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Clarice Dixit

"O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo."

Sim, sim, um enorme sim ecoa em mim ao ler esta frase! Este mesmo conceito norteou-me tantas vezes, sobretudo quando andei a navegar, uma casquinha de noz frágil e indefesa, por mares revoltos e castigadores, que me fustigaram com duras tempestades. E, talvez por isso, olho agora a frase, e olho esses tempos atrás, e fica-me um gosto um pouco acre ao perceber que a tormenta realmente insuportável é não sabermos porque havemos de lutar, porque o mar calmo não nos permite ver com clareza aquilo de que não podemos desistir. Será que apenas uma qualquer guerra ou tempestade nos permite ser o que somos? Ou será que só queremos ser as nossas maiores qualidades, as grandes virtudes, evidenciadas mais claramente a combater uma qualquer tormenta? Também se devia poder ser, completo, com qualidades e defeitos, sem ter de provar valentia e coragem, bramindo uma qualquer espada contra as agruras da vida. Nos tempos de calmaria, o que nos falta é a guerra. É a isso que recorremos para firmar objectivos, é a isso que recorremos para nos atribuirmos sentido. E na ânsia de semear ventos, colhendo as fatídicas tempestades esclarecedoras, esquecemos que o mar não nos pertence. E o mar também nos pode engolir na calmaria, quando navegamos num leve ondular. Não deixa grandes epopeias para contar, não parece um grande mérito, nem merece medalhas de coragem, mas exige muito maior força de vontade para não desistirmos de navegar - escolher o rumo, escolher o destino, e mover o barco - ou ser tragado silenciosamente. Há muita gente à deriva por isso mesmo, apenas à espera da próxima tempestade para sentir que existe, sem perceber que se não se pode escolher existir na calmaria é porque, no fundo, já se desistiu de si próprio. 

Nem de propósito, mas muito a propósito



"Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém (...)
Acho-me relativamente feliz,
Porque nada de exterior me acontece
Mas, em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto."

(Mário Quintana, encontrado aqui)

A esta minha paz e silêncio ilusórios, a esta relativa e aparente felicidade morna, chamaram um dia "o meu sorriso de Mona Lisa". Tenho-o cristalizado por estes dias, enquanto procuro alguma coisa onde me agarrar, antes de ser sacudida pelo abalo interior que se avizinha, esse que pressinto, enquanto a tristeza melancólica das minhas ondas de maré vazia se vai transfigurando. E muitas coisas, tantas coisas, ganham para mim, nestas alturas, contornos diferentes. São dias de conjectura, de "e ses", para trás e para a frente, tentando talvez iludir a vida, como se, ao dissecar e re-equacionar os factos, as memórias, os  sentires, procurando formar com eles um padrão diferente, conseguisse um outro resultado final. Mas a equação não muda de significado se mantém os mesmos factores, mesmo que os ponderemos de forma diferente. E depois, por outro lado, há exercícios que não devemos fazer, há cenários que não se podem projectar, porque há factores, personagens, que não devemos pôr em cena, sob pena de nos termos de retirar. E um dia treme o chão, e podemos ver claramente o que não tem alicerce, e podemos ver claramente o que não abala, podemos ver-nos claramente o tutano. Enquanto esse dia não chega, resta a espera, por vezes em fuga.