"O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo."
Sim, sim, um enorme sim ecoa em mim ao ler esta frase! Este mesmo conceito norteou-me tantas vezes, sobretudo quando andei a navegar, uma casquinha de noz frágil e indefesa, por mares revoltos e castigadores, que me fustigaram com duras tempestades. E, talvez por isso, olho agora a frase, e olho esses tempos atrás, e fica-me um gosto um pouco acre ao perceber que a tormenta realmente insuportável é não sabermos porque havemos de lutar, porque o mar calmo não nos permite ver com clareza aquilo de que não podemos desistir. Será que apenas uma qualquer guerra ou tempestade nos permite ser o que somos? Ou será que só queremos ser as nossas maiores qualidades, as grandes virtudes, evidenciadas mais claramente a combater uma qualquer tormenta? Também se devia poder ser, completo, com qualidades e defeitos, sem ter de provar valentia e coragem, bramindo uma qualquer espada contra as agruras da vida. Nos tempos de calmaria, o que nos falta é a guerra. É a isso que recorremos para firmar objectivos, é a isso que recorremos para nos atribuirmos sentido. E na ânsia de semear ventos, colhendo as fatídicas tempestades esclarecedoras, esquecemos que o mar não nos pertence. E o mar também nos pode engolir na calmaria, quando navegamos num leve ondular. Não deixa grandes epopeias para contar, não parece um grande mérito, nem merece medalhas de coragem, mas exige muito maior força de vontade para não desistirmos de navegar - escolher o rumo, escolher o destino, e mover o barco - ou ser tragado silenciosamente. Há muita gente à deriva por isso mesmo, apenas à espera da próxima tempestade para sentir que existe, sem perceber que se não se pode escolher existir na calmaria é porque, no fundo, já se desistiu de si próprio.