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Perfeito



Não são perfeitas as horas. Hoje. Porque não são perfeitas as esperas. Não são perfeitos os sorrisos. Hoje. Porque não são perfeitas as saudades.

São perfeitas as memórias. Porque foram perfeitas as horas. Ontem. São perfeitos os sonhos. Porque foram perfeitos os sorrisos. Ontem.

É perfeito o passado, e o futuro. Mas hoje, presente, queria ver os teus olhos sem ter de fechar os meus. Sem os recordar do passado ou imaginar no futuro. Ainda que perfeitos.

Custa-me a tua ausência ainda mais por te ter por dentro. Pertences aqui, sem conjuntivos ou condicionais. A conjugar comigo verbos e tempos perfeitos em indicativos de certeza e imperativos de convite, ordem, pedido. A cada dia. Nós amámos. Ontem. Nós amamos. Hoje. Amemos, sempre!

Mas sim, concordo. É perfeito. Cada aqui e agora, o que conjugamos é verbo perfeito.

Sonho



Não me acordes. Deixa-me ficar aqui, assim, quieta. Não me despertes o pensamento. Deixa-me ficar lá, no reino dos sentidos, dos etéreos, do tempo sem nexo. Lá, onde escorres por mim, pelos meus caminhos, onde escorro por ti, mãos nas mãos.

Não me faças abrir os olhos. Não quero ver o sol que desponta, nem as núvens no céu. Quero recordar a luz de prata que se derramava na pele despida. Não quero olhar-te os olhos. Quero vêr por dentro das pálpebras o teu sorriso, quero sentir na pele o arrepio que me desenhas.

Shiuuu. Não fales. Deixa-me deslizar neste silêncio, nesta música que me embala numa sinfonia de acordes sem som. Não quero ouvir as tuas palavras. Quero ouvir-te no abraço dos corpos e guardar-te a alma entrelaçada na minha.

Não me acordes. Lá onde estou estás comigo por inteiro e é assim que te quero, sempre. Acordo quando aqui te puder encontrar da mesma forma, no mesmo equilíbrio, na mesma harmonia, no mesmo enlace.

Travessias


Na marcha pelo deserto eu sabia
Que alguns morreriam

Mas pensava sob o céu redondo
- Onde
O limite do meu amor da minha força?

E eis que morro antes do próximo oásis
Com a garganta seca e o peso
Ilimitado do sol sobre os meus ombros

Eis que morro cega de brancura
Cansada demais para avistar miragens

Eu sabia
Que alguém
Antes do próximo oásis morreria

(“Caminho" de Sophia de Mello Breyner Andresen)


Ainda acredito no amor, sim. Sei que existe e só não sei se um dia o realizo. E por um defeito genético qualquer, não consigo deixar de querer procurar, por uma loucura qualquer, sinto-me capaz de mergulhar inteira se ele me quiser receber. Mas é duro libertar-me da tortura de conhecer o sabor do que quero e não tenho. Pergunto-me se sobreviveria a esse mergulho de que me sinto capaz, pois continuo presa na convicção de que mais nenhum amor substitui aquele que me assolou, que mais nenhum homem substituirá aquele que me fez sua. Mas também não sobrevivo à apneia de esperar pelo que queria e não tenho, à marcha lenta sob o sol, na perseguição da miragem que não se alcança, e que me fará morta no deserto.

Parar

Vi-o. Um jantar numa viela perdida do Bairro Alto, onde bem me custou chegar em cima das muletas. Um grupo relativamente pequeno, tudo animado, all in all, uns bons momentos de descontracção e arejamento da minha clausura, depois de umas bebidas à beira rio antes do jantar, na total descontracção, que ele não estava nem o imaginava a juntar-se ao jantar.

Não sabia do meu acidente. Foi simpático, como sempre. Na distância, que eu alarguei. Não posso dizer que me é indiferente, que não é. Custa tanto, ainda. A única diferença agora é que o sonho acabou para mim, não há expectativa nenhuma, o tempo passou demais. O amargo é mais difuso e a tristeza é um vazio desconfortável no estômago, mais do que a dor de uma agulha espetada no coração.

Mas só me apetece dizer palavrões. Porque é que tinha de ser assim?! Alguém me falava hoje em ter o que se merece, e eu acho que merecia ter tido mais que isto dele. Mas não mereci. E sei que a estrada não segue, e ainda assim nunca consigo resistir a anotar mentalmente a prova de tudo o que tinha para dar certo. Até me parar, porque sei que é perigoso. Stop!

Encontro - Um Pequeno Conto


Era uma noite escura, com um céu carregado de núvens densas e vagarosas, a encobrir as estrelas que não tinham força para fazer derramar a sua luz sobre a estrada. Chovia aquela chuva miudinha, insidiosa, que nem chega a ser fria, nem água pura, que invade até o oxigénio do ar e contamina tudo com uma humidade peganhenta.

De vez em quando, um clarão de luz, como se fosse uma ideia luminosa carregada de uma raiva eléctrica, atravessava o céu e podia mais que as núvens, derramando uma fracção de luz mentirosa, enganadora, inconstante, que apenas deixava vislumbrar o caminho por um breve instante.

Logo no segundo seguinte havia sombra e tudo eram sombras, cores pardas e sons abafados, pelas núvens, e pelo chuvisco, e pela noite. Uns segundos, e o rugido da fúria a tomar conta do lugar, primeiro mais lento e distante, ecoando ao longe, depois mais presente e furioso e dilacerante. E depois mais distante.

No caminho ecoavam passos pequeninos. Eram passos difíceis e inseguros, que o caminho era de terra feita lama, do mesmo breu da noite, invisível de tão indistinto o caminho e o céu e tudo à volta. Os pés afundavam-se apesar do pouco peso do corpo, e quanto mais o cansaço, e quanto mais a humidade, mais os pés se afundavam. A alma pesava-lhe também de tão nublada. As recordações, as dúvidas dilacerantes, as incertezas de outros passos, as lágrimas já choradas, a sua história enfim, era mais peso que o corpo esbelto, quase magro demais, frágil e cansado, e ainda assim a opôr-se à intempéride para avançar. Ele estava no fim do caminho e ela pertencia àquele destino.

Cada avanço era mais penoso que o anterior e não se vislumbrava o destino, nem se avistava a sombra que ela esperava ver de mão estendida à sua procura, vinda em seu auxílio. “Onde andarás?” – perguntava-se ela. O desânimo consumia a força que a seguir consumia a vontade. E a cada passo, mais um bocadinho de lama do caminho se colava e se impregnava naqueles pés delicados mas feitos de barro, do barro da estrada, desesperados pelo avanço mas que na lama se afundavam. Também chovia dentro dela aquela chuva miudinha, húmida e peganhenta. Também disparavam dentro da sua cabeça rasgos de luz mentirosa que por momentos a enganavam na certeza do caminho e no vislumbre fugaz daquela sombra que não existia. E a desilusão e a mágoa e o arrependimento rugiam tão alto como os trovões.

Então levantou-se o vento. Fresco, surpeendente, vindo não se sabia de onde, de que ponto cardeal e de que altura. Soprou de mansinho e depois ganhou pujança e fez-se dono do lugar. Alvoraçou-a. Espantou as sombras da paisagem, secou-lhe a humidade da roupa e do corpo e dos longos cabelos. Deixou de chover e o ar limpava-se. Mais passos, cansados mas agora com a leveza da esperança, a tornarem-se mais seguros, a espinha dorsal a reencontrar a sua posição natural. O briho das estrelas já chegava e o caminho tornou-se mais claro, tanto que nem era preciso fixar os olhos no chão para ver e seguir em frente. A lama foi secando e tornando a progressão mais fácil, porque a lama seca se solta do que antes emparedou e faz-se em pó com apenas um toque.

De repente, os seus olhos encontraram o céu. O vento dela e de um ponto cardeal indefinido, que tinha subido também acima do lugar, dispersara as núvens. Com espanto, viu uma lua redonda, brilhante, dourada, prenhe. Pensou que de promessas e de sonhos. Ali assim, ao alcance da vista que se desocupara de perscutar cada centímetro do caminho que agora se fazia de cor, já sem pensar na sombra da mão de ajuda porque ansiava. Pensou como era mais fácil fazer o caminho assim. Inspirou o ar agora respirável e deixou-se em contemplação por momentos, estendendo a mão esguia como que a tocar o astro e a sentir a sua força.

Ao voltar a olhar para a frente viu-se na chegada. Sem saber como tinha chegado e o que era feito do seu cansaço e desespero. Olhou de novo a lua e, então, concedeu-se um sorriso. E toda ela irradiou com a força dos raios da luz que contemplava e que a enchiam. Ela era lua. Brilhante, dourada e prenhe, da força das promessas e dos sonhos realizados. Subitamente dentro do abraço da sombra que procurara e que a tinha também buscado no caminho. Cumprindo-se o destino.

“Chegamos”, dito em simultâneo num beijo. “Andemos”, dito no primeiro passo a dois do novo caminho.

Impresso em nós

Alguém saberá responder de imediato à pergunta de quem são os homens ou as mulheres da sua vida? Assim em segundos, sem tempo para pensar? A pergunta é supostamente fácil, pretende-se saber quais foram os mais importantes, não necessariamente os que se demoraram mais tempo na nossa vida, mas os que tiveram um impacto mais marcante, independentemente do tempo.

De facto, todas as pessoas que passam na nossa vida deixam marcas. Algumas mais profundas, que se imprimem definitivamente em nós. Outras mais ténues, que marcam mais momentos de vida do que o que somos e seremos. E às vezes essas segundas demoram-se mais e tendemos a atribuir-lhe um maior valor por isso, enquanto por vezes subvalorizamos os que foram breves de existência mas realmente significativos e marcantes.

No meu caso, tive poucos homens “na” minha vida, independentemente de marca e tempo. Amei todos em dado momento, mas cada um foi completamente diferente do outro, e de tão poucos, dois foram meus maridos, um deles o pai do meu filho (e por isso parte da minha vida até à morte). Foram relações duradouras, mas isso não faz deles os “homens da minha vida”.

Penso no que distingue os que amei "totalmente" dos outros, o que distingue a marca que deixaram, e depois de muita volta à cabeça e muito mergulhar em mim, conclúo que é a entrega de que fui capaz. Não é o que eles me deram, mas o que lhes dei de mim, que fez espaço para que a sua marca se imprimisse em mim. Essa entrega total, essa forma de amar, é, em última análise, um salto de fé, acreditar que o outro quer a nossa entrega e nos ama de volta, se entrega também, para que se cumpra o amor. Estranhamente, em nenhum dos meus casos deamor "total" acho que se tenha “cumprido” o amor, porque não tive esse retorno. Mas é amor, ainda assim, porque para mim amar alguém é essa dualidade imparável de generosidade e de egoísmo. É encantarmo-nos com algo de mais profundo que só nós vislumbramos no outro. É enchermo-nos do todo que é o outro, e querer dar a esse outro o todo de nós. Ser refúgio e refugiado, dar a mão e ir pela mão, respirar o mesmo ar, ser corpo de outro corpo que é nosso. E é salto de fé também porque é acreditar que o amor nos dá o poder de fazer o outro feliz e, em retorno, ser feliz. É acreditar, e com uma força avassaladora.

E aqui o tempo não conta. Porque o meu primeiro foi uma relação longa, mas o segundo, de tão curta existência na minha vida, tem já a palma da mão impressa em mim, é de mim, para sempre, mesmo que nunca se cumpra o amor com a tal reciprocidade que desejo. No primeiro, a história está fechada, no segundo ainda está em aberto, suspensa no tempo. Uma das minhas citações preferidas de Pessoa é: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”

E realmente, a marca que este homem me deixou em tão pouco tempo impregnou-se em mim de uma maneira absurda mas mágica, de uma maneira triste mas doce. Arrebatou-me, levantou-me os pés do chão e subiu-me a alturas extraordinárias onde nem sei respirar. Foi pura magia na minha vida, fazendo-me voar por momentos e abandonar-me por completo nele. Apesar do abismo da estranheza, o amor que sinto por ele deu-me a razão que precisava para arrumar gavetas e enfrentar fantasmas. Deu-me razão para sonhar, e até razão para acordar e adormecer e suportar a tormenta de que não queria fugir. Deu-me razão para escrever. Tornou-se uma parte de mim que não consigo expulsar e, mais que isso, que acalento, que preservo, que me recuso a largar. É uma coisa espantosamente intensa, transformadora, e assim, na onda do poeta, destas coisas que são tão intensas e inexplicáveis, me fica a marca de alguém incomparável que não se pode esquecer. Recordarei sempre as asas que abri por ele, mais do que as lágrimas que chorei por ele. Projectarei sempre mais o que quero dar-lhe, do que o que poderia receber. E agora, o tempo dirá se é finalmente o amor cumprido que espero, que sonho. É sem dúvida um dos homens da minha vida. Falta ser o homem na minha vida.

Não há regra sem excepção

Não tencionava publicar aqui os poemas que escrevo. Essa é a regra. E esta é a excepção:

Só na Saudade

Um olhar que me despe,
Umas mãos que me tomam.
O sol a nascer para leste
E as horas, lentas, demoram.

O beijo mais doce, quente,
O abraço mais forte de ti,
A chama de um olhar ardente,
O mais que alguma vez senti.

Um outro corpo que é meu
Apoderando-se de mim
E eu, sendo corpo que é teu.

Volta um dia, mas só assim.
Antes a cama vazia e eu.
Não voltes se não for para mim.

Como é excepção, desculpem, mas é sem comentários.

Vivo No Sonho

E volto às minhas próprias palavras para tentar andar para a frente, apenas para esbarrar com a impossibilidade de me libertar. Desculpem-me, é maior que eu. A lógica não seca o amor. Escrevi há dias na resposta a um comentário: "Antes a luta contra todos os muros e barreiras, e a dor da impossibilidade do caminho. Também custa, claro. Mas pelo menos pode-se lutar e pode-se gritar de revolta contra algo tangível. Eu, neste momento, não sei nada. Nem por onde quero ir, nem se posso, nem se luto, nem se esqueço, nem se aguento, nem se morro de amor, nem se me matou já a dor."

E de repente, percebi que não estou a viver uma história de amor, ou desamor. Ele e o que sinto, e o que vivo em volta dele, são apenas construções mentais. Não são reais. Não têm existência, porque não há substância. São sonhos. O que existe é apenas meu: o amor que sinto e alimento com essas construções mentais, que por isso não é nada. E não vale a pena morrer por algo que não é. E assim, devia conseguir desconstruir na mente o suporte que alimenta o sentimento. Mas não consigo.

O amor só pode "ser" quando se alimenta de amor. Não quando se alimenta de futuros que não existem, ou de ilusões - mesmo que muitíssimo bem articuladas na lógica da mente, ou mesmo que muito vívidos os sonhos, real e físico o cheiro de um ausente que me invade pelo nariz. Será realmente amor aquilo que sinto? Tem de ser menos, muito menos. Talvez seja apenas uma semente, cuja angústia é não ter onde beber para "ser" o que podia germinar. E a minha luta é encontrar razões para esquecer a semente enterrada na terra, e deixar de espreitar todos os dias pelo rebento verde a subir acima do nível do chão. E deixar de a regar com aquilo que nunca poderá fazê-la germinar. Só a chuva que não controlo, que é dele, e que teima em não cair ali, pode, eventualmente, fazer a semente germinar. E se não chover, a semente há de apodrecer, secar enterrada na terra fértil. Um desperdício, sim. Mas a terra continua fértil, e não pode deixar de chover um dia. E a semente que receber essa chuva há-de germinar para "ser". E então eu não a deixo secar.

Queria poder escrever apenas adeus. E dizer-lhe: adeus meu amor ou minha dor, adeus ilusão. Não és nada, não existes, a não ser nas minhas lágrimas. Lágrimas que vão da minha alma aos meus olhos. Mas dos olhos teimam em não escorrer. Lágrimas que não quero, não consigo chorar. Para não secar, não gritar a despedida. Porque posso construir todas as lógicas de desconstrução, posso escrever todas as palavras de adeus, mas não te posso tirar de mim, não consigo deixar-te ir, não consigo não sonhar, não consigo não te cheirar. Não consigo chorar nem deixar de te chamar meu amor. Sou fraca, ou muito burra, e muito triste. Não posso gritar contigo, que me largues, que te vás. Porque não estás aqui, mas estás em mim, de onde não te consigo arrancar. E não te esqueço, nem aguento, morro mesmo de amor, mata-me um dia essa dor. E só assim morrerás também - comigo.

Mas não quero morrer. Por isso, fecho a porta devagarinho, deixo-me deslizar pelos lençóis, fecho os olhos com vontade de te encontrar em mim, de te cheirar de novo, a cada noite antes de adormecer e nos sonhos que acalento. E só te consigo dizer: até amanhã meu amor. E cada despertar desses sonhos, que custa na tua ausência, dói precisamente no sítio onde estás – dói em mim. És de mim e não me posso libertar, porque morria se te tentasse matar. E assim, sonho.


PS: Encontrei o que melhor descreve o que são estes sonhos para mim aqui, num blog de que sou completamente viciada, onde releio muitos textos, e este especialmente. A "estranheza" aí referida é tal e qual, misturada com a doçura. Foi também uma "estranheza", de outro género, que me matou assim, e de que hei de poder falar um dia.

Só Palavras

Juro que vejo alguma coisa brilhar nos olhos dele quando os nossos se encontram. Juro que vejo nele uma profundidade de inteligência e sensibilidade pouco usuais. Juro que sinto um elo de destino e de predestinação. E juro que as despedidas têm sempre qualquer coisa de especial. Não, não me peçam para explicar, que não encontro as palavras. Sempre que sei que o vou ver, não consigo comer, fico numa agitação, doi-me o estômago, borboletas na barriga. Quando o vejo dá-me um tremor por dentro que me gela. Fogem-me as palavras que imaginei que ía dizer-lhe. Por isso tenho pavor dos silêncios que antecipo para a "próxima", e que não sei como vou encher. Absorvo tudo o que diz e comento na minha cabeça sem coragem de abrir a boca. Não consigo soltar uma gargalhada, cristalizo um sorriso indefinido. Fujo dos olhos dele, escondo os meus, sempre sentindo onde queima cada olhar que poisa em mim e nele. Vivi com ele uma coisa especial e única, mas sinto-o um estranho que me conhece demais. Sinto-me vulnerável, frágil, exposta. Mostro-me forte, displicente e distante. Ainda que mal nos toquemos, fico com o cheiro dele preso no nariz. Se nos tocamos, se dançamos, explode o desejo e, por uns momentos, não sei por onde ando a pairar. Depois despenho-me. Anseio pela despedida que não quero, para respirar fundo, já passou, sobrevivi. E depois consumo-me numa noite de insónia, de tristeza, de ausência, de revolta e angústia que me vira o estômago do avesso. Vou ficar com uma úlcera em breve. Acordo a maldizer a minha sorte, o meu destino. Zango-me com ele, mando-o embora dos meus pensamentos. Racionalizo, congelo. Anuncio que acabou, que não penso mais nele, que não quero mais nada. E logo a seguir estou a vê-lo a materializar-se em todo o lado e a pensar quando será que volto a encontrá-lo, e o que irei ver naqueles olhos, e se ouvirei finalmente a palavra, e se ele me estende a mão. E depois sei a data e começa tudo de novo...

O que é isto, realmente? Sabe a amor, tem o travo da paixão. Não faz sentido, não tem lógica. Mais uma prova... Leva-me onde? De data em data, de encontro em encontro, de olhar em olhar, de vôo em vôo. De esperança em esperança, de desgosto em desgosto, de fuga em fuga. Tem-me presa num limbo estúpido e atira comigo ao chão. Enlouquece-me, enfurece-me, desalenta-me. Mas alimenta-me. O amor é a maior loucura e a maior crueldade que podemos fazer ao nosso coração. Faz-nos tão loucos que queremos sofrer porque não o queremos perder. Isto era para tentar encontrar o caminho. Que comboio ou avião apanhar. Não chego lá, não decifro. Ou já embarquei. Outro dia se verá.

Há janelas


Tenho alma, sou mais que um corpo, valho muito mais do que uma ilusão de amor.

Sei ser "feliz qb", não sozinha, porque preciso do meu filho e dos poucos mas bons amigos que tenho. Mas falta-me amar um homem e ser amada por ele na mesma proporção, com total reciprocidade.

Não acredito poder ser totalmente feliz sem essa companhia. É uma necessidade absoluta, que pode ser uma fraqueza, pode ser absurda, mas é minha. Não quero ainda desistir de encontrar esse alguém com quem possa construir um novo projecto de vida a dois, aliás, a três – porque tenho um filho - ou até a quatro, como recentemente realizei, surpresa, ao ponderar que não quero fechar a porta à hipótese de ter mais um filho. É isto que quero para mim, para a minha vida.

Estou triste, profundamente, porque sei que me entreguei desmesuradamente a quem, racionalmente, friamente, não pôs o mesmo no outro prato da balança. Mas é assim por qualquer coisa mais forte que eu, uma coisa tão forte que rebentou comigo por dentro.

É difícil lidar com o facto de que ele não me quer com a mesma intensidade, no mesmo registo, ou sequer num registo compatível. É difícil não perceber exactamente qual é o registo dele, porque nada é claro, nada é consequente nas suas atitudes, há um travão qualquer que eu não entendo. É difícil não encontrar sentido a isto.

Desalenta-me sentir uma culpa sem culpa. Sinto culpa porque sinto que me fiz mal a mim própria, entregando-me desta forma na alma, e fugindo dele na vida. Sinto culpa pelo mal que me faço a mim própria agora, não me libertando desta coisa absurda que me impele para ele, em sonhos, em pensamentos, em escritos, numa entrega, como dizia, desmesurada.

Mas sinto também que me devo a reserva do direito de não me deixar ir para algo que é menor do que o que quero, é menor do que o que mereço. É disso que fujo e agora entendo. Por isso, reservo-me o direito de sofrer a minha paixão em silêncio, ao longe, até se desvanecer ou até ele a merecer, e a procurar, claramente e sem rodeios, assumindo os riscos comigo.

Detesto meias-palavras, meios-tons, insinuações e inuendos contraditórios. O Amor não pode ser cinzento, não quero um mundo cinzento e não me deixo ficar cinzenta. E não tenho lágrimas, procuro janelas de côr.

Anjo Caído


Desci ao inferno e voltei. Qual Anjo caído, perdendo as asas, agonizei. Mas o fogo do inferno, apesar de infernal, é fogo. E o fogo, apesar de brutal, é purificador eterno.

As penas das asas chamuscadas cairão, e outras em seu lugar nascerão. E estas asas sabem que só vão voar quando o momento certo chegar. E este Anjo caído e retornado sabe que não pode viver atormentado.

Guarda na alma a semente de uma coisa bonita de essência, e entrega ao tempo e aos elementos da vida que não lhe pertencem, a germinação de uma qualquer existência.

E as penas crescem devagarinho, e a alma eleva-se de mansinho.

Voará um dia. Mas ao inferno não cai mais.

Quero asas


Deu-me para ouvir Lenny Kravitz... Não precisava de ir tão longe para ver a Via Láctea ou Marte. Bastava-me ir ali a Bazaruto, ou ao Mussulo, Hawai, Caraíbas, uma ilha tropical qualquer. Só precisava de ser longe, muito longe, e voar alto, muito alto. Ter o mar como pano de fundo, e o som das ondas a embalar-me, um calor de corpo e alma, dentro do abraço que quero tanto, para disfrutar de um pôr-do-sol assim, e perder-me nuns certos olhos depois do sol descer a linha do horizonte.


Tenho uma coisa pelo pôr-do-sol... E hoje o que sinto cá dentro é que quero mesmo ir à procura deste pôr-do-sol, e desse abraço, e desse olhar. Conheço o abraço, conheço os olhos, deixei fugir, fugi de mim. Mas agora quero voar, sem paraquedas, sem medo de caír. Ele está ali mesmo, afinal à espera, simplesmente, que eu deixe as minhas asas abrirem-se, e me deixe ir, com ele, a voar ao sabor do vento, entregar-me aos elementos, sustentada na leveza do que sinto e com a força do abraço dele, sentido.

E hoje quero a força de acreditar que tenho asas e posso voar.

Canção em Modo Menor - Viniciús de Moraes

Porque cada manhã me traz
O mesmo sol sem resplendor
E o dia é só um dia a mais
E a noite é sempre a mesma dor
Porque o céu perdeu a cor
E agora em cinzas se desfaz
Porque eu já não posso mais
Sofrer a mágoa que sofri
Porque tudo que eu quero é paz
E a paz só pode vir de ti
Porque meu sonho se perdeu
E eu sempre fui um sonhador
Porque perdidos são meus ais
E foste para nunca mais
Oh, meu amor
Porque minha canção morreu
No apelo mais desolador
Porque a solidão sou eu
Ah, volta aos braços meus, amor

Divagação – O Tempo

As crianças não sabem medir o tempo. “Amanhã” é apenas um futuro qualquer, e “ontem”, quando lá chegam, é qualquer coisa lá atrás, sem data. O meu filho já começa a perceber melhor a cadência dos dias, dos fins de semana, e até já tem alguma noção do que são “minutos”. Às vezes, quando está à espera de alguma coisa, pergunta-me se ainda vai levar “muitos minutos”. E por vezes vejo claramente que essa incerteza de não ter um relógio, ou um calendário, o angustia. Então pergunta-me o que vamos fazer, o que vai acontecer, ao longo desses minutos ou dias da espera. Eu vou respondendo e ele ele vai perguntando “e depois?”, até chegar ao momento em que lhe digo que vai acontecer aquilo por que anseia.

Há uns tempos, comprei-lhe a máscara para o Carnaval. Deu para querer ser um tigre (apesar do tema do colégio ser a Astronomia...), mas o mais parecido que consegui foi uma máscara de leopardo. Lá vendi a ideia e ele todo entusiasmado queria logo vestir a máscara. Tive que lhe explicar que era só para 6ª feira e ele a insistir que ía usar “amanhã”. E eu a explicar que não – que “amanhã” era 5ª feira, e só no dia seguinte é que era 6ª feira. E ele, coitadinho, com um ar um bocado perdido a olhar para mim, muito sério, remata num tom de “matter of fact”: “Amanhã é quinta feira”...

Olhar para o calendário e contar dias, funciona bem para coisas práticas, ajuda-nos a gerir as angústias da espera, ou a enfrentar com maior facilidade tarefas que temos pela frente, dá-nos metas concretas. Mas quantas vezes “perdemos noção do tempo”? Quantas vezes olhamos para uma semana, um mês, um ano, e nos chocamos ora com a “rapidez” com que passou, ora com a “lentidão” que lhe sentimos? Todas as semanas têm os mesmos 7 dias, todas as horas os mesmos 60 minutos, todos os minutos os mesmos 60 segundos. E no entanto, há momentos de segundos que parecem durar uma eternidade, e horas ou dias que parece que simplesmente desapareceram no pó que levantaram, de tão rápido que correram por nós.

O tempo cronológico, ou físico, não é o que vivemos. Nos últimos meses, para mim, o tempo passou a correr. O “momento” que marca essa alteração de ritmo no meu tempo está-me ainda tão próximo, tão presente.

Pergunto-me porquê, porque é que fiquei outra vez presa lá atrás. E sei porquê. Porque ainda não tive o “amanhã” desse dia, porque revivo aquele tempo a toda a hora numa expectativa do “e depois?”, como o meu filho. E por mais que vá acrescentando perguntas de “e depois?”, não tenho resposta, não tenho ideia do que está a seguir, ou de onde está o que queria a seguir, aquilo de que estou à espera e que queria saber “quantos minutos” faltam para chegar. Não fechei o tempo. E não só.

Por mais lógicas e razões que vá destilando, por mais que vá verbalizando e tentando interiorizar que o tempo físico fechou em si mesmo o que queria encontrar, no fundo, no fundo, continua lá qualquer coisa dentro a gritar que não é verdade, não é possível, que ainda há tempo. E que há Destino. E alguns desenvolvimentos vão acontecendo, de tempos a tempos, para me manter ali. E então lá vou eu passear pelas minhas memórias, pelo meu tempo ido, a recordar os meus mortos e os meus fantasmas, se calhar de maneira a que não tenha de acordar para hoje, de maneira a que consiga permanecer ali, naquele momento em que tudo ainda é possível, em que ainda não se sabe o que traz o amanhã. Que não sei se já passou.

Como tudo mais, o tempo é uma questão de perspectiva... E de teimosia.

Pérolas do Dicionário - "Amor"

“do Lat. Amore, s. m.,
viva afeição que nos impele para o objecto dos nossos desejos;
inclinação da alma e do coração;
objecto da nossa afeição;
paixão;
afecto;
inclinação exclusiva;”

E a gente faz mais disto porquê?........

Ele é perdição, tormento ou total felicidade.
Ele é sentimento supremo, avassalador ou apaziguador.
Ele é borboletas na barriga, lágrimas fáceis, sorrisos parvos.
Ele é um monte de poemas, rosas vermelhas e serenatas à lua.
Ele é beijos quentes, abraços apertados e mãos entrelaçadas.
Ele é ciúme, tristeza e desilução.
Ele é medo, tremores e coragem.
Ele é vida, morte e além-morte.

E nós nas mãos dele somos o que ele quiser, e sem ele não somos nada.

Poesia de Ary dos Santos, meu sentir, minhas lágrimas

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

Quem me dá um abraço

O que é um abraço?

Numa definição de dicionário diz-se que é "acto de apertar alguém nos braços; expressão de afecto ou amizade".

Quantas dimensões têm os nossos afectos? Provavelmente tantas quantos os tipos de abraços que existem. Abraçar um Pai não é igual a abraçar um filho. Abraçar um amante não é igual a abraçar um amigo.

Mas não é só "afecto" - é "expressão".

Dou poucos abraços e tenho poucas pessoas, muito poucas, que me dão abraços. Não me lembro do meu Pai me abraçar a não ser numa ocasião muito especial, muito triste e muito dura, mas desse não me hei-de esquecer por mais anos que viva. Também me lembro apenas de um abraço da minha mãe, ou melhor, à minha mãe, também num momento de enorme dor, minha, que nesse instante senti que era um pouco dela também.

Abracei os Homens da minha vida, os poucos que amei, muito e tanto, mas sempre de maneiras diferentes, com medidas diferentes.

Não sei abraçar os meus pais, os amigos, e perguntava-me se hoje ainda saberia abraçar um homem, porque mesmo que voltassee a amar algum, iria ter de reaprender a "expressar" esse amor.

Só sei realmente abraçar o meu filho, que amo e sei dizer, sei mostrar que amo. E sei que gosto muito quando a minha mana me abraça. Não sei se a sei abraçar de volta, mas gostava de pensar que sim. O afecto está lá, mas a expressão é que custa.

O acto de abraçar alguém, de "apertar alguém nos braços", oferece uma proximidade tremendamente assustadora, tremendamente íntima, para mim. É expor o coração, no meio do peito aberto, a um contacto que tenho medo que me possa ferir.

Afinal, tenho muito ainda que curar em mim, tenho muito ainda para aprender. Mas tenho muito, ainda, para dar.

E depois de escrever isto, veio a insónia... Passei uma noite a pensar na distinção entre o "sentir" e o "expressar". Pensei: será que ainda sei realmente sentir? Será que ainda saberei amar?

Queria saber responder. E um dia, tempos depois, um homem entrou na minha pele e na minha alma, não sei de onde, não sei porquê, e dei por mim num abraço, bom, apertado, sem defesas, numa entrega que teve tanto de mágico como de absurdo. E depois, o medo, o susto, a ferida re-aberta, num repente insano. E deixei-o de fora, não soube mostrar-lhe o porquê. Neguei-lhe o abraço. E cá ando até hoje com ele impregnado em mim, estranhamente apaixonada, mas à distância... de um abraço.

Por isso, acho que, mesmo passado tanto tempo, mesmo feito tanto caminho ao longo dos últimos meses, realmente já não sei amar, mesmo quando me apaixono, porque não me sei dar sem reservas por mais do que uns poucos momentos que dura o ímpeto da química, da mágica, da paixão.

E o pior é que eu queria tanto dar esse abraço, abrir o meu coração, mais do que os braços, e tenho tentado tanto, e não consigo evitar a antecipação da dor. E assim me prendo a uma outra dor.