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Dúvidas

Há coisas que não deviam precisar de palavras. Sobretudo, coisas de pessoas - de pessoas amigas. Se peço um favor ou uma ajuda a um amigo, assumindo que ele é meu amigo, assumo também que ajudará no que lhe for possível. E fá-lo-á, penso eu, porque é meu amigo, e não preciso de lhe "lembrar" que ele também já precisou de ajuda, porque isso, penso eu, será irrelevante. Se alguém precisa de me apontar com todas as letras uma "razão" porque eu o devo ajudar, considero que está a duvidar do que não devia questionar. E isso só pode ser porque esse alguém não me conhece. E afinal, eu não o conheço também. 

Passado repetido

Passa-se o tempo, passa por nós. Olhamos para trás e cada memória traz um sabor, um cheiro, uma cor. É aquilo que predomina, na selectividade inconsciente da memória que ficou. Depois pensamos: mas houve qualquer coisa. Talvez uma zanga, uma desilusão, uma mentira. Qualquer coisa haverá para que se culpe a distância que o tempo medido, nestes momentos, apenas comprova. Quando tudo falha, culpa-se a vida, essa malvada que sempre se põe a jeito para carregar com as culpas que não queremos (porque não há distância de vida que nos separe daqueles que amamos, incluindo os amigos). Olhando para trás, num esforço, acaba por se chegar lá. Lembro-me do que foi - foi assim, ou assado. Vagas cronologias de nebulosos acontecimentos. E o sabor, o cheiro e a cor, de repente ganham os travos, notas e nuances que nos sossegam a consciência - ou não. Mas afinal não é culpa da vida. Atribui-se a culpa e pronto, agora já se pode continuar. Pena é que, quando a vida proporciona um reencontro, alguns se mantenham presos nos acres do anterior fim, e não se foquem no doce da primeira instintiva, ainda que selectiva, memória, fazendo do antigo o novo, num recomeço. Triste perder amigos duas vezes.