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Raíz



"Tu eras também uma pequena folha que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube que ias comigo,
até que as tuas raízes atravessaram o meu peito,
Se uniram aos fios do meu sangue,
Falaram pela minha boca, floresceram comigo."

Pablo Neruda

Poeta é poeta





O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

De Carlos Drummond de Andrade

Brisa do mar





Confidente do meu coração
Me sinto capaz de uma nova ilusão
Que também passará,
Como ondas na beira de um cais
Juras, Promessas, Canções
Mas por onde andarás
Pra ser feliz não há uma lei
Não há, porém, sempre é bom
Viver a vida atento ao que diz
No fundo do peito o seu coração
E saber entender
Os segredos que ele ensinar
Mensagens subtis
Como a brisa do mar.


De Chico Buarque

Será?...



Grande Vinicius de Moraes... Cada coisa que escreveu, com mais alegria ou tristeza, com mais humor ou mais seriedade, é sempre uma perfeita maravilha, e melhora com voz. Por acaso esta versão consta do CD que comprei acidentalmente e com que o descobri. Uma descoberta fatídica, mas ainda assim, uma grande descoberta.

Mas agora, àparte o humor, e numa perspectiva feminina, leio e oiço cada frase de uma forma diferente. E fico a pensar... será?... Abaixo o texto original, que ele não segue exactamente na versão declamada do vídeo.

"Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor."

Os Poetas


Solitários pilares dos céus pesados,
Poetas nus em sangue, ó destroçados
Anunciadores do mundo
Que a presença das coisas devastou.
Gesto de forma em forma vagabundo
Que nunca num destino se acalmou


Sophia de Mello Breyner Andresen

Verdade




De Carlos Drummond de Andrade:

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


Acho que por isso é tão difícil ver a verdade de quem amamos. E por isso duas pessoas podem ver duas verdades sobre a mesma realidade. Vemos o que queremos ver, escolhemos a verdade que queremos aceitar, e muitas vezes conformamo-nos com meias verdades, recusamos a parte da verdade que nos fere, porque é muito mais difícil aceitá-la. Quando não lhe podemos fugir, ou quando não nos contentamos com menos do que toda a verdade, há sempre alguém que nos critica, porque estamos a olhar para o que não devíamos, por estarmos a dar relevância ao que não é importante. Porque para muitos o importante é pintar tudo de côres bonitas e harmoniosas, mascarar os escuros e os imperfeitos. O meu maior problema é não ser míope e ser eternamente inconformada - não gosto de metades.

Sonhar é Fundamental



Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria,
ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama


Também chamo a isto a força de acreditar.

Para ser grande


Muitas vezes me vejo como a lua. Gosto da lua, das suas fases, dos seus mistérios e do seu brilho. Em dias destes, sinto-me uma lua cheia e lembro-me de um pequeno poema de Fernando Pessoa de que gosto muito:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

É assim que eu vivo quase tudo, e é só assim que eu sei amar. No que estou, estou por inteiro. Quando amo, amo inteira. E quando me dedico a alguma coisa, dou tudo de mim, brilha toda a minha lua nesse lago. Talvez por isso a minha exigência seja elevada também com os outros. Talvez por isso um amor que não é inteiro não me chegue. Talvez por isso abandone aquilo em que não me consigo derramar por completo num brilho de prata sobre as águas. Mas hoje foi assim mesmo, a mergulhar no trabalho no meu regresso gradual à minha vida "normal", e soube-me bem. Gosto de mim nestes dias em que me sinto grande.

No tempo dividido


As horas passam lentas, demoradas. Dias, manhãs frescas, tardes quentes, crepúsculos de promessa de noite. Luz coada pelas janelas da casa e de mim, rodando a sombra ao longo das horas. Noites compridas ainda quentes, madrugadas lentas mais frescas. Dia e noite, manhã e tarde e madrugada. Idas e vindas esporádicas, para manter a sanidade de saber respirar um ar de liberdade. Vou e venho, enquanto o tempo passa sem eu ver. Melhor quando me foge assim. Fico entretanto e espero, enquanto vejo o tempo passar. Compassado, lentamente. Mas fugindo a cada momento. Cada agora é um segundo que já foi, já passou. Em alternâncias de divisões, em antes e depois.

“E agora ó Deuses que vos direi de mim?
Tardes inertes morrem no jardim.
Esqueci-me de vós e sem memória
Caminho nos caminhos onde o tempo
Como um monstro a si próprio se devora.”

De Sophia de Mello Breyner Andresen, num livro de 1970, 2ª Edição de “Antologia”, que tenho naquele papel velho e amarelecido pelo tempo e por todos os muitos olhos e mãos que já o percorreram. Cheira a todas as casas por onde passou, a todos os tempos a que sobreviveu. Guardo-o com muito carinho. Tem uma dedicatória de Sophia a uma das minhas tias, que mais tarde me legou mais do que o livro - deu-me a poesia que eu sempre busquei, a que volto de vez em quando para me perder e encontrar, sem tempo.

Love Hurts


Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.

(Soneto a Quatro Mãos, de Paulo Mendes Campos e Vinícius de Moraes)


Tanto Querer

Quero um avião para me levar pelas núvens, a uma praia iluminada pelo
pôr-do-sol,
e uma
areia morna e mole.
Quero dourar o meu corpo na luz, os cabelos espalhados no peito do
coração,
que bate por mim
sem razão.
Quero uma brisa suave, a refrescar o suor quente e bom de um
abraço apertado,
de um
beijo doce e salgado.
Quero um momento de
eternidade,
olhos nos olhos, mãos
entrelaçadas,
corpos
unidos,
palavras
não faladas.
Quero o
riso
espontâneo da
partilha
de uma piada que
não se diz,
que se conta e ouve com um
olhar feliz.
Quero o sorriso do
contentamento,
a fome da
plenitude,
o sono da
exaustão,
dois corpos na
palma da mão.

Quero...
O amor infinito, o verbo no futuro, o fim do mundo, o fim do
tempo,
para ter-te para sempre cada
momento.

Quero...
Uma história aberta, de quatro mãos, dois corações, num só compasso
sem fim,
num só corpo
de ti e de mim.

Quando outros escrevem por nós, basta



Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.


Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.


Por quê jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por quê o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.


Sophia de Mello Breyner Andressen

Interno destacado


"The Detached

We die,
Welcoming Bluebeards to our darkening closets,
Stranglers to our outstretched necks,
Stranglers, who neither care nor
care to know that
DEATH IS INTERNAL.

We pray,
Savoring sweet the teethed lies,
Bellying the grounds before alien gods,
Gods, who neither know nor
wish to know that
HELL IS INTERNAL.

We love,
Rubbing the nakednesses with gloved hands,
Inverting our mouths in tongued kisses,
Kisses that neither touch nor
care to touch if
LOVE IS INTERNAL."

Maya Angelou


Eu destilo: numa primeira abordagem, leio que não há pior morte que a alma seca, pior inferno que o sofrimento sem sentido, nem fotografia, ou contacto de corpo, que capte ou toque o amor. A morte, o inferno e o amor são internos. Separados, desligados do exterior corpóreo, onde apenas se reflectem – em roupas carcomidas pelas traças e abandono, em enganos de preces a Deuses inexistentes, e em corpos despidos, beijos e línguas que tentam chegar onde não tocam: no interno. Nesse interno que não nos pertence, que não comandamos, não tocamos.

Depois reparo na subtileza do “if” da última estrofe e de repente esta ganha um sentido novo. E agora leio que o amar corpóreo não toca o interno “se” o amor for interno. O que é difícil de destilar...

Maya Angelou é uma das minhas poetisas favoritas. Mas geralmente deprime-me destilar os poemas dela. Só que não vivo sem poesia para encontrar caminhos. A poesia enche-me, embora às vezes de lágrimas também. Este desenterrei hoje pela sensação nova de sentir que, de alguma forma estranha, toquei involuntariamente o interno de alguém, de uma maneira positiva que me enche de satisfação. E nesse sentimento, alguma coisa, também involuntária e estranhamente, tocou o meu interno. E eu que não consigo compreender este poema plenamente, foi a ele que fui dar para reflectir isto, essa noção de “interno destacado”.

PS: Prometo que não há poesia por aqui nos próximos dias...

Conselhos


Ouve-se de tudo quando se pergunta. E às vezes sem se perguntar. Alguém me desejou que “não me mate o tempo” e, claro, deixou-me a pensar. Alguém me desejou que tenha a felicidade de realizar o sonho e, claro, pôs-me a duvidar - será sonho? Alguém questionou que eu saiba mesmo o que é amor e, claro, chocou-me e deixou-me a destilar.

De Sophia de Mello Breyner, este poema que me é muito especial, é o que sinto que é a espera do amor.

Data

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo de ameaça


Porque a espera da correspondência do amor que sentimos e queremos dar é também a tortura da esperança egoísta de receber o amor que queremos que o outro sinta por nós e nos queira dar. E enquanto passa o tempo dos dias contados, estamos ameaçados pela possibilidade de que não se cumpra o amor. Mas enquanto amamos, na nossa legítima forma própria de amar, à espera que se cumpra o amor na sua plenitude, em real, na vida, o tempo sofre-se, não se mede, e parece que não existe porque não corre dentro de nós, nem faz vacilar o amor que sentimos. Faz-nos vacilar a nós, na nossa frágil composição de retalhos do que sentimos e do que pensamos, na luta desvairada da procura da verdade e da certeza, fazendo-nos plasmar em certos momentos em algo que é enganador, que não é o que somos, que são os paradoxos que o tempo nos vai fazendo ser e experimentar, e de que às vezes precisamos para não desabar.

Amor “mesmo” é para cada um uma coisa diferente, um misto do que sentimos, do que vemos e do que vivemos. E ninguém vê o amor da mesma maneira, ninguém o sente exactamente da mesma forma, e ninguém sabe realmente o que ele é enquanto não o viver cumprido na correspondência total. E mesmo assim, será diferente para cada um. No entanto, alguns arrogam-se a clarividência de o saber, apenas porque o sofreram profundamente sem o viver, e porque acham que, de tão intenso o sentiram, a verdade que têm para si é maior que a verdade dos outros.

Eu oiço tudo mas vejo por mim, na consciência da minha verdade ser só minha e poder ser diferente em cada momento do tempo, porque sou, humildemente, ser em crescimento, em procura, em andamento.

Não há regra sem excepção

Não tencionava publicar aqui os poemas que escrevo. Essa é a regra. E esta é a excepção:

Só na Saudade

Um olhar que me despe,
Umas mãos que me tomam.
O sol a nascer para leste
E as horas, lentas, demoram.

O beijo mais doce, quente,
O abraço mais forte de ti,
A chama de um olhar ardente,
O mais que alguma vez senti.

Um outro corpo que é meu
Apoderando-se de mim
E eu, sendo corpo que é teu.

Volta um dia, mas só assim.
Antes a cama vazia e eu.
Não voltes se não for para mim.

Como é excepção, desculpem, mas é sem comentários.

À espera

"Se o amor quiser voltar
Que terei pra lhe contar?
A tristeza das noites perdidas
Do tempo vivido em silêncio.
Qualquer olhar lhe vai dizer
Que o adeus me faz morrer
E eu morri tantas vezes na vida.
Mas se ele insistir
Mas se ele voltar
Aqui estou sempre a esperar."


Esperar na estrada já é um passo. Quer-se chegar lá longe, atrás da colina, a um sítio que não se vê. Sabe-se. Não se pode ir sozinho por essa estrada que se estende aos nossos pés. Espera-se.

E entretanto, contempla-se o horizonte. O mesmo sol que brilha do outro lado, no fim da estrada. Imagina-se o destino. Sonha-se o destino, sonhamo-nos lá. Mas também é bonito aqui à volta.

Há tempo.

NOTA: O poema é de Vinicius de Moraes

Canção em Modo Menor - Viniciús de Moraes

Porque cada manhã me traz
O mesmo sol sem resplendor
E o dia é só um dia a mais
E a noite é sempre a mesma dor
Porque o céu perdeu a cor
E agora em cinzas se desfaz
Porque eu já não posso mais
Sofrer a mágoa que sofri
Porque tudo que eu quero é paz
E a paz só pode vir de ti
Porque meu sonho se perdeu
E eu sempre fui um sonhador
Porque perdidos são meus ais
E foste para nunca mais
Oh, meu amor
Porque minha canção morreu
No apelo mais desolador
Porque a solidão sou eu
Ah, volta aos braços meus, amor

Pérolas do Dicionário - "Amor"

“do Lat. Amore, s. m.,
viva afeição que nos impele para o objecto dos nossos desejos;
inclinação da alma e do coração;
objecto da nossa afeição;
paixão;
afecto;
inclinação exclusiva;”

E a gente faz mais disto porquê?........

Ele é perdição, tormento ou total felicidade.
Ele é sentimento supremo, avassalador ou apaziguador.
Ele é borboletas na barriga, lágrimas fáceis, sorrisos parvos.
Ele é um monte de poemas, rosas vermelhas e serenatas à lua.
Ele é beijos quentes, abraços apertados e mãos entrelaçadas.
Ele é ciúme, tristeza e desilução.
Ele é medo, tremores e coragem.
Ele é vida, morte e além-morte.

E nós nas mãos dele somos o que ele quiser, e sem ele não somos nada.

Poesia de Ary dos Santos, meu sentir, minhas lágrimas

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

Música para lavar a alma

Gosto muito de música. Tinha uma boa colecção de CDs mas perdi muitos deles com o meu primeiro divórcio. Depois disso, não sei porquê, deu-me para não comprar CDs. A maior parte dos que tenho hoje foram-me oferecidos. Durante o meu segundo casamento, afastei-me da minha música, porque ele não gostava do que eu ouvia e eu detestava o que ele me queria impingir.Depois, dei por mim outra vez à procura da música. A aproveitar os dias em que o miúdo está com o pai para ouvir a minha música. E em cada CD que pego descubro qualquer coisa. E então ouço até à exaustão. Comecei a comprar CDs outra vez, comprei um iPod.

Num dos CDs novos que comprei, encontrei um poema extraordinário. A música é linda, na voz de Maria Creuza e Vinicius, interrompida, ou melhor, enriquecida, pelo declamar deste poema que é TUDO o que se pode dizer, o que se pode querer, do Amor. Chama-se Soneto da Fidelidade. E, o mais espantoso deste poema que sei de cor e nunca hei-de esquecer, é que se atravessou inesperadamente no meu caminho e um dia, meses depois, me ligou de uma forma especial a um alguém especial também, que eu vi sentir com estas palavras a mesma intensidade que eu sinto.

"De tudo, ao meu amor eu seria atento
antes. E com tal zelo, e sempre, e tanto,
Que mesmo em face do maior encanto,
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto,
E rir meu riso e derramar meu pranto,
Ao seu pesar, ao seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
quem sabe a morte, angústia de quem vive
quem sabe a solidão, o fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama,
Mas que seja infinito enquanto dure"

Chorei com isto. É tão bonito. Queria encontrar um Amor assim. Só assim.

Pois, também gosto muito de poesia e é uma das coisas de que gosto na música. Leio bastante e escrevo alguma (aqui não, prometo, só a que outros escreveram...). Dos portugueses, o favorito é sem dúvida Fernando Pessoa, tanto os poemas como a prosa. Mas alguns dos melhores poemas que encontrei até hoje foram escritos por Maya Angelou. Que pena que só a descobri tão tarde... Mas estou a recuperar depressa! Encomendei um livro dela e até paguei uma fortuna pelo envio, só porque não aguentava esperar 8 a 16 dias úteis! Está até hoje na minha mesa de cabeceira, e de vez em quando mergulho numas tantas páginas. Também faço o mesmo com a Antologia Poética de Vinicius de Morais.

Não é música, mas sabe ao mesmo.