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Estranha-se, sim, mas entranha-se

Abençoadas segundas-feiras que devolvem sentido às horas, marcadas em calendários de dias ocupados com tarefas, reuniões e deadlines. Abençoadas segundas-feiras que, pelo meio do vazio da vida, que é a mesma vida e o mesmo vazio, marcam um ciclo de cinco dias com horas para, com horas de, com horas contadas e usadas. Malditas segundas-feiras que mostram tão inequívoco o vazio do tempo que fecham, o vazio do tempo que abrem, a incógnita do sentido com que me movo.



"Como é estranha a minha liberdade
As coisas deixam-me passar
Abrem alas de vazio para que eu passe
Como é estranho viver sem alimento
Sem que nada em nós precise ou gaste
Como é estranho não saber"

Sophia de Mello Breyner Andresen

Let Go

"According to Elisabeth Kübler-Ross, when we're dying or have suffered a catastrophic loss, we all move through five distinct stages of grief. We go into denial because the loss is so unthinkable we can’t imagine it’s true. We become angry with everyone, angry with survivors, angry with ourselves. Then we bargain. We beg. We plead. We offer everything we have, we offer our souls in exchange for just one more day. When the bargaining has failed and the anger is too hard to maintain, we fall into depression, despair, until finally we have to accept that we’ve done everything we can. We let go. We let go and move into acceptance."

O busílis da questão é que cada um destes patamares pode durar de um minuto, a uma vida. E nem sempre é muito clara a passagem de um patamar para o outro. A mais difícil é entre os dois último estágios - depressão e aceitação. Porque, por vezes, no estado de desespero e depressão, achamos que já deixamos ir, não nos maçem, que estamos a sofrer por isso mesmo, a sofrer de resignação, e isso é normal, e isso é o fim. Mas não. Se sofremos ainda, então, ainda não largamos.

Resignação não é aceitação. Aceitar verdadeiramente não daz doer.

Bolhas

O sentido de auto-preservação é a primeira lei da natureza. Muito ao género do que chamei, lá muito (muito) atrás, o instinto de sobrevivência (engraçado reler este texto). É, de facto, incontornável a necessidade que temos de nos protegermos daquilo que nos faz mal, e inevitável também que, à luz da vivência que se vai tendo, deixemos ao comando do medo evitar “potenciais” situações de risco, mas também nem sempre sabendo identificar o risco - muitas vezes esquecendo que também "nos pomos a jeito" volta não volta. Na verdade, a auto-preservação é (mais do que um instinto), uma responsabilidade – no sentido em que, com maior ou menor sucesso, o ser humano deve caminhar na direcção da felicidade, do seu bem-estar, protegendo a sua integridade, tanto física como moral.

Mas, ninguém pode viver permanentemente num encapsulamento fictício que o afaste de todo o perigo; porque viver é perigoso, amar é perigoso, mas não querer expor-se a esses perigos resulta em não viver, em não amar. Resulta numa bolha de inércia e esterilidade que, perversamente, periga a própria sobrevivência.

Penso, até, que é por causa desse sentido de auto-preservação, de instintiva luta para nos salvarmos, que os obstáculos e dificuldades com que nos deparamos na vida, embora sejam em si “perigos”, são para nós elementos fundamentais de sobrevivência. De facto, além de nos ensinarem a reconhecer iguais perigos à frente, é essa luta por ultrapassá-los que nos impele a agir, a crescer, a melhorar, a realizar, concretizar. Muitas vezes, é a dificuldade do caminho que nos faz chegar ao destino. Pelo meio, claro, reconhecemos também fundamental, vital, acompanharmo-nos de outros, como os amigos. Mas, para fazer o caminho, precisamos tanto dos amigos e das ajudas, como dos inimigos e das dificuldades.

E no amor? No amor, as linhas são mais ténues, as fronteiras são mais permeáveis. É muito mais difícil perceber de que lado está o perigo, onde devemos refugiar-nos, a que destino queremos chegar. Podemos achar que vale tudo para alcançar o amor, e ficar pelo caminho num destroço, porque a busca nos destrói. E podemos, pelo contrário, achar que nos salvamos fugindo das lágrimas e das mágoas, para isso fugindo também do amor. Mas, nessa fuga, também nos selamos herméticos, estéreis, dentro de uma, afinal, muito frágil bolha de sabão.

São dúvidas senhores, são dúvidas…

Coisas em que os livros me deixam a pensar






Uma história de amor não correspondido, uma história de amor desencontrado, adiado, uma história de amor que deixa corações partidos, orgulhos feridos, uma história de amor com detalhes sórdidos, momentos tórridos, uma história de amor com lágrimas frias, com mãos vazias, não deixa nunca de ser uma história de amor.

Talvez, até, estas sejam as únicas histórias de amor puro.

Vice-Versa

Gostava, às vezes, de voltar a ter a capacidade de dar vida às histórias simples, que se lêm e se ouvem, e que mesmo sem fazer sentido, se fazem reais. Talvez assim pudesse escrever a história da minha vida daqui para a frente, e pudesse lê-la e contá-la e vivê-la. E isto a propósito da leitura de mais uma história infantil da hora de deitar, há minutos atrás. O meu filho, no fim, depois de ter seguido atenta e animadamente: "sabe o que eu fazia se estivesse dentro dessa história?". E sabia, sabia muito bem o que faria. Acho que o pior para mim é mesmo pensar que, para além de já não acreditar nas histórias dos outros, onde hoje descortino num ápice todos os erros de trama e enredo, pelas mesmas razões não consigo escrevê-las eu, e já não sei o que fazia, realmente, se me visse dentro de uma história de final feliz. Para imaginar, também é preciso acreditar. E vice-versa.

It takes one to know one


Pergunta-me o que é que eu procuro num homem. Penso em várias características que aprecio, em paralelo com os exemplos vividos que me vêm à mente, ora por semelhança, ora por oposição. E por fim desabafo, assim de repente, que queria apenas um homem normal. Assim só: normal. Depois penso que um homem assim - simplesmente normal-, se é que existe, me daria cabo dos nervos. Porque eu - eu não sou normal. Não preciso da permanente constatação do facto por óbvia oposição. Preciso de alguém que, sendo também um pouco fora do padrão, tire comigo, dessa anormalidade, uma perfeita e natural conclusão.

Change of Heart


Há coisas que não consigo exprimir em Português. Uma delas é “change of heart”. E porque é tão diferente de “change of mind”. Não sei qual delas manda na outra, acho que têm uma relação às vezes um pouco promíscua. Mas sei bem que dói diferente. Uma“change of heart” é tão mais difícil de suportar, quanto o é de acontecer.

Na cabeça, funciona lógica, factos e provas. Deduz-se uma acusação e proclama-se a sentença racional. Muda-se de ideia em vista de boas razões para o fazer. Já do coração, o processo é mais complexo. Não se podem sentir razões. Sentem-se apenas emoções. Às vezes também despoletadas pelos veredictos da lógica (por isso a promiscuidade - não devia ter nada a ver uma coisa com a outra, mas por vezes misturam-se e dá muito mau resultado), mas geralmente são apenas coisas que se dão, que nos dão, ou que ficam, ou que vão. O processo é alquímico.

Somos capazes de amar um escroque que sabemos que não vale um cêntimo, e não podemos amar alguém que sabemos que merece e nos quer bem. E ora somos capazes de nos lançar em aventuras insanas na vida, num salto de fé que o coração grita, ora não somos capazes de deixar o coração saír do cárcere que a rígida mente dita. E somos capazes de viver com uma fundamentada mudança de opinião, mesmo que seja uma desilusão, mas não somos capazes de viver com uma “change of heart” que nos deixa a sentir sem perdão, que nunca tem propriamente uma razão. Mais ainda quando é dos outros, porque sabemos que não há nada a argumentar, nada a ripostar, nada mais a esperar. Até se dar a nossa própria “change of heart”, provavelmente a custo, penosamente, depois de muita lógica destilada, e muita noite chorada. E mesmo assim, talvez não se dê nunca. Porque é mais fácil o coração imiscuir-se na cabeça e turvar o pensamento, do que a lógica forjar um sentimento, ou forçar outro a mudar.

Minha Lei

Se o universo tem, realmente, leis, uma incontornável é a da atracção. Costumo torcer o nariz aos discursos saídos dos livros de auto-ajuda, que realmente devem ser uma grande ajuda para quem os escreve, fazendo juz ao conceito. Aquela coisa de que pensar positivo atrai coisas boas (e pensar negativo atrai coisas más), por exemplo, a mim parece-me sempre uma bela droga para manter as pessoas estupidificadas na alegria idiota da crença em dias melhores e, ainda por cima, acreditando que têm mesmo o poder de os atrair assim. Acho muito discutível, porque se os dias não forem bons, se houver problemas a resolver, é preciso é espírito lúcido e pragmatismo para consertar o que está mal e então, talvez, conseguir uns dias melhores. Mas é verdade que às vezes parece que as pessoas têm tendência para atrair, ao longo da vida, o mesmo tipo de situações e "sortes". Fatalisticamente, atribuídos ao destino. E é verdade que há males irresolúveis, e cansa muito errar sistematicamente a solução de outros males, ou passar a vida a esbarrar na mesma parede. Não é destino, que não acredito nesse conceito, mas se calhar, se calhar, é defeito de fabrico. É não conseguir deixar de enviar os sinais errados para o mundo e não conseguir deixar de fazer asneira na vida. Essa coisa da responsabilidade funciona para os dois lados – para quem nega que algum ser superior nos controla e que advoga que somos donos do nosso destino, só resta colar a culpa na má gestão do caminho, portanto, em nós mesmos. Shame on me. É a minha lei, que também dá direito a multas e até pena de prisão, que tenho andado a cumprir. Sou dura comigo mesma. Virá, depois, espera-se, a reabilitação.

Sem marca registada

Pasmo-me sempre quando leio o mesmo que penso, que sinto - e que até escrevo, nas linhas de outros que nem sabem quem sou. Não sei porquê, e não sei se é igual com todos, mas ao mesmo tempo que gosto da identificação, ou me sinto bem por ver que alguém pensa e sente igual, (o que não faz de mim essa louca que às vezes penso que sou - e que alguns pensam que sou), o certo é que também me doi o orgulho, porque - afinal - não sou assim tão original. E eu até gosto de ser original. Mas é verdade que também pode ser um bocado solitário.  

No fundo, somos todos seres únicos, mas somos todos feitos do mesmo. Não há muito de original em cada um de nós, se não na forma de o expressar. Que há quem não saiba expressar, há quem não queira expressar, e há quem consiga passar a letras essas coisas mais profundas. Nada do que se escreva versando sobre alma e sentimentos, mais ou menos elevados, mais ou menos romanticizados, é produto original. É sempre reflexo do Homem, não pertence em exclusivo ao ser individual que o soube exprimir.  

Nem sou muito fã de citações, mas…


“O maior prazer de uma mulher inteligente é bancar a idiota diante de um idiota que banca o inteligente.”

Como em todas as citações deste género, que por aí abundam agora sobretudo no Facebook, não é uma verdade absoluta e tem o seu quê de exagero. Não diria, por exemplo, que é “o maior prazer” - mas que dá gozo, isso sim.

Tal como muitas destas citações, também tenho (e acho que a maioria é igual) tendência para generalizar (de que é exemplo paradigmático esta mesma frase). Ninguém consegue realmente reflectir e escrever, por exemplo, sobre relacionamentos, sem cair na natural tendência de referir “os homens” e “as mulheres”. Mas claro que as generalizações são perigosas - até a estatística, científica e matemática, teve de conceder na criação dos conceitos de margem de erro e desvio padrão!

Não há grande mal numas generalizações que são, efectivamente, espelho da tendência da maioria, ou pelo menos reflexo da nossa própria experiência, desde que se mantenha em atenção que é apenas isso. Usar generalizações, muitas vezes citadas de autores que nem se creditam, com erros e descontextualizadas, e achar que são verdades absolutas que se podem usar para catalogar e condenar os outros, e até usá-las para insultar alguém, isso é que é doente. Se há grande verdade sobre o Homem, sobretudo no que diz respeito à alma e sentimentos, é que nada é absolutamente standard, definido ou definitivo. Tudo em nós é único, relativo e também mutável. Cada uma das nossas verdades tem um colorido muito próprio, e quem somos nós para julgar as verdades dos outros, ou pior - julgar os outros com base nas nossas verdades?

PS:
Já agora, assim na onda da generalização, e tendo já dito as coisas sérias, com uma margem de erro de para aí 0,00000001% e um desvio padrão tendencialmente zero: uma loira burra acha que todas as loiras são iguais e, como não se vê burra, acha todas inteligentes (a não ser que sejam mais giras). Uma loira inteligente, diverte-se à grande por causa das burras, loiras ou não, que acham que não são burras, e dos homens que, mesmo não sendo loiros, pensam como elas - as burras - e também se acham muito inteligentes. Uma loira inteligente faz de conta que não entende, ou então diz algum sarcasmo que os burros não percebem, e depois dá as melhores gargalhadas sozinha, no escurinho do cinema. Ou noutro sítio qualquer.

Partilhar

Ouvi uma coisa que me surpreendeu, por ser dita por uma psicóloga ou psiquiatra, nem sei bem, que dizia que, mas do que estar nos momentos maus, o que cimenta os relacionamentos é o estar nos momentos bons, sendo-se capaz de partilhar, sem ciúme ou inveja, as alegrias do outro.

Dá que pensar. Acho que não há verdadeiro relacionamento sem partilha de momentos maus. Quando fugimos dos outros nesses momentos, mesmo que com a desculpa de não queremos impingir as nossas dores e problemas àqueles de quem gostamos, na verdade isso significa que achamos que esses outros não são ajuda. No fundo, é humano procurar alívio para o sofrimento, e só varia a forma como o procuramos e a panaceia que consideramos eficaz e disponível (que às vezes se revela um tremendo engano, pois também há muitas com efeitos secundários nefastos, e outras que são apenas muletas auto-destrutivas). Numa fase mais madura, tende-se a procurar apoio, ajuda, um ouvido amigo ou uma mão de amparo. E se achamos, a tempos, que a melhor forma de nos curarmos é o isolamento, para mim isso é sinal de que não achamos que os que temos à nossa volta estão realmente lá para nós.

Claro que podemos precisar de momentos de solidão. Eu preciso muito deles de vez em quando, mas apenas para poder reflectir, desmontar interiormente o que me atormenta com o input que os outros vão dando, ou conseguir ouvir a minha voz sem o barulho das luzes. Mas isso não é isolamento – é reflexão.

Já quanto aos momentos bons, concordo que não há nada melhor do que dividir uma alegria com alguém que nos é querido e nos quer bem. Tem-me feito muita falta, nos últimos tempos, poder partilhar a comemoração de vitórias e de momentos felizes, mais até do que os dias maus e as tristezas. Mas partilhar esses momentos não é o que cimenta um relacionamento. Se o partilhamos com alguém é porque acreditamos no relacionamento e se, ao invés de se alegrar por nós, alguém tem ciúme ou inveja, simplesmente não há é afecto verdadeiro.

A forma como partilhamos os bons e maus momentos, para mim é espelho, de duas faces - e não cimento. Nos maus, de nós revela em quem realmente confiamos e que achamos que está do nosso lado; dos outros, revela com quem realmente podemos contar. Nos bons, revela quem são aqueles a quem queremos bem; e os que gostam de nós, porque se alegram com a nossa alegria, sem ciúme ou inveja. Portanto, ambos revelam um monte de coisas: quem acreditamos que gosta de nós, quem gosta realmente de nós, quem na verdade não gosta e quem, no fundo, já sabemos que não gosta (pois não os procuramos nos maus e, perversamente, também somos capazes de querer mostrar momentos bons a alguns desses, para provar alguma coisa ou exactamente porque sabemos que os vamos encher de ciúme e inveja - não é bonito, e não é partilha, mas quem é que nunca o fez?...).

O cimento é algo anterior à partilha. É aquilo que nos leva a escolher alguém para partilhar, e sobretudo aquilo que permite partilhar com o mesmo alguém os dois tipos de momento. Se alguém não divide connosco as tristezas, porque raio haverá de querer partilhar alegrias? – talvez queiram apenas beber daí o “hype” em que essas situações nos lançam, ou são simplesmente hipócritas. E se alguém só quer saber das tristezas, talvez, no fundo, só queira mesmo saber-nos mal, sentir-se bem pela comparação ou por uma certa "utilidade", e por isso não se interessa realmente pela nossa felicidade.

E nós? Para quantos corremos com igual vontade e à vontade, consoante carregamos tristezas ou alegrias? Essa escolha também nos espelha. E muito.