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Das coisas simples que me fazem sentir bem # 4



Estrear qualquer coisa.
Sejam uns sapatos, uma peça de roupa, um acessório, tanto faz. Tem é de ser novinho, novinho. Mas se é lingerie, e tem de ser uma coisa sexy, ainda melhor - é aquela sensação de “tenho um segredo”... Gasto um dinheirão nestas pequenas coisas, mas tem sido sempre bem empregue. E quando se recebe no email assim uma ofertazinha de 20% de desconto...
Como é que uma mulher pode resistir?...

É os olhos



Eu já aqui disse que gosto de gatos? E que há gatos que jogam bem? Pois... De vez em quando acerto em palavras e metáforas que nem imagino como vão fazer sentido tempos depois. Chamei-lhe gato, e andei a fazer de pantera, enquanto alguém me perguntava se ele me atraía e eu dizia “tem qualquer coisa, não sei bem o quê – talvez o olhar”. E é. Já percebi que é. São os olhos. De gato. Aquela côr meio indefinida entre avelã e verde azeitona, e o brilho, e... e... a intensidade? Custa-me, o que é raro, mas lá chego à palavra certa: magnetismo.

E depois... Eu já aqui disse que gosto de dançar? Eu já aqui disse que gosto de danças de par? Pois... E na dança me perco. É que o gato também dança, e em ritmos quentes. E eu já aqui disse como gosto de abraços? Aaah... pois é... Caibo tão bem dentro daquele abraço.

Mas mais que tudo, é os olhos. Como neles me vejo tão límpida e o que vejo brilhar neles. No segundo do reencontro, no momento da despedida. Na procura de mim e no fim de um beijo ou de um abraço. No frente a frente intencional de uma conversa e em silêncio, pressentidos e surpreendidos como que por magia. Na doçura de um sorriso terno e na quase malícia do desejo. Ao acordar para um olhar assim, sou eu que me sinto gata, que só quer aninhar-se naquele abraço e ali ficar. Sem tempo. Aqueles olhos prendem-me... Mas não gosto de estar presa, sei que acabo a querer fugir. E quase me sinto uma gata assustada, mas quero encontrar nos mesmos olhos o fim do medo.

Às vezes...



Mais do que as palavras que se ouvem, conta a intenção que as dita. Nem sempre é fácil descortiná-la, mas às vezes trespassa-nos com uma imensa claridade. Podemos preferir negar-lhe a visão, seja porque nos magoa, seja porque não é o que queríamos ver ou não é o que pensamos que íamos ver. Mas às vezes... também é capaz de nos estampar um sorriso e elevar na onda dos sentimentos próprios de uma surpresa feliz.

Mais do que um “gosto de ti”, que qualquer um pode dizer ou escrever sem verdade, falam palavras que se traduzem em “vejo-te e sinto-te, entendo-te”. Mais do que um ramo de rosas comprado à pressa na esquina, falam gestos que nos mostram que alguém nos leva em pensamentos pelos seus dias. Mais do que uma qualquer desculpa por alguma falha, vale a preocupação de que entendamos que não há intenção de falhar, e um pedido de desculpas preocupado que nos surpreende, porque até achamos que não houve falha nenhuma. Mais do que um “tenho saudades”, fala a prova de alguém que muda o impossível, e vai chegar ao fim do dia exausto, para ganhar o tempo de nos ver e poder dar um abraço. Com um sorriso tão genuino e um olhar tão ternurento, que chega a doer reconhecer que não se esperava, que se desenhava essa pessoa como algo muito menor, à imagem e semelhança dos pequenos seres que popularam o passado.

Sinto-me muito menor que ele nestas tremendas generosidades. Confortavelmente instalada atrás dos muros que ainda imponho, no egoísmo do meu castelo só para mim, e ele a bater suavemente à porta, mas determinado e a todas as horas do dia, feliz com a possibilidade de poder provar que é digno de entrar, ciente das defesas e das reservas, mas confiante de que as ultrapassa. Já entrou, mas ainda não sabe bem o quanto, que ainda tenho medo de lhe dizer que tem a chave. Mas vou tendo vontade. Sobretudo quando me diz que, aconteça o que acontecer, sabe que não se vai arrepender. E não é ingenuidade, que já não tem idade para isso. É... confiança, ou esperança, ou fé. Que parece ter que chegue para os dois. Às vezes... que coisa... até dá vontade de acreditar também.

O amor não existe



A propósito do Facebook, alguém me disse que, supostamente, os tais 6 elos de ligação da famosa teoria do “Six Degrees of Separation” equivalem à “distância” entre um Europeu e algum esquimó. Pensei então que, se calhar, era no Polo Norte que me esperava o Amor, sentadinho num igloo qualquer, já a desintegrar-se de tão enregelado.

Até há pouco tempo, pensei que fosse suficientemente louquinha para, se soubesse que o amor que queria viver estava no Alasca, apesar de detestar o frio e mesmo de nariz gelado, ir ao encontro do destino nesse igloo. Mas hoje sei que não. Hoje percebi que não sou assim tão louca – percebi, fria e tristemente, que já não acredito no amor. Acho que a minha insatisfação crónica, e o meu “azar” crónico com os homens, são produto um do outro, resultam de procurar o que não existe, e assim se traduziram em experiências que me tornaram céptica. Não estou disposta a correr a distância, ou o risco, para procurar uma coisa que agora acho que é uma quimera. De uma forma irónica, tornei-me quase no mesmo dos que sempre condenei, e hoje só sou capaz de olhar para um possível relacionamento com a frieza de quem aceita incontestável o facto de que o amor não existe mesmo – o que existe é tesão, a que chamamos paixão, mas que também dura muito pouco – dizem que 7 meses em média. E é incontestável que todos passam, tal como nós passamos pelos outros, e até o “amor apaixonado”, que dizem que se pode seguir à paixão e será, talvez, o mais próximo do idealizado “grande amor”, dura em média 3 anos. Não existe “para sempre” em nenhuma história, e muito menos o “felizes para sempre”. E há certas coisas que não se justificam se não forem no pressuposto da eternidade.

Essa promessa eu não posso fazer a ninguém, nem aceito que ma façam, simplesmente porque não acredito. Por ora, é apenas isso que ainda me distingue do que não queria ser – mesmo chocada por me ouvir e chocando quem me ouve, sou honesta, claríssima, transparente, não prometo nem quero promessas, não embelezo nada dando nomes falsos às coisas, e só vou a jogo nessas condições. E mesmo assim, só se for por aqui, porque não vou ao Alasca, ou à Austrália, por isso – é que não se justifica mesmo.

E o certo é que, munida desta nova convicção, se torna tudo muito mais fácil, muito mais simples e descomplexado. E acho que é só porque cheguei a esta conclusão que estou a dar hipótese a que alguém entre na minha vida. Depois do choque de parte a parte, a realidade é que uma situação clara, sem ilusórias expectativas, acaba por ser muito mais confortável para que se expresse numa relação a dois aquilo que nos é mesmo intrínseco. Talvez seja antes este o caminho, talvez permita alicerçar as coisas até com maior solidez. Mas seja como for, e dure o que durar, é autêntico desde o princípio. Pode até acabar com lágrimas de desgosto e saudade, mas não acabará com culpas nem com recriminações, e deixará memórias felizes de momentos bons vividos intensamente e descomplexadamente. Se é amor? Certamente que agora não. Será um dia esse tal “amor apaixonado”? Quem sabe? E por quanto tempo? Uma incógnita. Mas não me importa. O que é agora, é bom. E assim se mantenha (mesmo que se só esses tais 7 meses).

Jogo de Sedução



Chegou de mansinho, de surpresa e em surdina. Não tinha nada de especial a não ser uns olhos penetrantes, luminosos e um movimento de aproximação felino. Ía e vinha, e a cada distância lá estava o olhar, ou a palavra, sempre certeiro, desafiador, inegável. Depois a aproximação sempre inesperada, de uma direcção diferente da de onde tinha vindo a última abordagem. Na presença, dissimuladamente, um toque ao de leve, uma palavra sussurada. Um sorriso de caçador que já marcou a presa, que sabe o que quer e que sabe que consegue. A rondar, a estudar, mais próximo a cada aproximação, a exibir o porte e a fixar os olhos na exigência de um olhar de volta. E conversa, muita e boa conversa.

Mas não sabia ele que o jogo não é sempre esse. Que o caçador vira presa no instante em que quem era presa percebe que tem o poder de negar com inteligência o que lhe querem caçar. Vira a mesa nesse instante e aqueles olhos agora não brilham de certeza de conquista. Brilham de desejo, e de súplica, por mais, por muito mais do que aquilo que a suposta presa vai dando. E a presa caça o caçador só quando lhe apetecer – e é só mais um bocadinho. Entretanto, também se diverte um bocado. Vai e vem num bailado mais felino do que o do gato, porque essa presa tem alma de pantera, já foi caçada noutra vida, e não quer ser presa outra vez. Agora sabe pôr as unhas de fora, afiar o olhar e mover-se com muito mais subtileza, enquanto o gato se esforça desesperadamente por merecer ser caçado. Pobre gatinho...

Para panteras assim, “it’s not winning or loosing - it’s how you play the game…”. Mas alguns gatos jogam bem.

Testes



Como tenho uma qualquer veia científica, provavelmente herdada do meu avô paterno que era investigador (engenheiro de origem), decidi pensar numa série de testes para alminha que resolveu engraçar-se por mim.

Confesso que, ao pensar nisto a princípio, dei por mim a sorrir maliciosamente e a dizer-me “ele esta nunca vai passar!”... Depois achei que é, e será sempre, demasiado cedo na minha vida para me transformar numa daquelas horríveis professoras velhas, chatas e azedas que tinha no liceu, e que faziam testes para lixar o pessoal. Enfim... a bem da justiça e das oportunidades, e essa treta toda, pus umas coisas mais rebuscadas de lado.

O danado tem-se safado. Por exemplo, já aguentou estoicamente quase 1 hora e meia de messenger em conversa séria, até dá boas respostas, e encaixou todas as minhas fugas às insinuações, ou melhor, declarações mais ousadas. Dessa vez, só nos últimos 10 minutos é que assumiu uma clara mudança de assunto, e pronto, até teve a sua graça. Noutra ocasião, também já resistiu à conversa da astrologia e saiu-se muito bem (esta adoro, é um bocadinho perversa – porque ficou sem saber até ao fim se eu era ou não uma maluquinha esotérica, que não sou nem por sombras, mas nem por isso se demoveu...). E em conversa mais aquecida, nunca passa o risco, fica lá sempre muito, muito perto, cada vez mais perto, mas não passa. E também reagiu muito bem a um travão que pus nesse registo, e a uma certa gestão de expectativas que fiz em relação ao nosso encontro. Inspirou-me confiança.

De repente fiquei a pensar se não fazemos sempre isto mais ou menos inconscientemente. Estes pequenos “testes”, geralmente perguntas aparentemente inofensivas, pequenas curiosidades, ou afirmações potencialmente chocantes, fazem-me lembrar um cross examining numa sala de tribunal. O único senão é que ninguém jura nada sobre coisa nenhuma, e não há polígrafo para confirmar a autenticidade das respostas. É uma questão de intuição e montagem, aos poucos, do puzzle do outro com aquilo que se vai sabendo, sendo que só ao fim de algum tempo é que se percebe o que se está a construir, e se há ou não peças que não encaixam em lado nenhum, e onde estão as peças em falta. Este puzzle tem-se montado num instante e já dá para perceber muita coisa, mas ainda há demasiadas peças soltas.

Não sei que puzzle é que ele construiu de mim e espanta-me, confesso, este entusiasmo tão galopante. Já percebi que ele apanhou muita coisa, assustadoramente mais do que pensei ter dado, mas a última foi chamar-me “cocktail explosivo”, num sentido muito positivo, e na sequência de uma conversa sobre razão vs emoção... Nem o facto de eu ser o montinho de paradoxos que aqui me conhecem parece que o afecta, antes pelo contrário. Imagino que também me deve ter submetido aos seus próprios testes, e a julgar pela “animação”, passei a todos... With flying colours, parece.

Mas o grande teste só mesmo ao vivo e a côres. Espero que sem tremores... Esse vai ser o primeiro polígrafo. Se passar, o veredicto do jurí pode levar menos tempo a sair.

Engatar ou cortejar?



As mulheres passam a vida a queixar-se que os homens, hoje em dia, são uns atadinhos, que não tomam iniciativas, que não sabem o que querem ou que têm medo de se assumir na conquista “activa” de uma mulher. Partilho dessa opinião, e também me tenho queixado do mesmo. Por outro lado, queixamo-nos dos tais homens-melga, que também não gostamos de insistências idiotas, sobretudo quando não estamos mesmo interessadas e eles não há maneira de perceberem.

E agora cai-me no colo um homem que sabe claramente o que quer, que assume frontalmente uma postura de conquista, e me faz um cerco cerrado. Ele é Face Book, ele é Messenger - e longas conversas, números de telefone trocados – e usados, e um convite para jantar com direito a dança a seguir, “até nascer o sol”.

E o que é que eu acho disto?... Acho piada. Gostei dele, conversamos imenso no dia em que nos conhecemos, através de uma amizade comum. Temos afinidades diversas, é certo, somos ambos pais divorciados e por isso entendemos bem essa dimensão especial das nossas vidas, e ele não se “assustou” com a minha vida complicada. É um homem maduro, inteligente, gosto da conversa dele e do sentido de humor. Mas...

Isto é rápido. Muito rápido! Jantar a dois assim sem mais nem menos assusta-me um bocado. Resolvi aceitar o convite, mas felizmente, por um acaso do destino, afinal não seremos só dois. E fiquei aliviada mas a pensar porque é que me havia de assustar com uma postura que é frontal, honesta, afinal aquilo que advogo que todos devemos ser uns com os outros. Desde que não haja leviandade na abordagem, o que é cedo para determinar, é assim que acho que devia ser. E também desde que não se torne demasiado “pavão”, que não há paciência para shows de vaidade nesta idade... mas o certo é que ainda não sei se a ideia dele é "engatar" ou "cortejar" - e são coisas muito diferentes.

Até agora nada me faz crêr que ele não seja boa pessoa (até porque as “referências” são muito positivas). Mas o certo é que me custa acreditar em pureza de motivos. É que neste novo caminho, ando sem ilusões de contos de fadas e princesas. Ando a escrever linhas novas sem poesia, e já não espero milagres. A questão é se me terei tornado demasiado céptica, ou antes absolutamente lúcida.

Fechar a mala



Mesmo quando é numa despedida para uma ausência curta, custa sempre fechar-lhe a mala. Há que deixá-lo ir, largá-lo na rotina das idas e vindas que a vida lhe impôs, e sorrir de volta, seja lá como fôr. Tento pôr-lhe dentro da mala mais do que posso. Sei que a encho de coisas inúteis e coisas demais. Acaricio as roupas que escolho e dobro, na ilusão de que ele me possa sentir as mãos quando outro alguém o vestir. É uma ilusão idiota. Sei que não vou lá dentro, não vou com ele. E quando fecho a mala sinto-me fechada do lado de fora, de fora desses espaços e desses dias dele sem mim.

E sobram-me dias de mim sem ele. Dias de que preciso, em que aproveito a liberdade e o silêncio ou a agitação dos meus dias de mulher, mas dias que vivo nunca me deixando de sentir mãe em vazio. São, desta vez, dias que me impus e lhe imponho, porque são dias que agora me são vitais. Desta feita, sou eu que o fecho de fora deste bocadinho de vida que vou viver mais longe, e desta vez não sinto culpa, ou remorso. Mas sei que sentirei saudade.

Equilíbrios



Há alturas em que me sinto em guerra comigo própria. Sinto que sou prisma colorido de muitas faces e muitos brilhos, e que o conjunto não é uma forma harmoniosa, mas antes um obtuso objecto que quer rolar mas tropeça nas arestas e nos vértices, nunca se fixando numa côr definida. Sinto que tenho de escolher quais as faces do prisma que se podem ver, que podem brilhar, e que há sempre umas quantas que terão de ficar ocultas, porque o objecto tem de assentar em algum dos lados.

Senti muito isto em relação à minha dicotomia mulher/mãe aqui há um ano e pouco atrás. Foi um dos meus maiores desafios dos últimos tempos, arranjar um equilíbrio para o prisma de forma a que, tanto a face da mulher como a face da mãe, pudessem brilhar e ver a luz do sol, criando no conjunto uma paleta de côres harmoniosas. E agora, por força das circunstâncias, sinto de novo esse equilíbrio perigado, lutando entre uma enorme vontade de partir pelo mundo fora e uma inegociável necessidade de caminhar com o meu filho.

Queria fazer a mala e levantar amarras, partir à aventura, recomeçar a vida toda num outro lugar, encontrar o meu lugar. Mas ele prende-me aqui e não consigo sequer articular a hipótese de partir sem ele. Isso seria enterrar no chão uma das faces mais importantes do meu prisma e sei que seria desvirtuar-me, no sentido em que seria tornar-me incompleta, seria tornar mais pobre a paleta de côres que o meu prisma produz. Sei que não seria capaz, como uma amigdalite me faz claramente recordar, ao embalá-lo no colo uma noite inteira, sofrendo a agonia de o ver sofrer, correndo com ele para o pediatra com a instintiva mas inquestionável certeza de que ele estava mesmo doente. E estava.

Nas noites sobressaltadas a seguir, noites de ausência dele que ficou com o pai, mesmo sabendo-o medicado e a melhorar, sofro a distância e sinto o prisma desiquilibrado. Como poderia ir para mais longe ainda, e por muito mais tempo do que os 4 dias ou uma semana no máximo que ele passa com o pai a cada quinze dias?...

Não posso. Mas queria. Queria ir. E esse ímpeto de movimento negado ao prisma, desiquilibra-o perigosamente, e escurece assustadoramente a luz que me atravessa.

Curiosidade



Coisa estranha a forma como alguns crescem em nós. Nunca tinha percebido como era possível. Sempre foi para mim uma coisa basicamente instintiva, e ainda mais com homens – gosto ou não gosto, simpatizo ou não simpatizo, confio ou não confio, atrai ou não atrai (e nesta vertente então, é mesmo instintivo e imediato). Depois normalmente o primeiro impacto vai-se consolidando e pode crescer, às vezes mais e às vezes menos, mas sobretudo se fôr positivo. Aí é como uma semente - se confio, confio cada vez mais, se gosto, gosto cada vez mais. Salvo, claro está, as desilusões que se tem pelo caminho. Se é negativo, normalmente acaba em simples indiferença porque me afasto diplomaticamente, detesto fazer fretes de politicamente correcto.

E no entanto, de repente dou conta de que, aos poucos, há mesmo quem ganhe espaço dentro de mim, quem se vá construindo em mim do quase nada e vá ganhando outros contornos, ganhando aos poucos a simpatia, o gosto, a confiança, e até a própria atracção, num crescer simultâneo das várias vertentes, e polarizado-se em algumas delas. Torna-se mais igual, deixa de ser um ser tão estranho e diferente que mais parece de outra espécie, no sentido em que vai sendo mais conhecido, mais compreendido. E sendo essa descoberta positiva, agradável, acaba por causar vontade de conhecer mais, de descobrir o resto, e acaba até por levar a dar atenção a aspectos que antes nem se olhavam, a somar identificações e compatibilidades dentro das diferenças que subsistem. Sei agora que é possível alguém passar de uma indiferença a uma vontade de presença, de um conhecido a um amigo, e até de uma resoluta falta de atracção a um curioso interesse de quase desejo. Esta curiosidade pode ser semente.

Mas... diz um popular ditado que “curiosity killed the cat” e, num plano um pouco mais elevado, dizia Nietzche que “quando nos vemos obrigados a mudar de opinião a respeito de um indivíduo, fazemos com que pague caro o trabalho que nos deu.” E isto preocupa-me e deixa-me a pensar...

Fora de Jogo

Já me tinham dito que assusto os homens, afasto-os. Acho que é verdade, na maioria dos casos. O pior é que, ironicamente, os poucos que não assusto, assustam-me a mim.

É o quê? O jogo do poder?!

Talvez, sim. É um “jogo”, termos de escolher comportamentos sabendo que a relação custo/benefício não é fixa, nem líquida, e depende da escolha de outros. Sabemos que a soma do jogo pode ser diferente de zero e é isso que ambicionamos. Mas embora saibamos que ambos podem ganhar, sabemos que podem ambos perder. E sabemos ainda que, pelo meio, a generalidade é que há um que perde ou ganha mais que o outro, e às vezes um que ganha tudo e outro que perde tudo. Porque não se sabe o que quer o outro ganhar, não se sabe como vai jogar, e não se pode ter a certeza nem de que o outro joga limpo, nem de que seguimos uma estratégia vencedora. Eu habituei-me a não acreditar que do outro lado haja intenção de jogo limpo. Acho sempre que querem tomar alguma coisa de mim, por isso parto de pé atrás, não sou “amável” – e eles fogem. Se eles não fogem, fujo eu, porque se eles não têm medo de mim é porque não sentem o perigo de perder.

Ou seja, teoricamente, isto devia ser um jogo de cooperação a tender para o equilíbrio. Enquanto cada um retira uma vantagem, em equilíbrio, a relação permanece, ambos ganham. Um comportamento positivo encoraja outro comportamento positivo. Mas se um traír o outro ou não cooperar, vai ser castigado na ronda seguinte. É o chamado “tit for tat” e, se pensarmos bem, é assim que funcionamos: um não ligou, o outro também não liga; um convidou para almoçar, agora convida o outro; mas se um aceitou o convite e o outro não aceita o seguinte, então um já não liga nem convida mais. O outro faz o mesmo, nunca mais se vêem. Empatam-se e saiem os dois a perder. Game over.

Ou seja, o “tit for tat” gera ciclos viciosos, positivos ou negativos, e pode degenerar em impasses. Cada um fica à espera que o outro dê mais para avançar e nenhum se move. A única forma de desempatar é... perdoar. É o que pode permitir recuperar uma relação, não alimentando o ciclo de comportamentos negativos, antes dando estímulo para uma retribuição positiva. Não é o perdão cego, nem infindável. É o que eu chamo o perdão exponencialmente reduzido (sim, sou um bocado retorcida - haverá certamente formas mais lineares de traduzir isto). O que quero dizer é que é o tipo de perdão que se torna mais difícil, de menor probabilidade, à medida que aumentam as situações que o exigem. É perdoar à primeira sem questões, com castigo à segunda, com gelo à terceira, e não dar perdão à quarta. Alguns têm ginástica para meter umas quantas mais parcelas na equação. Eu nem por isso, confesso. Já joguei no perdão sem fim, e dei-me muito mal.

Agora, fujo para não perder. Para não ter de jogar na retaliação e na desconfiança de que não gosto, mas que são só do que sou capaz. Porque sei que se me apaixono tenho maior hipótese de perder, e perder mais. Porque sei que o amor não se impõe nem obriga a retorno. E sei o que dói dá-lo sem receber. Fujo, porque sei que percebo as regras do jogo, mas não sei, nem quero jogar.

Espelho meu

Há um reflexo no espelho à minha frente. Ali está a imagem de mim. Redescubro os meus traços e contornos. Era menina de sardas, agora mulher madura. As sardas estão lá ainda, menos óbvias no rosto. A menina ainda brilha nos olhos. A mulher vincou-se em algumas pequenas rugas de expressão. São marcas do que ri e do que chorei. Do que vivi, intensamente. Apanho o cabelo para me olhar melhor. Já fui adolescente, depois projecto de mulher, com o cabelo muito curto num impulso de rebeldia. Ficava-me bem, lembro-me. Mas a minha avó chorou - adorava o meu cabelo. Solto-o e sinto-o envolver-me os ombros e cair até quase meio das costas despidas. Gosto do meu cabelo assim, bastante comprido e solto, caido numa leve revolta, não rebelde. Observo o meu corpo que já adquiriu um leve tom de Verão. Nunca bronzeia, apenas doura. Continuo a ver-me tão menina, talvez pela magreza de que sempre fui vítima. Já foi demais, já foi tormenta. Hoje é a certa para mim. Há quem a inveje e quem me queira fazer engordar. Eu gosto assim. Sortes e destinos. Penso em equílibrios divinos. Mais disto, menos daquilo. Hoje percorro as minhas curvas, que já não são de menina franzina nem de adolescente espigada. Também têm algumas marcas do meu percurso de mulher. Uma cicatriz de mulher feita mãe, num ventre que adquiriu já contornos tão diferentes para gerar vida e para a soltar se cortou. E fica a marca, cada vez mais ténue, cada vez mais minha, e o desenho da cintura voltou. Como é espantoso. Curva de destino. Apesar de tudo, reconheço ainda o meu corpo, mantenho até as mesmas pernas que não parecem, ainda, querer envelhecer. Sorte ou azar. Estes são os caminhos que os meus homens percorreram em mim, com os dedos por cabelos ora curtos ora longos, por esta pele ora branca ora dourada, ora antes ora depois de cada ruga e cada cicatriz. Engraçado, parece-me que nos sentimos mais no toque dos outros. O tacto dos outros desenha-nos, faz-nos sentir a existência da pele, materializa-nos os limites do ser. Como também nos vemos tantas vezes pelos olhos dos outros, e tantas vezes nos perdemos por nos significarmos apenas aí. Hoje o espelho é os meus olhos, penso. As minhas mãos, os meus dedos, o meu próprio sentir de mim. E olho-me, e sinto-me. Desenho-me e delimito-me. E sorrio. Não é perfeito o meu rosto, nem o meu corpo. Mas eu gosto de mim assim. Tenho-me ali no espelho, todos os meus antes e depois, e só eu me tenho sempre a mim. Vesti a minha pele.

Tanto Querer

Quero um avião para me levar pelas núvens, a uma praia iluminada pelo
pôr-do-sol,
e uma
areia morna e mole.
Quero dourar o meu corpo na luz, os cabelos espalhados no peito do
coração,
que bate por mim
sem razão.
Quero uma brisa suave, a refrescar o suor quente e bom de um
abraço apertado,
de um
beijo doce e salgado.
Quero um momento de
eternidade,
olhos nos olhos, mãos
entrelaçadas,
corpos
unidos,
palavras
não faladas.
Quero o
riso
espontâneo da
partilha
de uma piada que
não se diz,
que se conta e ouve com um
olhar feliz.
Quero o sorriso do
contentamento,
a fome da
plenitude,
o sono da
exaustão,
dois corpos na
palma da mão.

Quero...
O amor infinito, o verbo no futuro, o fim do mundo, o fim do
tempo,
para ter-te para sempre cada
momento.

Quero...
Uma história aberta, de quatro mãos, dois corações, num só compasso
sem fim,
num só corpo
de ti e de mim.

Lógica Feminina I


Para equilibrar as coisas, propus-me escrever umas linhas sobre a lógica feminina, não como reflexo total daquilo que penso, e rebato argumentos muitas vezes, mas como resumo daquilo que vou ouvindo e vendo de outras mulheres à minha volta.

Mas, na verdade, tive de desistir, porque afinal, bem vistas as coisas, em alguns aspectos a minha lógica não andava assim tão longe como pensava da generalização que tentava fazer... E se fosse a focar-me apenas naquilo que não me reflecte de forma nenhuma, sobrava pouco, e não estava a ser justa. Acabei por perceber que há muito destas “lógicas”, masculinas ou femininas, que são muito principalmente coisas geracionais. Por isso o que é hoje a “regra” nas mulheres da minha geração, pode bem sê-lo assim apenas pelo “momento comum” que atravessamos. Talvez por isso nos choquemos, colectivamente, com as diferenças de padrão que observamos nas mulheres de outras gerações, sobretudo as mais novas, ou com as mulheres da mesma geração que “fogem à regra”.

Afinal, até sou bastante mais “feminina” de lógica do que pensava... Mas percebi que gosto de ser tão feminina quanto sou, e sei que não deixo de ter as minhas originalidades que são aparentemente inconsistências, desvios da regra da geração, mas de que gosto cada vez mais. É que é isso que me distingue, é isso que me dá a consistência de ser individual e único, em cada momento do tempo. E pronto, o blog é meu, e aqui destilo o que me apetece, e agora não me apetece pensar muito em como é que consigo retorcer algumas coisas tão simples em argumentos tão elaborados, absolutamente convicta da minha originalidade.

Lembrei-me de uma tia de há umas quantas gerações, que é para mim um ícone de feminilidade, e que tinha uma frase “de marca” que eu acho absolutamente brilhante. Em qualquer discussão ou argumento em que fosse vencida pela razão dos outros, com a mesma fleuma de sempre, terminava a dizer “Em todo o caso.”. Simplesmente, educadamente e sem qualquer indício de arrogância, sem indiciar que acrescentaria mais nada, e com um tom que não admitia mais discussão. Não era possível ganhar-lhe... Essência de ser mulher, com uma boa dose de originalidade. Assim serei eu também, e talvez um dia deixe por aí uma frase dessas para a posteridade.

“Muito-Tanto”

Num desses dias em que o meu filhote estava com o pai, estava com umas saudadesinhas dele. Falamos ao telefone e ele estava bem disposto, mas claramente com saudades. Voltou a ligar-me 2 vezes depois da primeira conversa, “só para dizer mais uma coisa”, de cada vez. E no meio dos vários telefonemas disse-me “tenho uma coisa muito bonita para dizer à mãe: gosto muuuuito-tanto da mãe!”... Encheu-me o coração.

Estes dias agora está com o pai e sinto-lhe a ausência, a distância. Tivemos um Domingo tão bom. Sinto que estamos a crescer os dois numa cumplicidade ternurenta e muito enriquecedora. E isso, só por isso, faz-me feliz. Aproveitei cada minutinho do tempo que tive com ele. Fizemos coisas giras, como ir para uma livraria onde fui caçar um livro que procurava, e apesar de ter tido de sair a meio para ir procurar uma casa de banho, às tantas, na segunda investida, sentei-o num sofá a guardar os 2 livros que já tinha escolhido, enquanto procurava o terceiro. E ele ali ficou todo contente, a fingir que lia as minhas histórias e a responder às várias pessoas que se metiam com ele com um sorriso no rosto. Compramos um livro para ele também, que acabei a ler com ele sentado no balcão e altamente participativo na leitura da história, e toda a gente a olhar para nós com olhares sorridentes que me fizeram rebentar de orgulho – sou uma boa mãe! – e de ternura pelo miúdo – que bolas! ele é mesmo especial!. Joguei à bola com ele, rebolamos na relva, passeamos e conversamos, vi desenhos animados no sofá com ele no colo, e não deixei de fazer coisas minhas, e ele soube respeitar o meu espaço e partilhar também das minhas coisas.

Mas agora cá me fiquei a remoer, um bocadinho nervosa com o fantasma da solidão destes meus dias de mulher, um bocadinho impaciente, sei lá.

Queria qualquer coisa. Queria um frenesim qualquer e algumas respostas aos “e depois?” que vou, como o meu filho, desfiando no tempo da minha cabeça. Queria umas horas de companhia e riso num jantar com amigos. Queria dançar esquecida, perdida, na música. Queria ver uns certos olhos. Queria sentir a minha alma e outra alma. Queria espreitar o futuro. Queria... “muito-tanto”. Acho que, para além do gosto pelos livros, o meu filho herdou de mim o gosto pelos superlativos...

Distracções

Este caminho tem sido duro mas hoje estou já distante do sítio escuro onde estava há 1 ano, ou mesmo meio ano, atrás. Sei que se nota esta mudança em mim, mesmo exteriormente, e tenho recebido imensos comentários nesse sentido. Rejuvenesci e revelei-me.

Já comprei uma data de coisas da minha listinha para a estação que se aproxima - e que espero ansiosamente, porque estava farta de maus tempos, frios, chuvas e temporais...

Estou a escolher umas poucas coisas mais corporate (porque tenho de ter o que vestir para trabalhar...), mas mesmo nessas tenho procurado tudo muito mais descontraído e procuro sempre coisas “diferentes”. Larguei o cinzentismo dos fatos clássicos – e cinzentos, e mesmo os fatos que escolho agora têm um qualquer salero, além de que os misturo com peças improváveis e acessórios mais arrojados. No resto, só procuro coisas sexy, coloridas, leves e descontraídas, e muito, muito femininas!

Exemplo foram uns novos óculos de sol... Lindos, mas carésimos, e não sei se exagerei um bocado - são à frente!...

E vou por aí nessa linha meio "alternativa", mas chique. Divirto-me à brava a falar comigo mesma à medida que vou tirando coisas dos cabides e prateleiras, e realizo a diferença daquilo que agora me atrai. Às vezes pelas cores, que de repente me apetece vestir, às vezes pelo estilo em si. E o mais espantoso é que experimento e sinto-me bem nesta “nova pele”. A minha metamorfose é mesmo total – e óbvia. E adoro o meu filhote de manhã, a passar a mão pela minha roupa ou por um colar, com o seu aguçado sentido crítico (não sei de quem herdou...), a exclamar coisas como "a mãe tem uma camisola côr-de-rosa!", ou "esse colar da mãe é tão giro!" ou a dizer-me... "a mãe está tããão bonita!..." Não há nada mais doce.

E assim me vou distraindo doutras coisas, que não me apetece escrever profundidades, não me apetece remoer nada, não tenho dormido em condições e tenho uma enorme dor de cabeça. E hoje não me chateiem, ok?...

Dias de Mãe vs. Dias de Mulher

Durante meses continuei a sentir-me angustiada, deprimida e triste. O meu filho sofreu com isto. Dava-me abraços e carinhos e perguntava-me encorajadoramente: "A mãe está contente?!"... Claro que lhe dizia que sim, que gosto muito dele e dos abraços e miminhos que me dá. Também o abracei com o coração apertado e tentei dar-lhe os meus melhores sorrisos.

Ele é a coisa mais importante da minha vida, tudo tem girado à volta dele - até demais. E não me arrependo porque quero o melhor para ele e quero que seja feliz. E porque é a minha responsabilidade de mãe. Também sei que não me posso esquecer de mim, e que tenho de estar bem e feliz para ele o sentir e poder transmitir-lhe o amor e carinho que ele precisa, para ter a paciência e a disponibilidade de rir e brincar com ele.Tenho conseguido ir ganhando aos poucos autonomia e liberdade para respirar. Só que às vezes também me angustio a pensar se farei o melhor para ele. Pondero se não terei ficado se calhar um pouco egoísta de mais... Este equilíbrio é muito difícil, porque embora não veja o meu filho como uma “parte” de mim, um prolongamento, uma perpetuação, sinto o peso de carregar com ele, já não fisicamente, mas de uma forma mais profunda. Ele depende, de facto, de mim. Eu não quero negar-lhe nada que lhe faça falta para crescer e se tornar num ser humano completo e feliz, mas não posso dar de mim mais do que uma parte, porque não me posso esvaziar nele.

Por isso, tentei organizar a minha vida de forma a conseguir um melhor equilíbrio. Na verdade, e por comparação com a vida de muitas mães solteiras por esse mundo fora, até tenho muita sorte de ter tantos apoios e ter hoje bastante tempo, espaço, liberdade, os silêncios de que sempre precisei tanto e de que sentia tanta falta. Devia ser o suficiente para poder passar os dias que tenho com o meu filho com mais alegria, energia, e boa vontade. Mas, por outro lado, o pior é que, ao fim de algum tempo, começo a sentir os tempos e os espaços desses "dias de mulher" como vazios que não consigo preencher. E não uma liberdade mas uma jaula de angústia, que depois não me deixa bem para os meus "dias de mãe".

Às vezes não sei o que fazer para encher a minha vida. Quando esgoto programas, jantares, saídas, cinemas, e depois coisas como a Internet, o ginásio e o supermercado, apetece-me qualquer coisa mais e não sei onde ir ou o que fazer, e não me apetece admitir a solidão desses momentos saindo à rua sozinha. Lá fico a entreter-me com coisas parvas, a devorar livros, mas a sentir-me um animal enjaulado. É absurdo, eu sei.

Por outro lado, quando o meu filho não está comigo, estou constantemente a pensar nele, se estará bem, se terá saudades. Por vezes falamos ao telefone e são uns momentos sempre inesquecíveis. Por vezes, chego a acordar de noite com a sensação de que ele está ali, a chorar, e depois realizo que ele não está lá.

E saír disto? Continuo perdida e sem a mínima noção de como integrar tantas partes diferentes da minha vida e de mim. As gavetas... Ser mãe, ser boa mãe, e ainda assim ser mulher, é mais uma, pois...

Mas lá tenho conseguido, aos poucos, ir arrumando estas coisas. Assim tipo reestruturação de departamento. E agora corre bem melhor, com menos angústias e mais confiança, e lá vou vendo no meu filho sinais de que, apesar das dúvidas, não estou a fazer assim tão mau trabalho como isso.

Quem me dá um abraço

O que é um abraço?

Numa definição de dicionário diz-se que é "acto de apertar alguém nos braços; expressão de afecto ou amizade".

Quantas dimensões têm os nossos afectos? Provavelmente tantas quantos os tipos de abraços que existem. Abraçar um Pai não é igual a abraçar um filho. Abraçar um amante não é igual a abraçar um amigo.

Mas não é só "afecto" - é "expressão".

Dou poucos abraços e tenho poucas pessoas, muito poucas, que me dão abraços. Não me lembro do meu Pai me abraçar a não ser numa ocasião muito especial, muito triste e muito dura, mas desse não me hei-de esquecer por mais anos que viva. Também me lembro apenas de um abraço da minha mãe, ou melhor, à minha mãe, também num momento de enorme dor, minha, que nesse instante senti que era um pouco dela também.

Abracei os Homens da minha vida, os poucos que amei, muito e tanto, mas sempre de maneiras diferentes, com medidas diferentes.

Não sei abraçar os meus pais, os amigos, e perguntava-me se hoje ainda saberia abraçar um homem, porque mesmo que voltassee a amar algum, iria ter de reaprender a "expressar" esse amor.

Só sei realmente abraçar o meu filho, que amo e sei dizer, sei mostrar que amo. E sei que gosto muito quando a minha mana me abraça. Não sei se a sei abraçar de volta, mas gostava de pensar que sim. O afecto está lá, mas a expressão é que custa.

O acto de abraçar alguém, de "apertar alguém nos braços", oferece uma proximidade tremendamente assustadora, tremendamente íntima, para mim. É expor o coração, no meio do peito aberto, a um contacto que tenho medo que me possa ferir.

Afinal, tenho muito ainda que curar em mim, tenho muito ainda para aprender. Mas tenho muito, ainda, para dar.

E depois de escrever isto, veio a insónia... Passei uma noite a pensar na distinção entre o "sentir" e o "expressar". Pensei: será que ainda sei realmente sentir? Será que ainda saberei amar?

Queria saber responder. E um dia, tempos depois, um homem entrou na minha pele e na minha alma, não sei de onde, não sei porquê, e dei por mim num abraço, bom, apertado, sem defesas, numa entrega que teve tanto de mágico como de absurdo. E depois, o medo, o susto, a ferida re-aberta, num repente insano. E deixei-o de fora, não soube mostrar-lhe o porquê. Neguei-lhe o abraço. E cá ando até hoje com ele impregnado em mim, estranhamente apaixonada, mas à distância... de um abraço.

Por isso, acho que, mesmo passado tanto tempo, mesmo feito tanto caminho ao longo dos últimos meses, realmente já não sei amar, mesmo quando me apaixono, porque não me sei dar sem reservas por mais do que uns poucos momentos que dura o ímpeto da química, da mágica, da paixão.

E o pior é que eu queria tanto dar esse abraço, abrir o meu coração, mais do que os braços, e tenho tentado tanto, e não consigo evitar a antecipação da dor. E assim me prendo a uma outra dor.

As portas que fechamos

Depois do meu filho nascer, tendo penado e penado, antes, durante e depois, jurei que nunca teria outro filho.

Foi um suceder de dificuldades nos primeiros meses. Não dormi uma noite de seguida durante mais de 2 anos, estive com ele internado no Hospital, passei por um não acabar de doenças e corridas para hospitais e pediatras, finalmente uma cirurgia aos 27 meses. Vivi em suspenso no termómetro e na enorme farmácia que juntei em casa, de tal forma que não conseguia viver mais nada. Ou ser mais nada.

Continuo sem ”vontade” de ter mais nenhum, porque tremo de pensar em passar por isto outra vez. Mas agora é mais fácil. Diminuiu o número de doenças mas também consigo lidar com as que surgem com mais tranquilidade. Como me dizia a minha Mana, antes eu era “a Mãe do L” e agora sou isso também, mas sou muito mais. Também era porque a “Mãe do L” não tinha de pensar noutras coisas... E agora “eu” enfrentei-as e quero ser mais...

Mas de repente dei comigo a perguntar à minha ginecologista, sobre o DIU, como era se nos 5 anos de “duração da coisa” eu quizesse engravidar! Quase que nem acreditava que tinha feito a pergunta, parecia que aquelas palavras não eram minhas. Tinha de me perguntar porquê.

Porque...

Porque vejos estes próximos como os últimos 5 anos de vida em que ainda posso pensar em ter outro filho. E de repente percebi que gostava de uma segunda oportunidade de viver a experiência da maternidade de uma mais forma feliz, com um companheiro de mim e dessa experiência, com amor, com partilha, com abraços. E dei comigo a pensar se realmente quero fechar essa porta, que pensava trancada, e afinal ainda está aberta no meu subconsciente. Parece que não quero fechá-la. Só encostar. Se vier um sopro de Amor a sério que precise de ir por ali, posso querer abri-la.

Ou seja, no fundo, no fundo, porque...

Porque acredito que esse sopro pode acontecer. E fiquei estupefacta com esta conclusão.

Lastros

Um dia o meu ex-marido ligou-me. O segundo, que do primeiro nunca mais tive notícias – graças a Deus! Do segundo tenho um filho. Por isso, muitos contactos. Dos que não são por questões práticas, agora menos, cada vez menos (graças a Deus!), houve dois que me incomodaram. Uma vez:

“Tenho sentido muito a vossa falta. Dele e tua também.”

Não, vocês não estão a perceber. Para mim o meu casamento acabou há anos. Ao fim de uns meses a ponderar a decisão de me divorciar, lá fui fui finalmente falar com uma advogada e depois andei 8 meses a penar, num ping-pong de advogados, acordos e desacordos, burocracias, e finalmente uma “conferência” que tornou tudo final. Desses 8 meses, tive de esperar 5 meses para poder sair de casa. Sem papeis assinados, era “abandono do lar”: nem pense nisso – dizia a minha advogada – pode perder a custódia do seu filho.

Foram os meses mais difíceis. A arrastar-me no escritório para não ir para casa, a fumar cigarros na garagem antes de entrar, a procurar coragem na nicotina para o enfrentar, para jantar à mesma mesa, escondendo do meu filho as brigas, as lágrimas e os cobertores na sala.

De repente diz que sente a minha a falta. E eu engulo em seco, porque não sinto a falta dele. Porque para mim esses meses foram um calvário e sinto-me tremendamente aliviada de ter chegado ao fim. Pese embora a tristeza, e a angústia de saber que não é um caminho fácil o que tenho pela frente. Pior – não sabendo sequer qual é o caminho que tenho pela frente, em que futuro me lancei, em que abismo me precipito. Digo-lhe o quê? Que sei. Pois sei, porque sei que ele não queria o divórcio. Mas também não me queria realmente. Só que ele não quer ver isso, e já não me compete a mim mostrar-lhe.

Outra vez, recebi um SMS, no dia em que faríamos 6 anos de casados. Mensagem difícil. Dizia que se tinha lembrado de mim porque “foi num dia destes que fizeste de mim o homem mais feliz do mundo”. Respondi no dia seguinte, a lembrar-me de uma coisa bonita que a minha Mana me disse um dia. Não me lembro das palavras exactas, mas a ideia é que dizer aos outros que são especiais para nós é uma dádiva imensa. De certa forma, foi o que ele fez com a mensagem dele e tentei olhar para isso dessa maneira mais bonita, e não como um fardo, uma recriminação, o discurso do coitadinho. Respondi então a agradecer as palavras, disse-lhe que era bom saber que tinha sido uma coisa boa na vida de alguém, e disse-lhe que também tinha boas memórias.

E é verdade.