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Vento

Olho para dentro de mim, pelo que vazei em tempos idos. Escuto-me, nas palavras que larguei e que agora me varrem, como um vento que entra pela janela, que desarruma a casa, espalha as ideias, papel, que esvoaçam e assentam, cansadas, nos mais insólitos lugares. Espanto-me de mim própria. Espanto-me de não ser eu própria. Pergunto-me para onde deixei fugir aquela voz, onde esqueci aquele léxico que me permitia ser tão completa em linhas que me alimentavam, fazendo-me mais nítida e certa dos passos que dava e mais segura dos passos que não queria dar. Arrepio-me com esta corrente de ar que me despojou do ser que não sou, trazendo-me friamente àquilo que sou e de que ando a fugir. Para a frente, sempre para a frente. Mas em fuga. Acreditar também é fugir, quanto mais não seja, da realidade. Abro os olhos e vejo claramente que estou no mesmo lugar, voltei ao ponto de partida, com o peso da evidência irrefutável. Não adiantou de nada tanta luta, tanto esforço, tanto empenho, em tantas frentes diferentes. Mais prova, menos batalha, mais desilusão, menos mágoa, no fim fica o mesmo gosto acre, o mesmo toque frio do destino, a impor o seu cunho cruel, sorvendo os restos da fé. Fé - que ingenuidade. Baixo os braços cansada, descrente, desencantada. Talvez adormeça. E acorde mais certa do que sou, mais segura de para onde vou, mesmo que não seja para o destino que me desenhei, e em que acreditei.

Cronómetro

Diz que faço “lutos tão difíceis”. Porque guardo o sal da dor o mais que posso, que aguento. E ando demasiado tempo a remendar o dique que imponho à alma, de cada vez que uma fuga me leva a dor aos olhos. Talvez. Sim, talvez seja mais difícil assim, que assim se prolonga a dor no tempo, atrás do dique que, por vezes, explode violenta e devastadoramente, e outras vezes fossiliza-se encapsulando a dor. Ou talvez não, que assim se calhar dói mais tempo, mas menos de cada vez.

Um dia falaram-me no conceito de cronometrar a dor, deixar doer tudo o que tem a doer, mas com um prazo, um tempo certo. Porque, diz, é preciso dar tempo à dor, mas é também preciso limitar-lhe o tempo. Mas quem sou eu para definir quanto tempo é o tempo certo para que doa tudo de uma vez? Impor um prazo a esse tempo não significa, também, remendar o dique ao toque do cronómetro? E se posso fazer stop ao relógio, nem sempre posso fazer stop à dor.

Há dores que só se podem mesmo gerir assim, como eu faço quase sempre – aos poucos, quando foge, ou quando a deixo soltar-se um bocadinho. A única coisa que entretanto aprendi é que, mesmo que aos poucos, é preciso ir largando, e não deixar encapsular. E assim, um dia, pode-se destruir o dique sem a invasão devastadora da água. Que o nível vai baixando aos poucos, não só pelo tempo que passa, mas pelos tempos em que deixamos escoar – um bocadinho de cada vez. Esses bocadinhos - sim, esses talvez-, cronometrados pelo limite do que se suporta a um momento. E quando já não é preciso cronómetro, então é porque é já pacífico que o residual que ficou, que fica sempre, é apenas uma marca do tempo.

Os Eus Refractados

Passa por nós a fora o brilho do que nos vai dentro, refractado pelo que encontra à sua passagem, que varia a velocidade da luz e assim faz variar a cor e a intensidade da luz de dentro, essa autêntica, que não damos a ver a qualquer um. Não, não somos telas, nem tintas, nem cores. Somos luz. E somos brilhos e efeitos de arco-íris resultantes não só do que permitimos, e como permitimos, passar, mas também resultantes da perspectiva de quem olha, da inclinação, da distância, das lentes que os outros põem, e nos impõem.

Somos sempre variações de nós mesmos, muitos Eus assim refractados, por vezes mais puros, por vezes mais baços. Evoluindo para cada um consoante o espelho onde a luz embate e nos é devolvida. Não há nenhum relacionamento imune aos feixes de luz dos outros em nós ao longo do tempo. Não há relacionamento nenhum que não tenha um passado, e que seja imune às lentes e filtros que esse passado vai deixando, de parte a parte. Por isso, não há relacionamento nenhum que não seja recíproco, não no sentido de equitativo retorno, mas no sentido de permanente adequação, quase mímica, em ciclos iluminados ou sombreados.

Pena que, quando se reconhece que se ensombrou a luz, apenas se saiba justificar a falta dela pura em alguém como sua escolha exclusiva. Esquecendo, porventura, que o que filtra a luz é um conjunto de lentes de cada lado, e um acumular de filtros semeados pelos dois lados. Não querendo admitir a própria culpa, que haverá sempre de parte a parte, fica mais fácil relegar esse alguém a uma categoria inferior, e culpá-lo pela escolha de já não passar luz. Mas esses que assim pensam ignoram, porventura, que se refractaram também em momentos menos bons. Escolhem invocar de si apenas os momentos de glória e esplendor luminoso, achados "quanto baste" para corresponder esse alguém, e invocam dele, pelo contrário, apenas os seus momentos de tristes e feios. Esquecem, até, que há sombras que apenas devolvemos, projectadas de tristeza e decepção.

Não é bonito, nem justo, fazer do outro menos, numa auto-exaltação comparativa de cima de um arrogante e egocêntrico pedestal, condensando o outro abaixo, num espelho baço de mentira que se lhe atribui - ao outro, para não se admitir própria, e assim sentir justificado sentenciar o outro ao não merecimento. Esses  preferem ignorar que, na verdade, talvez tenha sido o outro alguém que os viu já espelhados em demasiadas sombras menos favorecedoras, que não lhes reconhece o pedestal, e, em algum momento, esgotou a compreensão e o perdão. Por isso, tornou opaca a sua luz, num respeitoso resguardo - próprio, alheio e do passado mais luminoso, sem querer discutir culpas ou razões, mas que afinal ofende aqueles para quem se apaga. Na cegueira do escuro e da necessidade de auto-validação, esses não reconhecem uma diferença, antes uma inferioridade alheia. E apesar dessa rudeza de princípio, mascarada com tanto artefacto, é ao outro que impõem o rótulo da brutalidade. 

Nenhum relacionamento vive de um sentimento, de uma vontade, ou de uma verdade. Há sempre dois de cada, em dois pólos diferentes, e há uma reacção em cadeia entre todos, sejam os pólos positivos ou negativos, atraindo-se ou repelindo-se. Talvez em ciclos, que podem, a dias, ser positivos, convergentes, confluentes, numa reciprocidade de crescendos, ou o oposto. Mas por muito que todos tenhamos direito a momentos menos felizes, por muito que devamos aos outros a generosidade de lhos perdoar e a humildade de no-los reconhecer, não acredito em meios-termos, meias-tintas, meias-cores. Sem ser maior ou menor, ora jorro o tudo da luz límpida, ora derramo o nada do opaco escuro.  E sim, sou exigente na mesma medida com os outros, mesmo que isso me deixe apelidada de insaciável, ou de desistente.

Longa Catarse Natalícia

Naquele tempo, o Natal era sinónimo de expectativa, de festa de família, cantoria e presentes. Era o tempo de montar o gigantesco presépio que surgia não se sabia bem de onde, num monte de caixas com centenas de figurinhas embrulhadas em jornal. As caixas, depois de vazias, convertiam-se em montes e vales que ocupavam largos metros junto a uma parede da sala, cobertos com um pano verde e grosso, artisticamente enrugado e salpicado de algodão ou esforovite a fazer as vezes de neve, e povoado com todas as figuras que três pequenas alminhas entusiasmadas colocavam, sob instrução da mãe, em forma de peregrinação em direcção ao ponto mais alto do presépio. Aí, estava uma cabana com telhado de palhinha, e as incontornáveis personagens centrais, várias vezes maiores que todas as outras, e tão mais valiosas que era à mãe que cabia desembrulhá-las e colocá-las lá. Por cima da cabana era onde assentava a estrela, e os três reis magos, montados nos seus camelos, começavam por ser colocados no ponto mais distante do presépio, para serem movidos para um nadinha mais perto cada dia, por meio de pequenas mãos que alternavam criteriosamente cada dia. Não havia árvore de Natal, nem se falava do Pai Natal. O Natal era do menino Jesus e pronto. Anos mais tarde, o pai lá se rendeu e deixou entrar a herege representação natalícia do pinheiro lá em casa. Claro que, já que tinha de ser, que fosse em grande. E as mesmas três alminhas, aí já não tão pequenas mas ainda entusiastas do Natal, lá viram entrar um pinheiro que tocava no tecto da sala, e o feito a repetir-se todos os anos a partir daí. A concessão: a estrela continuava no presépio, mas este passou a ser montado na base da árvore. Nesse tempos, espalhavam pela casa fitas e bolas, compunham arranjos de mesa e enfeitavam os castiçais. Havia uma enorme coroa de flores e enfeites natalícios pendurada na porta da rua, e amontoavam-se os embrulhos por todos os cantos da sala, consoante a “família” a que se destinavam.

E realmente era um Natal de muitas famílias, do lado do pai, do lado da mãe, do lado da mãe do pai e do pai da mãe, mais tias velhas e idosos senhores, a quem se devia uma deferência qualquer, e que nos custavam mais uma viagem de carro e mais uns beijos que detestávamos para entregar mais embrulhos. E também trazer sempre qualquer coisa, é certo, quase sempre guloseimas. Desde a tarde de dia 24, até à noite de dia 25, corriam-se todas as capelinhas das várias famílias a que estavam ligados, livrando a sala, aos poucos, dos montes de embrulhos. Para a família da casa, sobrava muito pouco. Restava a manhã do dia 25, em que tomavam todos o pequeno almoço de pijama e roupão, e trocavam os presentes dos pais para as filhas e vice-versa, e depois também entre irmãs. Mas a correr, porque era preciso estarem todos prontos para a missa do meio dia, e a seguir lá entravam no périplo de mais um dia, com um almoço com os avós paternos, visitas várias pela tarde, e jantar com a família do avô materno. E esse último jantar, esse é que era Natal, esse é que era o momento em que se sentia família, em que os rituais até faziam sentido, desde a cantoria solene em frente ao presépio, até à cerimónia de beijar o menino, que um dos mais novos da família, seguido de perto pela avó, tinha a honra de circular por entre todos, seguro numas mãos pequeninas atrás de uns olhos muito brilhantes e um ar compenetrado, ciente da responsabilidade assumida.

Não sei em que ponto exacto, mas algures pelo caminho da sucessão impiedosa dos Natais, uma daquelas meninas perdeu a fé. O presépio passou a ser apenas um amontoado de figuras kitsh, e uma obrigação aborrecida. A árvore de Natal gigantesca passou a ser apenas um estorvo que levava horas a enfeitar, e a correria daqueles dois dias deixou de compensar, não tanto pela falta das guloseimas que foram sendo substituídas gradualmente por presentes sempre desadequados, mas porque se tornou cada vez mais claro, mais óbvio, que não havia família própria, no meio de tantos familiares em tantas casas, almoços, lanches e jantares. E depois, já não era menina, tentou ser feliz mas deu um enorme trambolhão, e logo nesse ano da queda, faltou-lhe o avô. E assim o serão de dia 25 passou a ser apenas um hino à sua memória, recalcando a ferida da saudade a cada ritual que se repetia sem ele por perto, sem o seu sorriso, sem o seu abraço atrapalhado mas muito forte, muito sentido, entregando aquele que era sempre o presente perfeito. Geralmente um livro, quase sempre reprovado pelos pais, mas que o avô declarava indiferente que era perfeitamente adequado. E sem essa recompensa final pelos dois dias de farsa insana, o Natal morreu para ela.

Durante os anos seguintes, ainda tentava replicar a alegria natalícia, embora sem grande convicção, sobretudo quando acreditou que havia construído, finalmente, a sua própria família. A árvore era muito mais pequena, as decorações muito mais bem escolhidas, o presépio era pequeno e simbólico, mas também enchia a sua casa de cores e doces de Natal, e tentou fazer, finalmente, um Natal da sua família, passados tantos anos, uma refeição mais importante e demorada do que um simples pequeno almoço de pijama. Mas a coisa nunca correu lá muito bem, e quando afinal descobriu que tinha um filho, mas não tinha família, nem a primeira que herdara, nem a segunda que tentara criar, também ela morreu para o Natal. Tudo passou a incomodá-la nessa época, provavelmente pelo tanto que fazia doer, não só da saudade dos que passaram a faltar, como até da perdida alegria ingénua, tão própria das crianças, que via reflectida pelo seu próprio petiz, e tão impossível para quem passou já a curva do desencanto, quem se compenetrou do seu próprio fracasso, do seu próprio vazio, da frieza das expectativas ajustadas, por baixo, muito baixo, e assim, lucidamente, tem de enfrentar a derrota.

A pedido insistente do seu filho, comprou há 2 anos uma árvore de natal pequena, da loja dos chineses. Este ano, teve de a montar e enfeitar com luzes, com bastante antecedência, para não desgostar a criança animada e estupidamente natalícia que lhe calhou. Mas entregou-lhe a responsabilidade da decoração, por isso, pela primeira vez, não tem uma árvore exemplo das tendências da moda e cores da estação. Tem uma árvore com tudo aquilo que uma criança crente, e ingenuamente alegre, se lembrou de lá pendurar. Desde recortes de revista a alguns dos seus bonecos preferidos, à mistura com uma quantas bolas vermelhas e uns bocadinhos de “neve” feita de algodão, uma fita dourada com estrelas, que tinha guardada e que fez brilhar os olhos ao seu pequenote, e uns enfeites de madeira. Se o presépio monstruoso de casa dos pais era kitsh, e ela o desprezava então, que diria agora essa menina sobre a sua nova árvore de Natal...

O presépio que desembrulhou do jornal, o único que tem porque o único que alguma vez quis, tem apenas quatro pequenas figuras de barro cozido, em linhas muito simples, e a originalidade de mostrar Maria sentada, de pernas cruzadas, com o menino no regaço. Tem um S. José longilíneo, de cabeça ligeiramente curvada, e duas ovelhas. Como quase tudo nesta criatura morta para o Natal que morreu para ela, e para mais umas quantas coisas da vida, até a escolha do presépio se pautou pela selecção do mais invulgar, quase insólito. Quem não achou graça foi a criança da casa, desolada pela pequenez do presépio e pela simplicidade das formas, e porque “nem tem um burro e uma vaca”. E faltava “chão” e tantas outras coisas mais, que acabou por colocar as figuras em cima de um lenço verde da mãe, juntou-lhe umas bolas da árvore de natal e mais “neve” de algodão, e ainda se atreveu a sugerir à mãe que tinham de pintar as figuras. Ao que esta lhe respondeu, aterrorizada, que não era para pintar nada, que era assim, com aquelas figuras sem rosto desenhado e de linhas muito simples, um presépio de cabia num quadradinho de 20 centímetros de lado, que ela gostava de se lembrar que era Natal. E aquela criança lá tirará as suas conclusões sobre o episódio, que ninguém imagina hoje quais sejam, não sem antes ter explicado à mãe que, assim, "sem cores nem nada, nem se percebe se o bebé é o S. José pequenino, se é um anjinho que caiu do céu…”.

Este ano, pela segunda vez, essa menina que não queria celebrar mais o Natal, tem de o fazer de modo repartido, porque deve à sua criança a celebração, ainda que seja uma pequena farsa, mas cede o dia 24 para o pai. Assim, quando regressar no dia 25, lá será a criança arrastada pelos périplos que os avós ainda mantêm, embora já mais reduzidos com a inevitável morte a dizimar as várias famílias e os novos elementos a serem cada vez mais distantes, muito embora a criança não se importe, que ainda venera o presépio imenso da avó, e gosta de tentar tocar no topo da árvore às cavalitas do avô, e proclamar que a árvore chega “mesmo” até ao tecto, e porque ainda traz guloseimas e brinquedos de que gosta, de cada paragem que fazemos, e ainda não sente que lhe falte ninguém especial, ou nenhum abraço fundamental. Ainda bem. Essa é a única alegria do Natal da sua mãe.

Rescaldo

Estes dias passaram em ciclos de vazios e supérfluos, que procuro à falta de melhor alternativa, e que servem quase perfeitamente para fingir que encho o buraco negro da fome, da ânsia, da ganância daquele indefinível e quimérico tudo, que (ingenuamente talvez), acho que me encheria a alma. Absurdo e inútil, é claro, encher um buraco com vazios. E nestes tempos de névoa densa que me torna opaca, tempos em que um escudo invisível me desliga o motor da busca, e um filtro se impõe sobre o que assoma de dentro, recolho de fora, observando, captando, os detalhes que geralmente perco quando é mais o que projecto do que o que recebo. Há um egoísmo invertido quando nos damos demais. Tornamo-nos egoístas também assim, porque na azáfama ensimesmada de passar de nós a uns quantos que escolhemos, não recebemos o que vem de fora, sobretudo de quem não contemplamos na dádiva. Estranho autismo. E há tempo de dar e de receber, há tempo de nos revelarmos e tempo de destrinçar os outros, tal como há tempo de viver a mil e tempo de parar em contemplação, tempo de futilidades e tempo de coisas sérias. O meu tempo? Paradoxal, como eu, e anacrónico. Encontro-me num tempo introspectivo nublado, vagamente egoísta, projectando-me em périplos de mil à hora, entretida com futilidades que mascaram a angústia de sentir irremediavelmente impossível encher o tal buraco negro, e em extroversões paradoxais na companhia de gente animada, alguns amigos, companhia que ilude a fome, ainda que sob o pretexto de conversa fútil e assuntos triviais. Apressada e faladora mas contemplativa, observadora e, agora, embora aparentemente receptível, muito mais recolhida, mais sentida, mais triste ou dorida, por mais que me vista e calce em tons e formas arrojadas, em jeito de boost de auto-estima. Quem me veja hoje, imaginará de mim tudo o que as peças deliberadamente escolhidas para o efeito projectam com sucesso, e não imaginará o quanto mente o figurino sobre o que passa e pesa dentro do manequim que o veste. E depois irrito-me comigo própria, porque não cheguei até aqui para ser uma fotografia de revista de moda, um cliché ambulante, de valor variável em função da altura dos saltos, da cor do verniz e da harmonia do conjunto. Pois não, mas é o que me safa em dias assim - é o retorno possível. Esvazio-me mais adornando-me por fora, mas faço-o porque o vazio de dentro não posso encher. Não posso, porque hoje não tenho sequer as quimeras por que andei afincadamente a lutar e que, nesse processo, simulavam um animador “quase cheio” do buraco negro, a miragem do oásis mesmo ali ao virar da esquina. Hoje, nem sequer vejo esquina nenhuma, é deserto, não me interessa procurar, estou farta de me dar a queimar ao sol, e apetece-me simplesmente cruzar os braços e proclamar “demito-me”, não dou mais um passo, nem mais um milímetro de mim, sou mais um grão desta areia que me escorregou por entre os dedos e aqui me derramo, sou mais uma duna. E agora venham-me buscar. Virão? Claro que não. Morrerei da espera, ou acordarei um dia tarde demais, ou amanhã a nuvem passa e chove uma água abençoada, ou a minha pré-formatação impõe-se e volto à busca, à vida. Não sei ler o futuro nas cicatrizes que me atravessam, sei que a solução não está no passado, mas sei que o futuro não é indiferente ao que levo de trás em mim. Mas hoje, não posso voltar atrás, não posso andar em frente, e assim deixo cair, frente a esse canto seco-seco que não molha, uma cortina de chuva que me desculpa o não avançar, porque não posso dar cabo do figurino. E recordo uma frase de uma das personagens que admiro - Coco Chanel: "true elegance is refusal". Twisted. As coisas que eu consigo misturar...

Primordial

Crescer com falta de afecto é um frio que se carrega para a vida, que tantas vezes me faz temer um destino gélido. Da minha infância, lembro-me de muito pouco. Lembro-me de ser maria-rapaz apesar dos tu-tus do ballet, a mais velha da minha geração, sempre a comandar as tropas para a asneira. E a ser constantemente castigada, mesmo quando não tinha culpa, simplesmente, dizia ela (quando o admitia), por ser a mais velha. Lembro-me sempre da frieza dela, quase desprezo, dos desabafos de enfado. Algumas vezes com todas nós, outras vezes em especial comigo. E lembro-me de ter ciúmes das minhas irmãs, mas andar sempre a protegê-las. A dar-lhes os abraços e os mimos que não tinha, e a cumprir os castigos que não merecia. Lembro-me de me sentir sempre “menos” para ela. Menos que elas, e todas nós menos que tudo o resto. É triste sentir essa clara marca de inferioridade naquele que é o laço mais primordial, sentir que nenhum amor pode ser seguro, nem o de mãe, esse que é suposto ser maior que tudo, e para mim não foi. Dele, lembro-me da ausência e da distância, das viagens, do cachimbo e dos jornais no silêncio que não podíamos quebrar. Lembro-me de não me lembrar da cara dele a certa altura, de não me lembrar de um abraço dele, de não lhe conhecer o colo.

Mas hoje, não sou gélida. E comovo-me ao ler da minha irmã caçula que me adora (e que eu adoro), e que me "adorou imensamente" quando só eu me lembrei de um valente abraço face à notícia da chegada da cegonha. Comovo-me, porque gosto tanto dela, porque sei que esse abraço sentido assim por mim me revela ainda quente, que esse abraço sentido assim por ela a revela ainda quente, e esse nosso abraço sentido assim pelas duas não deixa margem para dúvida que a frieza em que vive a nossa família não é normal, mas não nos venceu.

Deseja ela, a caçula, ser mais “competente afectivamente como mãe”, enquanto se angustia já com o saber que nada será como dantes. Mas eu sei que ela será uma mãe maravilhosa. Digo-lhe isso e mais, como já escrevi aqui: que um filho é uma dádiva, mesmo quando nos exaspera, e faz birra, e faz asneira, e nos azucrina o juízo, porque também nos dá um amor total, nos permite dar um amor total, receeber um sorriso puro e todos os grandes abraços de que precisamos. Todos esses que nos faltaram e faltam ainda tantas vezes. Podemos falhar em muitas coisas, que sei que falho - e ela falhará, no seu natural caminho de aprendizagem. Mas num colo, num carinho, num abraço, com um filho não falhamos, porque sabemos o que dói faltar. E essa falta pode ter-nos feito um bocadinho avariadas, pode até nem nos ter feito mais fortes, mas se não nos gelou, fez-nos muito mais conscientes de onde não podemos faltar, para não falharmos nós no amor primoridal que queremos dar.

Turvos

Já não posso escrever-te em textos, desses que lá atrás arranquei de mim, transpirados da mágoa, da tristeza, da saudade. Do amor. Sim. Já não posso escrever-te porque tudo isso é hoje, quando emerge, apenas reflexo e memória. És história. Verdade: ainda cá estás. E sei que há coisas de que não sou capaz - uma delas é esvaziar-me inteira de ti. Mas já não te posso escrever, porque tu eras isso que eu senti, isso que eu era por ti, isso que eu sabia bem onde estava em mim e porque me atormentava. E agora, és só um rasto difuso, és enredo de outro capítulo, nesta história que continua. Já não te apanho nítido, já não te sei onde em mim.

Vistas

Li algures, já não sei onde, que enquanto não se encontra a pessoa certa, há que aprender a reconhecer as erradas. Já não é mau quando ao menos isso se consegue. O meu maior problema é que ainda nem sempre percebo as que são erradas, e a outras não sou capaz de dar o benefício da dúvida, porque temo que seja mais um engano. Depois de vários enganos desses, dizia-me ontem uma amiga que lhes chamou “pancada”, perde-se a capacidade de ver. E eu digo que não – perde-se é a capacidade de acreditar. Porque os olhos vêm o que a cabeça e o coração mandam ver. E sem fé, não há visão.

Na necessidade, prova-se a amizade

E hoje, no meio de um desespero, provou-se de uma forma autêntica, tão genuina e generosa, que me embargou até as linhas escritas. Irei dormir um pouco mais em paz, espero que hoje também um pouco mais cedo, e não sei a quê ou quem agradecer a benção de uma amizade assim, que de repente me tirou do fundo do poço, fundo-fundo, escuro-escuro; e me deu uma mão para ver a luz um pouco melhor: perto-perto, claro-claro. Obrigada.

Desculpas

Sim, eu também preciso de desculpas, de justificações e atenuantes. Não gosto de errar, não assumo os meus defeitos e erros com vanglória. Assumo-os num processo auto-crítico fundamentalmente racional, assumo-os como consequência inevitável de não poder negar factos objectivos, e assumo-os condoidamente como resultado obrigatório de ter de me assumir imperfeita e falível, tantas vezes menor do que aquilo que quero ser. Também não os assumo por ser modesta, portanto, pois que a modéstia não se compatibiliza com os desejos de grandiosidade, perfeição e infalibilidade. Aceito a minha condição humana, o que quer dizer que me reconheço imperfeita e admito a inevitabilidade do erro mas, também, não me quero desculpabilizar com essa humana verdade e acho que devo, pelo contrário, penitenciar-me por isso e esforçar-me por errar menos, por ser cada dia melhor. Falho redondamente, é claro.

Também não escapo à humana tendência de procurar razões, de procurar porquês. Muitas vezes internos, mas outras tantas vezes externos. As tais atenuantes, para além da condição do erro da espécie, que acabam por não ser mais do que desculpabilizações. É que, se já custa pedir perdão aos outros, mais ainda custa pedi-lo a nós próprios. E quando penso e escrevo que aqui volto porque aqui está a minha raíz, na verdade o que aqui está é a minha desculpa. Estão as razões, externas, de porque me encontro neste caminho à deriva, a história do meu passado. E sei agora que volto porque sinto que falhei o prazo para encontrar o caminho, porque sinto que passou demasiado tempo para que possa continuar a usar essa história como razão-desculpa para não ter conseguido mais e melhor. Porque sei que, entretanto, se passou mais um bocado de história, um argumento onde não encontro justificação plausível, desculpa aceitável, para ter ficado parada na estrada. E cansada, muito cansada. Falta perdoar-me e falta, realmente, recomeçar.