"Destilar", cientificamente, é "separar componentes químicos que constituem uma substância através de vaporização seguida de condensação". Serve para muita coisa, nomeadamente, para produzir bebidas espirituosas. Aqui, é uma tentativa de purificação da mistura de tudo o que sinto, penso e vivo. A aguardente do que sou.
Eterno instante
Toda uma vida pode mudar num instante. E cabem muitos instantes em cada dia da vida.
Quantos anos, meses, semanas ou dias cabem numa eternidade? Para onde levamos o momento, o segundo, o repente que se sente eterno? E como se mede essa pequena-grande eternidade? Pelo que dura, ou pelo tempo que perdura depois de já não ser?
Promessas, planos e projecções, todos construídos na base de uma frágil linha de tempo que realmente não sabemos existir. Que pensamos não ter fim, num momento, e às vezes acaba logo ali.
Queria saber quanto de mim cabe na tua eternidade. Quanto de ti em momentos caminhará comigo eternamente. Quanto durará esse eterno em cliques de segundos, enquanto é, depois de já não ser.
Que prazo terás para mim e que limites que não vemos tornam finita a linha do tempo que projectamos indefinida, para lá do horizonte visível do eterno instante?
Os meus Gatos #2
O frio, as mantas e os dias tristes, fazem-me sempre recordar os meus gatos com mais saudade. Já escrevi sobre o primeiro, e hoje é tempo da história do segundo. Depois de ter perdido o Ludwig e decidir que não queria outro animal, o meu então ainda marido, um dia leva-me de surpresa a ver uma ninhada de persas para eu escolher um. Eu nem queria entrar, mas lá acabei por não resistir e fui sentar-me num canto. A ninhada era de quatro gatos, e ao fim de uns minutos tinha um cotumiço preto, de olhos côr de cobre e uma espécie de barba com as pontas brancas, a trepar-me pelas pernas e a brincar comigo. Se outra pessoa se aproximava, fugia logo. Levei-o para casa, pois...
Quando o larguei em casa, ele todo assustado, enfiou-se debaixo de um armário da casa de jantar e não saía dali nem por mais uma. Como não sabia do que ele gostava, pus à frente do armário uma série de pratinhos com várias iguarias. À noite, tinha amigos a jantar e a meio da refeição salta-me para o colo, depois de ter limpo os pratos todos, e a querer devorar tudo o que estava na mesa. Chamei-lhe Obelix...
Embora não fosse tão inteligente como o primeiro, era também meu, aliás, eu é que era dele, que ele é que me escolheu, e era muito carinhoso. Dormia sempre comigo, em cima dos meus pés, depois de um certo tempo de festas e ron-rons deitado na minha barriga. E isto foi depois de lhe ensinar que gatos não são bem gente, porque os primeiros dias queria dormir ao meu lado, com a cabeça na almofada e tudo.
Era cómico, mais brincalhão que o Ludwig, mas miava mais. Às vezes os miados dele pareciam sons humanos – sobretudo se levava um raspanete e o fechava longe de mim de castigo. É irreproduzível na escrita, mas era mesmo incrível. Parecia uma criança a choramingar, como quem diz “eu não fiz por mal, eu sou pequenino...”.
Este, perdi-o com o divórcio, cerca de um ano depois, uma vingançazinha mesquinha. Soube que o desgraçado do animal sentiu imenso a minha falta, caiu-lhe o pelo quase todo com uma coisa nervosa. Mas sei que recuperou. Eu é que ainda hoje tenho saudades dele.
Poeta é poeta
O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.
De Carlos Drummond de Andrade
Balelas Astrológicas?
Leitura de mim num site qualquer de astrologia:
“For Princesa, relating is like breathing--not that it's as easy, but that it's just as necessary. In fact, she needs healthy and ongoing heart-ties with several close friends, as well as a primary relationship. Princesa wants to be fully and gracefully partnered, with fairness, courtesy, reciprocity and balance, as well as romance. She has a world of attention to offer in return. Shared appreciation of the arts and other aesthetic experiences are great pluses here. So is a firm decision by both partners that Princesa's needs are just as important as her partner's needs--not more so and not less so. Therefore, Princesa would do well to learn some conflict resolution skills, and not settle for merely the appearance of the harmony that she so cherishes and is quite capable of establishing.”
OK. Não é assim para todos? Quem é que pode viver sem amigos, sem ninguém no coração? Quem é que não procura uma relação equilibrada e tudo o mais que aqui se lê? Quem é que acha que as necessidades de um devem ser mais importantes do que as do outro? Quem é que não procura uma vida harmoniosa???
Pronto, está bem... A primeira e a última frases dão-me que pensar... Sobretudo a última, porque eu já há muito que não tolero o status quo apenas a bem da aparente harmonia, mas quando chego à conclusão de que não tolero mais, geralmente parto a loiça toda, e é-me mesmo difícil gerir o conflito. Fujo a sete pés, prefiro ignorar e deixar tudo para trás.
E eu que não quero acreditar nestas coisas esotéricas...
Por fim
Sobrevivo. Amachucada, com uns nós por desatar, umas tristezas na alma e mais uns milímetros de carapaça que, espero, me proteja melhor no futuro. Podia escrever um texto só de chavões sobre tempo e esperança. Nao tenho nenhum dos dois. Podia escrever um texto sobre o desejo de voltar a acreditar no amor. Mas não tenho nenhum. Podia escrever um texto sobre como vale sempre a pena tentar, mas não acredito. Podia fazer um texto sobre como é sempre bom dar de nós, mas não é. Podia fazer um texto para fazer os outros sorrirem, mas não tenho sorrisos para dar.
Nesta curta viagem fui passageira renitente, depois fui passageira interessada e mais tarde rendida, conquistada. Fiei-me nos anúncios escritos em vários placards e confiei que ía na direcção certa, em direcção ao destino onde queria chegar. Mas afinal, fico-me por um apeadeiro no meio do nada, quando percebo que não vou na direcção certa, ou que comprei o bilhete errado. E fico ainda mais longe do meu destino almejado. Fico de novo no charco das desilusões, das demasiado sucessivas repetições, onde afundo de cada vez um pouco mais de fé, um pouco mais de esperança, um pouco mais de amor. Até não ter mais nada, nem mesmo a ilusão de que qualquer maré me trará de volta o que aqui deixo. Até não ter mais nada, se não a memória de ser enganada, usada, desrespeitada. Salto fora num inóspito apeadeiro, porque assim não podia continuar a viagem. Mas sobrevivo.
Natal
Escrevo sobre o Natal, por causa do desafio da Fábrica de Letras. Mas não inscrevo o meu post, porque eu não gosto do Natal de 25 de Dezembro. O Natal passou a ser sinónimo de tudo menos do seu espírito original. Para lá das festividades religiosas, que já poucos vivem a sério, devia ser tempo de paz, de reconciliação, de comunhão – dar e receber, num voto de perpetuar esses bons sentimentos em acções ao longo do ano, ao longo da vida.
Há quem ande com um sorriso parvo na cara, só porque é Natal. Como se a aproximação do dia 25 de Dezembro, patenteada pelas montras e iluminárias da cidade (e desses infernais micro cosmos chamados de centros comerciais) lhes desse autorização para sorrir, e fingir por uns quantos dias que são felizes e contentes. Como se isso apenas justificasse fazer aquele telefonema, ou vá enviar aquela SMS, que cartões à séria quase ninguém envia, aos amigos e familiares com quem não se fala o resto do ano, porque nem se pensa neles.
Oferecem-se “lembranças”, porque é da praxe, e não porque apetece dar. E escolhem-se os presentes seguindo os dítames da febre consumista alimentada pelo marketing asqueroso da época (que cada vez começa mais cedo), e até por exibicionismo. Ou com requintes de malvadez, ou como forma de redenção dos “pecados” do ano todo.
Continua a falar-se na festa da família, mas quais são hoje as famílias que são, de facto, “família”? Muitas só se vêm no Natal, e não porque lhes apetece especialmente, simplesmente porque tem de ser. É assim como os casamentos, baptizados e funerais: é uma chatice, mas é um dever, e à excepção dos funerais, sempre se come bem.
Para mim, é apenas uma farsa montada para fazer dinheiro a uns poucos, esvaziando os bolsos da grande maioria. Quem eu quero perto, amigos e familiares, eu mantenho perto o ano inteiro. E prefiro mil vezes um telefonema numa altura improvável do ano de alguém que, simplesmente, pensou em mim, do que as parvoíces das SMS que circulam por aí, enviadas em série para todos os contactos da agenda telefónica. Se durante o ano, noutro dia qualquer, me apetecer dar um presente a alguém, é provável ouvir “mas é Natal?!”. Pois eu gosto de dar quando me apetece dar, e não quando é suposto porque é Natal. E por muito que goste de embrulhos bonitos, gosto muito mais de receber pequenos presentes de real lembrança ao longo do ano, do que um enorme embrulho de uma coisa qualquer só porque é dia 25 de Dezembro.
Revolta-me o consumismo da época e a hipocrisia. Não suporto a música natalícia. Detesto a correria das compras de última hora e das várias visitas, jantares e almoços, a marcar o ponto com as várias “famílias”. Detesto receber presentes que sei que não foram escolhidos “por mim”, e destesto, sobretudo, que no dia seguinte tudo volte ao “normal”, restando apenas aquele ar deprimente de fim de festa, com inevitáveis rastos de sujidade e desordem por limpar e arrumar.
Eu faço os meus pequenos Natais ao longo do ano, com aqueles que considero “família”, às vezes um de cada vez. No dia 25 de Dezembro, faço greve, e entrego-me à saudade daqueles poucos especiais com quem, em cada dia do ano, já não posso fazer os meus Natais.
Faço excepções dando presentes a alguns, mas escolho invariavelmente coisas da Unicef, e faço a excepção de sorrir para o meu filho, que na sua inocência infantil, ainda vive este dia com um brilho de fascínio nos olhos à vista dos presentes coloridos, e que é feliz com cada coisa que descobre dentro dos embrulhos, abertos com dedos lambuzados de açúcar e canela. Eu já nem me lembro do sabor desses dedos melados e muito menos da inocência e da alegria do momento. Nesta altura, lembro-me sempre mais de que quase todos esquecemos que há muito quem não possa ter Natal, em dia nenhum das suas vidas.
Brisa do mar
Confidente do meu coração
Me sinto capaz de uma nova ilusão
Que também passará,
Como ondas na beira de um cais
Juras, Promessas, Canções
Mas por onde andarás
Pra ser feliz não há uma lei
Não há, porém, sempre é bom
Viver a vida atento ao que diz
No fundo do peito o seu coração
E saber entender
Os segredos que ele ensinar
Mensagens subtis
Como a brisa do mar.
De Chico Buarque
Ultimatum
Muito bem. Assumi o risco, abri-te a porta. Tu foste entrando. Devagar, fui-te deixando puxar as pontas do meu emaranhado próprio e único, talvez um pouco assustador, eu sei. Não tiveste medo e disse-te: Toma. Dou-te. Está tudo aí. Grandezas e miudezas, grandiosidades e pequenezas, bons e maus, claros e escuros, sopros e ventanias, sussurros e gritos, certezas e dúvidas, alegrias e angústias. Mas espera... tens de puxar os fios todos. É que enredada no emaranhado por desfazer eu sei viver. Solta dele, um dia, talvez seja mais feliz. Mas a meio não. Se só puxas uns quantos fios, conforme o que te agrada ou te convem, eu puxo de volta. E sabes?... Pôr-te os fios todos na mão, até os que me custam mais, que me prendem mais, é acto de fé, e de coragem. É despir-me. É dar-me. Sim eu sei... É o tudo ou nada. É corpo “e” alma que te dou. É um dar que não me faz sentido quantificar. Não é muito nem pouco. É dar, simplesmente.
Toma. Dou-te. Aqui está. Sou eu. Toda de mim. Vê bem agora se me queres assim, toda, ou larga os fios que te sabe bem puxar. Fazes-me mal assim. Tenho frio.
Toma. Dou-te. Aqui está. Sou eu. Toda de mim. Vê bem agora se me queres assim, toda, ou larga os fios que te sabe bem puxar. Fazes-me mal assim. Tenho frio.
Insónia
Umas horas perdida entre a vontade do descanso e o desassossego. Sei que quando me foge o sono, é porque ando a fugir. Mesmo sem eu querer, nessas horas passo na minha cabeça o filme dos acontecimentos em que procuro sentidos. Às vezes segundos. Segundos sentidos. Como se ao recordar revivesse e fosse mais tranquila essa segunda ou terceira, ou quarta vez.
Parte-se em cada missão na vida, desejavelmente, ciente dos riscos, e dos obstáculos ou dificuldades. Escolhe-se e, portanto, aceita-se o desafio. Claro que, após sucessivas desilusões ou provas falhadas, se parte com cada vez maiores cautelas. Mas é só à partida, como um caminho exploratório. Depois vai-se andando, e vai-se ganhando equilíbrio e momentum, e chega a um ponto em que não dá para voltar atrás. É nesse momento que é preciso sentir confiança e tranquilidade.
Começa-se por tentar deixar tudo fluir. Dar tempo ao tempo, e todos os demais chavões por essa linha. Mas o certo é que, por mais que se vão encaixando certas coisas em parâmetros de “normalidade”, seja lá o que isso fôr, esse exercício em si é prova de que essas coisas nos incomodam. Pequeninas pedras, pequenos tropeções. Então, se se quer seguir o caminho, a sério, com empenho, o que é que se faz? Tenta-se tirar as pedras do caminho, recorrendo à sinceridade e frontalidade de as apontar e à cooperação para arranjar formas de as remover.
Num relacionamento, faz-se com conversa franca. Tenta-se, pelo menos. Mas é o diabo quando se fica com a sensação que, de alma aberta, palavras sinceras e sentimentos despidos, se falou num código que não é comum. Parece que não, no momento, pelas respostas, argumentos, tentativas de solução da engenharia de remoção das pedras. E depois... uma palavra ou um gesto e afinal percebe-se que as pedras que nos incomodam continuam lá.
Já é demais sabido que homens e mulheres falam línguas diferentes. E vivem os relacionamentos com prioridades em planos diferentes. Mas quando o que damos de nós em sinceridade e frontalidade é ignorado, ou não compreendido, quando se sente que as atitudes e comportamentos não acompanham as palavras que ouvimos, e se pressente que o esforço de conciliação de vontades não é reciprocado, algo vai mal, algo vai muito mal no país do pai natal.
Das coisas simples que me fazem sentir bem # 4
Estrear qualquer coisa.
Sejam uns sapatos, uma peça de roupa, um acessório, tanto faz. Tem é de ser novinho, novinho. Mas se é lingerie, e tem de ser uma coisa sexy, ainda melhor - é aquela sensação de “tenho um segredo”... Gasto um dinheirão nestas pequenas coisas, mas tem sido sempre bem empregue. E quando se recebe no email assim uma ofertazinha de 20% de desconto...
Como é que uma mulher pode resistir?...
Como é que uma mulher pode resistir?...
Ordem
Tem que se começar por algum lado, e resistir à tentação de brincar demais com os novelos, sob risco de se ficar enredado. Curioso que a vida às vezes nos surpreende, dando respostas inesperadas a perguntas que não chegamos a verbalizar. E pega-se nessas pontas, e vai-se puxando.
Dangerous Lines
“Os olhos cansados, ausentes, fixavam-se no infinito. Além, muito além, da linha visível do horizonte. Era também uma linha que flutuava naquele espírito, desassossegadamente, repelindo o sono. Era a linha que não sabia se queria cruzar.”
Há um limite para tudo, todos temos os nossos próprios limites. Limitamo-nos ou definimo-nos? Essas fronteiras que fixamos, seja por que razão fôr, são mais relevantes pelo que nos impedem de fazer ou, pelo contrário, pelo que nos fazem ser? São talvez limitativas, se são linhas que impomos inflexíveis. Mas quando são escolhas, serão então mais definidoras? Linhas que apenas nos desenham?
E onde arrumamos os princípios? Diria que são uma dessas fronteiras essenciais. E podem ser tão limitativos quanto definidores. São talvez, em mim, das fronteiras menos flexíveis, mais guardadas e defendidas. São, possivelmente, as linhas que mais batalhei para definir e que, por isso mesmo, mais me definem. E são também as linhas que mais me custa cruzar, ou redefinir.
Se são hoje as mesmas as fronteiras de mim? Não... nem por sombras. Subtilmente em geral, às vezes num repente de uma clarividência chocante, essas linhas movem-se, ajustam-se, podem esbater-se suavemente ou, pelo contrário, adensar-se em sulcos profundos.
“Ao saber-se hesitante na escolha, perguntava-se repetidamente porquê. Via as razões de ser, do seu ser, na escolha de não passar para o lado de lá. Cheirava a perigo. Mas o perigo também atrai. E via o que não queria perder do outro lado. Porquê?... Via nessa interrogação assim, também, que as razões do seu medo eram as razões da sua vontade. E via negar-se um querer, para não se perder. Porquê?... Porquê?...”
Nos porquês que se levantam sobre essas fronteiras, esquecemo-nos muitas vezes de uma coisa importante. É que esses porquês são, em si, andar perigosamente, num equilíbrio periclitante, sobre a linha da própria fronteira.
Será?...
Grande Vinicius de Moraes... Cada coisa que escreveu, com mais alegria ou tristeza, com mais humor ou mais seriedade, é sempre uma perfeita maravilha, e melhora com voz. Por acaso esta versão consta do CD que comprei acidentalmente e com que o descobri. Uma descoberta fatídica, mas ainda assim, uma grande descoberta.
Mas agora, àparte o humor, e numa perspectiva feminina, leio e oiço cada frase de uma forma diferente. E fico a pensar... será?... Abaixo o texto original, que ele não segue exactamente na versão declamada do vídeo.
"Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor."
Mais do Tempo
E pronto, é isso. Ainda não sei se é Príncipe, mas é, definitivamente, uma espécie de sapo diferente. E assim são, sem sombra de dúvidas, tempos diferentes, e o tempo a correr de forma diferente.
Isso continua a ser a minha angústia, a minha dúvida, porque as vidas que levamos nos obrigam a uma certa distância. Por causa da minha “vertente mãe”, com disponibilidade mais reduzida e horários mais limitados em semanas alternadas. E por ele, os compromissos profissionais, viagens pré-marcadas, etc. Azar, é que têm calhado muitas dessas coisas nos dias da minha “vertente mulher”.
Ou seja, a gestão dos nossos dois tempos traduziu-se em poucas horas partilhadas presencialmente, e quase todas concentradas na mesma semana. Ele aponta que houve coincidências azaradas. Promete-me que não costuma ter a vida assim tão ocupada, e reiteira que se vai “organizar melhor”. Tenta compensar com SMS’s e telefonemas, espalhados ao longo do dia, e ainda não falhou um bom dia. Almoçamos sempre que possível e até já virou a vida do avesso por uns minutos só para me dar um abraço. Há que dar-lhe crédito, ainda por cima porque eu não cobro.
Mas isto para mim é tortuoso. É assim um limbo. Mas afinal eu tenho namorado, ou não tenho? Partilha? Partilho? Como é isso de ter um namorado e estar sozinha?... É quase um namoro à distância.
É difícil, e demasiado perigoso, sobretudo numa fase tão inicial em que se quer tempo e espaço ocupados pelo outro, progressivamente, mas a ganhar balanço e não com interrupções abruptas que nos param a meio o mergulhar da descoberta e da entrega. É que nos espaços vazios de entretanto, crescem outras coisas. Dizia-me alguém que tudo seria melhor se o incluísse mais na minha vida. É verdade, mas isso pressupõe apresentá-lo ao meu filho, algo que acho ainda muito cedo para equacionar. E depois, isso é um caminho que também é preciso que ele queira fazer. E na realidade, não consigo perceber isso com SMS’s, telefonemas e Messenger. Há coisas que só serão claras com o passar do tempo e, sobretudo, com o passar do tempo juntos.
O futuro é sempre uma incógnita. A vida está cheia de surpresas, e eu que o diga, que tenho tido uma catadupa delas nos últimos tempos. Mas é complicado viver quase permanentemente na dúvida, e viver quase sempre num futuro projectado que se torna presente esporadicamente, e que voa demasiado depressa.
Os Poetas
Solitários pilares dos céus pesados,
Poetas nus em sangue, ó destroçados
Anunciadores do mundo
Que a presença das coisas devastou.
Gesto de forma em forma vagabundo
Que nunca num destino se acalmou
Sophia de Mello Breyner Andresen
Wake-Up Calls
"Daqui fala o tempo, este tempo que corre em 24 horas por dia e em sete dias por semana. Daqui fala o tempo que corre por fora, e por onde corres cada dia. Daqui fala o tempo que não se compadece com a tua lista de tarefas. Daqui fala o tempo em que és de cada vez uma das facetas que alternas.
Desengana-te se pensas que estico, que paro, ou que corro em duas pistas em simultâneo. Não penses que o tempo que te corre por dentro em momentos escapa do tempo que sou em segundos no relógio da vida. E não te iludas pensando que me agarras e me domas."
Acordo neste sobressalto. E agora?... Realmente como é que eu faço isto? Como é que integro mais um tempo de dentro, mais um tempo de presença, mais umas tarefas na lista, mais uma vontade, mais uma faceta de mim em alternância?
E depois liga a voz que me diz com calma que não oiça o tempo carrasco. Que me diz que não é uma “wake-up call”. Que me diz que acorde antes tranquila para deixar correr o tempo por aí, como ele quiser, que não importa. Que me diz que me deixe levar, pelos dias, pelas horas, até ser hora, e que por aí nos vamos encontrando, em novos tempos que vamos criando, e moldando os dias para que vá sendo também o nosso tempo entretanto.
Acordo a pensar que está a acontecer, independentemente do jogo do tempo, do que conto e do que vem de dentro. A vontade tem de comandar, e nesta nova faceta contarão os segundos de cada esperada presença. Até lá as tarefas realizam-se, a vida acontece, as outras facetas vivem o seu tempo e, devagarinho, deixo-me apenas “ser”. E tento aprender a integrar-me num todo, também com o tempo. É mais fácil bebendo da tranquila fé que me chega do outro lado da linha.
Desengana-te se pensas que estico, que paro, ou que corro em duas pistas em simultâneo. Não penses que o tempo que te corre por dentro em momentos escapa do tempo que sou em segundos no relógio da vida. E não te iludas pensando que me agarras e me domas."
Acordo neste sobressalto. E agora?... Realmente como é que eu faço isto? Como é que integro mais um tempo de dentro, mais um tempo de presença, mais umas tarefas na lista, mais uma vontade, mais uma faceta de mim em alternância?
E depois liga a voz que me diz com calma que não oiça o tempo carrasco. Que me diz que não é uma “wake-up call”. Que me diz que acorde antes tranquila para deixar correr o tempo por aí, como ele quiser, que não importa. Que me diz que me deixe levar, pelos dias, pelas horas, até ser hora, e que por aí nos vamos encontrando, em novos tempos que vamos criando, e moldando os dias para que vá sendo também o nosso tempo entretanto.
Acordo a pensar que está a acontecer, independentemente do jogo do tempo, do que conto e do que vem de dentro. A vontade tem de comandar, e nesta nova faceta contarão os segundos de cada esperada presença. Até lá as tarefas realizam-se, a vida acontece, as outras facetas vivem o seu tempo e, devagarinho, deixo-me apenas “ser”. E tento aprender a integrar-me num todo, também com o tempo. É mais fácil bebendo da tranquila fé que me chega do outro lado da linha.
Metamorfose
Disserto aqui sobre o que fazer ao “(des)” do meu nick, que urge fazer desaparecer. Não só porque estou hoje onde não estava há um ano atrás, mas também, como me alerta um amigo, porque não poderei estar onde quero daqui a outro ano enquanto ali estiver o desafio da negatividade. No entanto, não quero simplesmente retirar o “(des)”, pois não gostava de ter de o voltar a instalar, e não sei o que me reserva a vida. O encantamento comporta também essa turtuosa ameaça de poder ser passageiro.
Passaram-me diversas alternativas pela cabeça, discuti algumas (obrigada mana, pela paciência!), e até disparatei com alguém ao ponto de chegar a pensar em combustíveis e inflamáveis, pelo que passaria a ser qualquer coisa como “Princesa Sem Chumbo 73”.
Princesa fica, que quero mesmo ser Princesa, e sou Princesa de muitas formas, e quero ser tratada como tal um dia pelo Príncipe que hei de encontrar (se não encontrei ainda...). Não quero usar o meu nome próprio, por isso também não quero usar outro nome próprio, que me sentiria enganadora. Assim, “Esmeralda”, a minha pedra preciosa favorita, ou “Clara”, em alusão a clareza, claridade e luz, não servem. Diz que tem de ser alguma coisa doce, que me reflicta de alguma forma, e lá percorremos as despensas e livros de receitas à procura de inspiração. Surge a baunilha, côr da pele em gelado, surge o praliné, muito doce e dourado, surge o merengue, branco, doce e leve, e quase me tento por “Princesa Merengada”.
Divagando também por outros caminhos, e em alusão a uma “private joke”, também me tentei com “Princesa Vesúvio”. Depois desisti, que ía ter muito que explicar... O que quero é ser Princesa que encante e que se encante, sempre e para sempre, mesmo que seja aos bocadinhos de cada vez. E acabo por quase resolver que passo simplesmente a “Princesa dos Encantos”. Mudava uma só letrinha e desapareciam os parêntises, mas fazia toda a diferença... Só que gostava, se possível, que tivesse a ver com destilar. Então, surge “Moscatel”, um doce destilado, dourado e enebriante, que ainda por cima é de Setúbal (e porque é que isso é relevante, agora não interessa nada). Quase, quase desisto, balanço com a hipótese dos encantos, mas depois decido-me e sou a partir de hoje, também como um acto de fé, a “Princesa Moscatel”.
PS: Depois descobri que é um "licoroso" e não exactamente um "destilado", mas isso agora também já não interessa nada!
Passaram-me diversas alternativas pela cabeça, discuti algumas (obrigada mana, pela paciência!), e até disparatei com alguém ao ponto de chegar a pensar em combustíveis e inflamáveis, pelo que passaria a ser qualquer coisa como “Princesa Sem Chumbo 73”.
Princesa fica, que quero mesmo ser Princesa, e sou Princesa de muitas formas, e quero ser tratada como tal um dia pelo Príncipe que hei de encontrar (se não encontrei ainda...). Não quero usar o meu nome próprio, por isso também não quero usar outro nome próprio, que me sentiria enganadora. Assim, “Esmeralda”, a minha pedra preciosa favorita, ou “Clara”, em alusão a clareza, claridade e luz, não servem. Diz que tem de ser alguma coisa doce, que me reflicta de alguma forma, e lá percorremos as despensas e livros de receitas à procura de inspiração. Surge a baunilha, côr da pele em gelado, surge o praliné, muito doce e dourado, surge o merengue, branco, doce e leve, e quase me tento por “Princesa Merengada”.
Divagando também por outros caminhos, e em alusão a uma “private joke”, também me tentei com “Princesa Vesúvio”. Depois desisti, que ía ter muito que explicar... O que quero é ser Princesa que encante e que se encante, sempre e para sempre, mesmo que seja aos bocadinhos de cada vez. E acabo por quase resolver que passo simplesmente a “Princesa dos Encantos”. Mudava uma só letrinha e desapareciam os parêntises, mas fazia toda a diferença... Só que gostava, se possível, que tivesse a ver com destilar. Então, surge “Moscatel”, um doce destilado, dourado e enebriante, que ainda por cima é de Setúbal (e porque é que isso é relevante, agora não interessa nada). Quase, quase desisto, balanço com a hipótese dos encantos, mas depois decido-me e sou a partir de hoje, também como um acto de fé, a “Princesa Moscatel”.
PS: Depois descobri que é um "licoroso" e não exactamente um "destilado", mas isso agora também já não interessa nada!
É os olhos
Eu já aqui disse que gosto de gatos? E que há gatos que jogam bem? Pois... De vez em quando acerto em palavras e metáforas que nem imagino como vão fazer sentido tempos depois. Chamei-lhe gato, e andei a fazer de pantera, enquanto alguém me perguntava se ele me atraía e eu dizia “tem qualquer coisa, não sei bem o quê – talvez o olhar”. E é. Já percebi que é. São os olhos. De gato. Aquela côr meio indefinida entre avelã e verde azeitona, e o brilho, e... e... a intensidade? Custa-me, o que é raro, mas lá chego à palavra certa: magnetismo.
E depois... Eu já aqui disse que gosto de dançar? Eu já aqui disse que gosto de danças de par? Pois... E na dança me perco. É que o gato também dança, e em ritmos quentes. E eu já aqui disse como gosto de abraços? Aaah... pois é... Caibo tão bem dentro daquele abraço.
Mas mais que tudo, é os olhos. Como neles me vejo tão límpida e o que vejo brilhar neles. No segundo do reencontro, no momento da despedida. Na procura de mim e no fim de um beijo ou de um abraço. No frente a frente intencional de uma conversa e em silêncio, pressentidos e surpreendidos como que por magia. Na doçura de um sorriso terno e na quase malícia do desejo. Ao acordar para um olhar assim, sou eu que me sinto gata, que só quer aninhar-se naquele abraço e ali ficar. Sem tempo. Aqueles olhos prendem-me... Mas não gosto de estar presa, sei que acabo a querer fugir. E quase me sinto uma gata assustada, mas quero encontrar nos mesmos olhos o fim do medo.
Às vezes...
Mais do que as palavras que se ouvem, conta a intenção que as dita. Nem sempre é fácil descortiná-la, mas às vezes trespassa-nos com uma imensa claridade. Podemos preferir negar-lhe a visão, seja porque nos magoa, seja porque não é o que queríamos ver ou não é o que pensamos que íamos ver. Mas às vezes... também é capaz de nos estampar um sorriso e elevar na onda dos sentimentos próprios de uma surpresa feliz.
Mais do que um “gosto de ti”, que qualquer um pode dizer ou escrever sem verdade, falam palavras que se traduzem em “vejo-te e sinto-te, entendo-te”. Mais do que um ramo de rosas comprado à pressa na esquina, falam gestos que nos mostram que alguém nos leva em pensamentos pelos seus dias. Mais do que uma qualquer desculpa por alguma falha, vale a preocupação de que entendamos que não há intenção de falhar, e um pedido de desculpas preocupado que nos surpreende, porque até achamos que não houve falha nenhuma. Mais do que um “tenho saudades”, fala a prova de alguém que muda o impossível, e vai chegar ao fim do dia exausto, para ganhar o tempo de nos ver e poder dar um abraço. Com um sorriso tão genuino e um olhar tão ternurento, que chega a doer reconhecer que não se esperava, que se desenhava essa pessoa como algo muito menor, à imagem e semelhança dos pequenos seres que popularam o passado.
Sinto-me muito menor que ele nestas tremendas generosidades. Confortavelmente instalada atrás dos muros que ainda imponho, no egoísmo do meu castelo só para mim, e ele a bater suavemente à porta, mas determinado e a todas as horas do dia, feliz com a possibilidade de poder provar que é digno de entrar, ciente das defesas e das reservas, mas confiante de que as ultrapassa. Já entrou, mas ainda não sabe bem o quanto, que ainda tenho medo de lhe dizer que tem a chave. Mas vou tendo vontade. Sobretudo quando me diz que, aconteça o que acontecer, sabe que não se vai arrepender. E não é ingenuidade, que já não tem idade para isso. É... confiança, ou esperança, ou fé. Que parece ter que chegue para os dois. Às vezes... que coisa... até dá vontade de acreditar também.
Porque sou mesmo retorcida
Escrevia-me a minha mãe adoptada há uns tempos atrás: "Bem.... é sempre assim! Snif, snif... é como ir às compras contigo. Pedes opinião e eu dou e tu fazes o oposto! És uma rapariga de fortes convicções! Está dito!"
E eu respondi: "Coitadinha... :)... Tenho tanta peninha... Deve ser por isso que ninguém quer ir às compras comigo... Mas é que eu preciso desse desafio de opinião, para testar até que ponto estou realmente convicta, percebe?? É um bocado perverso, eu sei, mas eu sou assim!"
E sou mesmo... O blog também tem muitas vezes funcionado assim...
O amor não existe
A propósito do Facebook, alguém me disse que, supostamente, os tais 6 elos de ligação da famosa teoria do “Six Degrees of Separation” equivalem à “distância” entre um Europeu e algum esquimó. Pensei então que, se calhar, era no Polo Norte que me esperava o Amor, sentadinho num igloo qualquer, já a desintegrar-se de tão enregelado.
Até há pouco tempo, pensei que fosse suficientemente louquinha para, se soubesse que o amor que queria viver estava no Alasca, apesar de detestar o frio e mesmo de nariz gelado, ir ao encontro do destino nesse igloo. Mas hoje sei que não. Hoje percebi que não sou assim tão louca – percebi, fria e tristemente, que já não acredito no amor. Acho que a minha insatisfação crónica, e o meu “azar” crónico com os homens, são produto um do outro, resultam de procurar o que não existe, e assim se traduziram em experiências que me tornaram céptica. Não estou disposta a correr a distância, ou o risco, para procurar uma coisa que agora acho que é uma quimera. De uma forma irónica, tornei-me quase no mesmo dos que sempre condenei, e hoje só sou capaz de olhar para um possível relacionamento com a frieza de quem aceita incontestável o facto de que o amor não existe mesmo – o que existe é tesão, a que chamamos paixão, mas que também dura muito pouco – dizem que 7 meses em média. E é incontestável que todos passam, tal como nós passamos pelos outros, e até o “amor apaixonado”, que dizem que se pode seguir à paixão e será, talvez, o mais próximo do idealizado “grande amor”, dura em média 3 anos. Não existe “para sempre” em nenhuma história, e muito menos o “felizes para sempre”. E há certas coisas que não se justificam se não forem no pressuposto da eternidade.
Essa promessa eu não posso fazer a ninguém, nem aceito que ma façam, simplesmente porque não acredito. Por ora, é apenas isso que ainda me distingue do que não queria ser – mesmo chocada por me ouvir e chocando quem me ouve, sou honesta, claríssima, transparente, não prometo nem quero promessas, não embelezo nada dando nomes falsos às coisas, e só vou a jogo nessas condições. E mesmo assim, só se for por aqui, porque não vou ao Alasca, ou à Austrália, por isso – é que não se justifica mesmo.
E o certo é que, munida desta nova convicção, se torna tudo muito mais fácil, muito mais simples e descomplexado. E acho que é só porque cheguei a esta conclusão que estou a dar hipótese a que alguém entre na minha vida. Depois do choque de parte a parte, a realidade é que uma situação clara, sem ilusórias expectativas, acaba por ser muito mais confortável para que se expresse numa relação a dois aquilo que nos é mesmo intrínseco. Talvez seja antes este o caminho, talvez permita alicerçar as coisas até com maior solidez. Mas seja como for, e dure o que durar, é autêntico desde o princípio. Pode até acabar com lágrimas de desgosto e saudade, mas não acabará com culpas nem com recriminações, e deixará memórias felizes de momentos bons vividos intensamente e descomplexadamente. Se é amor? Certamente que agora não. Será um dia esse tal “amor apaixonado”? Quem sabe? E por quanto tempo? Uma incógnita. Mas não me importa. O que é agora, é bom. E assim se mantenha (mesmo que se só esses tais 7 meses).
Jogo de Sedução
Chegou de mansinho, de surpresa e em surdina. Não tinha nada de especial a não ser uns olhos penetrantes, luminosos e um movimento de aproximação felino. Ía e vinha, e a cada distância lá estava o olhar, ou a palavra, sempre certeiro, desafiador, inegável. Depois a aproximação sempre inesperada, de uma direcção diferente da de onde tinha vindo a última abordagem. Na presença, dissimuladamente, um toque ao de leve, uma palavra sussurada. Um sorriso de caçador que já marcou a presa, que sabe o que quer e que sabe que consegue. A rondar, a estudar, mais próximo a cada aproximação, a exibir o porte e a fixar os olhos na exigência de um olhar de volta. E conversa, muita e boa conversa.
Mas não sabia ele que o jogo não é sempre esse. Que o caçador vira presa no instante em que quem era presa percebe que tem o poder de negar com inteligência o que lhe querem caçar. Vira a mesa nesse instante e aqueles olhos agora não brilham de certeza de conquista. Brilham de desejo, e de súplica, por mais, por muito mais do que aquilo que a suposta presa vai dando. E a presa caça o caçador só quando lhe apetecer – e é só mais um bocadinho. Entretanto, também se diverte um bocado. Vai e vem num bailado mais felino do que o do gato, porque essa presa tem alma de pantera, já foi caçada noutra vida, e não quer ser presa outra vez. Agora sabe pôr as unhas de fora, afiar o olhar e mover-se com muito mais subtileza, enquanto o gato se esforça desesperadamente por merecer ser caçado. Pobre gatinho...
Para panteras assim, “it’s not winning or loosing - it’s how you play the game…”. Mas alguns gatos jogam bem.
Testes
Como tenho uma qualquer veia científica, provavelmente herdada do meu avô paterno que era investigador (engenheiro de origem), decidi pensar numa série de testes para alminha que resolveu engraçar-se por mim.
Confesso que, ao pensar nisto a princípio, dei por mim a sorrir maliciosamente e a dizer-me “ele esta nunca vai passar!”... Depois achei que é, e será sempre, demasiado cedo na minha vida para me transformar numa daquelas horríveis professoras velhas, chatas e azedas que tinha no liceu, e que faziam testes para lixar o pessoal. Enfim... a bem da justiça e das oportunidades, e essa treta toda, pus umas coisas mais rebuscadas de lado.
O danado tem-se safado. Por exemplo, já aguentou estoicamente quase 1 hora e meia de messenger em conversa séria, até dá boas respostas, e encaixou todas as minhas fugas às insinuações, ou melhor, declarações mais ousadas. Dessa vez, só nos últimos 10 minutos é que assumiu uma clara mudança de assunto, e pronto, até teve a sua graça. Noutra ocasião, também já resistiu à conversa da astrologia e saiu-se muito bem (esta adoro, é um bocadinho perversa – porque ficou sem saber até ao fim se eu era ou não uma maluquinha esotérica, que não sou nem por sombras, mas nem por isso se demoveu...). E em conversa mais aquecida, nunca passa o risco, fica lá sempre muito, muito perto, cada vez mais perto, mas não passa. E também reagiu muito bem a um travão que pus nesse registo, e a uma certa gestão de expectativas que fiz em relação ao nosso encontro. Inspirou-me confiança.
De repente fiquei a pensar se não fazemos sempre isto mais ou menos inconscientemente. Estes pequenos “testes”, geralmente perguntas aparentemente inofensivas, pequenas curiosidades, ou afirmações potencialmente chocantes, fazem-me lembrar um cross examining numa sala de tribunal. O único senão é que ninguém jura nada sobre coisa nenhuma, e não há polígrafo para confirmar a autenticidade das respostas. É uma questão de intuição e montagem, aos poucos, do puzzle do outro com aquilo que se vai sabendo, sendo que só ao fim de algum tempo é que se percebe o que se está a construir, e se há ou não peças que não encaixam em lado nenhum, e onde estão as peças em falta. Este puzzle tem-se montado num instante e já dá para perceber muita coisa, mas ainda há demasiadas peças soltas.
Não sei que puzzle é que ele construiu de mim e espanta-me, confesso, este entusiasmo tão galopante. Já percebi que ele apanhou muita coisa, assustadoramente mais do que pensei ter dado, mas a última foi chamar-me “cocktail explosivo”, num sentido muito positivo, e na sequência de uma conversa sobre razão vs emoção... Nem o facto de eu ser o montinho de paradoxos que aqui me conhecem parece que o afecta, antes pelo contrário. Imagino que também me deve ter submetido aos seus próprios testes, e a julgar pela “animação”, passei a todos... With flying colours, parece.
Mas o grande teste só mesmo ao vivo e a côres. Espero que sem tremores... Esse vai ser o primeiro polígrafo. Se passar, o veredicto do jurí pode levar menos tempo a sair.
Engatar ou cortejar?
As mulheres passam a vida a queixar-se que os homens, hoje em dia, são uns atadinhos, que não tomam iniciativas, que não sabem o que querem ou que têm medo de se assumir na conquista “activa” de uma mulher. Partilho dessa opinião, e também me tenho queixado do mesmo. Por outro lado, queixamo-nos dos tais homens-melga, que também não gostamos de insistências idiotas, sobretudo quando não estamos mesmo interessadas e eles não há maneira de perceberem.
E agora cai-me no colo um homem que sabe claramente o que quer, que assume frontalmente uma postura de conquista, e me faz um cerco cerrado. Ele é Face Book, ele é Messenger - e longas conversas, números de telefone trocados – e usados, e um convite para jantar com direito a dança a seguir, “até nascer o sol”.
E o que é que eu acho disto?... Acho piada. Gostei dele, conversamos imenso no dia em que nos conhecemos, através de uma amizade comum. Temos afinidades diversas, é certo, somos ambos pais divorciados e por isso entendemos bem essa dimensão especial das nossas vidas, e ele não se “assustou” com a minha vida complicada. É um homem maduro, inteligente, gosto da conversa dele e do sentido de humor. Mas...
Isto é rápido. Muito rápido! Jantar a dois assim sem mais nem menos assusta-me um bocado. Resolvi aceitar o convite, mas felizmente, por um acaso do destino, afinal não seremos só dois. E fiquei aliviada mas a pensar porque é que me havia de assustar com uma postura que é frontal, honesta, afinal aquilo que advogo que todos devemos ser uns com os outros. Desde que não haja leviandade na abordagem, o que é cedo para determinar, é assim que acho que devia ser. E também desde que não se torne demasiado “pavão”, que não há paciência para shows de vaidade nesta idade... mas o certo é que ainda não sei se a ideia dele é "engatar" ou "cortejar" - e são coisas muito diferentes.
Até agora nada me faz crêr que ele não seja boa pessoa (até porque as “referências” são muito positivas). Mas o certo é que me custa acreditar em pureza de motivos. É que neste novo caminho, ando sem ilusões de contos de fadas e princesas. Ando a escrever linhas novas sem poesia, e já não espero milagres. A questão é se me terei tornado demasiado céptica, ou antes absolutamente lúcida.
O sabor da dança
Numa cara de pele de chocolate preto, brilham uns olhos escuros que não se sabe onde vão buscar a luz que emanam. Brilha um maravilhoso sorriso branco, perfeito, rasgado como só os mais puros podem suportar. O corpo brilha da pele esticada sobre músculos rijos, em todos os contornos que parecem desenhados no embalo do som de uma kizomba. O corpo move-se de uma forma única, com uma segurança, uma altivez, que não é arrogância, é orgulho. Dança com leveza, num balanço incomparável porque é simplesmente a música a pulsar dentro do corpo sem resistência, a inundar a alma.
Estende-lhe a mão e convida-a para dançar. Ela hesita porque não conhece aquele ritmo e aqueles passos, não tem o balanço e a curvatura daqueles corpos escuros que observa na pista de dança, corpos opostos ao seu corpo, que é estreito e muito branco.
- Não sei dançar, desculpa.
- Não tem problema. Ninguém nasce ensinado. É muito simples. Vamos lá!
E lá foi. Lá foi ela. Ele contou os tempos do passo mais simples e disse-lhe que ouvisse a música e se deixasse levar. Ela ouviu, e sentiu, e deixou-se ir. Ao fim de duas danças já não contava passos. A música fluía também pelo seu corpo, numa cumplicidade crescente com o estranho sorridente. A atracção da noite foi aquele par de total contraste de branco e preto. Afinal também balança e se arredonda um corpo branco e esguio. Basta que deixe entrar e mandar a música, e é muito mais fácil com a ajuda de um corpo oposto que nasceu para aquele embalo. Experiência de chocolate puro, negro profundo, a envolver docemente um corpo de gelado de baunilha.
Inscrito no desafio da

Andando
Tenho para aqui um monte de linhas soltas a popular uma página desorganizada. Uma série de ideias, de pensamentos, coisas que me andam na cabeça a rodar e que ainda não consegui destilar. Apetece-me escrever, mas não sei por onde começar.
Partir e voltar tem duas chegadas e dois destinos, mas divide o tempo em três – antes da partida, na duração da viagem, e no regresso à base. Do primeiro tempo está tudo aqui, mais que escrito e destilado. Do segundo tempo, tenho as fotografias e as memórias, envoltas numa bruma estranha ao som de kizomba, e que não se encaixa na linearidade que habitualmente damos ao tempo. Parece que não fui eu que estive lá, parece quase que não foi real. E o terceiro tempo, que corre agora, ando ainda a aprender a contar, e tenho dificuldade de o apreender antes de se evaporar.Tanto o tempo em que estive lá como estes três dias desde que regressei me sabem a passado longínquo. Estranhamente, enquanto lá estive, parecia-me que o tempo não passava, e agora que voltei, acho que foge de mim como um louco, ou me empurra desvairadamente para um lugar estranho.
Ocorre-me que são novos caminhos, que não seguem os trilhos conhecidos e expectáveis dos mapas que já sabia de cor. Desembarquei do avião uma outra, por duas vezes, e a cada aterragem deparei-me com essas novas realidades. Sei que o mal destas linhas soltas aqui espalhadas, a razão porque não consigo articulá-las, é porque misturam esses três tempos, esses três eus em que me plasmei. Tenho de apagar umas quantas linhas que já não pertecem ao aqui e agora de mim e da minha vida. Quero separar umas outras para marcar a memória, e quero fazer as restantes crescer, com o passar dos dias, passando de linhas e parágrafos a textos consequentes, à medida que se define o meu novo contorno, num traço mais nítido, a cada passo em frente.
Voltei
Estou de volta, mas sinto-me de partida. Vou andando por aí e algumas linhas mais consequentes hei de escrever em breve. Levantei muita poeira nesta ida, e a aterragem da volta não foi suave. Está cá tudo na mesma, claro, nem esperava outra coisa. Mas sei que este respiro foi bom, muito bom, mesmo no inesperado que trouxe, ou talvez ainda mais por esse inesperado. E sinto-me cheia de força. Trouxe coisas novas na bagagem, algumas brutalmente esclarecedoras, mas deixei para trás umas quantas outras. Valeu a pena, valeu cada minuto e cada raio de sol, cada caminhada na areia e cada descoberta. E foi um privilégio o vislumbre de almas novas com quem me cruzei, que de uma forma tão simples, mas tão pura, me fizeram entender tanta coisa de mim e da vida. E de por onde quero ir.
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