"Destilar", cientificamente, é "separar componentes químicos que constituem uma substância através de vaporização seguida de condensação". Serve para muita coisa, nomeadamente, para produzir bebidas espirituosas. Aqui, é uma tentativa de purificação da mistura de tudo o que sinto, penso e vivo. A aguardente do que sou.
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Fechar a mala
Mesmo quando é numa despedida para uma ausência curta, custa sempre fechar-lhe a mala. Há que deixá-lo ir, largá-lo na rotina das idas e vindas que a vida lhe impôs, e sorrir de volta, seja lá como fôr. Tento pôr-lhe dentro da mala mais do que posso. Sei que a encho de coisas inúteis e coisas demais. Acaricio as roupas que escolho e dobro, na ilusão de que ele me possa sentir as mãos quando outro alguém o vestir. É uma ilusão idiota. Sei que não vou lá dentro, não vou com ele. E quando fecho a mala sinto-me fechada do lado de fora, de fora desses espaços e desses dias dele sem mim.
E sobram-me dias de mim sem ele. Dias de que preciso, em que aproveito a liberdade e o silêncio ou a agitação dos meus dias de mulher, mas dias que vivo nunca me deixando de sentir mãe em vazio. São, desta vez, dias que me impus e lhe imponho, porque são dias que agora me são vitais. Desta feita, sou eu que o fecho de fora deste bocadinho de vida que vou viver mais longe, e desta vez não sinto culpa, ou remorso. Mas sei que sentirei saudade.
Equilíbrios
Há alturas em que me sinto em guerra comigo própria. Sinto que sou prisma colorido de muitas faces e muitos brilhos, e que o conjunto não é uma forma harmoniosa, mas antes um obtuso objecto que quer rolar mas tropeça nas arestas e nos vértices, nunca se fixando numa côr definida. Sinto que tenho de escolher quais as faces do prisma que se podem ver, que podem brilhar, e que há sempre umas quantas que terão de ficar ocultas, porque o objecto tem de assentar em algum dos lados.
Senti muito isto em relação à minha dicotomia mulher/mãe aqui há um ano e pouco atrás. Foi um dos meus maiores desafios dos últimos tempos, arranjar um equilíbrio para o prisma de forma a que, tanto a face da mulher como a face da mãe, pudessem brilhar e ver a luz do sol, criando no conjunto uma paleta de côres harmoniosas. E agora, por força das circunstâncias, sinto de novo esse equilíbrio perigado, lutando entre uma enorme vontade de partir pelo mundo fora e uma inegociável necessidade de caminhar com o meu filho.
Queria fazer a mala e levantar amarras, partir à aventura, recomeçar a vida toda num outro lugar, encontrar o meu lugar. Mas ele prende-me aqui e não consigo sequer articular a hipótese de partir sem ele. Isso seria enterrar no chão uma das faces mais importantes do meu prisma e sei que seria desvirtuar-me, no sentido em que seria tornar-me incompleta, seria tornar mais pobre a paleta de côres que o meu prisma produz. Sei que não seria capaz, como uma amigdalite me faz claramente recordar, ao embalá-lo no colo uma noite inteira, sofrendo a agonia de o ver sofrer, correndo com ele para o pediatra com a instintiva mas inquestionável certeza de que ele estava mesmo doente. E estava.
Nas noites sobressaltadas a seguir, noites de ausência dele que ficou com o pai, mesmo sabendo-o medicado e a melhorar, sofro a distância e sinto o prisma desiquilibrado. Como poderia ir para mais longe ainda, e por muito mais tempo do que os 4 dias ou uma semana no máximo que ele passa com o pai a cada quinze dias?...
Não posso. Mas queria. Queria ir. E esse ímpeto de movimento negado ao prisma, desiquilibra-o perigosamente, e escurece assustadoramente a luz que me atravessa.
Das coisas simples que me fazem sentir bem # 2
Um abraço, um beijo ou um sorriso do meu filho.
Faz-me sentir viva, existente e consequente. Sei que vai aquecer-me o coração até ser velhinha, mesmo quando o tiver de largar do abraço dos meus braços para que possa ele abraçar o mundo.
Faz-me sentir viva, existente e consequente. Sei que vai aquecer-me o coração até ser velhinha, mesmo quando o tiver de largar do abraço dos meus braços para que possa ele abraçar o mundo.
Mea Culpa
Um filho muda tudo, muda-nos a nós próprios. As prioridades reorganizam-se, as liberdades restringem-se e as responsabilidades aumentam de forma exponencial. Deixamos de ser moléculas independentes e passamos a ser orgão vital, não podemos parar, não podemos desistir. Os filhos dependem de nós e sofrem as consequências de tudo o que erramos. Mas um filho não é um sentido para a vida, não é uma razão de ser. Um filho é uma responsabilidade, é um projecto de que não se pode desistir. É uma lição de amor e uma satisfação, tanto como é uma lição de preserverança e sofrimento.
Quis muito ter um filho, pensando que tinha encontrado o pai perfeito que ía comigo construir uma família. Não podia advinhar a volta que a vida ía levar. Não me arrependo de ter o L, mas também me entristece tremendamente que não o possa ver crescer no meio de uma família a sério. Não seria a minha escolha se tivesse visto o futuro.
Custa-me tê-lo longe, a chorar ao telefone a perguntar-me quantos dias faltam para eu o ir buscar, ou para ir “para casa da mãe” porque, dizia-me ele, está triste. Foi a primeira vez que me lembro de o ouvir verbalizar uma emoção espontaneamente, e foi logo a tristeza que escolheu. Fracasso de mãe, penso no imediato. Mas eu sei que sou para ele a melhor mãe que sei e consigo ser, nas limitações da minha condição humana e na impotência contra alguns desvios do destino. Sei que não posso evitar-lhe todo o sofrimento e não posso garantir-lhe felicidade permanente. Sei agora e sei agora o quanto dói.
Preferia não estar na situação de ter de o “visitar”, mas fui matar saudades, minhas e dele. Conversamos a vêr o mar e depois jantamos pizza. E lá tive de deixá-lo com o pai, com as lágrimas e os abraços que não se querem desfazer. “São só mais 5 dias e depois vamos de férias, só nós dois, 15 dias, que é imenso!”, digo-lhe eu com todo o entusiasmo que consegui espremer de mim. E ele responde que isso é “taaaanto”, que “é uma mão TODA”...
Ainda tinha esperança de viver a experiência da maternidade outra vez de uma forma mais tranquila, mais feliz, com uma verdadeira família. Mas não sei já se teria coragem. O que sei hoje é que, como ouvi alguém dizer, não quero mais nenhum filho “de” – quero eventualmente um filho “com”. E sei que mesmo com os sinais certos todos, e anos de provas olímpicas ultrapassadas, será sempre um risco, para mim e sobretudo para um hipotético segundo filho, a quem amando de antemão, assim talvez prefira não dar existência. Sei que para poder pensar no assunto a sério é preciso encontrar um Amor e que este, sem laços de sangue, não é matemático, não tem modelo, norma ou garantia. É um monte de sortes, acasos e paradoxos e, ainda por cima, é uma coisa volátil... Sei hoje o que sobra quando evapora, e sei que uma criança precisa tanto de uma mãe como de um pai, e mais que dos dois em alternância, precisa de uma família.
Mea culpa meu filho, que me perdoes um dia porque não soube o que fazia.
Quis muito ter um filho, pensando que tinha encontrado o pai perfeito que ía comigo construir uma família. Não podia advinhar a volta que a vida ía levar. Não me arrependo de ter o L, mas também me entristece tremendamente que não o possa ver crescer no meio de uma família a sério. Não seria a minha escolha se tivesse visto o futuro.
Custa-me tê-lo longe, a chorar ao telefone a perguntar-me quantos dias faltam para eu o ir buscar, ou para ir “para casa da mãe” porque, dizia-me ele, está triste. Foi a primeira vez que me lembro de o ouvir verbalizar uma emoção espontaneamente, e foi logo a tristeza que escolheu. Fracasso de mãe, penso no imediato. Mas eu sei que sou para ele a melhor mãe que sei e consigo ser, nas limitações da minha condição humana e na impotência contra alguns desvios do destino. Sei que não posso evitar-lhe todo o sofrimento e não posso garantir-lhe felicidade permanente. Sei agora e sei agora o quanto dói.
Preferia não estar na situação de ter de o “visitar”, mas fui matar saudades, minhas e dele. Conversamos a vêr o mar e depois jantamos pizza. E lá tive de deixá-lo com o pai, com as lágrimas e os abraços que não se querem desfazer. “São só mais 5 dias e depois vamos de férias, só nós dois, 15 dias, que é imenso!”, digo-lhe eu com todo o entusiasmo que consegui espremer de mim. E ele responde que isso é “taaaanto”, que “é uma mão TODA”...
Ainda tinha esperança de viver a experiência da maternidade outra vez de uma forma mais tranquila, mais feliz, com uma verdadeira família. Mas não sei já se teria coragem. O que sei hoje é que, como ouvi alguém dizer, não quero mais nenhum filho “de” – quero eventualmente um filho “com”. E sei que mesmo com os sinais certos todos, e anos de provas olímpicas ultrapassadas, será sempre um risco, para mim e sobretudo para um hipotético segundo filho, a quem amando de antemão, assim talvez prefira não dar existência. Sei que para poder pensar no assunto a sério é preciso encontrar um Amor e que este, sem laços de sangue, não é matemático, não tem modelo, norma ou garantia. É um monte de sortes, acasos e paradoxos e, ainda por cima, é uma coisa volátil... Sei hoje o que sobra quando evapora, e sei que uma criança precisa tanto de uma mãe como de um pai, e mais que dos dois em alternância, precisa de uma família.
Mea culpa meu filho, que me perdoes um dia porque não soube o que fazia.
Precious moments
Recebi um DVD do colégio do miúdo, que vi com ele no colo, de visita, em grande animação. Confirmei as suspeitas de que o L. é mesmo um pilantra, e pela amostra creio bem que ainda vou ser intimada a ir falar com muitos professores... Fiquei a saber que a melhor amiga dele no início era a B, mas agora é o Z, que ele é que disse que o pica-pau é um pássaro (aula de música), que a ginástica é “bué da fixe”, que não se cala um minuto também na escola, sobretudo às refeições apesar de ser o primeiro a acabar (nunca lhe faltou apetite a não ser se estiver doente!), e que quando crescer quer ser... “grande”!!!
Diverti-me com o filme e com os comentários dele a relatar-se sempre que aparecia, mas adorei tê-lo aqui no colo, numa autêntica sessão de mimo. Virou bebé assim que entrou a porta, foi procurar a chucha e tudo, obviamente carente. Depois de muito cafuné e muitas declarações de amor, passou-lhe e lá entrou no ritmo alucinado normal de espalhar confusão e barulho. Encheu-me a casa, e encheu-me a mim.
Estas visitas são poucas e curtas, mas deixam-me sempre melhor e sempre com uns momentos especiais. Na 3ª feira foi à despedida: com um ar muito sério, depois de já andar a engonhar há não sei quanto tempo, com o pai no patamar à espera, vira-se para mim e diz-me, num tom para lá de paternalista, “se a mãe precisar de alguma coisa de mim, liga para o pai que ele vai-me logo chamar!”. E hoje foi com a minha empregada, que queria levá-lo com ela ao supermercado (programa que, geralmente, adora), e lhe diz que não, que “a mãe precisa de ficar com alguém, por isso eu fico a fazer companhia à mãe”.
O meu filho é um pilantra e às vezes dá comigo em doida, mas é um doce de miúdo e consegue adoçar-me de uma forma única, com cada sorriso e cada abraço, e cada um destes momentos preciosos. É uma brisa boa, mesmo quando só passa aqui a correr, e mesmo deixando um rasto de confusão, porque continua depois a envolver-me num embalo tão bom.
Diverti-me com o filme e com os comentários dele a relatar-se sempre que aparecia, mas adorei tê-lo aqui no colo, numa autêntica sessão de mimo. Virou bebé assim que entrou a porta, foi procurar a chucha e tudo, obviamente carente. Depois de muito cafuné e muitas declarações de amor, passou-lhe e lá entrou no ritmo alucinado normal de espalhar confusão e barulho. Encheu-me a casa, e encheu-me a mim.
Estas visitas são poucas e curtas, mas deixam-me sempre melhor e sempre com uns momentos especiais. Na 3ª feira foi à despedida: com um ar muito sério, depois de já andar a engonhar há não sei quanto tempo, com o pai no patamar à espera, vira-se para mim e diz-me, num tom para lá de paternalista, “se a mãe precisar de alguma coisa de mim, liga para o pai que ele vai-me logo chamar!”. E hoje foi com a minha empregada, que queria levá-lo com ela ao supermercado (programa que, geralmente, adora), e lhe diz que não, que “a mãe precisa de ficar com alguém, por isso eu fico a fazer companhia à mãe”.
O meu filho é um pilantra e às vezes dá comigo em doida, mas é um doce de miúdo e consegue adoçar-me de uma forma única, com cada sorriso e cada abraço, e cada um destes momentos preciosos. É uma brisa boa, mesmo quando só passa aqui a correr, e mesmo deixando um rasto de confusão, porque continua depois a envolver-me num embalo tão bom.
Sangue do meu sangue

O meu filho está doente, desde ontem à noite. Foi uma noite difícil, para os dois.
O que mais me custa nestas situações não é a noite em branco, ou o cansaço que fica, ou a trabalheira que dá. É a angústia de o ver mal e não poder tirar-lhe as dores, a angústia de não saber se é grave, e a angústia de ter de o deixar entregue a outros para poder ir trabalhar de manhã.
É nestas alturas que me sinto mais próxima da minha essência animal, um animal com uma cria ferida. A “razão” funciona pouco, é tudo muito instintivo. Simplesmente “sei” quando está doente, "vejo-lhe" a febre, “advinho” quando vai vomitar, “sinto” o significado de cada choro em que distingo diferenças que mais ninguém ouve.
E depois a força que vem não se sabe de onde. Não sei como consigo não dormir toda a noite com ele no colo ou deitada ao lado dele numa cama com um colchão de 1,35m. Apenas fechando os olhos por uns minutos de cada vez. E ainda assim, consigo despertar de imediato e estar a funcionar a 100% ao primeiro gemido. Como nestes dias consigo mesmo subir e descer escadas com os seus 17 quilos ao colo. E rumar ao trabalho depois disto. E sobreviver.
Mas continuo angustiada, sofro esta distância, desconfio sempre que quem fica com ele não trata dele tão bem quanto eu faria – embora não tenha razão nenhuma para pensar dessa forma, que sei que o deixo bem entregue. Mas sei que o meu colo é diferente para ele e parte-me o coração ouvir aquela vozinha desconsolada ao telefone, a perguntar-me se “a mãe já vem a caminho?”... E culpas... mas claro, racionalmente sei que não posso perder o emprego e, sobretudo nos tempos que correm, não posso dar o flanco com absentismo.
Mas enquanto não oiço notícias de que está bem, não descanso, não paro de pensar nele, tudo o resto perde o sentido. E continuo a sentir as dores dele à distância. É tão estranho e tão forte este sentimento. É quando percebo mesmo que ele é sangue do meu sangue. Que já não está dentro de mim, e continua parte de mim. E que não há nada como um abraço de mãe, que a ele, só eu posso dar.
O que mais me custa nestas situações não é a noite em branco, ou o cansaço que fica, ou a trabalheira que dá. É a angústia de o ver mal e não poder tirar-lhe as dores, a angústia de não saber se é grave, e a angústia de ter de o deixar entregue a outros para poder ir trabalhar de manhã.
É nestas alturas que me sinto mais próxima da minha essência animal, um animal com uma cria ferida. A “razão” funciona pouco, é tudo muito instintivo. Simplesmente “sei” quando está doente, "vejo-lhe" a febre, “advinho” quando vai vomitar, “sinto” o significado de cada choro em que distingo diferenças que mais ninguém ouve.
E depois a força que vem não se sabe de onde. Não sei como consigo não dormir toda a noite com ele no colo ou deitada ao lado dele numa cama com um colchão de 1,35m. Apenas fechando os olhos por uns minutos de cada vez. E ainda assim, consigo despertar de imediato e estar a funcionar a 100% ao primeiro gemido. Como nestes dias consigo mesmo subir e descer escadas com os seus 17 quilos ao colo. E rumar ao trabalho depois disto. E sobreviver.
Mas continuo angustiada, sofro esta distância, desconfio sempre que quem fica com ele não trata dele tão bem quanto eu faria – embora não tenha razão nenhuma para pensar dessa forma, que sei que o deixo bem entregue. Mas sei que o meu colo é diferente para ele e parte-me o coração ouvir aquela vozinha desconsolada ao telefone, a perguntar-me se “a mãe já vem a caminho?”... E culpas... mas claro, racionalmente sei que não posso perder o emprego e, sobretudo nos tempos que correm, não posso dar o flanco com absentismo.
Mas enquanto não oiço notícias de que está bem, não descanso, não paro de pensar nele, tudo o resto perde o sentido. E continuo a sentir as dores dele à distância. É tão estranho e tão forte este sentimento. É quando percebo mesmo que ele é sangue do meu sangue. Que já não está dentro de mim, e continua parte de mim. E que não há nada como um abraço de mãe, que a ele, só eu posso dar.
Lógicas de Mãe I
HIPÓTESE:Os cintos dos carros nos bancos traseiros deviam apertar do lado da porta e não no centro do banco?
FACTOS:
1. As cadeirinhas dos miúdos são uns trambolhos, ainda mais com os miúdos lá sentados.
2. Os cintos conseguem sempre torcer-se todos de um dia para o outro, ou mesmo da manhã para a tarde, por alguma arte de voodoo.
3. As mães também são fashion e usam vestidos curtos com saltos altos.
EXPERIÊNCIA:
Uma mãe fashion mergulha para dentro do carro para conseguir encaixar o cinto a meio do banco, depois de ter lutado uns minutos para o desenrolar, com o rabo para o ar, um pé de fora do carro e outro dentro para conseguir lá chegar.
OBSERVAÇÕES:
Com um vestido relativamente curto, não é boa ideia, nem boa experiência (garanto eu).
Quando aquela cegada acaba, ao recuar para fora do carro, a mãe fashion repara na quantidade de perna que tem à vista à frente e sente um ligeiro fresco até muito acima da altura decente das pernas atrás. E pior quando se endireita (com certo orgulho de ter vencido a guerra do cinto), e se volta após fechar a porta, para se deparar com cinco (!!!!!) operários de uma obra, de olhos esbugalhados nela e queixo no chão...
REACÇÕES:
1. Foi inconclusiva a determinação do quê exactamente os referidos operários viram, para além de muita perna (mas desconfia-se que saibam a côr da lingerie usada pela mãe fashion).
2. A mãe fashion adquiriu uma côr indefinida, entre o verde, o azul e o branco.
3. A mãe fashion esforçou-se por fingir que não tinha percebido nada, ligeiramente trémula deu a volta ao carro, e fugiu rapidamente. Não estaciona ali tão cedo.
CONCLUSÕES:
Palavras da mãe fashion sobre a experiência: “Quero lá saber de ser fashion! Este é um vestido que não volto a usar em dias de mãe!”
Portanto, a bem das mães fashion deste país e do mundo, que NÃO GOSTAM DE FAZER FIGURAS DESTAS, espera-se que algum engenheiro ou designer iluminado perceba rapidamente que OS CINTOS DOS BANCOS DE TRÁS DEVIAM MESMO APERTAR AO CONTRÁRIO!...
PS: A imagem não faz juz à situação, mas foi o que se arranjou...
Sustos de mãe
O meu filho tem uma fabulosa imaginação e é extremamente cinematográfico nas suas projecções: descreve tudo, mete banda sonora, e diz tipo “agora a mãe era um dragão amarelo e fazia assim: tcháááááán!”. Etc e tal.Já estou habituada e agora também à suposta flexibilidade do guião. “Suposta” porque pergunta-me se quero ser isto ou aquilo, se quero esta ou aquela cor, e depois o que escolho é sempre “não, essa não pode ser” e acaba a ser ele a definir tudo na mesma.
Hoje de manhã, fiquei aterrada ao ouvir da boca do meu filho de 3 anos e meio, um cotumiço de um metrinho de altura, palavras como “titã lendário”, dito com todas as sílabas no meio de uma parafernália de palavras altamente agressivas, e uma série de outros nomes dos quais era suposto eu escolher o que queria ser. Nem pecebi metade... Como o único normal que reconheci era Sophie, e até é um nome feminino, lá escolhi esse que, claro, não podia ser, porque “a mãe tem de ser o ‘Caliban’”...
Confesso que não presto muito atenção aos desenhos animados que ele vê no canal Panda. Lá vou ouvindo umas coisas dos “Irmãos Koala” que é totalmente inofensivo, ou das “Winx” e da “Mermaid Melody” que às vezes acho um bocado “à frente”, mas nada do outro mundo. Supostamente, não há razão para preocupações e por isso mesmo ponho aquele canal. Vejo mais com ele os DVDs que, isso sim, precisam de certo acompanhamento. Mas depois disto fiz uma pesquisa e assusta-me o resumo do que o meu filho anda a ver no CANAL PANDA, a meio do dia algumas vezes e às 9 da noite (que é a última coisa que ele vê antes de dormir!).
Estou um bocado incomodada com isto, para dizer a verdade. É que ele sabe o nome das personagens todas e quando lhe perguntei se outros bonecos não eram mais giros, e que lutas e guerras não é muito bonito, ficou zangadíssimo e disse-me resumidamente que não, que o "Huntik" é que é bom, que já é “grande” e os “rapazes lutam”!...
Ainda no outro dia só gostava do Noddy e do Ruca... E os DVDs vão ter muito mais uso a partir de agora...
Um dia não são dias
Hoje apetecia-me ter podido chegar a casa sem pensar em practicalidades. Apetecia-me uma boa música a tocar e uma companhia para uma daquelas conversas abandonadas, com silêncios, mas com alguma risota, algumas profundidades, sem grande nexo ou preocupação de articulação de ideias. Aquelas conversas em que se vai dizendo o que nos vem à cabeça e nos vai na alma, e vamos ouvindo o mesmo registo, e de mansinho vamos dizendo e ouvindo as coisas mais verdadeiras de nós. A conivência de um momento de retempero merecido, após um longo dia cansativo e uma semana que ainda vai a meio e já pesa. Partilhar uma garrafa de um bom vinho e deixar-me levar devagarinho por tudo isso: a música, a companhia, a conversa, o vinho. Sem pensar em mais nada. Sentir-me relaxar, sentir-me confortável, e segura, e acompanhada. Acompanhada não só por uma presença, mas por esse confortável abandono partilhado. A verdadeira intimidade.É disso que sinto mais falta.
E agora a realidade... (imaginem uma agulha a atravessar um disco de vinil)...
O que tive foi a correria do trânsito para ir buscar o miúdo, a luta do estacionamento, o carro longíssimo de casa, negociar o caminho entre as pedras da calçada centenariamente mal mantida, do alto dos meus saltos, hoje bem altos (quem me manda a mim ser fashion). O miúdo todo ranhoso e rabugento, a espernear para ir para o banho, a espernear para saír do banho. O jantar, a cozinha suja para limpar e arrumar. O miúdo a rabujar com a comida, com os medicamentos, com a hora de ir para a cama. Uma montanha de histórias para dormir, e “a mãe tem de ficar aqui a dormir comigo”, eu toda torta na cama minúscula, a ver as horas passarem até ele adormecer e a pensar no que ainda tinha de fazer. Carregar a máquina de lavar, preparar roupas e mochila do dia seguinte. Basicamente, cheguei a casa e o que tive foi mesmo um monte de practicalidades, imperativos da rotina de uma mãe e dona de casa.
E agora uns minutos para escrever e dar uma vista de olhos por aí, e o cansaço e o sono já não me deixam força para mais. É verdade que ainda tive uns momentos bons - fartei-me de rir quando o meu miúdo deu largas à imaginação a descrever as nossas supostas férias na neve lá para a época do Natal. Mas hoje não era bem isto. Um bocadinho ao lado....
Enfim, lá está... Posso sempre sonhar. E hoje se me tirassem o sonho, tiravam-me quase tudo. Levavam-me a esperança de dias melhores. Mas um dia não são dias e isto é só um desabafo.
Dar a Mão
Ter um filho é ter uma vida a fazer-se pela nossa mão. E um dia ter de largar a mão para essa vida se fazer por si. E mais tarde, quem sabe, pôr a nossa vida nessa mão, quando já não podermos levar-nos a nós próprios.Sempre senti como a minha principal responsabilidade de mãe ajudar o meu filho a crescer para se tornar um adulto equilibrado e forte de espírito. Tenho o dever de lhe ensinar que a vida é difícil, traz alegrias e tristezas, esconde perigos e encruzilhadas. Às vezes, pergunto-me se lhe deveria mostrar as lágrimas que retenho e as que lhe escondo, para lhe ensinar que se aprendem lições com cada lágrima e se segue em frente. Mas o maior medo que tenho é precisamente de não ser capaz de o fazer sempre – seguir em frente. E assim falhar o propósito da lição.
Assusta-me às vezes pensar que se calhar não sou o melhor exemplo para ele. Porque não quero que ele siga os meus passos, cometa os erros que cometi, sofra as dores que chorei. Quero que ele aprenda a ser melhor e maior que eu.
Estou ainda, eu própria, a aprender a viver a minha vida de uma forma diferente. Pouco tempo físico passou desde que somos só nós dois, e em períodos alternados, a dias marcados. E eu mudei tanto, cresci tanto, neste último ano, e depois de novo nestes últimos meses. Cada momento é difícil, até assustador por vezes, e o amanhã é sempre uma grande incógnita. Às vezes são momentos muito bons, e têm sido muitos, cada vez mais. Mas nunca sei se faço o que é certo para ele. Ou para mim.
A única coisa com que me consolo é que sei, em consciência, que tento fazer tudo na vida com dignidade, e tento ser mãe com o coração, e procuro mesmo não errar. Sei que faço erros, e farei, porque não posso fugir à minha condição humana. Espero que um dia ele mos perdoe e perceba que foram actos bem intencionados – apenas falhados. E que tenha um pouco de orgulho em mim quando perceber que eu tentei sempre ser fiel a mim própria e aos meus princípios. Que reconheça o amor incondicional que lhe dou, esteja onde estiver e sinta-me como sentir, mesmo que seja a tremer para não chorar no abraço dele aos 3 anos de idade. Aliás... ainda mais em momentos mágicos como esse que recordarei sempre.
Mas eu também preciso de alguém que me dê a mão. Às vezes gostava de voltar a ter uma mão pequenina a caber dentro de uma mão maior. Uma mão que me segurasse, me confortasse, me ajudasse a fazer o caminho, a dar os passos que ainda são tentativos e incertos. Que apertasse a minha mão para passar a força que me falta às vezes, a coragem que por vezes me foge. Até para eu poder segurar melhor a mão pequenina do meu filho, que ainda precisa tanto de mim. Não lhe quero falhar, quero ser uma boa mãe.
Por isso, neste "Dia da Mãe", não falo da minha, falo da que quero ser.
A minha sanidade...

... é o meu filho.
O meu pequenote a correr para mim, mal pus os pés em casa. “Mãããããããe!!”. E aquele abraço. Que saudades me deixam estes dias de ausência em que fica com o pai. Que bom tê-lo de volta, logo hoje, neste dia tão difícil. Que bom aperto me conseguem dar aqueles braços pequeninos, mas já cheios de uma força imensa. Como se espelha em mim aquele sorriso aberto. “Tive muitas saudades da mãe!”. E eu dele. E é naquele abraço que eu me significo hoje. É ali que eu “sou”, que importo, que faz algum sentido o meu existir. Que bom calor aquele aperto me deu, que só tinha vontade de chorar no ombro do meu próprio filho. Hoje abraçou-me mais ele a mim do que eu a ele. E senti-me tão pequenina a caber naquele abraço e a travar as lágrimas para ele não ver.
Dá Perfeitamente
O meu filho é teimoso. Muito teimoso. E perfeccionista. Muito perfeccionista.
Mas... no outro dia queria, porque queria, usar uma peça de lego dum jogo na construção que fez com outro. Como são de formatos diferentes, as peças não encaixam na perfeição. E eu explico-lhe que as peças não são do mesmo jogo, são diferentes, em tamanho e na forma de encaixar, por isso não dá para misturar, não se podia usar aquela peça ali. E ele insiste, equilibrando a peça da melhor maneira que conseguiu, a morder a língua de lado, e a tirar as mãozitas muito devagarinho para que não caísse. Não caiu. E diz-me com enorme tranquilidade: "Vê mãe? Dá perfeitamente!".
Ou seja, foi capaz do compromisso, de aceitar que não é um encaixe perfeito, mas serve porque o equilíbrio parco é compensado pela satisfação de ter a peça que queria incluída na sua construção. Mais que isso - dá "perfeitamente". Tem 3 anos. Nós, com mais de 30, queremos apenas o encaixe perfeito, sem compromisso. E não aceitamos ignorar qualquer pequeno desajuste. E afinal somos todos peças de lego, apenas com o poder adicional de escolher em que construção entramos, a que outras peças nos juntamos, com que peças nos construímos. Dá que pensar, não?
Mas... no outro dia queria, porque queria, usar uma peça de lego dum jogo na construção que fez com outro. Como são de formatos diferentes, as peças não encaixam na perfeição. E eu explico-lhe que as peças não são do mesmo jogo, são diferentes, em tamanho e na forma de encaixar, por isso não dá para misturar, não se podia usar aquela peça ali. E ele insiste, equilibrando a peça da melhor maneira que conseguiu, a morder a língua de lado, e a tirar as mãozitas muito devagarinho para que não caísse. Não caiu. E diz-me com enorme tranquilidade: "Vê mãe? Dá perfeitamente!".
Ou seja, foi capaz do compromisso, de aceitar que não é um encaixe perfeito, mas serve porque o equilíbrio parco é compensado pela satisfação de ter a peça que queria incluída na sua construção. Mais que isso - dá "perfeitamente". Tem 3 anos. Nós, com mais de 30, queremos apenas o encaixe perfeito, sem compromisso. E não aceitamos ignorar qualquer pequeno desajuste. E afinal somos todos peças de lego, apenas com o poder adicional de escolher em que construção entramos, a que outras peças nos juntamos, com que peças nos construímos. Dá que pensar, não?
“Muito-Tanto”
Num desses dias em que o meu filhote estava com o pai, estava com umas saudadesinhas dele. Falamos ao telefone e ele estava bem disposto, mas claramente com saudades. Voltou a ligar-me 2 vezes depois da primeira conversa, “só para dizer mais uma coisa”, de cada vez. E no meio dos vários telefonemas disse-me “tenho uma coisa muito bonita para dizer à mãe: gosto muuuuito-tanto da mãe!”... Encheu-me o coração.
Estes dias agora está com o pai e sinto-lhe a ausência, a distância. Tivemos um Domingo tão bom. Sinto que estamos a crescer os dois numa cumplicidade ternurenta e muito enriquecedora. E isso, só por isso, faz-me feliz. Aproveitei cada minutinho do tempo que tive com ele. Fizemos coisas giras, como ir para uma livraria onde fui caçar um livro que procurava, e apesar de ter tido de sair a meio para ir procurar uma casa de banho, às tantas, na segunda investida, sentei-o num sofá a guardar os 2 livros que já tinha escolhido, enquanto procurava o terceiro. E ele ali ficou todo contente, a fingir que lia as minhas histórias e a responder às várias pessoas que se metiam com ele com um sorriso no rosto. Compramos um livro para ele também, que acabei a ler com ele sentado no balcão e altamente participativo na leitura da história, e toda a gente a olhar para nós com olhares sorridentes que me fizeram rebentar de orgulho – sou uma boa mãe! – e de ternura pelo miúdo – que bolas! ele é mesmo especial!. Joguei à bola com ele, rebolamos na relva, passeamos e conversamos, vi desenhos animados no sofá com ele no colo, e não deixei de fazer coisas minhas, e ele soube respeitar o meu espaço e partilhar também das minhas coisas.
Estes dias agora está com o pai e sinto-lhe a ausência, a distância. Tivemos um Domingo tão bom. Sinto que estamos a crescer os dois numa cumplicidade ternurenta e muito enriquecedora. E isso, só por isso, faz-me feliz. Aproveitei cada minutinho do tempo que tive com ele. Fizemos coisas giras, como ir para uma livraria onde fui caçar um livro que procurava, e apesar de ter tido de sair a meio para ir procurar uma casa de banho, às tantas, na segunda investida, sentei-o num sofá a guardar os 2 livros que já tinha escolhido, enquanto procurava o terceiro. E ele ali ficou todo contente, a fingir que lia as minhas histórias e a responder às várias pessoas que se metiam com ele com um sorriso no rosto. Compramos um livro para ele também, que acabei a ler com ele sentado no balcão e altamente participativo na leitura da história, e toda a gente a olhar para nós com olhares sorridentes que me fizeram rebentar de orgulho – sou uma boa mãe! – e de ternura pelo miúdo – que bolas! ele é mesmo especial!. Joguei à bola com ele, rebolamos na relva, passeamos e conversamos, vi desenhos animados no sofá com ele no colo, e não deixei de fazer coisas minhas, e ele soube respeitar o meu espaço e partilhar também das minhas coisas.
Mas agora cá me fiquei a remoer, um bocadinho nervosa com o fantasma da solidão destes meus dias de mulher, um bocadinho impaciente, sei lá.
Queria qualquer coisa. Queria um frenesim qualquer e algumas respostas aos “e depois?” que vou, como o meu filho, desfiando no tempo da minha cabeça. Queria umas horas de companhia e riso num jantar com amigos. Queria dançar esquecida, perdida, na música. Queria ver uns certos olhos. Queria sentir a minha alma e outra alma. Queria espreitar o futuro. Queria... “muito-tanto”. Acho que, para além do gosto pelos livros, o meu filho herdou de mim o gosto pelos superlativos...
Distracções
Este caminho tem sido duro mas hoje estou já distante do sítio escuro onde estava há 1 ano, ou mesmo meio ano, atrás. Sei que se nota esta mudança em mim, mesmo exteriormente, e tenho recebido imensos comentários nesse sentido. Rejuvenesci e revelei-me.
Já comprei uma data de coisas da minha listinha para a estação que se aproxima - e que espero ansiosamente, porque estava farta de maus tempos, frios, chuvas e temporais...
Estou a escolher umas poucas coisas mais corporate (porque tenho de ter o que vestir para trabalhar...), mas mesmo nessas tenho procurado tudo muito mais descontraído e procuro sempre coisas “diferentes”. Larguei o cinzentismo dos fatos clássicos – e cinzentos, e mesmo os fatos que escolho agora têm um qualquer salero, além de que os misturo com peças improváveis e acessórios mais arrojados. No resto, só procuro coisas sexy, coloridas, leves e descontraídas, e muito, muito femininas!
Exemplo foram uns novos óculos de sol... Lindos, mas carésimos, e não sei se exagerei um bocado - são à frente!...
E vou por aí nessa linha meio "alternativa", mas chique. Divirto-me à brava a falar comigo mesma à medida que vou tirando coisas dos cabides e prateleiras, e realizo a diferença daquilo que agora me atrai. Às vezes pelas cores, que de repente me apetece vestir, às vezes pelo estilo em si. E o mais espantoso é que experimento e sinto-me bem nesta “nova pele”. A minha metamorfose é mesmo total – e óbvia. E adoro o meu filhote de manhã, a passar a mão pela minha roupa ou por um colar, com o seu aguçado sentido crítico (não sei de quem herdou...), a exclamar coisas como "a mãe tem uma camisola côr-de-rosa!", ou "esse colar da mãe é tão giro!" ou a dizer-me... "a mãe está tããão bonita!..." Não há nada mais doce.
E assim me vou distraindo doutras coisas, que não me apetece escrever profundidades, não me apetece remoer nada, não tenho dormido em condições e tenho uma enorme dor de cabeça. E hoje não me chateiem, ok?...
Já comprei uma data de coisas da minha listinha para a estação que se aproxima - e que espero ansiosamente, porque estava farta de maus tempos, frios, chuvas e temporais...
Estou a escolher umas poucas coisas mais corporate (porque tenho de ter o que vestir para trabalhar...), mas mesmo nessas tenho procurado tudo muito mais descontraído e procuro sempre coisas “diferentes”. Larguei o cinzentismo dos fatos clássicos – e cinzentos, e mesmo os fatos que escolho agora têm um qualquer salero, além de que os misturo com peças improváveis e acessórios mais arrojados. No resto, só procuro coisas sexy, coloridas, leves e descontraídas, e muito, muito femininas!
Exemplo foram uns novos óculos de sol... Lindos, mas carésimos, e não sei se exagerei um bocado - são à frente!...
E vou por aí nessa linha meio "alternativa", mas chique. Divirto-me à brava a falar comigo mesma à medida que vou tirando coisas dos cabides e prateleiras, e realizo a diferença daquilo que agora me atrai. Às vezes pelas cores, que de repente me apetece vestir, às vezes pelo estilo em si. E o mais espantoso é que experimento e sinto-me bem nesta “nova pele”. A minha metamorfose é mesmo total – e óbvia. E adoro o meu filhote de manhã, a passar a mão pela minha roupa ou por um colar, com o seu aguçado sentido crítico (não sei de quem herdou...), a exclamar coisas como "a mãe tem uma camisola côr-de-rosa!", ou "esse colar da mãe é tão giro!" ou a dizer-me... "a mãe está tããão bonita!..." Não há nada mais doce.
E assim me vou distraindo doutras coisas, que não me apetece escrever profundidades, não me apetece remoer nada, não tenho dormido em condições e tenho uma enorme dor de cabeça. E hoje não me chateiem, ok?...
Uma noite de desasossego
Uma dessas noites passadas... Às 4 da madrugada estava acordada, às voltas na cama, a querer forçar o sono que tinha a fechar-me os olhos, a tentar voltar para o embalo do sonho, a destilar memórias (boas). Mas quase às 5 da madrugada ainda estava acordada com a cama num desalinho, a ouvir os primeiros pássaros a cantar - e não achei lindo, não, fiquei foi bem irritada.
Teria sido do livro que estava a ler? Gosto do autor, Luís Sepúlveda, de quem li há muitos anos 3 livros que me apetece reler, o que é raríssimo. Este, comprado há uns meses, é uma colecção de pequenos contos, alguns de apenas 2 ou 3 páginas. Mas houve um que me tocou tanto, que nessa noite reli. Começa com umas citações fantásticas de uma obra que tem um título, no mínimo, curioso, e que me fez soltar uma gargalhada a primeira vez que lhe pus os olhos em cima: "Enciclopédia Popular do Fracasso Sentimental Latino-Americano"! E o conto tem um parágrafo que reli nem sei quantas vezes, que me assusta, que me atormenta um pouco, na consciência da inevitabilidade de certas coisas que nos transcedem, da impossibilidade de controlo da química da nossa própria alma...
Ou talvez tenha sido do choro do meu filho ao telefone, que ficou com os meus pais. "A mãe já está a caminho?...". Não queria lá ficar a dormir, queria dormir "na casa da mãe", e choramingava desconsoladamente... Várias vezes durante a noite tive aquela sensação de que estava a dormir ali ao meu lado e que se inquietava, como acontece tantas vezes, e eu naquele quase despertar atento, expectante do sossego ou do choro, para decidir se posso continuar a dormir ou se tenho de me levantar. E depois a lembrar-me que ele não estava ali, com uma pedrinha na alma...
Sensações estranhas de desasossego, de ausências, e de predestinação. Como a calma antes da tempestade, mas a electricidade no ar a eriçar-nos os pelos do corpo, alguma coisa a inquietar-nos o coração, uma quase euforia de expectativa sem razão, mas uma pontinha de um medo primordial, de sobrevivência.
Não sei o que seria isto.
Uma grande amiga minha chorou outra vez. Fiquei triste por ela. Não gosto de lágrimas, muito menos nos olhos das pessoas de quem gosto. Para ela, do tal livro do Sepúlveda, citação da fabulosa “Enciclopédia Popular do Fracasso Latino-Americano”:
E, para mim, o tal parágrafo de assombro: “Quis rir, mas às vezes os dítames do cérebro confundem-se, cruzam-se, provocam curto-circuito, alguma coisa falha na alquimia da vida, alguma coisa que me agitou num espasmo antes de desatar a chorar.”
Teria sido do livro que estava a ler? Gosto do autor, Luís Sepúlveda, de quem li há muitos anos 3 livros que me apetece reler, o que é raríssimo. Este, comprado há uns meses, é uma colecção de pequenos contos, alguns de apenas 2 ou 3 páginas. Mas houve um que me tocou tanto, que nessa noite reli. Começa com umas citações fantásticas de uma obra que tem um título, no mínimo, curioso, e que me fez soltar uma gargalhada a primeira vez que lhe pus os olhos em cima: "Enciclopédia Popular do Fracasso Sentimental Latino-Americano"! E o conto tem um parágrafo que reli nem sei quantas vezes, que me assusta, que me atormenta um pouco, na consciência da inevitabilidade de certas coisas que nos transcedem, da impossibilidade de controlo da química da nossa própria alma...
Ou talvez tenha sido do choro do meu filho ao telefone, que ficou com os meus pais. "A mãe já está a caminho?...". Não queria lá ficar a dormir, queria dormir "na casa da mãe", e choramingava desconsoladamente... Várias vezes durante a noite tive aquela sensação de que estava a dormir ali ao meu lado e que se inquietava, como acontece tantas vezes, e eu naquele quase despertar atento, expectante do sossego ou do choro, para decidir se posso continuar a dormir ou se tenho de me levantar. E depois a lembrar-me que ele não estava ali, com uma pedrinha na alma...
Sensações estranhas de desasossego, de ausências, e de predestinação. Como a calma antes da tempestade, mas a electricidade no ar a eriçar-nos os pelos do corpo, alguma coisa a inquietar-nos o coração, uma quase euforia de expectativa sem razão, mas uma pontinha de um medo primordial, de sobrevivência.
Não sei o que seria isto.
Uma grande amiga minha chorou outra vez. Fiquei triste por ela. Não gosto de lágrimas, muito menos nos olhos das pessoas de quem gosto. Para ela, do tal livro do Sepúlveda, citação da fabulosa “Enciclopédia Popular do Fracasso Latino-Americano”:
Mozo, sírvame en la copa rota
Quiero sangrar gota a gota
El veneno de su amor
E, para mim, o tal parágrafo de assombro: “Quis rir, mas às vezes os dítames do cérebro confundem-se, cruzam-se, provocam curto-circuito, alguma coisa falha na alquimia da vida, alguma coisa que me agitou num espasmo antes de desatar a chorar.”
Coisas de mãe, mesmo – não aconselhado para quem ainda pondera ter filhos
Mesmo para mim, só tem uma ligeira graça agora, que já passou algum tempo...
4 da manhã: "Mãããe... quero vomitaaar".
Corrida com o alguidar e... nada.
8:40, depois de ter sido uma luta para comer qualquer coisinha ao pequeno almoço, depois de termos saído de casa e quase chegado ao carro - apenas para voltar para trás porque queria vomitar "na sanita" (exigências macabras são especialidade dos miúdos de 3 anos!!!), acabando por não vomitar, depois de mais 15 minutos no sofá aparentemente melhor, ao ponto de estar tudo pronto para saír outra vez: "Mãããe... quero vomitaaar".
E desta vez... Oh, bless him...
Felizmente os meus pais poderam ficar com ele para eu ir trabalhar. E ainda me mandou embora, depois de instalado no sofá, com o alguidar de um lado e os mimos do avô do outro, porque tinha "uma coisa muito importante para dizer ao avô".
Oh, bless him...
Lá fui eu trabalhar, e lá fiquei todo o dia com aquele apertozinho no coração, da angústia de não "ver" como estava o meu filho a cada minuto, e com aquele maldito sentimento de culpa de não estar lá para ele nestes momentos. Isto custa. Mãe-mulher-trabalhadora por conta de outrém... Além de tudo o resto que sou e/ou quero ser... A gente mete-se em cada uma...
4 da manhã: "Mãããe... quero vomitaaar".
Corrida com o alguidar e... nada.
8:40, depois de ter sido uma luta para comer qualquer coisinha ao pequeno almoço, depois de termos saído de casa e quase chegado ao carro - apenas para voltar para trás porque queria vomitar "na sanita" (exigências macabras são especialidade dos miúdos de 3 anos!!!), acabando por não vomitar, depois de mais 15 minutos no sofá aparentemente melhor, ao ponto de estar tudo pronto para saír outra vez: "Mãããe... quero vomitaaar".
E desta vez... Oh, bless him...
Felizmente os meus pais poderam ficar com ele para eu ir trabalhar. E ainda me mandou embora, depois de instalado no sofá, com o alguidar de um lado e os mimos do avô do outro, porque tinha "uma coisa muito importante para dizer ao avô".
Oh, bless him...
Lá fui eu trabalhar, e lá fiquei todo o dia com aquele apertozinho no coração, da angústia de não "ver" como estava o meu filho a cada minuto, e com aquele maldito sentimento de culpa de não estar lá para ele nestes momentos. Isto custa. Mãe-mulher-trabalhadora por conta de outrém... Além de tudo o resto que sou e/ou quero ser... A gente mete-se em cada uma...
Divagação – O Tempo
As crianças não sabem medir o tempo. “Amanhã” é apenas um futuro qualquer, e “ontem”, quando lá chegam, é qualquer coisa lá atrás, sem data. O meu filho já começa a perceber melhor a cadência dos dias, dos fins de semana, e até já tem alguma noção do que são “minutos”. Às vezes, quando está à espera de alguma coisa, pergunta-me se ainda vai levar “muitos minutos”. E por vezes vejo claramente que essa incerteza de não ter um relógio, ou um calendário, o angustia. Então pergunta-me o que vamos fazer, o que vai acontecer, ao longo desses minutos ou dias da espera. Eu vou respondendo e ele ele vai perguntando “e depois?”, até chegar ao momento em que lhe digo que vai acontecer aquilo por que anseia.
Há uns tempos, comprei-lhe a máscara para o Carnaval. Deu para querer ser um tigre (apesar do tema do colégio ser a Astronomia...), mas o mais parecido que consegui foi uma máscara de leopardo. Lá vendi a ideia e ele todo entusiasmado queria logo vestir a máscara. Tive que lhe explicar que era só para 6ª feira e ele a insistir que ía usar “amanhã”. E eu a explicar que não – que “amanhã” era 5ª feira, e só no dia seguinte é que era 6ª feira. E ele, coitadinho, com um ar um bocado perdido a olhar para mim, muito sério, remata num tom de “matter of fact”: “Amanhã é quinta feira”...
Olhar para o calendário e contar dias, funciona bem para coisas práticas, ajuda-nos a gerir as angústias da espera, ou a enfrentar com maior facilidade tarefas que temos pela frente, dá-nos metas concretas. Mas quantas vezes “perdemos noção do tempo”? Quantas vezes olhamos para uma semana, um mês, um ano, e nos chocamos ora com a “rapidez” com que passou, ora com a “lentidão” que lhe sentimos? Todas as semanas têm os mesmos 7 dias, todas as horas os mesmos 60 minutos, todos os minutos os mesmos 60 segundos. E no entanto, há momentos de segundos que parecem durar uma eternidade, e horas ou dias que parece que simplesmente desapareceram no pó que levantaram, de tão rápido que correram por nós.
O tempo cronológico, ou físico, não é o que vivemos. Nos últimos meses, para mim, o tempo passou a correr. O “momento” que marca essa alteração de ritmo no meu tempo está-me ainda tão próximo, tão presente.
Pergunto-me porquê, porque é que fiquei outra vez presa lá atrás. E sei porquê. Porque ainda não tive o “amanhã” desse dia, porque revivo aquele tempo a toda a hora numa expectativa do “e depois?”, como o meu filho. E por mais que vá acrescentando perguntas de “e depois?”, não tenho resposta, não tenho ideia do que está a seguir, ou de onde está o que queria a seguir, aquilo de que estou à espera e que queria saber “quantos minutos” faltam para chegar. Não fechei o tempo. E não só.
Por mais lógicas e razões que vá destilando, por mais que vá verbalizando e tentando interiorizar que o tempo físico fechou em si mesmo o que queria encontrar, no fundo, no fundo, continua lá qualquer coisa dentro a gritar que não é verdade, não é possível, que ainda há tempo. E que há Destino. E alguns desenvolvimentos vão acontecendo, de tempos a tempos, para me manter ali. E então lá vou eu passear pelas minhas memórias, pelo meu tempo ido, a recordar os meus mortos e os meus fantasmas, se calhar de maneira a que não tenha de acordar para hoje, de maneira a que consiga permanecer ali, naquele momento em que tudo ainda é possível, em que ainda não se sabe o que traz o amanhã. Que não sei se já passou.
Como tudo mais, o tempo é uma questão de perspectiva... E de teimosia.
Há uns tempos, comprei-lhe a máscara para o Carnaval. Deu para querer ser um tigre (apesar do tema do colégio ser a Astronomia...), mas o mais parecido que consegui foi uma máscara de leopardo. Lá vendi a ideia e ele todo entusiasmado queria logo vestir a máscara. Tive que lhe explicar que era só para 6ª feira e ele a insistir que ía usar “amanhã”. E eu a explicar que não – que “amanhã” era 5ª feira, e só no dia seguinte é que era 6ª feira. E ele, coitadinho, com um ar um bocado perdido a olhar para mim, muito sério, remata num tom de “matter of fact”: “Amanhã é quinta feira”...
Olhar para o calendário e contar dias, funciona bem para coisas práticas, ajuda-nos a gerir as angústias da espera, ou a enfrentar com maior facilidade tarefas que temos pela frente, dá-nos metas concretas. Mas quantas vezes “perdemos noção do tempo”? Quantas vezes olhamos para uma semana, um mês, um ano, e nos chocamos ora com a “rapidez” com que passou, ora com a “lentidão” que lhe sentimos? Todas as semanas têm os mesmos 7 dias, todas as horas os mesmos 60 minutos, todos os minutos os mesmos 60 segundos. E no entanto, há momentos de segundos que parecem durar uma eternidade, e horas ou dias que parece que simplesmente desapareceram no pó que levantaram, de tão rápido que correram por nós.
O tempo cronológico, ou físico, não é o que vivemos. Nos últimos meses, para mim, o tempo passou a correr. O “momento” que marca essa alteração de ritmo no meu tempo está-me ainda tão próximo, tão presente.
Pergunto-me porquê, porque é que fiquei outra vez presa lá atrás. E sei porquê. Porque ainda não tive o “amanhã” desse dia, porque revivo aquele tempo a toda a hora numa expectativa do “e depois?”, como o meu filho. E por mais que vá acrescentando perguntas de “e depois?”, não tenho resposta, não tenho ideia do que está a seguir, ou de onde está o que queria a seguir, aquilo de que estou à espera e que queria saber “quantos minutos” faltam para chegar. Não fechei o tempo. E não só.
Por mais lógicas e razões que vá destilando, por mais que vá verbalizando e tentando interiorizar que o tempo físico fechou em si mesmo o que queria encontrar, no fundo, no fundo, continua lá qualquer coisa dentro a gritar que não é verdade, não é possível, que ainda há tempo. E que há Destino. E alguns desenvolvimentos vão acontecendo, de tempos a tempos, para me manter ali. E então lá vou eu passear pelas minhas memórias, pelo meu tempo ido, a recordar os meus mortos e os meus fantasmas, se calhar de maneira a que não tenha de acordar para hoje, de maneira a que consiga permanecer ali, naquele momento em que tudo ainda é possível, em que ainda não se sabe o que traz o amanhã. Que não sei se já passou.
Como tudo mais, o tempo é uma questão de perspectiva... E de teimosia.
Desabafo de mãe
Das coisas mais difíceis que tive de encarar ao longo do meu processo de catarse, foi a constatação de que os meus dois maridos me levaram 15 anos de vida, quase metade da minha existência, quase a totalidade da minha vida adulta. De formas diferentes, ambos me fizeram perder de mim. O erro do meu segundo casamento começou com o primeiro. Foi uma fuga para a frente. Quiz fugir para o mais longe de tudo o que era o primeiro, e achei que podia construir com a razão o que me tinha sido negado construir com amor.
O meu filho podia ser a luz da minha vida, mas não é sempre. Porque às vezes pensava “não lhe chego”, achava que não sabia ser mãe para ele, a mãe que queria ser. Amo o meu filho, muito, muito, mas temo o mal que lhe posso fazer. Foi sempre nele que pensei de cada vez que adiei a decisão do divórcio, e foi sempre nele que pensei primeiro quando tomei decisões e preparei o futuro. Mas fica sempre aquela amargura de não saber, não poder saber, se essas foram as “melhores” decisões, os tempos “certos”. E foi por ser só para ele que me anulei em tudo mais até ter acordado de repente para mim e para a vida num grito de Ipiranga.
Um dia perguntou-me se eu ía morrer. Passados uns tempos, voltou com a mesma conversa. Não sei de onde veio aquilo e confesso que me perturbou. Da primeira vez tentei desvalorizar a coisa, desta segunda disse-lhe que não ía morrer (“a little white lie”, porque os miúdos nesta idade não sabem o que é o tempo), e disse-lhe que estava sempre com ele no coração, mesmo quando estou longe. Ele ficou a olhar-me nos olhos, aninhado em mim, como que à procura do sentido daquilo, ou talvez a confirmar a sinceridade das minhas palavras, não sei.
Fiquei a pensar até que ponto ele pressente que eu não estou “feliz”, e até que ponto ele vê os dias em que os fantasmas e assombrações horríveis, que me consomem, e me atormentam, me têm morta a respirar. Eu queria realmente ser “feliz”, mas ainda nem sempre vislumbro o caminho e ainda não me vejo totalmente nítida no espelho. Às vezes acho que a felicidade é apenas uma miragem, outras vezes acredito que lá chegarei. Mas, de facto, tenho medo do risco. Não posso sofrer mais, não tenho mais lágrimas, não tenho mais espaço, não tenho mais nenhum bocadinho de mim inteiro para estilhaçar. E temo passar pela vida, deixar que ela me passe, para me ir um dia num desvanecimento que não vai deixar ninguém a invocar a minha memória num sorriso de ternura, com lágrimas de saudade.
Se me desvanecer um desses dias, queria só que alguém que me tenha um pouco de um amor qualquer, lembrasse ao meu filho que o amei antes de ele ser, que o amei sempre mesmo na tristeza e na profunda solidão da minha alma, mesmo no meio do sentimento de incompetência e da angústia da prisão que o senti também, e que tenho pena, tanta pena, de não ter sabido caminhar mais com ele pela mão. Que quero o melhor do mundo para ele, que sei que ele é lindo e que gostava que ele nunca deixasse de sonhar. E que se lembre do meu sorriso dos dias bons sempre que precisar de um conforto no coração.
O meu filho podia ser a luz da minha vida, mas não é sempre. Porque às vezes pensava “não lhe chego”, achava que não sabia ser mãe para ele, a mãe que queria ser. Amo o meu filho, muito, muito, mas temo o mal que lhe posso fazer. Foi sempre nele que pensei de cada vez que adiei a decisão do divórcio, e foi sempre nele que pensei primeiro quando tomei decisões e preparei o futuro. Mas fica sempre aquela amargura de não saber, não poder saber, se essas foram as “melhores” decisões, os tempos “certos”. E foi por ser só para ele que me anulei em tudo mais até ter acordado de repente para mim e para a vida num grito de Ipiranga.
Um dia perguntou-me se eu ía morrer. Passados uns tempos, voltou com a mesma conversa. Não sei de onde veio aquilo e confesso que me perturbou. Da primeira vez tentei desvalorizar a coisa, desta segunda disse-lhe que não ía morrer (“a little white lie”, porque os miúdos nesta idade não sabem o que é o tempo), e disse-lhe que estava sempre com ele no coração, mesmo quando estou longe. Ele ficou a olhar-me nos olhos, aninhado em mim, como que à procura do sentido daquilo, ou talvez a confirmar a sinceridade das minhas palavras, não sei.
Fiquei a pensar até que ponto ele pressente que eu não estou “feliz”, e até que ponto ele vê os dias em que os fantasmas e assombrações horríveis, que me consomem, e me atormentam, me têm morta a respirar. Eu queria realmente ser “feliz”, mas ainda nem sempre vislumbro o caminho e ainda não me vejo totalmente nítida no espelho. Às vezes acho que a felicidade é apenas uma miragem, outras vezes acredito que lá chegarei. Mas, de facto, tenho medo do risco. Não posso sofrer mais, não tenho mais lágrimas, não tenho mais espaço, não tenho mais nenhum bocadinho de mim inteiro para estilhaçar. E temo passar pela vida, deixar que ela me passe, para me ir um dia num desvanecimento que não vai deixar ninguém a invocar a minha memória num sorriso de ternura, com lágrimas de saudade.
Se me desvanecer um desses dias, queria só que alguém que me tenha um pouco de um amor qualquer, lembrasse ao meu filho que o amei antes de ele ser, que o amei sempre mesmo na tristeza e na profunda solidão da minha alma, mesmo no meio do sentimento de incompetência e da angústia da prisão que o senti também, e que tenho pena, tanta pena, de não ter sabido caminhar mais com ele pela mão. Que quero o melhor do mundo para ele, que sei que ele é lindo e que gostava que ele nunca deixasse de sonhar. E que se lembre do meu sorriso dos dias bons sempre que precisar de um conforto no coração.
Dias de Mãe vs. Dias de Mulher
Durante meses continuei a sentir-me angustiada, deprimida e triste. O meu filho sofreu com isto. Dava-me abraços e carinhos e perguntava-me encorajadoramente: "A mãe está contente?!"... Claro que lhe dizia que sim, que gosto muito dele e dos abraços e miminhos que me dá. Também o abracei com o coração apertado e tentei dar-lhe os meus melhores sorrisos.
Ele é a coisa mais importante da minha vida, tudo tem girado à volta dele - até demais. E não me arrependo porque quero o melhor para ele e quero que seja feliz. E porque é a minha responsabilidade de mãe. Também sei que não me posso esquecer de mim, e que tenho de estar bem e feliz para ele o sentir e poder transmitir-lhe o amor e carinho que ele precisa, para ter a paciência e a disponibilidade de rir e brincar com ele.Tenho conseguido ir ganhando aos poucos autonomia e liberdade para respirar. Só que às vezes também me angustio a pensar se farei o melhor para ele. Pondero se não terei ficado se calhar um pouco egoísta de mais... Este equilíbrio é muito difícil, porque embora não veja o meu filho como uma “parte” de mim, um prolongamento, uma perpetuação, sinto o peso de carregar com ele, já não fisicamente, mas de uma forma mais profunda. Ele depende, de facto, de mim. Eu não quero negar-lhe nada que lhe faça falta para crescer e se tornar num ser humano completo e feliz, mas não posso dar de mim mais do que uma parte, porque não me posso esvaziar nele.
Por isso, tentei organizar a minha vida de forma a conseguir um melhor equilíbrio. Na verdade, e por comparação com a vida de muitas mães solteiras por esse mundo fora, até tenho muita sorte de ter tantos apoios e ter hoje bastante tempo, espaço, liberdade, os silêncios de que sempre precisei tanto e de que sentia tanta falta. Devia ser o suficiente para poder passar os dias que tenho com o meu filho com mais alegria, energia, e boa vontade. Mas, por outro lado, o pior é que, ao fim de algum tempo, começo a sentir os tempos e os espaços desses "dias de mulher" como vazios que não consigo preencher. E não uma liberdade mas uma jaula de angústia, que depois não me deixa bem para os meus "dias de mãe".
Às vezes não sei o que fazer para encher a minha vida. Quando esgoto programas, jantares, saídas, cinemas, e depois coisas como a Internet, o ginásio e o supermercado, apetece-me qualquer coisa mais e não sei onde ir ou o que fazer, e não me apetece admitir a solidão desses momentos saindo à rua sozinha. Lá fico a entreter-me com coisas parvas, a devorar livros, mas a sentir-me um animal enjaulado. É absurdo, eu sei.
Por outro lado, quando o meu filho não está comigo, estou constantemente a pensar nele, se estará bem, se terá saudades. Por vezes falamos ao telefone e são uns momentos sempre inesquecíveis. Por vezes, chego a acordar de noite com a sensação de que ele está ali, a chorar, e depois realizo que ele não está lá.
E saír disto? Continuo perdida e sem a mínima noção de como integrar tantas partes diferentes da minha vida e de mim. As gavetas... Ser mãe, ser boa mãe, e ainda assim ser mulher, é mais uma, pois...
Mas lá tenho conseguido, aos poucos, ir arrumando estas coisas. Assim tipo reestruturação de departamento. E agora corre bem melhor, com menos angústias e mais confiança, e lá vou vendo no meu filho sinais de que, apesar das dúvidas, não estou a fazer assim tão mau trabalho como isso.
Ele é a coisa mais importante da minha vida, tudo tem girado à volta dele - até demais. E não me arrependo porque quero o melhor para ele e quero que seja feliz. E porque é a minha responsabilidade de mãe. Também sei que não me posso esquecer de mim, e que tenho de estar bem e feliz para ele o sentir e poder transmitir-lhe o amor e carinho que ele precisa, para ter a paciência e a disponibilidade de rir e brincar com ele.Tenho conseguido ir ganhando aos poucos autonomia e liberdade para respirar. Só que às vezes também me angustio a pensar se farei o melhor para ele. Pondero se não terei ficado se calhar um pouco egoísta de mais... Este equilíbrio é muito difícil, porque embora não veja o meu filho como uma “parte” de mim, um prolongamento, uma perpetuação, sinto o peso de carregar com ele, já não fisicamente, mas de uma forma mais profunda. Ele depende, de facto, de mim. Eu não quero negar-lhe nada que lhe faça falta para crescer e se tornar num ser humano completo e feliz, mas não posso dar de mim mais do que uma parte, porque não me posso esvaziar nele.
Por isso, tentei organizar a minha vida de forma a conseguir um melhor equilíbrio. Na verdade, e por comparação com a vida de muitas mães solteiras por esse mundo fora, até tenho muita sorte de ter tantos apoios e ter hoje bastante tempo, espaço, liberdade, os silêncios de que sempre precisei tanto e de que sentia tanta falta. Devia ser o suficiente para poder passar os dias que tenho com o meu filho com mais alegria, energia, e boa vontade. Mas, por outro lado, o pior é que, ao fim de algum tempo, começo a sentir os tempos e os espaços desses "dias de mulher" como vazios que não consigo preencher. E não uma liberdade mas uma jaula de angústia, que depois não me deixa bem para os meus "dias de mãe".
Às vezes não sei o que fazer para encher a minha vida. Quando esgoto programas, jantares, saídas, cinemas, e depois coisas como a Internet, o ginásio e o supermercado, apetece-me qualquer coisa mais e não sei onde ir ou o que fazer, e não me apetece admitir a solidão desses momentos saindo à rua sozinha. Lá fico a entreter-me com coisas parvas, a devorar livros, mas a sentir-me um animal enjaulado. É absurdo, eu sei.
Por outro lado, quando o meu filho não está comigo, estou constantemente a pensar nele, se estará bem, se terá saudades. Por vezes falamos ao telefone e são uns momentos sempre inesquecíveis. Por vezes, chego a acordar de noite com a sensação de que ele está ali, a chorar, e depois realizo que ele não está lá.
E saír disto? Continuo perdida e sem a mínima noção de como integrar tantas partes diferentes da minha vida e de mim. As gavetas... Ser mãe, ser boa mãe, e ainda assim ser mulher, é mais uma, pois...
Mas lá tenho conseguido, aos poucos, ir arrumando estas coisas. Assim tipo reestruturação de departamento. E agora corre bem melhor, com menos angústias e mais confiança, e lá vou vendo no meu filho sinais de que, apesar das dúvidas, não estou a fazer assim tão mau trabalho como isso.
As portas que fechamos
Depois do meu filho nascer, tendo penado e penado, antes, durante e depois, jurei que nunca teria outro filho.
Foi um suceder de dificuldades nos primeiros meses. Não dormi uma noite de seguida durante mais de 2 anos, estive com ele internado no Hospital, passei por um não acabar de doenças e corridas para hospitais e pediatras, finalmente uma cirurgia aos 27 meses. Vivi em suspenso no termómetro e na enorme farmácia que juntei em casa, de tal forma que não conseguia viver mais nada. Ou ser mais nada.
Continuo sem ”vontade” de ter mais nenhum, porque tremo de pensar em passar por isto outra vez. Mas agora é mais fácil. Diminuiu o número de doenças mas também consigo lidar com as que surgem com mais tranquilidade. Como me dizia a minha Mana, antes eu era “a Mãe do L” e agora sou isso também, mas sou muito mais. Também era porque a “Mãe do L” não tinha de pensar noutras coisas... E agora “eu” enfrentei-as e quero ser mais...
Mas de repente dei comigo a perguntar à minha ginecologista, sobre o DIU, como era se nos 5 anos de “duração da coisa” eu quizesse engravidar! Quase que nem acreditava que tinha feito a pergunta, parecia que aquelas palavras não eram minhas. Tinha de me perguntar porquê.
Porque...
Porque vejos estes próximos como os últimos 5 anos de vida em que ainda posso pensar em ter outro filho. E de repente percebi que gostava de uma segunda oportunidade de viver a experiência da maternidade de uma mais forma feliz, com um companheiro de mim e dessa experiência, com amor, com partilha, com abraços. E dei comigo a pensar se realmente quero fechar essa porta, que pensava trancada, e afinal ainda está aberta no meu subconsciente. Parece que não quero fechá-la. Só encostar. Se vier um sopro de Amor a sério que precise de ir por ali, posso querer abri-la.
Ou seja, no fundo, no fundo, porque...
Porque acredito que esse sopro pode acontecer. E fiquei estupefacta com esta conclusão.
Foi um suceder de dificuldades nos primeiros meses. Não dormi uma noite de seguida durante mais de 2 anos, estive com ele internado no Hospital, passei por um não acabar de doenças e corridas para hospitais e pediatras, finalmente uma cirurgia aos 27 meses. Vivi em suspenso no termómetro e na enorme farmácia que juntei em casa, de tal forma que não conseguia viver mais nada. Ou ser mais nada.
Continuo sem ”vontade” de ter mais nenhum, porque tremo de pensar em passar por isto outra vez. Mas agora é mais fácil. Diminuiu o número de doenças mas também consigo lidar com as que surgem com mais tranquilidade. Como me dizia a minha Mana, antes eu era “a Mãe do L” e agora sou isso também, mas sou muito mais. Também era porque a “Mãe do L” não tinha de pensar noutras coisas... E agora “eu” enfrentei-as e quero ser mais...
Mas de repente dei comigo a perguntar à minha ginecologista, sobre o DIU, como era se nos 5 anos de “duração da coisa” eu quizesse engravidar! Quase que nem acreditava que tinha feito a pergunta, parecia que aquelas palavras não eram minhas. Tinha de me perguntar porquê.
Porque...
Porque vejos estes próximos como os últimos 5 anos de vida em que ainda posso pensar em ter outro filho. E de repente percebi que gostava de uma segunda oportunidade de viver a experiência da maternidade de uma mais forma feliz, com um companheiro de mim e dessa experiência, com amor, com partilha, com abraços. E dei comigo a pensar se realmente quero fechar essa porta, que pensava trancada, e afinal ainda está aberta no meu subconsciente. Parece que não quero fechá-la. Só encostar. Se vier um sopro de Amor a sério que precise de ir por ali, posso querer abri-la.
Ou seja, no fundo, no fundo, porque...
Porque acredito que esse sopro pode acontecer. E fiquei estupefacta com esta conclusão.
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