"Destilar", cientificamente, é "separar componentes químicos que constituem uma substância através de vaporização seguida de condensação". Serve para muita coisa, nomeadamente, para produzir bebidas espirituosas. Aqui, é uma tentativa de purificação da mistura de tudo o que sinto, penso e vivo. A aguardente do que sou.
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Vou ali, já venho
Depois de duas vezes adiada a partida, hoje também fecho a minha mala para ir para longe uma semana. Resolvi pegar no passaporte, um monte de livros, outro de biquinis, protector solar e repelente de insectos (que repelir outras coisas é-me natural) e partir para outras paragens, mais calmas e prazenteiras, solarengas e longe, bem longe disto tudo. Vou a África, não a um dos meus destinos de sonho que são um bocado mais fora de mão, e pouco propícios para o trabalho de casa que levo, mas ainda assim África, de praias, palmeiras, tempo lento e descontraído. Preciso mesmo desse respiro para voltar então para o recomeço da minha vida em força, com as ideias arrumadas e o corpo descansado (além de bronzeado, o que me vai dar um certo gozo no regresso, já que sofro geralmente de ser a eterna “branquela”). Preciso mesmo de uma fuga destes espaços e destes tempos, para poder mergulhar em mim mais fundo e não me deixar fugir. Preciso de sacudir a poeira da minha alma que se tingiu de escuro nestes dias. Preciso de inspirar profundamente e expirar convictamente, largando o peso no ar. Preciso de ir deixar em solo infértil, onde tão cedo não vou voltar, e que não vou regar, cheiros, memórias e imagens, restos de sonhos e ilusões, sobras de amor e de ódio que agora se misturam em mim e me agoniam. Preciso de ir buscar a paz, a força, a leveza da alma e do coração limpos, leves e arejados.
Trago fotografias. Ou não. Se calhar não é um tempo para recordar.
Sísifo – o herói absurdo
Sísifo é um personagem, não é só o o título do famoso poema de Torga. Sísifo-personagem é a metáfora do esforço inútil e incessante do homem que vive uma vida sem sentido mas que o procura eternamente.
Albert Camus (filósofo e escritor francês que ganhou um Nobel) utilizou a metáfora de Sísifo para sustentar a sua “filosofia do absurdo” segundo a qual as nossas vidas são insignificantes e não valem mais do que o valor do que criamos. Como o homem em geral nos dias de hoje não cria nada de valor, vivendo num mundo estéril e desumanizado que aceita, diz Camus que a alternativa a ser-se Sísifo é o suicídio. Porque Sísifo-personagem foi cruelmente castigado pelos Deuses devido às suas virtudes, condenado à cegueira no fundo de um vale, de onde só pode sair se escarpar uma perigosa falésia e ainda por cima empurrando o enorme peso de um pedregulho. E Sísifo não desiste, escala a falésia vezes sem conta apenas para rebolar de novo até ao fundo sempre que está prestes a alcançar o topo.
Para Camus, Sísifo é o expoente daquilo que chama o “homem absurdo” ou o homem com uma “sensibilidade absurda”. Este é o homem perpetuamente consciente da inutilidade e futilidade da sua vida, que ainda assim não desiste de a transformar em algo maior. Os Sísifos de hoje serão aqueles que desejam e procuram claridade e sentido num mundo e numa condição que não oferece nenhuma das duas coisas. Na metáfora, Sísifo um dia chega ao topo, e antes de voltar a caír na sua repetitiva e eterna desgraça, quer olhar à volta e experimentar a sensação de liberdade. Mas é cego. Não verá o que se espraia à sua volta com os olhos. Verá apenas com a alma, e mesmo que por um breve instante apenas, sentir-se-á grandioso e feliz. E isso fá-lo-á recomeçar, preferir a dureza da sua caminhada ao suicídio, à morte. Por isso, Sísifo é o tal herói absurdo.
O poema de Miguel Torga anda por aí. Já quase toda a gente o conhece e, no entanto, quase todos o citam e gostam dele pela primeira estrofe. Mas tem mais, muito mais. A primeira estrofe é positiva, a exortação à coragem, palavras que parecem de esperança, apenas com as ressalvas do “se puderes” e a adjectivação do caminho como “duro”. Mas a segunda estrofe é essencialmente um aviso, é a constatação das agruras inevitáveis e do perigo da loucura – são fatalísticas as “ilusões sucessivas” e o “logro da aventura” – porque Sísifo sempre cai de novo e sempre tem de recomeçar, e mesmo no breve instante em que alcança o topo, não pode olhar à volta porque é cego. As duas últimas linhas são fortíssimas – seremos loucos se nos reconhecermos na loucura, e a loucura é parar, é achar que nos conhecemos. Porque aqui parar é mesmo morrer, e morrer às nossas próprias mãos.
Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
Por muito que custe, por muito que às vezes não veja onde vou buscar a força, por muito o desespero da consciência da inutilidade do esforço, anseio por esse breve instante de libertação no topo do penhasco, de alguma profundeza minha acredito que chego lá, e a cada queda recuso-me a parar. Sísifo, na interpretação própria que faço dele à luz do que entendo da teoria de Camus, é irmão para mim, somos da mesma natureza, embora eu seja mais fraca e tenha os meus momentos de dúvida. Mas somos ambos absurdos.
A Dançar na Bruma

Às vezes parece que tudo conjura para nos dar cabo da vida. Ou pelo menos da paciência. Amargura-me sentir que não consigo verdadeiramente andar para a frente. Amarras prendem-me. Sinto-me zangada, irritada, até com coisas menores que não são realmente importantes, mas não são realmente como queria que fossem. Por mais que o tempo passe, por mais que o tempo esteja fechado, por mais que o assunto esteja arrumado, o certo é que ainda tenho de lutar todos os dias para não pensar, não recordar, não me deixar afectar pela tristeza que cá mora. E esse mesmo esforço é uma forma de continuar afectada por isto, por ele, e reconhecê-lo é frustrante e enfurecedor.
Quero fugir-lhe. Quero não o ver. Quero não me lembrar dele, do rosto, do nome, do gosto, e de tudo o resto. É cada dia mais fácil, é certo. Cada dia é um pouco menos o tempo de luta, é um pouco menos dura a luta. Mas é ainda cada dia. E a cada dia fico mais vazia. A cada dia fico mais sozinha. Disfarce o que disfarçar, escreva o que escrever, distraia-me com o que seja. Sinto que me envolvi propositadamente num nevoeiro cerrado, para que nem eu veja. Mas sei. Sei muito bem.
Sinto a ventania de volta. Junto com a tristeza, a irritação e a raiva, a vontade de me encher de qualquer coisa que ensope os restos dele e me encha de novo de algo diferente. Tenho urgência de animação, de turbilhão, de movimento desabrido. É sempre assim quando me peso tão insignificante. Preciso de um milhão de actividades, gente, barulho, luzes e cores. Ocupar-me, cansar o corpo, ocupar a mente, recuperar-me o espaço que ele ocupou, expropriou de mim.
Apetece-me mandar tudo à merd@. Borrifar-me para tudo e para todos e sair por aí sem pensar no dia de amanhã. Beber mesmo uns shots de um trago e deixar-me ir. Rir, rir muito, para que as lágrimas nem cheguem aos olhos, espantar a desilusão. Cantar e dançar, dizer disparates, brilhar por aí, para espantar a solidão. Estou capaz de uma loucura só para sossegar esta besta que me consome. Procurar outros braços, outros braços quaisquer, não importa, não interessa. Queria provar que não preciso dele para nada, absolutamente nada. Provar-me a mim sei lá o quê e porquê. Até sei. Tanta coisa. Queria dar-me peso, significância. Ronda-me a tentação. Seria tão fácil.
Mas sei o que custa acordar. E sobretudo, sei que não lhe quero reconhecer esse poder sobre mim. Pode ter-me levado muita coisa, pode levar-me ainda muito mais, mas não posso deixar que me leve a essência. E sei que, na essência, não quero nunca mais nada pela metade, nunca mais quero um engano destes. Quero tudo, tudinho, um bilhete full fare, com tudo a que tenho direito, e em primeira classe. A mesma paixão doida, a mesma ternura inebriante, a mesma frescura, a mesma fogueira, a mesma intensidade de cor e sabor. E assim fico sem nada, a não ser uma recordação inútil, um desencantamento e uma tristeza, na solidão da bruma do que não foi, nem será. E que esconde o vazio de que não me consigo livrar.
Por isso também oiço outra música.
De mim para mim
Sei que hoje acordei num mundo diferente. Sei que sou hoje diferente. Instintivamente, sai uma camisa preta do armário. Não, não, digo-me. Não de luto. Já foi demais. Uma coisa leve, uma coisa nova, por estrear. Não é Primavera? Pois, mas vem chuva. Detesto chuva. É Maio, por amor de Deus! Pronto, insisto, tem de ser leve, um casaco por cima. O espelho. Ali estou eu. Eu. Só eu. Minutos a correr, tanta coisa insignificante para fazer. Noto que a frase que mais repito nas primeiras horas do dia é “vamos a despachar”. A vida a correr. Beijos, abraços, bom fim de semana, porte-se bem com o pai, gosto muito da mãe. Sorriso triste, também gosto muito do L.. Saudades, aperto no peito. Trânsito e chegada. Como é que era? Pois... Um passo depois do outro. Levantar a cabeça e endireitar as costas. Sorrir. Não se passa nada. Sou eu. Como sempre, a de todos os dias, a quem ninguém vê que a vida custa, pesa. Vêm a camisa nova, de côr clara, diferente, que elogiam. Vêm o eu-mulher de força calma, que parece bem, que sorri. Por fora. Dentro está outra coisa. Dentro não se vê. E eu hoje estou lá dentro. Hoje há pouca conversa. Enterro-me no computador. Vou espreitando outras coisas que tenho pouca vontade de trabalhar. Escrevo umas linhas. Ajuda. As teclas ganham velocidade, o pensamento voa. Não oiço nada à minha volta. Dentro. Silêncio. Luto não. Já foi demais, lembro-me. Enterrado, missa de sétimo dia. Faço o quê agora? O vazio é para quê? Cabe o quê? Afasto pensamentos, afasto lembranças. Afasto-me dos passos de lógica de todos os dias. Não vou por aí. Lembras-te? Paraste. Chega! Calma, calma... Shiiiuuu. Já passou. Já passou... Amanhã, já passou.
A noite

A noite inunda tudo. A noite transforma tudo. A escuridão chega sempre mais longe que a claridade. As sombras no escuro são realidade. A noite apodera-se do mundo. Mergulha-nos num silêncio profundo. Esta noite inunda-me de escuro, apodera-se de mim, espanta-me o sono com sombras de mim. Esta noite tortura-me com divagações insanas, memórias doridas, espirais sem fim. A noite sem sono é um pesadelo vivido. A noite acordada sem amor é um momento descabido.
Na noite de insónia oiço mais os sons da rua. Invade-me a realidade do exterior, fria e crua. À noite, sem som, ouço-me permanentemente em eco. Mil vezes embatendo de volta em mim, que me sinto sem fuga, num beco. A noite cala o relógio, o riso, o canto. Para que se torne audível o meu pranto.
O silêncio da minha noite ensurdece-me. O amor que sinto estéril na noite enlouquece-me. A madrugada da minha noite adormece-me.
Por onde andará a minha lua?...
Na noite de insónia oiço mais os sons da rua. Invade-me a realidade do exterior, fria e crua. À noite, sem som, ouço-me permanentemente em eco. Mil vezes embatendo de volta em mim, que me sinto sem fuga, num beco. A noite cala o relógio, o riso, o canto. Para que se torne audível o meu pranto.
O silêncio da minha noite ensurdece-me. O amor que sinto estéril na noite enlouquece-me. A madrugada da minha noite adormece-me.
Por onde andará a minha lua?...
T(r)emores

Parece que sufoco das palavras que quero tirar de mim. Parece que pesam. Adormeço e acordo a compôr frases na minha cabeça. Escrevo coisas soltas por todo o lado e a toda a hora. Mais de metade deito fora. Viciei-me na escrita que me dá uma sensação de apaziguamento no imediato. Mal está escrito, tenho uma urgência demente em publicar, mas ainda assim há coisas que ao reler não consigo. E depois é tanto que não tenho remédio se não guardar uma parte.
É um vómito da minha alma. Depois às vezes a ressaca é má, doi o estômago. É melhor nas vezes em que me clarifica, ilumina, solta e orienta. E mesmo assim, continuo atormentada pela necessidade de escrever ainda mais, de escrever tudo. Tenho de chegar ao fundo deste poço e hoje estou de novo a espreitar o poço, com medo de cair lá dentro, na antecipação de mais um embate. Ele está lá no fundo, mas no horizonte deste dia. Tremo e temo. Tremem-me as palavras. Estou um bocadinho desfocada, a verdade está esfumada. Se calhar é o carrossel a rodar um bocadinho mais depressa. Não consigo acreditar no que publiquei ontem à noite e no que escrevi há pouco, que não consigo deixar escorrer para aqui, mas que não consigo deitar fora.
Do que tenho escrito, no visto aqui e no escondido, estão afirmações tão contraditórias quanto o que sinto, que me mostram claramente como me perdi, muitas vezes na ilusão de saber perfeitamente o caminho. Os "quero mas não quero", "posso mas não consigo", "sim, mas também"... E questões pertinentes levantadas por linhas aqui e noutras paragens partilhadas fazem-me repensar algumas coisas que escrevi, porque senti, ou porque decidi. Olhar para o fundo do poço numa atracção quase fatal. E medo de cair.
Confuso? É. Quanto tempo temos de dar ao sonho? Vale mais o que sentimos ou o que decidimos? Até quando devemos deixar a esperança alagar-nos? Sabemos ver quando estamos afogados nela ainda a tempo de nos salvarmos? De que vale o tempo contado no calendário face à possibilidade de realizar um sonho num futuro qualquer? O "já" é tão redutor... O "nunca" é que é final e essa é a palavra que ainda não ouvi, nem li, nem escrevi - só cheguei lá perto na poesia e doeu. É a palavra que temo demais ouvir e dizer, ler ou escrever, que me faz a voz e a mão tremer.
Hoje estou confusa, assustada, à procura de todas as partículas da minha coragem para não fugir, porque sei que não há fuga possível. Seria ilusório pensar que não ver, não ouvir, não cheirar resolveriam a minha tormenta. Mas ver, e ouvir e cheirar pode resolver, pode até apaziguar. Pode dar-me o "nunca". Mas a dúvida é qual será o impacto, como e quando e se. E medo do tamanho da cratera que pode resultar daí. Sinto-me encurralada entre dois eus de mim. E entre o que é meu e o que está fora de mim. Penalizo-me, porque fui desafiar as bestas dos outros ainda sem domar a minha. E ela acordou de novo e mordeu-me.
É um vómito da minha alma. Depois às vezes a ressaca é má, doi o estômago. É melhor nas vezes em que me clarifica, ilumina, solta e orienta. E mesmo assim, continuo atormentada pela necessidade de escrever ainda mais, de escrever tudo. Tenho de chegar ao fundo deste poço e hoje estou de novo a espreitar o poço, com medo de cair lá dentro, na antecipação de mais um embate. Ele está lá no fundo, mas no horizonte deste dia. Tremo e temo. Tremem-me as palavras. Estou um bocadinho desfocada, a verdade está esfumada. Se calhar é o carrossel a rodar um bocadinho mais depressa. Não consigo acreditar no que publiquei ontem à noite e no que escrevi há pouco, que não consigo deixar escorrer para aqui, mas que não consigo deitar fora.
Do que tenho escrito, no visto aqui e no escondido, estão afirmações tão contraditórias quanto o que sinto, que me mostram claramente como me perdi, muitas vezes na ilusão de saber perfeitamente o caminho. Os "quero mas não quero", "posso mas não consigo", "sim, mas também"... E questões pertinentes levantadas por linhas aqui e noutras paragens partilhadas fazem-me repensar algumas coisas que escrevi, porque senti, ou porque decidi. Olhar para o fundo do poço numa atracção quase fatal. E medo de cair.
Confuso? É. Quanto tempo temos de dar ao sonho? Vale mais o que sentimos ou o que decidimos? Até quando devemos deixar a esperança alagar-nos? Sabemos ver quando estamos afogados nela ainda a tempo de nos salvarmos? De que vale o tempo contado no calendário face à possibilidade de realizar um sonho num futuro qualquer? O "já" é tão redutor... O "nunca" é que é final e essa é a palavra que ainda não ouvi, nem li, nem escrevi - só cheguei lá perto na poesia e doeu. É a palavra que temo demais ouvir e dizer, ler ou escrever, que me faz a voz e a mão tremer.
Hoje estou confusa, assustada, à procura de todas as partículas da minha coragem para não fugir, porque sei que não há fuga possível. Seria ilusório pensar que não ver, não ouvir, não cheirar resolveriam a minha tormenta. Mas ver, e ouvir e cheirar pode resolver, pode até apaziguar. Pode dar-me o "nunca". Mas a dúvida é qual será o impacto, como e quando e se. E medo do tamanho da cratera que pode resultar daí. Sinto-me encurralada entre dois eus de mim. E entre o que é meu e o que está fora de mim. Penalizo-me, porque fui desafiar as bestas dos outros ainda sem domar a minha. E ela acordou de novo e mordeu-me.
“Muito-Tanto”
Num desses dias em que o meu filhote estava com o pai, estava com umas saudadesinhas dele. Falamos ao telefone e ele estava bem disposto, mas claramente com saudades. Voltou a ligar-me 2 vezes depois da primeira conversa, “só para dizer mais uma coisa”, de cada vez. E no meio dos vários telefonemas disse-me “tenho uma coisa muito bonita para dizer à mãe: gosto muuuuito-tanto da mãe!”... Encheu-me o coração.
Estes dias agora está com o pai e sinto-lhe a ausência, a distância. Tivemos um Domingo tão bom. Sinto que estamos a crescer os dois numa cumplicidade ternurenta e muito enriquecedora. E isso, só por isso, faz-me feliz. Aproveitei cada minutinho do tempo que tive com ele. Fizemos coisas giras, como ir para uma livraria onde fui caçar um livro que procurava, e apesar de ter tido de sair a meio para ir procurar uma casa de banho, às tantas, na segunda investida, sentei-o num sofá a guardar os 2 livros que já tinha escolhido, enquanto procurava o terceiro. E ele ali ficou todo contente, a fingir que lia as minhas histórias e a responder às várias pessoas que se metiam com ele com um sorriso no rosto. Compramos um livro para ele também, que acabei a ler com ele sentado no balcão e altamente participativo na leitura da história, e toda a gente a olhar para nós com olhares sorridentes que me fizeram rebentar de orgulho – sou uma boa mãe! – e de ternura pelo miúdo – que bolas! ele é mesmo especial!. Joguei à bola com ele, rebolamos na relva, passeamos e conversamos, vi desenhos animados no sofá com ele no colo, e não deixei de fazer coisas minhas, e ele soube respeitar o meu espaço e partilhar também das minhas coisas.
Estes dias agora está com o pai e sinto-lhe a ausência, a distância. Tivemos um Domingo tão bom. Sinto que estamos a crescer os dois numa cumplicidade ternurenta e muito enriquecedora. E isso, só por isso, faz-me feliz. Aproveitei cada minutinho do tempo que tive com ele. Fizemos coisas giras, como ir para uma livraria onde fui caçar um livro que procurava, e apesar de ter tido de sair a meio para ir procurar uma casa de banho, às tantas, na segunda investida, sentei-o num sofá a guardar os 2 livros que já tinha escolhido, enquanto procurava o terceiro. E ele ali ficou todo contente, a fingir que lia as minhas histórias e a responder às várias pessoas que se metiam com ele com um sorriso no rosto. Compramos um livro para ele também, que acabei a ler com ele sentado no balcão e altamente participativo na leitura da história, e toda a gente a olhar para nós com olhares sorridentes que me fizeram rebentar de orgulho – sou uma boa mãe! – e de ternura pelo miúdo – que bolas! ele é mesmo especial!. Joguei à bola com ele, rebolamos na relva, passeamos e conversamos, vi desenhos animados no sofá com ele no colo, e não deixei de fazer coisas minhas, e ele soube respeitar o meu espaço e partilhar também das minhas coisas.
Mas agora cá me fiquei a remoer, um bocadinho nervosa com o fantasma da solidão destes meus dias de mulher, um bocadinho impaciente, sei lá.
Queria qualquer coisa. Queria um frenesim qualquer e algumas respostas aos “e depois?” que vou, como o meu filho, desfiando no tempo da minha cabeça. Queria umas horas de companhia e riso num jantar com amigos. Queria dançar esquecida, perdida, na música. Queria ver uns certos olhos. Queria sentir a minha alma e outra alma. Queria espreitar o futuro. Queria... “muito-tanto”. Acho que, para além do gosto pelos livros, o meu filho herdou de mim o gosto pelos superlativos...
Uma noite de desasossego
Uma dessas noites passadas... Às 4 da madrugada estava acordada, às voltas na cama, a querer forçar o sono que tinha a fechar-me os olhos, a tentar voltar para o embalo do sonho, a destilar memórias (boas). Mas quase às 5 da madrugada ainda estava acordada com a cama num desalinho, a ouvir os primeiros pássaros a cantar - e não achei lindo, não, fiquei foi bem irritada.
Teria sido do livro que estava a ler? Gosto do autor, Luís Sepúlveda, de quem li há muitos anos 3 livros que me apetece reler, o que é raríssimo. Este, comprado há uns meses, é uma colecção de pequenos contos, alguns de apenas 2 ou 3 páginas. Mas houve um que me tocou tanto, que nessa noite reli. Começa com umas citações fantásticas de uma obra que tem um título, no mínimo, curioso, e que me fez soltar uma gargalhada a primeira vez que lhe pus os olhos em cima: "Enciclopédia Popular do Fracasso Sentimental Latino-Americano"! E o conto tem um parágrafo que reli nem sei quantas vezes, que me assusta, que me atormenta um pouco, na consciência da inevitabilidade de certas coisas que nos transcedem, da impossibilidade de controlo da química da nossa própria alma...
Ou talvez tenha sido do choro do meu filho ao telefone, que ficou com os meus pais. "A mãe já está a caminho?...". Não queria lá ficar a dormir, queria dormir "na casa da mãe", e choramingava desconsoladamente... Várias vezes durante a noite tive aquela sensação de que estava a dormir ali ao meu lado e que se inquietava, como acontece tantas vezes, e eu naquele quase despertar atento, expectante do sossego ou do choro, para decidir se posso continuar a dormir ou se tenho de me levantar. E depois a lembrar-me que ele não estava ali, com uma pedrinha na alma...
Sensações estranhas de desasossego, de ausências, e de predestinação. Como a calma antes da tempestade, mas a electricidade no ar a eriçar-nos os pelos do corpo, alguma coisa a inquietar-nos o coração, uma quase euforia de expectativa sem razão, mas uma pontinha de um medo primordial, de sobrevivência.
Não sei o que seria isto.
Uma grande amiga minha chorou outra vez. Fiquei triste por ela. Não gosto de lágrimas, muito menos nos olhos das pessoas de quem gosto. Para ela, do tal livro do Sepúlveda, citação da fabulosa “Enciclopédia Popular do Fracasso Latino-Americano”:
E, para mim, o tal parágrafo de assombro: “Quis rir, mas às vezes os dítames do cérebro confundem-se, cruzam-se, provocam curto-circuito, alguma coisa falha na alquimia da vida, alguma coisa que me agitou num espasmo antes de desatar a chorar.”
Teria sido do livro que estava a ler? Gosto do autor, Luís Sepúlveda, de quem li há muitos anos 3 livros que me apetece reler, o que é raríssimo. Este, comprado há uns meses, é uma colecção de pequenos contos, alguns de apenas 2 ou 3 páginas. Mas houve um que me tocou tanto, que nessa noite reli. Começa com umas citações fantásticas de uma obra que tem um título, no mínimo, curioso, e que me fez soltar uma gargalhada a primeira vez que lhe pus os olhos em cima: "Enciclopédia Popular do Fracasso Sentimental Latino-Americano"! E o conto tem um parágrafo que reli nem sei quantas vezes, que me assusta, que me atormenta um pouco, na consciência da inevitabilidade de certas coisas que nos transcedem, da impossibilidade de controlo da química da nossa própria alma...
Ou talvez tenha sido do choro do meu filho ao telefone, que ficou com os meus pais. "A mãe já está a caminho?...". Não queria lá ficar a dormir, queria dormir "na casa da mãe", e choramingava desconsoladamente... Várias vezes durante a noite tive aquela sensação de que estava a dormir ali ao meu lado e que se inquietava, como acontece tantas vezes, e eu naquele quase despertar atento, expectante do sossego ou do choro, para decidir se posso continuar a dormir ou se tenho de me levantar. E depois a lembrar-me que ele não estava ali, com uma pedrinha na alma...
Sensações estranhas de desasossego, de ausências, e de predestinação. Como a calma antes da tempestade, mas a electricidade no ar a eriçar-nos os pelos do corpo, alguma coisa a inquietar-nos o coração, uma quase euforia de expectativa sem razão, mas uma pontinha de um medo primordial, de sobrevivência.
Não sei o que seria isto.
Uma grande amiga minha chorou outra vez. Fiquei triste por ela. Não gosto de lágrimas, muito menos nos olhos das pessoas de quem gosto. Para ela, do tal livro do Sepúlveda, citação da fabulosa “Enciclopédia Popular do Fracasso Latino-Americano”:
Mozo, sírvame en la copa rota
Quiero sangrar gota a gota
El veneno de su amor
E, para mim, o tal parágrafo de assombro: “Quis rir, mas às vezes os dítames do cérebro confundem-se, cruzam-se, provocam curto-circuito, alguma coisa falha na alquimia da vida, alguma coisa que me agitou num espasmo antes de desatar a chorar.”
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