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O que é que se passa aqui?



Não tenho escrito aqui e tinha vontade de não escrever mais. Pensei seriamente em criar um novo espaço. Levou o seu tempo a assentar a poeira mas agora é menos confuso e decidi-me voltar. Preciso tanto de escrever. E este é mesmo o meu espaço.

O ano começou bem para mim. Estou a pisar novos caminhos ainda um pouco insegura, e muitos trilhos ao mesmo tempo. Mas entusiasmada com as várias perspectivas. O meu filho também está bem, de volta em semana de mãe, cheio de mimo e saudades. E eu dele, apesar dos desesperos do costume...

Tenho novos desafios profissionais aliciantes e tenho ocupado parte do meu tempo a aprender e a sentir as coisas para me decidir. Tem corrido muito bem, em vários aspectos, tem-me feito um bem enorme, não só o ocupar-me de forma diferente, mas também o desafio de aprender e experimentar coisas novas.

No plano afectivo, muita coisa aconteceu nos últimos tempos, e muita coisa mais de trás de repente começou a encaixar-se, a cimentar-se, aos poucos. Sabe-me bem a vida assim, sabe-me bem o desafio e esta estranha sensação de destino, de certezas quase absurda desde o primeiro momento. Dá-me uma paz enorme a partilha de momentos inesquecíveis, os abraços, os silêncios entendidos de parte a parte, encaixados com toda a naturalidade e fluidez em conversas profundas. Arrepia-me a intensidade do que tem sido, e do que sinto que está para vir. Embala-me e adormece-me tranquila, acorda-me leve e bem disposta. É quase como uma magia, ou algo muito próximo pela banda dos ocultos, tal a estranheza de coincidências e compatibilidades, situações e empatias.

Talvez se pegue, não sei, ou talvez também seja pelos projectos e novas experiências profissionais. Mas o certo é que me sinto cheia de uma energia imensamente positiva, sinto-me de facto feliz, e também sinto imensa vontade de acreditar, de ter fé, na vida em todos os sentidos. É verdade que tenho também a correr nas veias a adrenalina dos perigos que sinto, e os meus medos atávicos à espreita, sei bem. Mas por agora, tenho os medos açaimados e a adrenalina da sensação de perigo não me pôs a fugir - estou apenas alerta, muito alerta, mas a adorar cada passinho de conquista, e a apreciar cada momento feliz que me ilumina e que arquivo, em película de um filme que se vai desenrolando docemente, suavemente, um argumento que flui fazendo as peças encaixarem-se uma a uma nos seus devidos lugares.

Metamorfose


Disserto aqui sobre o que fazer ao “(des)” do meu nick, que urge fazer desaparecer. Não só porque estou hoje onde não estava há um ano atrás, mas também, como me alerta um amigo, porque não poderei estar onde quero daqui a outro ano enquanto ali estiver o desafio da negatividade. No entanto, não quero simplesmente retirar o “(des)”, pois não gostava de ter de o voltar a instalar, e não sei o que me reserva a vida. O encantamento comporta também essa turtuosa ameaça de poder ser passageiro.

Passaram-me diversas alternativas pela cabeça, discuti algumas (obrigada mana, pela paciência!), e até disparatei com alguém ao ponto de chegar a pensar em combustíveis e inflamáveis, pelo que passaria a ser qualquer coisa como “Princesa Sem Chumbo 73”.

Princesa fica, que quero mesmo ser Princesa, e sou Princesa de muitas formas, e quero ser tratada como tal um dia pelo Príncipe que hei de encontrar (se não encontrei ainda...). Não quero usar o meu nome próprio, por isso também não quero usar outro nome próprio, que me sentiria enganadora. Assim, “Esmeralda”, a minha pedra preciosa favorita, ou “Clara”, em alusão a clareza, claridade e luz, não servem. Diz que tem de ser alguma coisa doce, que me reflicta de alguma forma, e lá percorremos as despensas e livros de receitas à procura de inspiração. Surge a baunilha, côr da pele em gelado, surge o praliné, muito doce e dourado, surge o merengue, branco, doce e leve, e quase me tento por “Princesa Merengada”.

Divagando também por outros caminhos, e em alusão a uma “private joke”, também me tentei com “Princesa Vesúvio”. Depois desisti, que ía ter muito que explicar... O que quero é ser Princesa que encante e que se encante, sempre e para sempre, mesmo que seja aos bocadinhos de cada vez. E acabo por quase resolver que passo simplesmente a “Princesa dos Encantos”. Mudava uma só letrinha e desapareciam os parêntises, mas fazia toda a diferença... Só que gostava, se possível, que tivesse a ver com destilar. Então, surge “Moscatel”, um doce destilado, dourado e enebriante, que ainda por cima é de Setúbal (e porque é que isso é relevante, agora não interessa nada). Quase, quase desisto, balanço com a hipótese dos encantos, mas depois decido-me e sou a partir de hoje, também como um acto de fé, a “Princesa Moscatel”.

PS: Depois descobri que é um "licoroso" e não exactamente um "destilado", mas isso agora também já não interessa nada!

Lá chegarei



Pacifico-me, entendendo que não quero mesmo baixar os braços. Sereno, debitando palavras que me fogem como um sorriso involuntário que se desenha nos meus lábios. Levanto a cabeça, com a convicção, talvez idiota, que já estou no caminho.

Não sei qual é o meu caminho, mas não é desistir. Começo a sentir nítidos os contornos de brumas que vagueiam por mim em sonhos. E sinto um fervilhar qualquer que me deixa na antecipação de que está a começar. O futuro, está a começar.

Making the skies blue


Acontece às vezes uma sensação de ter passado uma barreira invisível qualquer, de ter chegado a um novo destino, um sítio que nos é encantadoramente estranho, desconhecido por explorar. Nos últimos dias, quase parece que não estou a viver a minha vida e hoje vi-me no espelho com um sorriso logo pela manhã (embora tardia...). Sinto-me leve, sinto-me chegada a um novo lugar, a começar uma nova etapa cheia de energia e sentimentos positivos. Já não sinto cansaço da viagem que fiz até aqui, apenas o cansaço bom de dias cheios, de coisas plenas e promessas de dias ainda melhores. Sinto-me alegre - é isso. E apesar de ter tentado sempre manter um certo bom humor, apesar dos altos e baixos ao longo deste ano, acho que é a primeira vez em muito tempo em que sinto verdadeiramente alegria. Alegria de ser e de viver.

Hoje há núvens no céu lá fora, mas nenhuma me chega a ensombrar. Olho para fora da janela sem me importar que não seja um dia perfeito de Verão, porque é um dia perfeito para mim. Todos os dias quero sentir que é cada dia mais um momento perfeito de vida para desfrutar. Todos os dias quero sentir esta certeza de estar num bom lugar e no caminho certo para chegar mais longe, mais alto, mais plenamente em mim. Todos os dias quero segurar firmemente a decisão de limpar o céu de sombras e tristezas e ter força para continuar a acreditar que o meu destino é feliz, ainda não chegou, mas vai chegar.

Quero o último amor

Dei por mim a pensar que pode muito bem acontecer que os anos vão passando e nunca encontre “o” homem da minha vida. Ou que simplesmente, mesmo que vá encontrando umas promessas de amor, a vida não permita concretizar essas promessas em algo sólido e duradouro, “para a vida”. Assim sendo, terei de encarar a possibilidade de ser solteira até à morte. Mas não pretendo desistir de procurar.

Por enquanto tenho o meu filho a depender de mim, e assim será durante ainda muitos anos. Isso deixa pouco espaço a outras coisas, e é um desafio extra para qualquer relacionamento que venha a tentar. Agora, ocupa-me a vida, e não me deixa sentir totalmente só. Um dia seguirá a sua vida, porque os filhos não nos pertencem, e sabe-se lá por onde andará quando eu chegar à velhice e não me puder bastar. Também tenho e terei amigos, pretendo continuar a manter-me ocupada e activa, idependentemente da passagem dos anos, embora com as devidas adaptações que a idade certamente irá impondo. Mas não procuro o amor por medo da solidão, procuro-o por missão.

Sei que muitas mulheres vivem hoje em dia solteiras, por opção, e muitas são felizes. Para mim, no entanto, é uma opção de vida que nunca me ocorreu, não é “opção”, é apenas desígnio da vida que me foi calhando. Sinto realmente falta desse amor que procuro. Sei que seria mais feliz se tivesse um companheiro de vida, com quem dividir os vários momentos e fases da vida, com quem crescer, vincar rugas e celebrar cabelos brancos, e com quem cimentar o amor, numa partilha de planos e prazos até ao fim dos meus dias, mesmo que acabem na saudade.

Acho que serei a eterna romântica, sempre à procura. Preocupa-me um bocadinho saber que posso nunca encontrar. Mas sei que nem que tenha 70 anos, estarei num qualquer chá dançante à espera que um charmoso octagenário de flôr na lapela se aproxime e pergunte “A menina dança?”. Estou a ver-me perfeitamente, num momento desses, por mais cataratas que tenha, a olhar para ele com a mesma expectativa e a mesma vontade de que seja ele, finalmente, o “tal”. É que mesmo que seja aos 70, ou aos 80, encontrar o amor será para mim cumprir essa missão de vida.

Há um poema que me é muito especial e já o referi aqui. Para mim, é como quero viver qualquer amor que tenha a sorte de ainda encontrar nesta vida. Sobretudo, quando morrer, que “Eu possa me dizer do amor (que tive):/ Que não seja imortal, posto que é chama,/ Mas que seja infinito enquanto dure".

Mas também por isso não quero encontrar muitos nem poucos amores, quero encontrar o último, que é aquele que conta – é o que me aquecerá o coração num último sorriso, o que me sossegará o espírito no último fechar de olhos, e o que permanecerá na eternidade de depois da morte. Quer ali esteja de mão na mão no momento do adormecer, quer por o saber do outro lado, à minha espera para a eternidade. Esse amor assim, que vai connosco na morte, é o único que realmente contraria este poema. O último amor é o único que conseguirá ser imortal "e" infinito, porque a sua chama nunca se apagará, mesmo que se apague a chama das nossas vidas. E é na crença de que ele existe, e de que um dia o encontro, que me vou apoiando para deixar passar o tempo do entretanto como apenas um compasso de espera.

Sem Data

Não ouve “nunca”. Nem cratera. Nem jogos, nem fuga. Vale dar mais algum tempo. Quanto? Não sei. A esta pergunta, ironicamente, responderá o tempo. Mas alguma coisa mudou. Para melhor. Ainda não tenho as palavras agora. Ainda é "até amanhã meu amor" só que com uma surpreendente serenidade.

Ver o Amor


Quase toda a gente já tentou definir o Amor. Quase toda a gente tem para si meia dúzia de palavras do que considera ser o fundamental. Quase toda a gente já o definiu de maneiras diferentes, em alturas diferentes da vida.

Quase ninguém o define da mesma forma. Provavelmente porque quase ninguém o sente da mesma forma. E por isso, quase ninguém o dá da mesma forma. No entanto, quase todos querem receber de volta exactamente aquilo que dão.

Haverá, assim, tantas formas de amar quantas as pessoas no mundo capazes de o fazer. E todas as formas são legítimas, se forem efectivamente Amor, na sua expressão pura, no entendimento, na alma, de quem ama. Mas não são sempre compreensíveis para os outros, até porque sendo conceitos diferentes para cada um, são expressões diferentes de cada um. São como línguas diferentes, às vezes mais próximas e por isso como que dialectos vizinhos que se “apanham” com facilidade, outras vezes tão estrangeiras que não podemos, realmente, entender.

Deste modo, por vezes damos o nosso Amor sem que o outro sinta que o amamos. Não o vê, não o entende, não pode recebê-lo. E por isso, por vezes um outro ama-nos sem que nos sintamos amados. Não vêmos lá o que é para nós Amor, por isso não o sentimos, e não o recebemos. Se amamos esse outro, na nossa legítima forma própria, não nos sentimos correspondidos. E sofremos.

Pergunto-me se uns versos de Manoel Bandeira que li em tempos em estado de choque, porque me pareceram de uma crueza e de uma iverosimilidade totais, afinal não acertam mais do que queremos acreditar. “As almas são incomunicáveis./ Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo./ Porque os corpos se entendem, mas as almas não.”.

É de uma enorme crueldade, mas se duas almas não amam da mesma maneira, nunca conseguirão corresponder-se, nunca poderão comunicar, nunca poderão entender-se. E vão sentir-se desamadas, até rejeitadas, por uma alma que também ama sem se ver.

E a dúvida, agora, é saber se cada desamor que sofremos é realmente falta de amor, ou se é apenas não o sabermos ver. Mas, no fim, que importa se falta ou se não vêmos? O resultado é o mesmo – não nos chega. E sofremos.

Não querendo aceitar as palavras deste poeta, resta a esperança de encontrar, um dia, uma alma comunicante para amar. Que tenha por nós Amor que possamos ver e receber. E que lhe chegue o que temos para dar.