Redescobri que gosto de côco. Uma delícia. Sei que há mais de mim para redescobrir. O problema maior é que, para (re)descobrir, é preciso (re)experimentar.
"Destilar", cientificamente, é "separar componentes químicos que constituem uma substância através de vaporização seguida de condensação". Serve para muita coisa, nomeadamente, para produzir bebidas espirituosas. Aqui, é uma tentativa de purificação da mistura de tudo o que sinto, penso e vivo. A aguardente do que sou.
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Overlap
Mas depois, somos invariavelmente enganados por nós próprios. Porque quando largamos alguém, também largamos uma coisa. Largamos a pessoa e achamos que, com ela, temos de largar a felicidade. E é difícil perceber que se pode deixar ir alguém, aceitar o fim de uma história, sem termos de nos resignar com o fim da vida como desejamos que fosse. De certa forma, a associação do nosso conceito de felicidade a alguém específico, com quem se foi feliz, leva-nos a acreditar que não o voltaremos a ser. Não nos passa pela cabeça que possa haver outro alguém, um dia, com quem possamos ser felizes de novo. E porque a condição humana nos leva, forçosamente, a procurar a felicidade, enquanto não dissociamos a pessoa da sensação que nos proporcionou, vivemos simultaneamente a aceitação e a tentativa de resignação a algo que não podemos suportar. Consequentemente, mantemo-nos ainda num patamar doloroso. Sofremos pela perda de um ideal, pela falta de felicidade, mesmo que não doa já, na verdade (por vezes não apreendida ou reconhecida), a falta de alguém em concreto.
Os “Tag Along”
Deve haver um nome certo para cada tipo de papel que nos cabe no mapa dos relacionamentos humanos que estabelecemos com o mundo à nossa volta. Recentemente, descobri o nome de um papel específico, que nem sempre é muito fácil de perceber, mas que tem tradução perfeita na expressão “Tag Along”. Esse é o papel daqueles que acompanham um grupo de amigos, não porque sejam também amigos por direito próprio, mas porque alguém os leva, e vai levando. Ao fim de um tempo, é comum os “Tag Along” acharem que ganharam espaço e estatuto próprios no grupo, podendo até acabar por achar que se tornaram amigos, que são parte do grupo. Mas raramente isso acontece realmente, pelo menos com todos os elementos do grupo. Um “Tag Along” é sempre um apêndice, que até pode ser bem vindo, e os outros até podem simpatizar com eles, mas pertencem apenas por via de um cordel de ligação a um elemento específico e, mais tarde ou mais cedo, torna-se claro para os “Tag Along” que não é com eles que o grupo se preocupa, não é com eles que o grupo quer estar. Os “Tag Along” não têm grande utilidade, são apenas acréscimos que não chateiam, toleram-se e ponto final. Mas, tal como os apêndices, quando ganham vida própria e incomodam, eliminam-se, em prol do bem estar geral.
Um desafio para 2011
A capacidade de concessão sem comprometer o fundamental.
(Por exemplo, e a começar logo pelo desejo para 2011, conceder em algumas características do homem perfeito, e ainda assim encontrar o meu Príncipe. Na verdade, prescindo facilmente de muitos dos atributos que menciono, mas independente do conjunto de características, não pode é deixar de ser um Príncipe, e tratar-me como uma Princesa.)
Adenda
Andei à procura de uma frase, de que me lembrava da ideia mas sem conseguir já reproduzir, e que tem tudo a ver com o post anterior. Mais uma citação de Antoine de Saint-Exupéry, mais uma lição do meu saudoso avô, que levei mais de 3 décadas a entender:
"O Amor é a única coisa que cresce à medida que se reparte"
Juras de Amor
As juras de amor são palavras. São frases e textos, monólogos ou diálogos, que é suposto dizerem, pelo tamanho do amor que se sente, o quanto vai durar esse amor. E quando se diz que é enorme, imenso, inabalável, e que vai durar para sempre, certamente, não se espera que morra em três tempos. As juras de amor, mesmo que de um amor sem consequência, seja por condicionantes da vida, seja por não correspondência, podem não se cumprir no tempo que demora demais, mas não podem é ser mentiras banais. O prazo é difícil de estabelecer - é certo. Não sei quanto tempo leva um amor a morrer. Sei que pode viver de nada mais do que memórias e vontade de o perpetuar por bem mais de um ano, pelo menos. Dizem que até pode mesmo durar para sempre, mas isso ainda não pude comprovar. O que sei é que, se é compreensível que comece a diluir-se, a apagar-se, depois de mais de um ano de espera sem esperança, não o é se já se foi ao fim de poucos meses. Se isso acontece, se as juras de amor só valem para três meses de ausência, então não era amor, e quem mais jura mais mente.
Lição do momento
Se a vida não servir para alguma coisa, deixa de ter sentido. E há poucas coisas piores do que cruzar os dias do calendário sem razão, sem sentido. Por isso, e também porque em geral torna mais fácil progredir, procuram-se razões. Procuram-se, quanto mais não seja, tirar lições de vida. Quando alguma coisa corre mal, sobretudo, é preciso justificar tamanha aberração, como se a vida fosse suposto ser um percurso tranquilo e nós fossemos (porque temos de ser) merecedores apenas de coisas boas. E então justifica-se o desvio com vários chavões, desde o que declara que tudo tem uma razão de ser (como se algum desígnio superior nos controlasse a vida e, ainda, soubesse bem o que anda a fazer), ao que advoga que as dificuldades e o sofrimento nos tornam mais fortes (enorme alarvidade, e não sou só eu que digo, diz também Sándor Márai: "Não é verdade que o sofrimento nos purifica, nos faz melhores, mais sábios e compreensivos. Nós nos tornamos frios, iniciados e indiferentes."), até ao que prenuncia que quando se fecha uma porta se abre uma janela (só esquecendo que, às vezes, essa janela pode não dar mais do que direito a um tombo de um 18º andar).
Já não acredito na obrigatoriedade da felicidade, não acredito que o que vivemos faça parte de um plano maquiavélico (para não dizer diabólico) sobre o qual não temos controlo mas que nos encaminha, imperceptivelmente, para um final feliz. Acredito na citação do Conrad que já aqui algures para trás usei: "tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que, normalmente, chega demasiado tarde".
Mas quando atravesso momentos desses em que não vejo sentido para o que estou a viver, em que me sinto injustiçada pelo destino porque me considero merecedora de melhor sorte, não consigo deixar de me render a um outro chavão: vivendo e aprendendo. Irrita-me cair eu própria nessas lógicas de que a vida tem de fazer sentido mas, realmente, é o que tento retirar de momentos destes - lições. E eu que sou pessoa de tragar o tempo, de não gostar de desconhecer o futuro, quase obsessiva nos planos e métodos em antecipação desse futuro, que gosto de estar preparada para tudo e saber bem por onde vou, porque me recuso admitir que não controlo o meu destino, tenho agora uma difícil lição para aprender à força, já que até esta idade não fui capaz de a aprender de maneira mais suave: um dia de cada vez, não adianta fazer grandes planos, entrega os pontos Princesa. E tenho de dar razão a Sándor Márai, pelo que sinto hoje em face disto, e no seguimento da citação acima que assim continua: "Quando compreendemos, pela primeira vez na vida, o destino, nos tornamos quase serenos. Serenos e solitários no mundo, de um modo singular e assustador." E isso porque o que se compreende do destino é que pode mesmo não nos reservar a sorte que queríamos; e a vida pode não fazer sentido nenhum, para além de justificar nos calendários a contagem dos dias em meses e estações, deixando cabelos brancos e rugas na pele em nós.
Dores de crocodilo
Se não há dor sem sentimento para ferir, então se dói é orgulho. Nova máxima a reter, para que não se confundam as coisas. Como as dores.
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