"Destilar", cientificamente, é "separar componentes químicos que constituem uma substância através de vaporização seguida de condensação". Serve para muita coisa, nomeadamente, para produzir bebidas espirituosas. Aqui, é uma tentativa de purificação da mistura de tudo o que sinto, penso e vivo. A aguardente do que sou.
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Pergunta sem resposta
Passei um ano a crescer, pensei, a ser maior e melhor em tantas e tantas coisas. Passei um ano a escrever os meus caminhos, a mergulhar em mim, a lutar por entender e encerrar passados, a expurgar fantasmas. Passei um ano a experimentar a vida de outra forma, a redescobrir o mundo e a redescobrir-me a mim. Pensei que todo o caminho que fiz, na maior parte do tempo sofridamente, me tinha tornado mais livre, mais descomplexada, mais confiante. Pensei que chegando mais fundo, tinha derrubado em mim os muros do medo, as portas da solidão.
Mas de repente sinto-me numa enorme fragilidade. Não sei se estou preparada, se aguento. Tenho ondas de pânico alternadas com vagas de profunda e desconhecida tranquilidade. Tenho uns olhos que me entram dentro, que intúem os meus remoínhos internos, que me lêm mesmo a alma. De alguém que não se assusta, que diz que não tem medo, e me vai sempre buscar. E isso tanto me conforta e apazigua, como me inquieta e alvoroça.
Sinto em dias que cheguei, que chegou, que é agora, só é preciso vivê-lo. Sinto em momentos que não pode ser, que estou perdida, não me entendo, não consigo viver hoje sem desembaciar um pouco mais o futuro. Morro de medo de perdê-lo e morro de medo de me perder. Não consigo não me dar. Sei que dei, que dou, sempre e cada vez mais, mesmo quando não quero, porque ele já entrou e sabe os meus caminhos. Mas depois assusto-me, penso que dou de mais, penso que é uma loucura, que não posso embarcar às cegas numa viagem tão incerta, guiando-me apenas por sentires, efémeros momentos perfeitos e certezas alheias. Como a certeza do piscar de olho de uma estrela, que ele viu, e eu não, mas que me diz que não faz mal, que depois me mostra num beijo ou num abraço.
Todas as palavras que me diz são as palavras certas. E chega a doer de tão fundo que chegam. Cada palavra, cada olhar, cada beijo ou toque, são como sal numa ferida. Na verdade, chegam onde sempre quis que alguém tivesse a coragem de chegar, onde sei que moram as mágoas, as feridas mais fundas. Mas não curam num passe de mágica. Enternece-me e faz-me sorrir, mas com uma tristeza estranha ao mesmo tempo, num misto de felicidade e lágrimas. Não sei se aguento a cura. Não sei se consigo ter alguém a viver por dentro de mim, a remexer nas feridas que andei um ano a pensar que curava, que pensei que já não doíam.
Acabo quase todos os dias acordada, de olhos abertos sem ver, sentindo-me dormir. Com vontade de acordar para o sonho que queria ter a coragem, a certeza, de escrever e viver. A sentir que me bafejou a sorte e sou capaz de não a merecer. Deito-me com esse amargo na boca, nessa luta de não conseguir impedir o sorriso e a morna sensação de paz que a invocação da memória dele produz, ao mesmo tempo que sinto o arrepio gélido do medo, do mundo, da vida, de mim. Deito-me cansada, mas com vontade de tragar o tempo, o mundo e mais não sei bem o quê que não consigo alcançar. Deito-me sempre com essa fome.
Com essa fome e a angustiante pergunta: isto é o quê?...
Peço
Acho que nunca deixarei completamente a minha concha, essa que dizes sentir, que dizes saber sem saber porquê. Pedes-me que ponha tudo isso de mim, de dentro de mim, em palavras. Que te ofereça explicados todos os meus insondáveis. Não posso. Não sei fazê-lo. Nem para mim consigo verbalizar tudo o que me enche. Chego perto, por vezes, a escrever, num processo quase insconsciente em que acabo por soltar palavras directas da alma. Mas do muito que te vou dando, do muito que vais entrando, vai-me ficando também o medo.
Não quero erguer esses véus que às vezes dizes sentir em mim propositadamente opacos. Não quero, mas sei que eles surgem em momentos de fraqueza. Passei a vida toda a aprender a fazer esses véus opacos, para me proteger. Passei muitos dolorosos momentos a expulsar intrusos da minha concha, que lutei para deixar de amar, para arrancar de mim. Tenho medo por tanto mais que condiciona a nossa história e por isto também – por mim. Nos momentos de ausência que alimentam a dúvida e agigantam a espera, nas tuas palavras e nos teus gestos que de alguma forma alimentam a insegurança, instintivamente quero fechar a concha, pôr-me a salvo. Porque me sinto tanto mais frágil quanto mais estás dentro de mim. Restam-me ainda, por agora, apenas os véus opacos.
Dizes que às vezes duvidas que sinta por ti o mesmo que sentes por mim, que sentes que não te quero deixar entrar. Mas entende: já entraste. Nem sei como te encontro aqui assim, quase de repente, um intruso estranhamente familiar, confortavelmente instalado. E ao sentir-te tão dentro assusto-me. Conheço-me, sei que sou a minha pior inimiga, a tendência é fugir.
Não quero fugir, não quero expulsar-te, não quero deixar-me vencer pelas contrariedades nem pelas agruras do caminho e do futuro adiado, nem quero impedir-me de viver pelo medo de sofrer. Estou a aprender, e a deixar-te entrar, e a levantar os véus. Devagarinho, às vezes a tremer de coragem, a reunir todas as minhas forças de acreditar para fazer durar todos os momentos de presente iluminado. Mas a lutar contra mim própria, entende. Por isso, por isso te peço: desvenda o insondável sem palavras minhas, levanta os véus à medida que se vão pondo transparentes, e dá-me a mão, ajuda-me, não me deixes fugir.
Não quero erguer esses véus que às vezes dizes sentir em mim propositadamente opacos. Não quero, mas sei que eles surgem em momentos de fraqueza. Passei a vida toda a aprender a fazer esses véus opacos, para me proteger. Passei muitos dolorosos momentos a expulsar intrusos da minha concha, que lutei para deixar de amar, para arrancar de mim. Tenho medo por tanto mais que condiciona a nossa história e por isto também – por mim. Nos momentos de ausência que alimentam a dúvida e agigantam a espera, nas tuas palavras e nos teus gestos que de alguma forma alimentam a insegurança, instintivamente quero fechar a concha, pôr-me a salvo. Porque me sinto tanto mais frágil quanto mais estás dentro de mim. Restam-me ainda, por agora, apenas os véus opacos.
Dizes que às vezes duvidas que sinta por ti o mesmo que sentes por mim, que sentes que não te quero deixar entrar. Mas entende: já entraste. Nem sei como te encontro aqui assim, quase de repente, um intruso estranhamente familiar, confortavelmente instalado. E ao sentir-te tão dentro assusto-me. Conheço-me, sei que sou a minha pior inimiga, a tendência é fugir.
Não quero fugir, não quero expulsar-te, não quero deixar-me vencer pelas contrariedades nem pelas agruras do caminho e do futuro adiado, nem quero impedir-me de viver pelo medo de sofrer. Estou a aprender, e a deixar-te entrar, e a levantar os véus. Devagarinho, às vezes a tremer de coragem, a reunir todas as minhas forças de acreditar para fazer durar todos os momentos de presente iluminado. Mas a lutar contra mim própria, entende. Por isso, por isso te peço: desvenda o insondável sem palavras minhas, levanta os véus à medida que se vão pondo transparentes, e dá-me a mão, ajuda-me, não me deixes fugir.
Caminho do fim
Faz-me uma cara de espanto e clama “olha!”, repetidas vezes, enquanto parece querer absorver-me com os olhos. Não consegue dizer mais nenhuma palavra, mas repete o “olha!” de tantas maneiras diferentes, passando da surpresa e do contentamente à comoção de um timbre mais baixo e lento, que me comove a mim também.
Passo com ela uma manhã, tratando-a como se fosse uma criança. Que anda devagarinho e com apoios porque pode cair, que não consegue segurar em nada que pese mais do que umas quinhentas gramas, que não consegue vestir-se sozinha, quase não consegue comer sozinha, e nem sequer consegue articular as palavras que permitam estabelecer a sua vontade. Penteio-lhe os cabelos já todos brancos, mas muito macios, e ela fecha os olhos em frente ao espelho. Ponho-lhe os ganchos com cuidado, que sei que é frágil e duvido da minha competência, tenho medo de a magoar. Depois pergunto-lhe se ficou bem, e ela olha-se e diz com um sorriso “ena!”. E “ena!” repete-se também um número de vezes em diferentes entoações.
Não me larga as mãos das suas, muito magras e quase tranparentes, que evito olhar porque me ofende ver-lhe os ossos e as veias, e a vida a fugir dali. Olha-me para dentro dos olhos, com os seus lindos olhos verdes raiados de azul, que parecem ser a única coisa que não envelhece. À sua maneira, com o pouco que consegue articular, vai-me perguntando pelo meu filho. Lembra-se do abraço que ele lhe deu no Natal, sabe o nome dele mas não consegue dar-lhe a volta na boca. Franze a testa enrugada, contorce a expressão e fecha os olhos num misto de frustração, zanga e tristeza, a cada palavra que quer dizer e não consegue. E eu tenho de lhe dizer que não faz mal, já se lembra e diz-me mais tarde, devagarinho avó, com calma.
Saio de lá sem conseguir almoçar, um nó no estômago. Doi-me a cara de tanto me forçar sorrisos para disfarçar. Invade-me uma tristeza e uma revolta, e sinto o peso da culpa. De facto, não sei lidar com isto, com a morte a chegar, a comer aos poucos os corpos e as palavras dos que amo. Devia ser mais forte, devia saber vesti-la sem me chocar com o corpo definhado, devia aceitar que o braço direito já não mexe e ficar feliz porque ainda mexe o esquerdo, devia contentar-me com as palavras que ainda me consegue dizer e ler o resto no olhar. Mas não consigo, estrangula-me, agonia-me, numa recusa mista da realidade dela hoje e do que pode ser o meu próprio destino. Percebo que já encerrei dela as memórias que quero manter de quando “era uma senhora tão alta”, como diz tristemente a empregada que me vem render e apoia suavemente o braço daquela senhora agora tão pequenina, curvada, mirrada.
Pergunto-me como não enlouqueceu ainda, sabendo que a cabeça ainda funciona perfeitamente, entende tudo, ouve muito bem, reage com a expressão ou com o riso com todo o entendimento do que se lhe diz, mas perdeu a capacidade de falar. Tem as palavras na boca e não as consegue articular. Que sofrimento há de ser. Fico a pensar que tantas vezes calo as minhas palavras de dentro, e o que daria ela por poder fazer-se ouvir. Diz-me que lhe faz impressão olhar para os meus olhos. Mas não consegue explicar porquê. Faz apenas um sorriso triste, mexe em tudo o que pode à volta dela, mas não me larga as mãos nem desvia os olhos, e eu fico sem saber que me viu ela no olhar, que memória ou identificação lhe terá cruzado o pensamento e ficado presa na garganta. Na minha ficaram as lágrimas, que me faltou chorar. As lágrimas que lhe devo no dia em que não a puder mais olhar, mas puder vê-la como a quero recordar.
Equilíbrios
Há alturas em que me sinto em guerra comigo própria. Sinto que sou prisma colorido de muitas faces e muitos brilhos, e que o conjunto não é uma forma harmoniosa, mas antes um obtuso objecto que quer rolar mas tropeça nas arestas e nos vértices, nunca se fixando numa côr definida. Sinto que tenho de escolher quais as faces do prisma que se podem ver, que podem brilhar, e que há sempre umas quantas que terão de ficar ocultas, porque o objecto tem de assentar em algum dos lados.
Senti muito isto em relação à minha dicotomia mulher/mãe aqui há um ano e pouco atrás. Foi um dos meus maiores desafios dos últimos tempos, arranjar um equilíbrio para o prisma de forma a que, tanto a face da mulher como a face da mãe, pudessem brilhar e ver a luz do sol, criando no conjunto uma paleta de côres harmoniosas. E agora, por força das circunstâncias, sinto de novo esse equilíbrio perigado, lutando entre uma enorme vontade de partir pelo mundo fora e uma inegociável necessidade de caminhar com o meu filho.
Queria fazer a mala e levantar amarras, partir à aventura, recomeçar a vida toda num outro lugar, encontrar o meu lugar. Mas ele prende-me aqui e não consigo sequer articular a hipótese de partir sem ele. Isso seria enterrar no chão uma das faces mais importantes do meu prisma e sei que seria desvirtuar-me, no sentido em que seria tornar-me incompleta, seria tornar mais pobre a paleta de côres que o meu prisma produz. Sei que não seria capaz, como uma amigdalite me faz claramente recordar, ao embalá-lo no colo uma noite inteira, sofrendo a agonia de o ver sofrer, correndo com ele para o pediatra com a instintiva mas inquestionável certeza de que ele estava mesmo doente. E estava.
Nas noites sobressaltadas a seguir, noites de ausência dele que ficou com o pai, mesmo sabendo-o medicado e a melhorar, sofro a distância e sinto o prisma desiquilibrado. Como poderia ir para mais longe ainda, e por muito mais tempo do que os 4 dias ou uma semana no máximo que ele passa com o pai a cada quinze dias?...
Não posso. Mas queria. Queria ir. E esse ímpeto de movimento negado ao prisma, desiquilibra-o perigosamente, e escurece assustadoramente a luz que me atravessa.
Lá onde doi
Há uma expressão da BD da Mafalda que sempre me foi especial, porque acho que retrata tão bem o que às vezes sentimos: “uma pedrinha na alma”. Serve para aqueles momentos em que qualquer coisa toca uma nota especial na nossa alma, nos entristece e nos comove, fazendo sentir um pequeno peso no peito.
Outras vezes, o que nos invade é tão maior, o que nos faz sentir de dentro e o peso que lhe sentimos é tão grande, que nem substituindo “pedrinha” por “pedregulho” faz a expressão alcançar essa realidade. Para mim, a viver uma dessas outras vezes, é tão avassalador que chego a sentir que me matou a alma e secou o coração.
Cheia de zanga e de raiva, não quero deixar-me sentir a dor. Não quero derramar lágrimas para não dar a ninguém essa “satisfação”. No fundo, não quero dar parte de fraca. Racionalizo as coisas por forma a que chame outros nomes ao que sinto e não quero admitir. Fiz isso assim, tal e qual, num instinto de sobrevivência. Ou enlouquecia. Mas cresceu dentro de mim uma vaga imensa de dor. De tanto querer fugir-lhe e negar-lhe a existência, deixei-a crescer. E de repente, uma pequena coisa, que põe ao que não queria admitir sentir o nome que lhe compete, que me desarma pela forma improvável como acontece, rebenta o dique que pensei indestrutível, e por momentos, penosos momentos, verti essa dor violentamente, sacudindo-me o corpo e implodindo-me a alma. E só depois a escrevi.
Não há como medir uma dor de dentro, tal como não há como medir o Amor. Porque não cabem na alma, são muito maiores que nós. E levam tudo de nós, levaram-me a mim para lá, dentro, lá onde doi.
3 de Outubro
Este é, verdadeiramente, o primeiro dia do resto da minha vida. Marca-se hoje o último dia de um ano de vida, e o primeiro de mais outro. Devia ser um dia de vitória. Um dia de dizer que ao longo deste último ano somei mais isto e mais aquilo à minha vida. Que cresci mais estes centímetros, mas já não de corpo. Que andei mais estes metros ou aqueles quilómetros. O balanço, neste dia, quer-se positivo. E querem-se promessas de novos centímetros, metros e quilómetros, com a confiança de que estamos mais perto do que estávamos um ano antes.
Mas hoje chego a este dia, que sempre foi para mim um dia que não gosto de festejar, a fazer um balanço ingrato. Não me vou pôr a listar tudo o que perdi, tudo o que não alcancei, tudo o que me fugiu, ou tudo o que chorei. Estou já suficientemente deprimida pela simples constatação de ter a partir de hoje um ano mais – e um ano menos. Pesa-me que seja um ano a mais de tempo vivido, tal como me angustia que seja um ano a menos do tempo que tenho para viver.
Também não me vou pôr a listar tudo o que somei, que claro que somei. Porque o que ganhei, e conquistei, e encontrei, e todos os sorrisos e gargalhadas que dei e recebi, não apagam a memória das coisas más, não as diminuem nem, sobretudo, mascaram o sabor azedo que se impõe a este ano que chega ao fim.
Não me apetece celebrar a vitória de ter sobrevivido, porque chego aqui, a este momento, demasiado cansada, demasiado desiludida e demasiado mutilada, ao mesmo tempo que entendo que lutei por chegar a uma meta que afinal é uma nova linha de partida, em todos os sentidos. Foge-me o tempo e foge-me a vontade. Sinto que me foge a vida.
Não quero parabéns. Não faz mesmo sentido nenhum. Não fiz mais que sobreviver, do que andar simplesmente, mecanicamente, pondo um pé à frente do outro. Não tenho mérito especial por me ter desviado de uns ocasionais golpes de pancada e encaixado outros que suportei, enquanto os hematomas passavam de negros e lilazes a sombras amareladas. Não tenho orgulho dos momentos de fraqueza em que quase desisti. Também não tenho orgulho dos rompantes de força e determinação que me fizeram levantar do chão e continuar. É apenas instinto.
Hoje queria apenas enrolar-me num colo. Encharcar um outro ombro com o carpir de todas as mágoas e desgostos, sem recriminações. Hoje não me apetece o esforço de mostrar ser mais forte. Queria apenas uma mão pela cabeça e em segredo uma promessa de que vai correr tudo bem. Hoje acho que tenho o direito de ser menina pequena. Hoje é o único dia em que posso chorar. Tento fazer o luto. Enterrar este ano numa cova funda, num canto esquecido do cemitério das memórias. E tem de ser rápido, porque o tempo não pára e a nova etapa já começou, quer eu queira quer não. E tenho de sobreviver a mais uma. Não posso parar. Amanhã sou mais crescida. Agora, vou ver o mar.
Contagem descrescente
Esta semana é a última semana do passado da minha vida.
Forço-me um respiro fundo, bem fundo. Fecho os olhos concentrando-me do que tenho à fente, e tento perceber que sensação isso me traz. É um exercício que me ensinaram a fazer. Pode parecer coisa de bruxa, mas parece que resulta. Nesse momento, sinto uma certa leveza, até alegria, sinto que vai ser bom para mim. Mas quando abro os olhos tenho medo. Assusta-me o que tenho à minha frente, todas as incertezas, os cenários mais negros que já manipulei vezes sem conta na minha cabeça. E tenho de caminhar de olhos abertos.
Sei que daqui a uma semana terei de dizer que é o primeiro dia do resto da minha vida, que não sei o que me trará. Mas agora o desafio é sobreviver a esta semana. Não sei como, mas sei que tenho que chegar ao fim deste último pedaço de caminho. E sempre, sempre, vertical.
Forço-me um respiro fundo, bem fundo. Fecho os olhos concentrando-me do que tenho à fente, e tento perceber que sensação isso me traz. É um exercício que me ensinaram a fazer. Pode parecer coisa de bruxa, mas parece que resulta. Nesse momento, sinto uma certa leveza, até alegria, sinto que vai ser bom para mim. Mas quando abro os olhos tenho medo. Assusta-me o que tenho à minha frente, todas as incertezas, os cenários mais negros que já manipulei vezes sem conta na minha cabeça. E tenho de caminhar de olhos abertos.
Sei que daqui a uma semana terei de dizer que é o primeiro dia do resto da minha vida, que não sei o que me trará. Mas agora o desafio é sobreviver a esta semana. Não sei como, mas sei que tenho que chegar ao fim deste último pedaço de caminho. E sempre, sempre, vertical.
In motion
Um simples momento, um milisegundo, e tudo muda. Um choque em onda percorre o corpo, o coração dispara e corre pela garganta acima. Há náusea, há tontura, luz ofuscante por todo o lado. O cérebro acelera e de repente os olhos absorvem por completo aquela realidade, ensopando a alma de grito que não se solta.
Há momentos assim, devastadores. Deixam uma faca espetada no peito, uma dôr por dentro das costelas que não permite um respirar fundo. A pele exala o cheiro do medo, tacteia-se a vertigem do abismo ali à frente. Os pés não caminham, as mão estão imóveis, a boca fecha-se com força para reprimir o eco do golpe.
Saber que está tudo a outro milisegundo de se tornar real é penoso. Uma realidade absurda que entra pela vida adentro, derrubando todas as peças do cerco pacientemente construído à volta da última peça. A respiração sustem-se na antecipação. Todos os músculos do corpo se contraem num último esforço de resistência. O sono foge, acossado pela angústia das dúvidas do “e depois?”. Mas aquela peça não tem salvação – o impacto está em marcha e é imparável.
Num milisegundo é preciso encontrar a força para não desfaceler. Para não gritar. Não chorar. É preciso pensar, raciocinar, forçar a lucidez ao cérebro para que este pense nos passos a dar, no que fazer, como caminhar.
E no momento seguinte é preciso acreditar. É preciso encontrar a luz ao fundo do túnel. Encontrar os prós, identificar as oportunidades, e acolher os desafios, reconhecendo os contras. É preciso encher as mãos com mãos de carinho, encher os braços com abraços de conforto, secar as lágrimas com ventos de encorajamento, encher a alma com esperança. E seguir caminho. Vertical.
Há momentos assim, devastadores. Deixam uma faca espetada no peito, uma dôr por dentro das costelas que não permite um respirar fundo. A pele exala o cheiro do medo, tacteia-se a vertigem do abismo ali à frente. Os pés não caminham, as mão estão imóveis, a boca fecha-se com força para reprimir o eco do golpe.
Saber que está tudo a outro milisegundo de se tornar real é penoso. Uma realidade absurda que entra pela vida adentro, derrubando todas as peças do cerco pacientemente construído à volta da última peça. A respiração sustem-se na antecipação. Todos os músculos do corpo se contraem num último esforço de resistência. O sono foge, acossado pela angústia das dúvidas do “e depois?”. Mas aquela peça não tem salvação – o impacto está em marcha e é imparável.
Num milisegundo é preciso encontrar a força para não desfaceler. Para não gritar. Não chorar. É preciso pensar, raciocinar, forçar a lucidez ao cérebro para que este pense nos passos a dar, no que fazer, como caminhar.
E no momento seguinte é preciso acreditar. É preciso encontrar a luz ao fundo do túnel. Encontrar os prós, identificar as oportunidades, e acolher os desafios, reconhecendo os contras. É preciso encher as mãos com mãos de carinho, encher os braços com abraços de conforto, secar as lágrimas com ventos de encorajamento, encher a alma com esperança. E seguir caminho. Vertical.
Mea Culpa
Um filho muda tudo, muda-nos a nós próprios. As prioridades reorganizam-se, as liberdades restringem-se e as responsabilidades aumentam de forma exponencial. Deixamos de ser moléculas independentes e passamos a ser orgão vital, não podemos parar, não podemos desistir. Os filhos dependem de nós e sofrem as consequências de tudo o que erramos. Mas um filho não é um sentido para a vida, não é uma razão de ser. Um filho é uma responsabilidade, é um projecto de que não se pode desistir. É uma lição de amor e uma satisfação, tanto como é uma lição de preserverança e sofrimento.
Quis muito ter um filho, pensando que tinha encontrado o pai perfeito que ía comigo construir uma família. Não podia advinhar a volta que a vida ía levar. Não me arrependo de ter o L, mas também me entristece tremendamente que não o possa ver crescer no meio de uma família a sério. Não seria a minha escolha se tivesse visto o futuro.
Custa-me tê-lo longe, a chorar ao telefone a perguntar-me quantos dias faltam para eu o ir buscar, ou para ir “para casa da mãe” porque, dizia-me ele, está triste. Foi a primeira vez que me lembro de o ouvir verbalizar uma emoção espontaneamente, e foi logo a tristeza que escolheu. Fracasso de mãe, penso no imediato. Mas eu sei que sou para ele a melhor mãe que sei e consigo ser, nas limitações da minha condição humana e na impotência contra alguns desvios do destino. Sei que não posso evitar-lhe todo o sofrimento e não posso garantir-lhe felicidade permanente. Sei agora e sei agora o quanto dói.
Preferia não estar na situação de ter de o “visitar”, mas fui matar saudades, minhas e dele. Conversamos a vêr o mar e depois jantamos pizza. E lá tive de deixá-lo com o pai, com as lágrimas e os abraços que não se querem desfazer. “São só mais 5 dias e depois vamos de férias, só nós dois, 15 dias, que é imenso!”, digo-lhe eu com todo o entusiasmo que consegui espremer de mim. E ele responde que isso é “taaaanto”, que “é uma mão TODA”...
Ainda tinha esperança de viver a experiência da maternidade outra vez de uma forma mais tranquila, mais feliz, com uma verdadeira família. Mas não sei já se teria coragem. O que sei hoje é que, como ouvi alguém dizer, não quero mais nenhum filho “de” – quero eventualmente um filho “com”. E sei que mesmo com os sinais certos todos, e anos de provas olímpicas ultrapassadas, será sempre um risco, para mim e sobretudo para um hipotético segundo filho, a quem amando de antemão, assim talvez prefira não dar existência. Sei que para poder pensar no assunto a sério é preciso encontrar um Amor e que este, sem laços de sangue, não é matemático, não tem modelo, norma ou garantia. É um monte de sortes, acasos e paradoxos e, ainda por cima, é uma coisa volátil... Sei hoje o que sobra quando evapora, e sei que uma criança precisa tanto de uma mãe como de um pai, e mais que dos dois em alternância, precisa de uma família.
Mea culpa meu filho, que me perdoes um dia porque não soube o que fazia.
Quis muito ter um filho, pensando que tinha encontrado o pai perfeito que ía comigo construir uma família. Não podia advinhar a volta que a vida ía levar. Não me arrependo de ter o L, mas também me entristece tremendamente que não o possa ver crescer no meio de uma família a sério. Não seria a minha escolha se tivesse visto o futuro.
Custa-me tê-lo longe, a chorar ao telefone a perguntar-me quantos dias faltam para eu o ir buscar, ou para ir “para casa da mãe” porque, dizia-me ele, está triste. Foi a primeira vez que me lembro de o ouvir verbalizar uma emoção espontaneamente, e foi logo a tristeza que escolheu. Fracasso de mãe, penso no imediato. Mas eu sei que sou para ele a melhor mãe que sei e consigo ser, nas limitações da minha condição humana e na impotência contra alguns desvios do destino. Sei que não posso evitar-lhe todo o sofrimento e não posso garantir-lhe felicidade permanente. Sei agora e sei agora o quanto dói.
Preferia não estar na situação de ter de o “visitar”, mas fui matar saudades, minhas e dele. Conversamos a vêr o mar e depois jantamos pizza. E lá tive de deixá-lo com o pai, com as lágrimas e os abraços que não se querem desfazer. “São só mais 5 dias e depois vamos de férias, só nós dois, 15 dias, que é imenso!”, digo-lhe eu com todo o entusiasmo que consegui espremer de mim. E ele responde que isso é “taaaanto”, que “é uma mão TODA”...
Ainda tinha esperança de viver a experiência da maternidade outra vez de uma forma mais tranquila, mais feliz, com uma verdadeira família. Mas não sei já se teria coragem. O que sei hoje é que, como ouvi alguém dizer, não quero mais nenhum filho “de” – quero eventualmente um filho “com”. E sei que mesmo com os sinais certos todos, e anos de provas olímpicas ultrapassadas, será sempre um risco, para mim e sobretudo para um hipotético segundo filho, a quem amando de antemão, assim talvez prefira não dar existência. Sei que para poder pensar no assunto a sério é preciso encontrar um Amor e que este, sem laços de sangue, não é matemático, não tem modelo, norma ou garantia. É um monte de sortes, acasos e paradoxos e, ainda por cima, é uma coisa volátil... Sei hoje o que sobra quando evapora, e sei que uma criança precisa tanto de uma mãe como de um pai, e mais que dos dois em alternância, precisa de uma família.
Mea culpa meu filho, que me perdoes um dia porque não soube o que fazia.
Estranho Silêncio
Todos temos os nossos limiares, os nossos limites. Medidos pela resistência e elasticidade das nossas emoções e capacidades. Há um ponto onde o esforço é simplesmente demais, e ou a corda não resiste e parte, ou não estica mais e nos pára, quando não nos atira para trás em desiquilíbrio, num movimento de chicote.Tenho sentido essa corda no limiar. O limiar da dor, do desconforto, da tristeza, da saudade, da frustração. Tenho tentado abstraír-me do mau ao longo das últimas 3 semanas, a pensar sempre que mais um bocadinho e isto acabava, ía-se o gesso, tinha o meu filho de volta, regressava ao trabalho, e tudo voltava ao normal. Esticava a corda com fé, com esperança, e com mais ou menos analgésicos. Mas os últimos dias trouxeram uma nova vaga de coisas más e tristezas. Por isso não me apetece escrever e já o post anterior foi escrito numa enorme tristeza, e apenas de marco.
Estou assim. Como um jardim abandonado que a natureza encarregou de tornar selvático. Escuro, na desordem do crescimento descontrolado das plantas. Triste, no abandono da luta e do esmero do jardineiro. E custa pegar nas ferramentas para lhe pôr ordem outra vez e permitir que a luz ilumine o chão, porque é uma tarefa árdua para a qual, neste momento, me faltam as forças.
Estou vazia de força e de linhas, num silêncio ensurdecedor de palavras soltas que não se querem conjugar. Agora, não consigo escrever a minha alma. Fui para lá do limite.
Love Hurts

Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.
Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.
Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.
Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.
(Soneto a Quatro Mãos, de Paulo Mendes Campos e Vinícius de Moraes)
Sangue do meu sangue

O meu filho está doente, desde ontem à noite. Foi uma noite difícil, para os dois.
O que mais me custa nestas situações não é a noite em branco, ou o cansaço que fica, ou a trabalheira que dá. É a angústia de o ver mal e não poder tirar-lhe as dores, a angústia de não saber se é grave, e a angústia de ter de o deixar entregue a outros para poder ir trabalhar de manhã.
É nestas alturas que me sinto mais próxima da minha essência animal, um animal com uma cria ferida. A “razão” funciona pouco, é tudo muito instintivo. Simplesmente “sei” quando está doente, "vejo-lhe" a febre, “advinho” quando vai vomitar, “sinto” o significado de cada choro em que distingo diferenças que mais ninguém ouve.
E depois a força que vem não se sabe de onde. Não sei como consigo não dormir toda a noite com ele no colo ou deitada ao lado dele numa cama com um colchão de 1,35m. Apenas fechando os olhos por uns minutos de cada vez. E ainda assim, consigo despertar de imediato e estar a funcionar a 100% ao primeiro gemido. Como nestes dias consigo mesmo subir e descer escadas com os seus 17 quilos ao colo. E rumar ao trabalho depois disto. E sobreviver.
Mas continuo angustiada, sofro esta distância, desconfio sempre que quem fica com ele não trata dele tão bem quanto eu faria – embora não tenha razão nenhuma para pensar dessa forma, que sei que o deixo bem entregue. Mas sei que o meu colo é diferente para ele e parte-me o coração ouvir aquela vozinha desconsolada ao telefone, a perguntar-me se “a mãe já vem a caminho?”... E culpas... mas claro, racionalmente sei que não posso perder o emprego e, sobretudo nos tempos que correm, não posso dar o flanco com absentismo.
Mas enquanto não oiço notícias de que está bem, não descanso, não paro de pensar nele, tudo o resto perde o sentido. E continuo a sentir as dores dele à distância. É tão estranho e tão forte este sentimento. É quando percebo mesmo que ele é sangue do meu sangue. Que já não está dentro de mim, e continua parte de mim. E que não há nada como um abraço de mãe, que a ele, só eu posso dar.
O que mais me custa nestas situações não é a noite em branco, ou o cansaço que fica, ou a trabalheira que dá. É a angústia de o ver mal e não poder tirar-lhe as dores, a angústia de não saber se é grave, e a angústia de ter de o deixar entregue a outros para poder ir trabalhar de manhã.
É nestas alturas que me sinto mais próxima da minha essência animal, um animal com uma cria ferida. A “razão” funciona pouco, é tudo muito instintivo. Simplesmente “sei” quando está doente, "vejo-lhe" a febre, “advinho” quando vai vomitar, “sinto” o significado de cada choro em que distingo diferenças que mais ninguém ouve.
E depois a força que vem não se sabe de onde. Não sei como consigo não dormir toda a noite com ele no colo ou deitada ao lado dele numa cama com um colchão de 1,35m. Apenas fechando os olhos por uns minutos de cada vez. E ainda assim, consigo despertar de imediato e estar a funcionar a 100% ao primeiro gemido. Como nestes dias consigo mesmo subir e descer escadas com os seus 17 quilos ao colo. E rumar ao trabalho depois disto. E sobreviver.
Mas continuo angustiada, sofro esta distância, desconfio sempre que quem fica com ele não trata dele tão bem quanto eu faria – embora não tenha razão nenhuma para pensar dessa forma, que sei que o deixo bem entregue. Mas sei que o meu colo é diferente para ele e parte-me o coração ouvir aquela vozinha desconsolada ao telefone, a perguntar-me se “a mãe já vem a caminho?”... E culpas... mas claro, racionalmente sei que não posso perder o emprego e, sobretudo nos tempos que correm, não posso dar o flanco com absentismo.
Mas enquanto não oiço notícias de que está bem, não descanso, não paro de pensar nele, tudo o resto perde o sentido. E continuo a sentir as dores dele à distância. É tão estranho e tão forte este sentimento. É quando percebo mesmo que ele é sangue do meu sangue. Que já não está dentro de mim, e continua parte de mim. E que não há nada como um abraço de mãe, que a ele, só eu posso dar.
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