o manter na minha vida. Mas só se fôr sem lágrimas.
Aqui estou eu, sei que de alguma forma perversa lhe pertenço, mas também sei que, antes de mais, me pertenço a mim e me cabe a mim evitar o curto-circuito. E o primeiro passo para isso é manter a porta aberta e uma visão de helicóptero que me permita não perder os outros olhares que se cruzam convidativamente com o meu, e não perder de vista o rumo que me tracei e este caminho que agora me sinto bem a trilhar. E se a coisa se complicar, peço aos céus que me iluminem e que descarreguem sobre ele um raio... que o parta!
terça-feira, 14 de Julho de 2009
Making the skies blue

Acontece às vezes uma sensação de ter passado uma barreira invisível qualquer, de ter chegado a um novo destino, um sítio que nos é encantadoramente estranho, desconhecido por explorar. Nos últimos dias, quase parece que não estou a viver a minha vida e hoje vi-me no espelho com um sorriso logo pela manhã (embora tardia...). Sinto-me leve, sinto-me chegada a um novo lugar, a começar uma nova etapa cheia de energia e sentimentos positivos. Já não sinto cansaço da viagem que fiz até aqui, apenas o cansaço bom de dias cheios, de coisas plenas e promessas de dias ainda melhores. Sinto-me alegre - é isso. E apesar de ter tentado sempre manter um certo bom humor, apesar dos altos e baixos ao longo deste ano, acho que é a primeira vez em muito tempo em que sinto verdadeiramente alegria. Alegria de ser e de viver.
Hoje há núvens no céu lá fora, mas nenhuma me chega a ensombrar. Olho para fora da janela sem me importar que não seja um dia perfeito de Verão, porque é um dia perfeito para mim. Todos os dias quero sentir que é cada dia mais um momento perfeito de vida para desfrutar. Todos os dias quero sentir esta certeza de estar num bom lugar e no caminho certo para chegar mais longe, mais alto, mais plenamente em mim. Todos os dias quero segurar firmemente a decisão de limpar o céu de sombras e tristezas e ter força para continuar a acreditar que o meu destino é feliz, ainda não chegou, mas vai chegar.
segunda-feira, 13 de Julho de 2009
Cansaço - ou será da idade?...
Diverti-me imenso de novo ontem à noite, dancei, brilhei e parece que cativei. Ah pois é, a vida surpreende-nos mesmo nas alturas em que menos se espera. Soube-me tudo muito bem. E hoje o dia também foi bom, com amigos, petiscos e praia. Tudo a fazer bem ao corpo e à alma, tudo a alimentar o ego. Menos este cansaço absurdo, que me levou até a dormir na praia. Parece-me que se calhar já não tenho idade para aguentar este ritmo de madrugadas e tanto programa pelo meio. Ou estou muito destreinada?... Ainda rematei com um longa e divertidíssima conversa ao telefone com o meu filhote, todo bem disposto, a deixar-me com um sorriso ainda maior.
Apesar do cansaço e desta dúvida existencial sobre a sua origem, sinto-me agradecida por todas as coisas boas destes dias que quero preservar na memória.
sábado, 11 de Julho de 2009
Quando nos supreendemos a nós próprios

No lado negativo, encontrei o meu chefe... Estando eu de baixa, certamente não terá causado a melhor impressão, mas hei de dar a volta ao assunto. No lado positivo, senti-me bem, independentemente de toda a atenção desnecessária que as muletas atraem. É que estava-me borrifando para o que os outros pudessem pensar. Claro que foi bom ouvir de um estranho que “isso é que é espírito – força!”, e irritei-me quando ouvi uma parva comentar “quem é que vem para aqui de muletas?”. Mas o que me apeteceu responder a essa alminha idiota foi simplesmente: “Quem? Eu. Alguém que não se deixa vencer pela vida e se recusa a baixar os braços”. Apesar da irritação com o comentário, saber que fui, que estive bem, que me diverti e que esta frase me descreve, deu-me um fôlego. E iluminou-me com um sorriso.
sexta-feira, 10 de Julho de 2009
Excertos de mim #2

Este excerto para me lembrar que o mundo, às vezes, vê-se a sofrer as nossas dores, tanto que parece que o mundo as espelha e as sente, nas coisas, na luz, na sombra, em tudo o que nos rodeia. E assim não vemos mais nada e perdemos tanta coisa.
quarta-feira, 8 de Julho de 2009
Das escolhas e riscos do Amor
Amar alguém será sempre um risco para mim, algo que verei como perigoso, que sei que pode doer, e muito. Noutros riscos que assumo na vida, sou obrigada pelo meu lado racional a pesar prós e contras, analisar o grau de risco e tentar montar redes de segurança para as eventuais desgraças que possa antever. Mas esta racionalização no Amor é, para mim, quase impossível. Ao contrário do que alguns pensam, eu - e acho que a maioria das mulheres - não escolhemos um homem para nos apaixonarmos de check-list na mão, a pensar muito bem na escolha que fazemos. Pelo contrário, acho que não escolhemos ninguém - é o Amor que nos escolhe e escolhe por nós e, de repente, estamos apaixonadas.A única alternativa é escolher não correr o risco, não dar azo a sofrimentos, mesmo que tenhamos de nos afastar de pessoas por quem nos começamos a apaixonar, ou que até preenchem uma série de requisitos de uma teórica "wish list" de sonho. Essa agora é a minha máxima: o meu lema por estes dias é "chega para lá". Não quer dizer que não olhe à volta, mas sei que o Amor é perigoso e para assumir o risco tinha de ser uma coisa tão, tão poderosa, que sei que não vai acontecer. Já cresci o suficiente para saber que essas listas não são fiáveis, não há coisas "poderosas" dessas a cada esquina, e também já calejei o suficiente para saber que amor com amor se paga, e não há quem aguente financiar um relacionamento a solo, hipotecar-se até à raíz do cabelo, assinando sozinho todas as letras e livranças.
É verdade que também há quem escolha alguém conscientemente, calculada e friamente. Mas essa não é uma escolha de Amor. Essa é uma escolha diferente e sinceramente não acredito que seja assim que a maioria das pessoas escolha os seus companheiros. Eu não sou assim com certeza, pois só soube "escolher" idiotas toda a vida. Se tivesse sido por escolha, tinha muito que me chicotear, ou aceitar uma tremenda falta de inteligência que acho que não me define. Os idiotas da minha vida por quem me apaixonei não se classificaram por lista nenhuma, por nenhum tipo de escolha racional. A idiota no Amor fui eu, não por me apaixonar, mas por ter investido demais em pessoas que, na realidade, ou não me mereciam ou não eram as certas para mim. No fundo, juntei ao azar uma enorme casmurrice, uma persistência que se tornou teimosia (e por essa sim, mereço um certo auto-flagelo).
Mas convenhamos que aos 35 já era tempo de ter um pouco de sorte e ter acertado num homem de jeito. Mais um bocadinho e acho que desafio a lei das probabilidades, por muito que o mundo esteja cheio de idiotas. Mas como devem ser assim à razão de uns 10 idiotas para 1 decente, ainda devo ter mais uns quantos na calha. Só espero que não tenha que chegar ao décimo para acertar...
Os meus Gatos #1
Gosto de animais, em geral, mas desenvolvi uma especial predilecção pelos gatos persa. Quando era miúda queria imenso ter um cão. Os meus pais até têm um óptimo jardim, mas nunca se deixaram convencer. Foram-me oferecendo substitutos com muito maus resultados. Acabei por desistir da ideia de ter um animal de estimação depois de ter morto vários peixes por indigestão, um piriquito ao qual dei um banho acidental, uns hamsters que acho que foi a minha mãe que fez desaparecer (mas disse-me que morreram para eu me sentir culpada) e finalmente uma tartaruga que fugiu da "casa" dela e se enfiou num chinelo do meu pai, onde encontrou a morte (e essa teve direito a enterro no jardim, com procissão solene e uma caixa de fósforos por caixão). Não pensem mal de mim que não fiz nada de propósito. Era uma criança - e também tive azar!Muitos anos mais tarde, ofereci ao meu primeiro marido um persa azul, que era o que ele mais queria, e na verdade nem me ocorreu que acabava a viver eu com o gato, dado que só casamos um ano e tal depois. Mas, não sei porquê, o bicho escolheu-me a mim desde o primeiro momento. Chamava-se Ludwig e era um gato lindo, tinha uma elegância e uma agilidade espantosas, além de ser o animal mais afectuouso e inteligente com que me cruzei.
Tinha umas manias e manhas incríveis, esperava-me à janela todos os dias e mal me via na rua corria para a porta. Acabou por ser a minha companhia enquanto viveu, seguindo-me para todo o lado. Quase não miava e aprendia tudo - inclusive que se esperasse quieto ao pé de mim enquanto eu comia, eu lhe guardava qualquer coisa, mas que só lhe dava quando terminava. E percebeu que quando eu pousava os talheres no prato de lado era a "hora do biscoito". Empertigava-se logo e parecia um urso de circo, em pé sobre as patas traseiras, à espera da recompensa. E eu dava-lhe, claro.
Morreu com uma insuficiência renal, ao fim de 3 anos, e foi um fim muito triste. Esteve doente muito tempo, chegou a estar internado num hospital veterinário, e sofreu demais. Fiquei tão perturbada com aquilo que decidi que não queria mais nenhum. Mas tive mais três, que ficam para outros posts. Deste lembro-me especialmente quando faço malas, porque na altura viajava bastante em trabalho e ele depressa aprendeu a associar as malas com as minhas ausências. Então, quando dava por mim, tinha o gato deitado dentro da mala, em cima do que quer que lá estivesse, a fazer-me olhinhos, como quem diz "leva-me contigo...". Era um doce.
terça-feira, 7 de Julho de 2009
Luz

A luz faz-me bem, enche-me de energia. É sempre o que guardo com mais nitidez na memória dos sítios por onde passei. É o que mais me marca nas cidades que conheço e o que me faz querer voltar a umas e não querer regressar a outras.
Gosto de me sentir iluminada e absorver a luz ajuda. Às vezes ajuda-me a encontrar a minha própria luz. Hoje estou assim. Há muito tempo que não me sentia tão luminosa sem nenhuma razão aparente. Simplesmente porque sei que a luz está cá e hoje dei-lhe soltura, jorra pelos meus poros. Sabe-me bem. Também sou luz.
segunda-feira, 6 de Julho de 2009
O Homem-Melga
Baseado em experiências próprias e alheias, eis que tenho necessidade de articular uma ideias sobre o comportamento de certos homens. Quando um homem envia dezenas de mensagens às quais só obtem respostas esporádicas, e ainda assim insiste ao longo de várias semanas; quando um homem faz meia dúzia de convites para jantar e apenas um é aceite (e não o último e as desculpas são pouco convincentes); quando um homem liga várias vezes a uma mulher e ela nunca lhe liga de volta, mas ele manda mais mensagens e volta a ligar; é Amor? Não, minhas queridas e meus queridos, desenganem-se. Isso não é Amor e está para lá de louvável persistência. Isso, e tenham medo, é um homem-melga.Ah, mas elas gostam é de um homem que ande atrás delas, que mostre determinação e persistência, uma vontade louca de as conquistar. Pois sim, bem verdade, e são já raros os homens que realmente se expoem na conquista assumida e demorada de uma mulher. Mas as mulheres não querem um palerma sem auto-estima, sem inteligência e sem imaginação, que ainda por cima incomoda - como as melgas. Ora vejamos: se metade das mensagens não são respondidas, que tal pensar em reduzir o número e aumentar a imprevisibilidade das mensagens, e já agora, talvez torná-las mais interessantes ao ponto de suscitarem de facto uma resposta? Se os convites para jantar não são aceites, que tal sugerir almoços, um café ou um copo, ou outra coisa qualquer? Se ela nunca telefona, que tal pensar em outras formas de comunicar, fazer uma surpresa? E se nada disto resultar, que tal experimentar a indiferença? É que às vezes tem resultados surpreendentes. Ainda recentemente tive uma amiga que se irritava todos os dias com o número de mensagens que recebia de um tipo, mas gostava tanto que, no dia em que ele não mandou nenhuma mensagem, ficou tristíssima.
Tudo o que é demais é mau. Há que saber encontrar a dose certa de persistência e, sobretudo, usar a cabeça para pensar em formas inteligentes e divertidas de dar a volta aos argumentos das recusas, nomeadamente dos convites. E há que revelar auto-estima suficiente para parar com a perseguição se não há, declaradamente, interesse nenhum do outro lado. Porque se não, um homem que é inicialmente visto como persistente e corajoso, passa a ser visto como um detestável homem-melga. E pior que um homem-melga comum, só o homem-melga tsé-tsé. É o que, para além disto tudo, dá sono. E está tudo dito. Ou talvez outro post...
domingo, 5 de Julho de 2009
Presentes Especiais

Os amigos às vezes desiludem-nos. Podemos não ser reciprocados no grau da amizade que sentimos por alguns, por vezes para mais, outras vezes para menos. E também podemos às vezes magoar um amigo, seja por não lhe dispensarmos a atenção ou o carinho que esperavam de nós, seja porque não o compreendemos e fazemos ou dizemos alguma coisa que o incomoda ou fere.
Na amizade verdadeira e de maior grau de intimidade, confiança e conhecimento mútuo, quase tudo é ultrapassável mas, ao mesmo tempo, custa muito mais. Porque se a ofensa parte de uma não compreensão de nós, de uma qualquer insensibilidade aos nossos sentimentos, necessidades ou forma de ser, por mais que involuntária, deixa-nos a pensar que aquele amigo afinal não nos conhece assim tão bem, não nos compreende, não nos lê correctamente. E tem de ser isso, porque a alternativa é que realmente não se importa. Mas doi da mesma maneira.
Claro que é normal que os amigos não conheçam absolutamente tudo de nós - nem nós próprios conhecemos. Temos às vezes reacções, sentimentos e pensamentos que nos surpreendem também. Mas quanto mais avançado o grau de amizade melhor percebemos o que não sabemos. Aprendemos a reconhecer as zonas cinzentas onde não podemos entrar sem convite, aprendemos a evitar certas temáticas, aprendemos os tempos e os caminhos, sabemos quando temos de estar lá e não falhar, mesmo sem que nos peçam. E aceitamos a forma de ser do amigo, e ajustamos a forma como nos relacionamos com ele, para que não se sinta invadido ou ofendido, desde que isso também não ofenda os nossos princípios fundamentais. Na verdadeira amizade, mesmo quando não compreendemos tudo, somos capazes de dizer “I stand by you”.
Mas a amizade constroi-se, tal como qualquer relacionamento, por isso esperamos o mesmo esforço de volta. O segredo do sucesso de qualquer relacionamento, seja de amizade, amoroso ou até profissional, é a reciprocidade equilibrada de sentimentos e esforços, o que é um permanente reajuste de equilíbrios que exige atenção e dedicação. Talvez por isso se torna tão poderoso quando, de repente, se sente alguém que nem era uma amizade profunda activamente empenhado em nos apoiar, a sair do seu caminho, claramente a dizer “I stand by you”. Claro que um presente destes, tanta generosidade, é para reciprocar com toda a genuidade, e sem dúvida um excelente construto para uma amizade que se torna agora muito mais especial. Eu agradeço este presente. E digo a mais alguém "I stand by you". Sabe muito bem.
Excertos de mim #1

sábado, 4 de Julho de 2009
O rio
Este rio às vezes alarga-se, às vezes estreita-se, dependendo das chuvas e dos verões quentes. Este rio beija locais ora de suaves cores de verde ora de ásperas cores cinzentas. Este rio tem a força da água em movimento e a fragilidade das suas margens lamacentas. Este rio tem afluentes e convergentes.
Movo-me nas águas deste rio de mim. Mas este rio não corre sempre para o mar. Este rio às vezes não corre, às vezes corre para trás em movimento pendular. Este rio às vezes afoga-me, outras deixa-me a flutuar. Estou à tona e a aprender a navegar.
quinta-feira, 2 de Julho de 2009
Das coisas simples que me fazem sentir bem #1

quarta-feira, 1 de Julho de 2009
A concha

Na minha concha às vezes faz frio e então faço-a mais fina para entrar o calor do sol. Às vezes é ao contrário – o frio está lá fora e recolho-me no meu próprio aconchego. Na minha concha há silêncio à escuta dos meus pensamentos e palavras. Às vezes lá fora está muito barulho, demasiada confusão. E às vezes o tumulto de mim é demais para a concha e preciso de abrir para respirar lá fora.
Mas é na minha concha que me reconheço. É aqui dentro que sei de mim, e sei que depois de um sono aconchegado na concha acordo no silêncio mais ordeiro das ideias e sentimentos no lugar. É na minha concha que está a minha força. É aqui que encontro vontade. É aqui que me encontro a mim.
E ai de quem tentar abrir a concha e puxar-me para fora à força, e ai de quem tentar roubar-me a pérola inacabada de mim. Que eu fecho a concha de imediato com força e guardo-me, até o perigo passar. É que tudo tem um tempo e a pérola, para ser perfeita, precisa do seu tempo completo na casca da sua concha. E a ostra é que sabe qual é o tempo para abrir.
terça-feira, 30 de Junho de 2009
Estranho Silêncio
Todos temos os nossos limiares, os nossos limites. Medidos pela resistência e elasticidade das nossas emoções e capacidades. Há um ponto onde o esforço é simplesmente demais, e ou a corda não resiste e parte, ou não estica mais e nos pára, quando não nos atira para trás em desiquilíbrio, num movimento de chicote.Tenho sentido essa corda no limiar. O limiar da dor, do desconforto, da tristeza, da saudade, da frustração. Tenho tentado abstraír-me do mau ao longo das últimas 3 semanas, a pensar sempre que mais um bocadinho e isto acabava, ía-se o gesso, tinha o meu filho de volta, regressava ao trabalho, e tudo voltava ao normal. Esticava a corda com fé, com esperança, e com mais ou menos analgésicos. Mas os últimos dias trouxeram uma nova vaga de coisas más e tristezas. Por isso não me apetece escrever e já o post anterior foi escrito numa enorme tristeza, e apenas de marco.
Estou assim. Como um jardim abandonado que a natureza encarregou de tornar selvático. Escuro, na desordem do crescimento descontrolado das plantas. Triste, no abandono da luta e do esmero do jardineiro. E custa pegar nas ferramentas para lhe pôr ordem outra vez e permitir que a luz ilumine o chão, porque é uma tarefa árdua para a qual, neste momento, me faltam as forças.
Estou vazia de força e de linhas, num silêncio ensurdecedor de palavras soltas que não se querem conjugar. Agora, não consigo escrever a minha alma. Fui para lá do limite.
domingo, 28 de Junho de 2009
O fim de uma Senhora especial

Só para que conste...

E tenho muito maus sentimentos e desejos para o piiiiiiiiiiiiiiiiiiii do enfermeiro que, como se não bastasse tudo o resto, me rebentou uma veia. E mais não digo.
sexta-feira, 26 de Junho de 2009
No dia em que te encontrar
Um dia oiço a tua voz. Como queria ouvi-la... A minha dizem que é doce. Como será a tua? Um dia bebo a música das tuas palavras e revelo-te as minhas noutra melodia. Quero conhecer-te todas as cambiantes e subtilezas do som, até nos murmurarmos ao ouvido.
Um dia sinto-te a pele e deixo-me tocar. Descubro os teus caminhos e tu fazes o meu mapa. Um dia damos as mãos e acertamos o passo. Um dia desperto pelo teu cheiro e inundo-te com a minha fragrância. Um dia cabemos num abraço.
Um dia chego-te à alma e tu ensopas a minha. Conjugamos ser feliz e amar.
Um dia descubro-te. Um dia completo-me. Tudo isso no dia em que te encontrar.
quinta-feira, 25 de Junho de 2009
Precious moments
Diverti-me com o filme e com os comentários dele a relatar-se sempre que aparecia, mas adorei tê-lo aqui no colo, numa autêntica sessão de mimo. Virou bebé assim que entrou a porta, foi procurar a chucha e tudo, obviamente carente. Depois de muito cafuné e muitas declarações de amor, passou-lhe e lá entrou no ritmo alucinado normal de espalhar confusão e barulho. Encheu-me a casa, e encheu-me a mim.
Estas visitas são poucas e curtas, mas deixam-me sempre melhor e sempre com uns momentos especiais. Na 3ª feira foi à despedida: com um ar muito sério, depois de já andar a engonhar há não sei quanto tempo, com o pai no patamar à espera, vira-se para mim e diz-me, num tom para lá de paternalista, “se a mãe precisar de alguma coisa de mim, liga para o pai que ele vai-me logo chamar!”. E hoje foi com a minha empregada, que queria levá-lo com ela ao supermercado (programa que, geralmente, adora), e lhe diz que não, que “a mãe precisa de ficar com alguém, por isso eu fico a fazer companhia à mãe”.
O meu filho é um pilantra e às vezes dá comigo em doida, mas é um doce de miúdo e consegue adoçar-me de uma forma única, com cada sorriso e cada abraço, e cada um destes momentos preciosos. É uma brisa boa, mesmo quando só passa aqui a correr, e mesmo deixando um rasto de confusão, porque continua depois a envolver-me num embalo tão bom.






































