Muito bem. Assumi o risco, abri-te a porta. Tu foste entrando. Devagar, fui-te deixando puxar as pontas do meu emaranhado próprio e único, talvez um pouco assustador, eu sei. Não tiveste medo e disse-te: Toma. Dou-te. Está tudo aí. Grandezas e miudezas, grandiosidades e pequenezas, bons e maus, claros e escuros, sopros e ventanias, sussurros e gritos, certezas e dúvidas, alegrias e angústias. Mas espera... tens de puxar os fios todos. É que enredada no emaranhado por desfazer eu sei viver. Solta dele, um dia, talvez seja mais feliz. Mas a meio não. Se só puxas uns quantos fios, conforme o que te agrada ou te convem, eu puxo de volta. E sabes?... Pôr-te os fios todos na mão, até os que me custam mais, que me prendem mais, é acto de fé, e de coragem. É despir-me. É dar-me. Sim eu sei... É o tudo ou nada. É corpo “e” alma que te dou. É um dar que não me faz sentido quantificar. Não é muito nem pouco. É dar, simplesmente.
Toma. Dou-te. Aqui está. Sou eu. Toda de mim. Vê bem agora se me queres assim, toda, ou larga os fios que te sabe bem puxar. Fazes-me mal assim. Tenho frio.
"Destilar", cientificamente, é "separar componentes químicos que constituem uma substância através de vaporização seguida de condensação". Serve para muita coisa, nomeadamente, para produzir bebidas espirituosas. Aqui, é uma tentativa de purificação da mistura de tudo o que sinto, penso e vivo. A aguardente do que sou.
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Metamorfose
Disserto aqui sobre o que fazer ao “(des)” do meu nick, que urge fazer desaparecer. Não só porque estou hoje onde não estava há um ano atrás, mas também, como me alerta um amigo, porque não poderei estar onde quero daqui a outro ano enquanto ali estiver o desafio da negatividade. No entanto, não quero simplesmente retirar o “(des)”, pois não gostava de ter de o voltar a instalar, e não sei o que me reserva a vida. O encantamento comporta também essa turtuosa ameaça de poder ser passageiro.
Passaram-me diversas alternativas pela cabeça, discuti algumas (obrigada mana, pela paciência!), e até disparatei com alguém ao ponto de chegar a pensar em combustíveis e inflamáveis, pelo que passaria a ser qualquer coisa como “Princesa Sem Chumbo 73”.
Princesa fica, que quero mesmo ser Princesa, e sou Princesa de muitas formas, e quero ser tratada como tal um dia pelo Príncipe que hei de encontrar (se não encontrei ainda...). Não quero usar o meu nome próprio, por isso também não quero usar outro nome próprio, que me sentiria enganadora. Assim, “Esmeralda”, a minha pedra preciosa favorita, ou “Clara”, em alusão a clareza, claridade e luz, não servem. Diz que tem de ser alguma coisa doce, que me reflicta de alguma forma, e lá percorremos as despensas e livros de receitas à procura de inspiração. Surge a baunilha, côr da pele em gelado, surge o praliné, muito doce e dourado, surge o merengue, branco, doce e leve, e quase me tento por “Princesa Merengada”.
Divagando também por outros caminhos, e em alusão a uma “private joke”, também me tentei com “Princesa Vesúvio”. Depois desisti, que ía ter muito que explicar... O que quero é ser Princesa que encante e que se encante, sempre e para sempre, mesmo que seja aos bocadinhos de cada vez. E acabo por quase resolver que passo simplesmente a “Princesa dos Encantos”. Mudava uma só letrinha e desapareciam os parêntises, mas fazia toda a diferença... Só que gostava, se possível, que tivesse a ver com destilar. Então, surge “Moscatel”, um doce destilado, dourado e enebriante, que ainda por cima é de Setúbal (e porque é que isso é relevante, agora não interessa nada). Quase, quase desisto, balanço com a hipótese dos encantos, mas depois decido-me e sou a partir de hoje, também como um acto de fé, a “Princesa Moscatel”.
PS: Depois descobri que é um "licoroso" e não exactamente um "destilado", mas isso agora também já não interessa nada!
Passaram-me diversas alternativas pela cabeça, discuti algumas (obrigada mana, pela paciência!), e até disparatei com alguém ao ponto de chegar a pensar em combustíveis e inflamáveis, pelo que passaria a ser qualquer coisa como “Princesa Sem Chumbo 73”.
Princesa fica, que quero mesmo ser Princesa, e sou Princesa de muitas formas, e quero ser tratada como tal um dia pelo Príncipe que hei de encontrar (se não encontrei ainda...). Não quero usar o meu nome próprio, por isso também não quero usar outro nome próprio, que me sentiria enganadora. Assim, “Esmeralda”, a minha pedra preciosa favorita, ou “Clara”, em alusão a clareza, claridade e luz, não servem. Diz que tem de ser alguma coisa doce, que me reflicta de alguma forma, e lá percorremos as despensas e livros de receitas à procura de inspiração. Surge a baunilha, côr da pele em gelado, surge o praliné, muito doce e dourado, surge o merengue, branco, doce e leve, e quase me tento por “Princesa Merengada”.
Divagando também por outros caminhos, e em alusão a uma “private joke”, também me tentei com “Princesa Vesúvio”. Depois desisti, que ía ter muito que explicar... O que quero é ser Princesa que encante e que se encante, sempre e para sempre, mesmo que seja aos bocadinhos de cada vez. E acabo por quase resolver que passo simplesmente a “Princesa dos Encantos”. Mudava uma só letrinha e desapareciam os parêntises, mas fazia toda a diferença... Só que gostava, se possível, que tivesse a ver com destilar. Então, surge “Moscatel”, um doce destilado, dourado e enebriante, que ainda por cima é de Setúbal (e porque é que isso é relevante, agora não interessa nada). Quase, quase desisto, balanço com a hipótese dos encantos, mas depois decido-me e sou a partir de hoje, também como um acto de fé, a “Princesa Moscatel”.
PS: Depois descobri que é um "licoroso" e não exactamente um "destilado", mas isso agora também já não interessa nada!
Voltei
Estou de volta, mas sinto-me de partida. Vou andando por aí e algumas linhas mais consequentes hei de escrever em breve. Levantei muita poeira nesta ida, e a aterragem da volta não foi suave. Está cá tudo na mesma, claro, nem esperava outra coisa. Mas sei que este respiro foi bom, muito bom, mesmo no inesperado que trouxe, ou talvez ainda mais por esse inesperado. E sinto-me cheia de força. Trouxe coisas novas na bagagem, algumas brutalmente esclarecedoras, mas deixei para trás umas quantas outras. Valeu a pena, valeu cada minuto e cada raio de sol, cada caminhada na areia e cada descoberta. E foi um privilégio o vislumbre de almas novas com quem me cruzei, que de uma forma tão simples, mas tão pura, me fizeram entender tanta coisa de mim e da vida. E de por onde quero ir.
Primeiro o verbo
Olho para esta página que quero encher e luto por encontrar o fio à meada dos meus pensamentos e sentires que se entrelaçaram e enovelaram, numa massa disforme e indistinta, mas de côr intensa e tamanho enorme. Quero puxar a ponta do fio e devagarinho desembaraçar a confusão de fios que são o mesmo fio em nós e voltas sobre si. Procuro o princípio, o primeiro verbo e o seu modo perfeito.
A página branca é oportunidade e desafio. Duas pontas. Não serve. A página branca é uma promessa de futuro, incerto e desconhecido, que não será uma página branca nesse futuro, será página tingida de linhas, os fios arrumados em palavras e frases direitinhas.
É isso que é agora a minha vida: uma página branca onde tenho de arrumar o fio do novelo que quero escrever. De repente, o tal tsunami de que aqui falei, apesar de ter trazido momentos de angústia, empurrou-me para a frente, fez-me voltar a página. De facto, estou agora capaz de, e capacitada para, fazer coisas que há muito adiava. Nos próximos meses, substitúo o escritório pela Universidade. Faço duas coisas de uma assentada: livro-me de um trabalho que não me realizava, onde não estava satisfeita profissionalmente, ainda me pagam para isso, e volto a estudar para resolver o handicap do meu background académico. Escrevi aqui há meses que queria ir fazer uma pós-graduação mas que não via como conciliar mais uma exigência na minha vida já tão atribulada. Eis que o destino me resolve o problema, pondo-me no bolso o que chamo de “mini-lotaria” e libertando-me o tempo. Não é a melhor forma de o fazer, mas é uma forma de o fazer, e sei que tenho de aproveitar a oportunidade. É agora ou nunca e este investimento em mim vai também permitir-me redireccionar a minha carreira profissional para uma área que sei que me satisfará muito mais. Paga é menos, em geral, e foi mesmo esse o factor essencial para me manter tanto tempo onde estava.
Mas agora, que o tsunami me fez perspectivar a relevância de algumas coisas, sinto-me tranquila na aceitação de que dinheiro nenhum no mundo paga o sentimento de realização pessoal, de orgulho no trabalho que produzimos, desde que as coisas básicas estejam asseguradas, naturalmente.
Está verdadeiramente tudo em branco, tudo em aberto. E eu senti-me crescer com isto, como uma bola de neve que foi ganhando tamanho dentro de mim. Cresceram as minhas vontades, as minhas certezas, as minhas verdades. Ainda estão um bocado desorganizadas, ainda não as encaixei perfeitamente num novo esquema mental, em gavetas arrumadas. Mas sinto-as. Também tenho medo, sim, sobretudo porque embarco nesta aventura de destino incerto com o meu filho. Mas também para ele sobra para já mais tempo, e sobra uma mãe mais feliz e disponível para embarcar nas suas intermináveis e inenarráveis produções cinematográficas. O resto virá. E tenho consciência de que nada nos faltará e sei que, infelizmente não é assim para todos os que apanham com estes tsunamis privados.
Quero olhar para esta página branca como uma benção, a segunda oportunidade que muita gente não tem na vida. Quero escrevê-la toda de linhas que, no fim, façam mais sentido do que as linhas que deixei em páginas anteriores de mim. E de repente dei comigo já a fazer o caminho, com os dias preenchidos de milhares de coisas de que ando a tratar, e a começar a ver traduzidos em factos concretos, papeis e carimbos, o princípio do que era até há um mês atrás apenas um sonho, um desejo, que impassivelmente me resignava a não prosseguir, que julgava não poder realizar.
O verbo é mesmo começar. O modo é o presente, primeira pessoa do singular – eu começo.
PS: De pura ironia, é que a empresa de onde saí bloqueou ontem o acesso aos blogues. Sem isso é que eu não tinha lá sobrevivido!...
Making the skies blue

Acontece às vezes uma sensação de ter passado uma barreira invisível qualquer, de ter chegado a um novo destino, um sítio que nos é encantadoramente estranho, desconhecido por explorar. Nos últimos dias, quase parece que não estou a viver a minha vida e hoje vi-me no espelho com um sorriso logo pela manhã (embora tardia...). Sinto-me leve, sinto-me chegada a um novo lugar, a começar uma nova etapa cheia de energia e sentimentos positivos. Já não sinto cansaço da viagem que fiz até aqui, apenas o cansaço bom de dias cheios, de coisas plenas e promessas de dias ainda melhores. Sinto-me alegre - é isso. E apesar de ter tentado sempre manter um certo bom humor, apesar dos altos e baixos ao longo deste ano, acho que é a primeira vez em muito tempo em que sinto verdadeiramente alegria. Alegria de ser e de viver.
Hoje há núvens no céu lá fora, mas nenhuma me chega a ensombrar. Olho para fora da janela sem me importar que não seja um dia perfeito de Verão, porque é um dia perfeito para mim. Todos os dias quero sentir que é cada dia mais um momento perfeito de vida para desfrutar. Todos os dias quero sentir esta certeza de estar num bom lugar e no caminho certo para chegar mais longe, mais alto, mais plenamente em mim. Todos os dias quero segurar firmemente a decisão de limpar o céu de sombras e tristezas e ter força para continuar a acreditar que o meu destino é feliz, ainda não chegou, mas vai chegar.
Espelho meu
Há um reflexo no espelho à minha frente. Ali está a imagem de mim. Redescubro os meus traços e contornos. Era menina de sardas, agora mulher madura. As sardas estão lá ainda, menos óbvias no rosto. A menina ainda brilha nos olhos. A mulher vincou-se em algumas pequenas rugas de expressão. São marcas do que ri e do que chorei. Do que vivi, intensamente. Apanho o cabelo para me olhar melhor. Já fui adolescente, depois projecto de mulher, com o cabelo muito curto num impulso de rebeldia. Ficava-me bem, lembro-me. Mas a minha avó chorou - adorava o meu cabelo. Solto-o e sinto-o envolver-me os ombros e cair até quase meio das costas despidas. Gosto do meu cabelo assim, bastante comprido e solto, caido numa leve revolta, não rebelde. Observo o meu corpo que já adquiriu um leve tom de Verão. Nunca bronzeia, apenas doura. Continuo a ver-me tão menina, talvez pela magreza de que sempre fui vítima. Já foi demais, já foi tormenta. Hoje é a certa para mim. Há quem a inveje e quem me queira fazer engordar. Eu gosto assim. Sortes e destinos. Penso em equílibrios divinos. Mais disto, menos daquilo. Hoje percorro as minhas curvas, que já não são de menina franzina nem de adolescente espigada. Também têm algumas marcas do meu percurso de mulher. Uma cicatriz de mulher feita mãe, num ventre que adquiriu já contornos tão diferentes para gerar vida e para a soltar se cortou. E fica a marca, cada vez mais ténue, cada vez mais minha, e o desenho da cintura voltou. Como é espantoso. Curva de destino. Apesar de tudo, reconheço ainda o meu corpo, mantenho até as mesmas pernas que não parecem, ainda, querer envelhecer. Sorte ou azar. Estes são os caminhos que os meus homens percorreram em mim, com os dedos por cabelos ora curtos ora longos, por esta pele ora branca ora dourada, ora antes ora depois de cada ruga e cada cicatriz. Engraçado, parece-me que nos sentimos mais no toque dos outros. O tacto dos outros desenha-nos, faz-nos sentir a existência da pele, materializa-nos os limites do ser. Como também nos vemos tantas vezes pelos olhos dos outros, e tantas vezes nos perdemos por nos significarmos apenas aí. Hoje o espelho é os meus olhos, penso. As minhas mãos, os meus dedos, o meu próprio sentir de mim. E olho-me, e sinto-me. Desenho-me e delimito-me. E sorrio. Não é perfeito o meu rosto, nem o meu corpo. Mas eu gosto de mim assim. Tenho-me ali no espelho, todos os meus antes e depois, e só eu me tenho sempre a mim. Vesti a minha pele.Corpo ou Alma
Quem me vê não sabe. Quem me ouve a fala e o riso não me alcança. Só quem me lê as palavras que não digo consegue construir o meu mapa. Quem me vê a roupa e o corpo faz-me um ser material que não existe. Quem me lê a alma faz de mim um ser virtual que é o meu ser real. E, salvo raríssimas excepções, não consigo mostrar o meu mapa, a minha alma, o meu ser real, a quem me vê roupa e corpo, me ouve palavras e risos. A quem não consigo confiar as lágrimas, não posso levantar o véu. E a quem me viu a alma, não posso vestir o corpo. Corpo e alma sou só para mim, na minha intimidade impartilhada. Alma sou aqui – palavras e textos de dentro de mim. Corpo sou na vida – existência física que guarda oculta a essência de mim.Não há como misturar as duas coisas sem um cimento de mais do que mera curiosidade. Entregar a alma a quem vê o corpo só quando há um sentimento muito forte, uma confiaça cega, uma intimidade conquistada, que tornam natural que se levante o véu. E vice-versa – entregar o corpo a quem viu a alma só se há sentimento e confiança suficientes para acreditar que a materialização da alma em corpo não corrompe nem substitui a imagem da primeira pelo segundo.
Serei sempre esta dicotomia com quase todos os que passam na minha vida. Protejo a essência com o anonimato do nome e do corpo, e protejo o corpo pondo a alma na sombra. Faço mal, dizem-me. Devo revelar-me mais aos que estão na minha vida, à minha volta. Mas esse caminho que tenho feito não se tem revelado nem fácil nem seguro. E a cada revés que me acontece, mais me convenço que há quem não mereça mais que isso de mim – a alma na sombra, as dores ocultas, a minha essência protegida. São poucos, muito poucos, os que me merecem por inteiro, e eu inteira sou o meu mais precioso tesouro, que tenho de guardar para quem mereça e reconheça, e aprecie, e na volta me enriqueça. Prezo os tesouros desses poucos que me vêm inteira e se mostram inteiros, tanto mais valiosos quanto mais raros são. Só nesses poucos confio, e guardo essa confiança como uma pedrinha na mão.
Lógica Feminina I

Para equilibrar as coisas, propus-me escrever umas linhas sobre a lógica feminina, não como reflexo total daquilo que penso, e rebato argumentos muitas vezes, mas como resumo daquilo que vou ouvindo e vendo de outras mulheres à minha volta.
Mas, na verdade, tive de desistir, porque afinal, bem vistas as coisas, em alguns aspectos a minha lógica não andava assim tão longe como pensava da generalização que tentava fazer... E se fosse a focar-me apenas naquilo que não me reflecte de forma nenhuma, sobrava pouco, e não estava a ser justa. Acabei por perceber que há muito destas “lógicas”, masculinas ou femininas, que são muito principalmente coisas geracionais. Por isso o que é hoje a “regra” nas mulheres da minha geração, pode bem sê-lo assim apenas pelo “momento comum” que atravessamos. Talvez por isso nos choquemos, colectivamente, com as diferenças de padrão que observamos nas mulheres de outras gerações, sobretudo as mais novas, ou com as mulheres da mesma geração que “fogem à regra”.
Afinal, até sou bastante mais “feminina” de lógica do que pensava... Mas percebi que gosto de ser tão feminina quanto sou, e sei que não deixo de ter as minhas originalidades que são aparentemente inconsistências, desvios da regra da geração, mas de que gosto cada vez mais. É que é isso que me distingue, é isso que me dá a consistência de ser individual e único, em cada momento do tempo. E pronto, o blog é meu, e aqui destilo o que me apetece, e agora não me apetece pensar muito em como é que consigo retorcer algumas coisas tão simples em argumentos tão elaborados, absolutamente convicta da minha originalidade.
Lembrei-me de uma tia de há umas quantas gerações, que é para mim um ícone de feminilidade, e que tinha uma frase “de marca” que eu acho absolutamente brilhante. Em qualquer discussão ou argumento em que fosse vencida pela razão dos outros, com a mesma fleuma de sempre, terminava a dizer “Em todo o caso.”. Simplesmente, educadamente e sem qualquer indício de arrogância, sem indiciar que acrescentaria mais nada, e com um tom que não admitia mais discussão. Não era possível ganhar-lhe... Essência de ser mulher, com uma boa dose de originalidade. Assim serei eu também, e talvez um dia deixe por aí uma frase dessas para a posteridade.
Mas, na verdade, tive de desistir, porque afinal, bem vistas as coisas, em alguns aspectos a minha lógica não andava assim tão longe como pensava da generalização que tentava fazer... E se fosse a focar-me apenas naquilo que não me reflecte de forma nenhuma, sobrava pouco, e não estava a ser justa. Acabei por perceber que há muito destas “lógicas”, masculinas ou femininas, que são muito principalmente coisas geracionais. Por isso o que é hoje a “regra” nas mulheres da minha geração, pode bem sê-lo assim apenas pelo “momento comum” que atravessamos. Talvez por isso nos choquemos, colectivamente, com as diferenças de padrão que observamos nas mulheres de outras gerações, sobretudo as mais novas, ou com as mulheres da mesma geração que “fogem à regra”.
Afinal, até sou bastante mais “feminina” de lógica do que pensava... Mas percebi que gosto de ser tão feminina quanto sou, e sei que não deixo de ter as minhas originalidades que são aparentemente inconsistências, desvios da regra da geração, mas de que gosto cada vez mais. É que é isso que me distingue, é isso que me dá a consistência de ser individual e único, em cada momento do tempo. E pronto, o blog é meu, e aqui destilo o que me apetece, e agora não me apetece pensar muito em como é que consigo retorcer algumas coisas tão simples em argumentos tão elaborados, absolutamente convicta da minha originalidade.
Lembrei-me de uma tia de há umas quantas gerações, que é para mim um ícone de feminilidade, e que tinha uma frase “de marca” que eu acho absolutamente brilhante. Em qualquer discussão ou argumento em que fosse vencida pela razão dos outros, com a mesma fleuma de sempre, terminava a dizer “Em todo o caso.”. Simplesmente, educadamente e sem qualquer indício de arrogância, sem indiciar que acrescentaria mais nada, e com um tom que não admitia mais discussão. Não era possível ganhar-lhe... Essência de ser mulher, com uma boa dose de originalidade. Assim serei eu também, e talvez um dia deixe por aí uma frase dessas para a posteridade.
Conselhos

Ouve-se de tudo quando se pergunta. E às vezes sem se perguntar. Alguém me desejou que “não me mate o tempo” e, claro, deixou-me a pensar. Alguém me desejou que tenha a felicidade de realizar o sonho e, claro, pôs-me a duvidar - será sonho? Alguém questionou que eu saiba mesmo o que é amor e, claro, chocou-me e deixou-me a destilar.
De Sophia de Mello Breyner, este poema que me é muito especial, é o que sinto que é a espera do amor.
Data
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo de ameaça
Porque a espera da correspondência do amor que sentimos e queremos dar é também a tortura da esperança egoísta de receber o amor que queremos que o outro sinta por nós e nos queira dar. E enquanto passa o tempo dos dias contados, estamos ameaçados pela possibilidade de que não se cumpra o amor. Mas enquanto amamos, na nossa legítima forma própria de amar, à espera que se cumpra o amor na sua plenitude, em real, na vida, o tempo sofre-se, não se mede, e parece que não existe porque não corre dentro de nós, nem faz vacilar o amor que sentimos. Faz-nos vacilar a nós, na nossa frágil composição de retalhos do que sentimos e do que pensamos, na luta desvairada da procura da verdade e da certeza, fazendo-nos plasmar em certos momentos em algo que é enganador, que não é o que somos, que são os paradoxos que o tempo nos vai fazendo ser e experimentar, e de que às vezes precisamos para não desabar.
Amor “mesmo” é para cada um uma coisa diferente, um misto do que sentimos, do que vemos e do que vivemos. E ninguém vê o amor da mesma maneira, ninguém o sente exactamente da mesma forma, e ninguém sabe realmente o que ele é enquanto não o viver cumprido na correspondência total. E mesmo assim, será diferente para cada um. No entanto, alguns arrogam-se a clarividência de o saber, apenas porque o sofreram profundamente sem o viver, e porque acham que, de tão intenso o sentiram, a verdade que têm para si é maior que a verdade dos outros.
Eu oiço tudo mas vejo por mim, na consciência da minha verdade ser só minha e poder ser diferente em cada momento do tempo, porque sou, humildemente, ser em crescimento, em procura, em andamento.
De Sophia de Mello Breyner, este poema que me é muito especial, é o que sinto que é a espera do amor.
Data
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo de ameaça
Porque a espera da correspondência do amor que sentimos e queremos dar é também a tortura da esperança egoísta de receber o amor que queremos que o outro sinta por nós e nos queira dar. E enquanto passa o tempo dos dias contados, estamos ameaçados pela possibilidade de que não se cumpra o amor. Mas enquanto amamos, na nossa legítima forma própria de amar, à espera que se cumpra o amor na sua plenitude, em real, na vida, o tempo sofre-se, não se mede, e parece que não existe porque não corre dentro de nós, nem faz vacilar o amor que sentimos. Faz-nos vacilar a nós, na nossa frágil composição de retalhos do que sentimos e do que pensamos, na luta desvairada da procura da verdade e da certeza, fazendo-nos plasmar em certos momentos em algo que é enganador, que não é o que somos, que são os paradoxos que o tempo nos vai fazendo ser e experimentar, e de que às vezes precisamos para não desabar.
Amor “mesmo” é para cada um uma coisa diferente, um misto do que sentimos, do que vemos e do que vivemos. E ninguém vê o amor da mesma maneira, ninguém o sente exactamente da mesma forma, e ninguém sabe realmente o que ele é enquanto não o viver cumprido na correspondência total. E mesmo assim, será diferente para cada um. No entanto, alguns arrogam-se a clarividência de o saber, apenas porque o sofreram profundamente sem o viver, e porque acham que, de tão intenso o sentiram, a verdade que têm para si é maior que a verdade dos outros.
Eu oiço tudo mas vejo por mim, na consciência da minha verdade ser só minha e poder ser diferente em cada momento do tempo, porque sou, humildemente, ser em crescimento, em procura, em andamento.
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