Partilhar

Ouvi uma coisa que me surpreendeu, por ser dita por uma psicóloga ou psiquiatra, nem sei bem, que dizia que, mas do que estar nos momentos maus, o que cimenta os relacionamentos é o estar nos momentos bons, sendo-se capaz de partilhar, sem ciúme ou inveja, as alegrias do outro.

Dá que pensar. Acho que não há verdadeiro relacionamento sem partilha de momentos maus. Quando fugimos dos outros nesses momentos, mesmo que com a desculpa de não queremos impingir as nossas dores e problemas àqueles de quem gostamos, na verdade isso significa que achamos que esses outros não são ajuda. No fundo, é humano procurar alívio para o sofrimento, e só varia a forma como o procuramos e a panaceia que consideramos eficaz e disponível (que às vezes se revela um tremendo engano, pois também há muitas com efeitos secundários nefastos, e outras que são apenas muletas auto-destrutivas). Numa fase mais madura, tende-se a procurar apoio, ajuda, um ouvido amigo ou uma mão de amparo. E se achamos, a tempos, que a melhor forma de nos curarmos é o isolamento, para mim isso é sinal de que não achamos que os que temos à nossa volta estão realmente lá para nós.

Claro que podemos precisar de momentos de solidão. Eu preciso muito deles de vez em quando, mas apenas para poder reflectir, desmontar interiormente o que me atormenta com o input que os outros vão dando, ou conseguir ouvir a minha voz sem o barulho das luzes. Mas isso não é isolamento – é reflexão.

Já quanto aos momentos bons, concordo que não há nada melhor do que dividir uma alegria com alguém que nos é querido e nos quer bem. Tem-me feito muita falta, nos últimos tempos, poder partilhar a comemoração de vitórias e de momentos felizes, mais até do que os dias maus e as tristezas. Mas partilhar esses momentos não é o que cimenta um relacionamento. Se o partilhamos com alguém é porque acreditamos no relacionamento e se, ao invés de se alegrar por nós, alguém tem ciúme ou inveja, simplesmente não há é afecto verdadeiro.

A forma como partilhamos os bons e maus momentos, para mim é espelho, de duas faces - e não cimento. Nos maus, de nós revela em quem realmente confiamos e que achamos que está do nosso lado; dos outros, revela com quem realmente podemos contar. Nos bons, revela quem são aqueles a quem queremos bem; e os que gostam de nós, porque se alegram com a nossa alegria, sem ciúme ou inveja. Portanto, ambos revelam um monte de coisas: quem acreditamos que gosta de nós, quem gosta realmente de nós, quem na verdade não gosta e quem, no fundo, já sabemos que não gosta (pois não os procuramos nos maus e, perversamente, também somos capazes de querer mostrar momentos bons a alguns desses, para provar alguma coisa ou exactamente porque sabemos que os vamos encher de ciúme e inveja - não é bonito, e não é partilha, mas quem é que nunca o fez?...).

O cimento é algo anterior à partilha. É aquilo que nos leva a escolher alguém para partilhar, e sobretudo aquilo que permite partilhar com o mesmo alguém os dois tipos de momento. Se alguém não divide connosco as tristezas, porque raio haverá de querer partilhar alegrias? – talvez queiram apenas beber daí o “hype” em que essas situações nos lançam, ou são simplesmente hipócritas. E se alguém só quer saber das tristezas, talvez, no fundo, só queira mesmo saber-nos mal, sentir-se bem pela comparação ou por uma certa "utilidade", e por isso não se interessa realmente pela nossa felicidade.

E nós? Para quantos corremos com igual vontade e à vontade, consoante carregamos tristezas ou alegrias? Essa escolha também nos espelha. E muito.

Desenho

Eu sou uma mulher complexa, mas descomplexada. Geralmente profunda e séria, reflexiva e introspectiva. Mas com sentido de humor, gregária, e com vontade de me divertir, com animação e algumas futilidades. É, por vezes, a fuga possível do peso do meu interior.

Sou eclética, nos gostos e nas pessoas que escolho, o que leva a que muitos me apelidem de "estranha" ou, quando ao menos até gostam de mim, de "especial". Escolho essências, nas coisas e nas pessoas. Quero ser escolhida também assim. Acarinho os poucos que me aceitam por inteiro, aqueles que não me vêm "estranhezas", mas sim alguma coisa de diferente, que são capazes de aceitar. Dos outros, guardo uma prudente distância.

Por fora, sou quase sempre aparentemente pacífica e serena, tanto mais serena quanto mais inquieta. Mascaro-me com um sorriso de acessibilidade e simpatia, além de um discurso solto e leve. Mas também sou frontal, às vezes até mesmo um pouco crua, e posso até parecer fria e insensível quando preciso da distância de protecção. Na verdade, é a outra máscara: indiferença e frieza aparente. Sei que baralho muita gente. É que mesmo muitos que pensam conhecer-me bem, não me arranham sequer a superfície.

Sou paradoxal, em variadíssimos aspectos, desde logo pela dialéctica interior permanente entre os princípios da minha educação extremamente religiosa e conservadora, e a minha natureza de espírito livre, liberal, e agnóstico. Integrei e pratico muitos dos princípios da educação que recebi, que reconheço válidos, mas recusei outros tantos a que não reconheço sentido. Paradoxal, também, por ter tanto de cerebral como de emotiva. Seguindo ora a cabeça, ora o coração, ora tentando forçar uma lógica na emoção, ora tentando fazer de um pensamento um sentimento.

Faço muitos erros pelo caminho, por vezes nem eu me entendo, e sou muitas vezes incompreendida, sobretudo pelo meu círculo natural mais próximo, gente presa em dogmas, preconceitos e puritanismos hipócritas. Por isso vou redefinindo o círculo. Embora já muitas vezes me tenha sentido só, sei que não estaria em paz comigo mesma se aceitasse compactuar com o que não me define, apenas para ser "aceite" e ter companhia. Quase sempre, durmo em paz com a minha consciência.

Sou como sou. Intensa e inteira. Não sei dar-me pela metade, nem receber a prestações. Por isso resguardo-me, protejo-me, cada vez mais à medida que somo desilusões, incompreensões e outras experiências. Mas não me transfiguro. Dos outros, quanto muito fujo, retraio-me e desapareço toda, subo o muro e fecho o portão. De mim, vivo uns tempos numa outra bolha qualquer, fecho-me algures atrás de uma alegre confusão. Para mim, depois volto à origem, realinho-me, arrumo, e continuo.

Define-me sobretudo “eclética” e “paradoxal”. Uma "definição" destas define apenas o indefinível, o indefinido. E, no entanto, estranhamente, sinto-me hoje perfeitamente desenhada, desde logo porque me consigo escrever assim.

Ondas curtas

Há um monte de tralha que me enche o espaço, me confunde, me baralha. São peças soltas de vida vivida em alta velocidade e baixa densidade. Largadas por ali, sem ordem, sem lógica, sem sequência ou consequência. Pergunto-me até se com alguma utilidade. Debaixo da confusão estou eu, ou o que resta de mim. Parece que me evaporei numa leveza que me era estranha, e esvoacei por aí pegando e largando as coisas, mas acumulando os restos até chegar a esta desordem.

Tenho de fazer de novo o caminho. Limpar a casa, arejar, redescobrir a serenidade de ser apenas eu própria, na raíz, de volta à base. Sinto-me um pouco perdida, ou talvez diluída, por esse tanto de vida que quase me tragou. Preciso de me condensar de novo, destilando-me, na busca dessa essência que lá esteve sempre mas foi volátil, e depois quase se afogou. Agora sinto que é altura de ligar à terra e re-sintonizar, ouvir atenta a letra da minha canção. Sei que há música no ar. Estou em afinação.

Vitória!

Está a fazer um ano que uma onda varreu a minha a vida. Primeiro, uma onda de mar, que me surpreendeu na areia absorta na leitura, e que me levou a escrever sobre o que é para nós realmente fundamental ou supérfluo. Depois, uma onda de choque, que me tirou o chão, sem aviso e sem piedade. Vi-me de repente a perder a estabilidade profissional que segurava, ciente da dificuldade dos tempos que já então se atravessavam, presa pelas minhas responsabilidades maternas. Queria dar o salto. Estava farta do que fazia, do meu chefe, do meu trabalho, mas achava que o que ganhava dali é que era o fundamental, o que tinha de preservar para assegurar a sobrevivência do meu filho, e a satisfação pessoal é que era o supérfluo, aquilo que podia, e devia, dispensar, compensada por alguns pares de sapatos extra. O risco do salto era demasiado avassalador, mas também o foi a constatação de que já não era uma escolha minha, que já estava em pleno voo. Restava apenas escolher onde aterrar.

Não foi fácil sentir o impacto em cascata que este acontecimento teve sobre mim. Não só no domínio profissional, mas também no pessoal - nas amizades, na família, na rotina do dia a dia, e até na auto-estima. Os primeiros meses, passei-os “en la vida locca”, como me acusou alguém mais tarde. Admito alguns excessos. Aquele cortar de amarras assusta, mas também liberta. E, de repente, tinha tempo para tudo aquilo que antes deixava para trás. Foquei-me nos positivos: o tempo extra, e de maior qualidade, com o meu filho, com os meus amigos e comigo própria. Os livros que conseguia ler, a quantidade de saídas à noite que tinha energia para aguentar, os almoços e cafés com todos os que passava antes meses sem ver. E um certo pico de aparente auto-estima, essa tal sensação de liberdade que se confunde, às vezes, com o sentimento de uma certa impunidade, que me levou a entrar de cabeça em relacionamentos inconsequentes. Mas que tinham o balão de ar quente de que precisava naquele momento, para não admitir que me sentia sozinha, um pouco perdida, e muito mais carente do que o que gostaria de reconhecer. E mesmo sentindo também o impacto negativo de outras coisas que tinha perdido, a tristeza de ver amizades que pensei intocáveis abanarem com nova distância física, e sabendo que algures por ali me estava também a perder, agarrei-me sempre à convicção quase autista de que, no fundo, aquele acidente de percurso era antes uma fantástica oportunidade e que me tinha tornado mais forte, mais confiante e mais liberta.

E na verdade, visto à distância, até foi. Depois de um montanha russa vertiginosa, e de me ter sentido presa em loops a desafiar a gravidade e a lei da vida, esta era mesmo essa oportunidade de me redireccionar e satisfazer profissionalmente, além de ser também a oportunidade de me testar, nos limites, e perceber claramente, por fim, que sou o que sou, independentemente do muito que possa rodar e mudar na minha vida, independentemente do muito que me permita ou obrigue viver de forma diferente.

Confesso que custou, com o tempo a passar, recusar ofertas financeiramente atractivas, mas que eu sabia que eram mais do mesmo, e também essas começarem a rarear. Também sentia a falta de outros pequenos luxos e devaneios que podia antes fazer. Mas persisti, quase até ao limite que fixei o mais longínquo possível. Mais um pouco e teria sido obrigada a aceitar esse “mais do mesmo”. Mas de repente surgiu a oferta por que esperava e, mesmo obrigando-me a mais uma readaptação, e mesmo não me oferecendo à partida garantias de estabilidade nem o retorno financeiro desejado (e merecido!), avancei, arrisquei, investi. Trabalho que nem uma louca, tive dias e dias seguidos de autênticas maratonas, tive os meus frios na barriga em face dos primeiros grandes desafios, aquela pequena dúvida, pequena fraqueza, de pensar que talvez não estivesse à altura, que talvez não fosse capaz. Mas comecei a superar os desafios, um por um, e a encher-me de orgulho por ir à luta e vencer, e de confiança para continuar a ganhar. A reconstruir a rotina, a redefinir espaços e tempos, e a ver-me surgir, no fim desse processo, de novo eu mesma, um pouco mais cansada, mas um pouco mais feliz. E ao fim destes primeiros longos meses, finalmente, vejo compensados os meus esforços, e com praticamente a mesma estabilidade que tinha há um ano atrás.

Agora, há que cantar vitória, claro, mas falta reequilibrar tudo o resto, tudo isso que deixei para trás ou em stand-by para poder focar-me neste investimento - desde a falta de férias e tempo para o meu filho, até ao ginásio e aos amigos. É um bocado perverso, mas sinto que nunca chego para viver tudo ao mesmo tempo. Talvez a vida seja mesmo assim: um eterno compromisso, um eterno alternar de focus, que acaba sempre por fazer alguma coisa ficar para trás, para mais à frente lá termos de voltar e compensar. Menos mal quando se lá volta com uma medalha ao peito, porque também sei que quando se quer chegar a tudo ao mesmo tempo, no fim não sobra é nada, nem sequer de nós próprios. Custou essa lição, mas acho que agora aprendi.

Compensada

De emprego novo recente, para além de andar numa vida louca de trabalho intenso, não tenho férias este ano. Faço-as dos fins de semana, que aproveito da melhor forma possível. Primeiro, a visitar o meu filho, que tive de mandar com os avós, e tentar enfiar naqueles curtos dois dias tudo o que não cabe em mim de uma semana inteira de ausência. Mesmo sem querermos, acabamos por sofrer o impacto da lei das compensações. Com ele, não é tanto os brinquedos e as tralhas todas que quer comprar, mas os mimos, os abraços e as histórias ao deitar. Agora que está com o pai de férias, esse curtos dois dias são para aproveitar de outra forma. E este fim de semana lá fui, rumo ao sul e ao sol, com mais três amigas.

Com montes de trânsito à mistura, e alguns desaires pelo caminho, acabei por me divertir, gozar a praia sem pás e ancinhos, sem chuvas de areia e sem horas, gozar as noites (e também uma de descanso a compensar a outra de animação), a companhia e as conversas de tudo e mais alguma coisa. De nós as quatro, duas com namorado em Lisboa, e duas sem namoros no horizonte. Somos as mesmas, independentemente do que vai passando na nossa vida. Mas, e talvez seja esse um dos grandes desafios de todas as relações, há momentos em que simplesmente não nos alinhamos da mesma forma. Sobressaem em nós coisas diferentes, que não é que não sejam nossas, que não estejam lá sempre, mas assomam com maior ou menor intensidade conforme o que vamos vivendo. Talvez, digo eu, conforme o que nos falta ou o que ganhamos. É bom quando, ainda assim, a amizade subsiste. Aliás, acho que assim se pode fortalecer. Mas não deixou de ser curioso notar que, apesar de nos termos divertido todas, é claríssima a distinção entre o que priveligiam umas e outras, em vários aspectos, nessa coisa da compensação.

E hoje, depois de um telefonema cheio de lágrimas durante o fim de semana, fui compensar o meu filho ao fim do dia, que já está cheio de saudades e só quer é saber quantos dias faltam para voltar para casa da mãe. Dizia-me que tem saudades minhas e que já não quer ficar com o pai assim tanto tempo. Tentei lembrar-lhe que agora é a vez do pai e quando lhe disse que depois tinha saudades dele, como diz tantas vezes quando está comigo, respondeu que não, que "é só às vezes", e que "agora" tem saudades da mãe. Percebi-lhe tão bem a angústia de não poder ter os dois ao mesmo tempo, e de não querer ter saudades de nenhum dos dois no mesmo momento. A necessidade de equilíbrio, no fundo, a necessidade de compensar. Se a nós custa tanto com outras tantas coisas, como é que não há de lhe custar a ele?

Muda-se o verbo

Não sei como realmente cheguei a esta conclusão, mas dei por mim, de repente, a admitir que algo me fugia definitivamente da compreensão. E, ao contrário do que é em mim habitual, percebi que simplesmente desistia, entregava os pontos. Achei que o caminho da felicidade, esse conceito abstracto a que aceitamos reconhecer existência mesmo sem lhe conhecer o sabor, é simplesmente uma forma de disfarçar o quanto nos custa caminhar. Porque custa - custa sim senhor. Custa saber que a vida passa, que cada amanhecer é menos um dia de juventude, um dia mais perto do fim, e que a cada dia pouco mais felizes somos que no dia anterior, que não há passes de mágica que nos tornem felizes de um dia para o outro (embora ganhar o Euromilhões pudesse ajudar).

Todos temos os nossos momentos de felicidade, e fases em que esses momentos se multiplicam mais profusamente ao longos dos dias, enchendo-nos da convicção de que somos felizes. Mas apenas estamos felizes. É momentâneo e efémero. Dura até começarem a rarear os momentos bons, até se entrar nos ciclos de dias em que se somam mais tristezas ou outras dores, dias em que achamos que somos infelizes. Mas, na verdade, apenas estamos.

No fundo, somos todos um bocadinho bipolares. Ninguém consegue estar sempre feliz, nem ninguém sobrevive a uma pernanente infelicidade. E ninguém atura alguém que está sempre radiante mesmo que o mundo expluda, ou alguém que está sempre deprimido mesmo que a vida sorria.

O que mais atormenta a maioria das pessoas é essa necessidade auto-imposta de se poderem dizer pessoas felizes. E o maior problema é que há sempre qualquer coisa, às vezes maior outras menor, que atrapalha esse objectivo. Se sofrer num dado momento, poderei dizer, ainda assim, que sou feliz?

Poderei, se redefinir o conceito e não o deixar incluir aquilo que não tenho. Poderei, se aprender a sofrer com o que seja, sem deixar que isso contamine as coisas boas da vida. Poderei, se perceber que o que me pode fazer uma pessoa feliz não tem de ser o que faz os outros felizes. Poderei, se aceitar que não tenho de ter o amor da minha vida para ser feliz. Encontrar esse amor, que parece ser o caminho mais fácil, que mais consensualmente é aceite como o ponto chave da felicidade humana, acaba por ser o mais duro e interminável dos caminhos, instituindo a infelicidade permanente, de forma ditatorial.

Por isso desisti. De entender e de procurar por aí. Tentei ser feliz com tudo o resto: o meu filho, o meu trabalho, os meus amigos, livros, música e escrita, e um novo conceito de amor, mas em versão “light”, digamos. É que se a felicidade se alcança pelo amor, mas se o amor nos foge a vida toda, então só resta mesmo encontrar-lhe alternativas. E ou redefinir amor, ou redefinir felicidade.

Não me orgulho, mas tenho escolhido conforme o que me permite dizer a cada momento que estou feliz.  Mas no fim, também não posso dizer que sou feliz. Só que sempre custa menos fazer o caminho assim: estando de momento em momento, apesar de não ser em tempo algum.

Onde está a força?

À medida que vamos vivendo e ganhando experiência, dizemos que ganhamos calo. Não é por acaso. De facto, na grande maioria dos casos, a experiência da vida vai-nos endurecendo. O tempo, os erros, o que sofremos, ensina-nos mecanismos de protecção e pode endurecer até a expressão. Vamos aprendendo a proteger-nos mais, a confiar menos, a duvidar de tudo, e a contrariar as tendências naturais que mais vezes nos põem em perigo. Mas, na ilusão de nos tornar mais fortes, hoje acho que, à medida que nos cobrimos de uma camada de pele mais grossa, cada vez mais impenetrável, tornamo-nos é muito mais fracos, muito mais vulneráveis e, sobretudo, muito mais sozinhos.

As características pessoais de maior “sensibilidade” são, actualmente, vistas como uma fragilidade. E quem as tem, sabe que sofre por causa delas. Quem não desiste de confiar nos outros, mesmo depois de muitas desilusões, é sempre visto como um fraco e as suas lágrimas são vistas como o óbvio castigo da sua “insensatez”. Quem acredita que tem uma responsabilidade quando lida com os sentimentos dos outros, e por isso se expõe e se dá ao trabalho de escolher o caminho mais complicado e difícil para si, por forma a evitar magoar os outros, acaba sempre por ser visto com o tal do “O” na testa. Infelizmente, quase sempre, neste último caso, os tais “outros” acabam por dar razão a essa visão, porque quase nunca reconhecem o esforço e a nobreza da intenção.

Mas onde eu queria chegar é que, por mais que apuremos o instinto para cair menos vezes nas esparrelas da vida, e por mais que nos custe ter de aceitar o gozo dos amigos e do “bem te disse”, há coisas em nós que não devemos mesmo tentar mudar. Há coisas de nós que nunca conseguiremos mudar e, se andarmos a lutar contra isso, não aprendemos a viver com elas. Se sou uma tonta sentimental, por mais que queira mascarar-me com a frieza e a dureza do que diz por aí que é sensato nos dias que correm, acabarei sempre por sofrer duplamente: uma vez por ter de me obrigar a ser o que não sou, e outra vez por ter de, em consciência, me perdoar pelo que fui.

O mundo e a vida não são perfeitos, tal como nós. Mas não é força deixarmo-nos corromper para fingir que nos dói menos o efeito de tanta imperfeição. E mesmo não podendo mudar o mundo, podemos continuar a querer que seja melhor, podemos continuar a querer ser melhores para o mundo, começando por assumir que sensibilidade não é necessariamente insensatez. O que é insensato, quase insano, é deixar que nos esterelizem o pensamento, nos espartilhem o sentimento e nos isolem debaixo de um calo.

A arrumar as malas

Aqui sinto-me em casa. Regressada a casa. Hoje sento-me aqui a olhar para a tela branca, como paredes vazias que antes se vestiram de muitas letras que sabia de cor, e quase nem sei por onde começar, do tanto que as quero vestir de novo. Muita coisa me leva a voltar. Algumas coisas boas, outras nem por isso. E pelo meio algumas renitências, resistências e desistências. Assim é a vida e assim somos nós. Estes seis meses passaram depressa, mas parece que deixaram o tempo da minha partida tão distante, tão longe, que parece ser outra vida. E no entanto, apesar do muito que passou, é para aqui que volto, é a mim que quero voltar. Tentei fugir-lhe, mas tenho uma essência a que não posso escapar. Sou Princesa, e não importa o que mais junte ao epíteto que me marcou, essa Princesa que aqui se destilou é o que sou na verdade. Resta-me o consolo de uma frase de Clarice Lispector, uma novidade que tenho vindo a descobrir: "Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma para sempre".

Vai ter de ser devagarinho, pouco a pouco, mas sinto as palavras debaixo da pele, nas pontas dos dedos nas teclas, quase como quando temos uma coisa a transbordar de dentro que queremos dizer e nos fica presa na garganta, seja pela atrapalhação que causa, seja porque falta a coragem ou a oportunidade. Pois dizem que as oportunidades fazem-se, e aqui estou eu a fazê-la: a reabrir o que pensei que não abria mais, não relia, não continuava. Não há dúvida que, às vezes, é mesmo preciso voltar atrás. Há umas cartas que nos calham na vida que nos obrigam a regressar à casa de partida. Mas já se jogou um bocado, já se sabe um pouco mais, e mesmo que com algum atraso, esse passo atrás é também um novo primeiro passo que se pode dar com maior sabedoria.

E agora um sopro de coragem e, mais ou menos atrapalhada, lanço-me ao meu próprio desafio. Tenho saudades de mim.

A regressar


Parece que voltei. É: parece mesmo.

Para já, a primeira missão é redefinir o nick e perceber o porquê do regresso. Ou vice-versa, talvez.

Epílogo


Tenho andado a debater uma série de coisas, e muitas acabam por pôr em causa a existência deste blog, pelo que dei por mim a pensar no assunto em si. Sei que o blog acabou por ser muito diferente do que inicialmente pretendia, mas nunca deixou de ser o que sou vertida em textos, destilados da minha vida e da minha alma, tanto com o sabor acre do desencantamento e do sofrimento, como com o sabor doce dos momentos de encantamento e alegria. Este blog foi o que quis num aspecto: a voz da minha intimidade audível, ainda que anoninamente.

Nunca escrevi para uma audiência, embora tenha dirigido perguntas ou dedicado linhas a quem me lia. Nunca escolhi temas em função de comentários, muitas vezes pelo contrário, confesso que sobretudo quando começava a achar o blog demasiado populado. Mas é certo que houve uns quantos que me acompanharam, e que eu aceitei nessa intimidade que partilhei sem rosto, e que me fizeram muito bem. A esses, um enorme obrigada, pela paciência, pelas palavras de alento, ou pelas palavras de contentamento pelo meu contentamento, ou pelas sacudidelas ocasionais, ou pelas perguntas difíceis. Houve coisas dessas que nunca vou esquecer, e verdadeiras amizades que estão a crescer.

Mas se é verdade que soube bem, e sabe, sentir uma companhia em certos momentos, empatias, identificações, também é verdade que não procurava pela escrita que os outros me compreendessem. A tal "voz audível" não era tanto para os outros mas mais para mim própria. Procurava entender-me, conhecer-me melhor, arrumar as minhas gavetas. Mas esse propósito também se baralhou por vezes, e cheguei a irritar-me ao sentir que tinha, por vezes, de me justificar perante quem me lia. E algumas vezes a irritação era comigo própria, porque de alguma profundeza houve momentos em que também me quis sentir compreendida. Mas foi sempre uma tentativa, honesta, de encontrar uma forma de avançar mais serenamente, num caminho que era novo na altura em que me estreei nos blogues.

Hoje sei que a estrada que percorremos é sempre nova, na medida em que cada dia é diferente, e nunca sabemos o que nos pode saltar ao caminho a seguir à próxima curva. Hoje sei que o conta é o que levamos por dentro a cada passo que damos e nos permite lidar, melhor ou pior, com os solavancos e os saltimbancos desta vida. E também sei que o passado que carregamos é apenas excesso de bagagem. Vive-se, aprende-se, integra-se, e o resto tem de ficar para trás. Também o blog.

Considero agora que, tal como o primeiro foi um ensaio deste, este é um ensaio de um eventual terceiro. Para quando não sei, mas tenho a certeza que há de surgir. Este, hoje chega ao fim, por razões que não vou discutir com ninguém, nem aqui nem em lado nenhum. Não me arrependo nem por um segundo, por nenhuma palavra ou linha, foi uma excelente terapia ao longo de quase 1 ano, foi importante para todos os passos que tinha de dar, e foi a porta para uma nova dimensão, de mim e da vida. Esta porta fecha-se, mas descobri uma enorme janela aberta na alma.

Desejo a todos os que me leram tudo de bom, e brindo a um eventual reencontro num outro espaço qualquer, numa qualquer curva da estrada. Eu sou rápida no gatilho porque já deixei para trás muitos saltibancos, mas pergunto sempre primeiro quem vem lá. E tenho a certeza que vou gostar de reencontrar alguns de vocês. Deixo-vos com uma citação do Dalai Lama que se pode aplicar a quase tudo nesta vida, e que agora aplico ao blog:

"Old friends pass away, new friends appear. It is just like the days. An old day passes, a new day arrives. The important thing is to make it meaningful: a meaningful friend - or a meaningful day."

A "meaningful blog". Para mim foi, e isso é que conta.

Molho de Bróculos

Já não sei se faço das coisas uns molhos de bróculos, ou se sou eu própria um grande molho deles. Até gosto bastante do vegetal. Se calhar é por isso. Hoje vejo-me assim e nem me atrevo a olhar para o emaranhado dos caules por baixo da superfície.

Pergunta sem resposta


Passei um ano a crescer, pensei, a ser maior e melhor em tantas e tantas coisas. Passei um ano a escrever os meus caminhos, a mergulhar em mim, a lutar por entender e encerrar passados, a expurgar fantasmas. Passei um ano a experimentar a vida de outra forma, a redescobrir o mundo e a redescobrir-me a mim. Pensei que todo o caminho que fiz, na maior parte do tempo sofridamente, me tinha tornado mais livre, mais descomplexada, mais confiante. Pensei que chegando mais fundo, tinha derrubado em mim os muros do medo, as portas da solidão.

Mas de repente sinto-me numa enorme fragilidade. Não sei se estou preparada, se aguento. Tenho ondas de pânico alternadas com vagas de profunda e desconhecida tranquilidade. Tenho uns olhos que me entram dentro, que intúem os meus remoínhos internos, que me lêm mesmo a alma. De alguém que não se assusta, que diz que não tem medo, e me vai sempre buscar. E isso tanto me conforta e apazigua, como me inquieta e alvoroça.

Sinto em dias que cheguei, que chegou, que é agora, só é preciso vivê-lo. Sinto em momentos que não pode ser, que estou perdida, não me entendo, não consigo viver hoje sem desembaciar um pouco mais o futuro. Morro de medo de perdê-lo e morro de medo de me perder. Não consigo não me dar. Sei que dei, que dou, sempre e cada vez mais, mesmo quando não quero, porque ele já entrou e sabe os meus caminhos. Mas depois assusto-me, penso que dou de mais, penso que é uma loucura, que não posso embarcar às cegas numa viagem tão incerta, guiando-me apenas por sentires, efémeros momentos perfeitos e certezas alheias. Como a certeza do piscar de olho de uma estrela, que ele viu, e eu não, mas que me diz que não faz mal, que depois me mostra num beijo ou num abraço.

Todas as palavras que me diz são as palavras certas. E chega a doer de tão fundo que chegam. Cada palavra, cada olhar, cada beijo ou toque, são como sal numa ferida. Na verdade, chegam onde sempre quis que alguém tivesse a coragem de chegar, onde sei que moram as mágoas, as feridas mais fundas. Mas não curam num passe de mágica. Enternece-me e faz-me sorrir, mas com uma tristeza estranha ao mesmo tempo, num misto de felicidade e lágrimas. Não sei se aguento a cura. Não sei se consigo ter alguém a viver por dentro de mim, a remexer nas feridas que andei um ano a pensar que curava, que pensei que já não doíam.

Acabo quase todos os dias acordada, de olhos abertos sem ver, sentindo-me dormir. Com vontade de acordar para o sonho que queria ter a coragem, a certeza, de escrever e viver. A sentir que me bafejou a sorte e sou capaz de não a merecer. Deito-me com esse amargo na boca, nessa luta de não conseguir impedir o sorriso e a morna sensação de paz que a invocação da memória dele produz, ao mesmo tempo que sinto o arrepio gélido do medo, do mundo, da vida, de mim. Deito-me cansada, mas com vontade de tragar o tempo, o mundo e mais não sei bem o quê que não consigo alcançar. Deito-me sempre com essa fome.

Com essa fome e a angustiante pergunta: isto é o quê?...

Falta o dicionário

Não sei o que define o amor. Ocorrem-me as imagens daqueles cromos com bonequinhos de há muitos anos que diziam “amor é...”, e depois uma variedade imensa de exemplos. Qual é a fórmula, não a mágica, mas mais assim a composição química? Ou será a morfologia mais relevante, importando definir primeiro se é animal se é vegetal?

Amor é... bicho ou semente? Destruição ou construção? Altruísmo ou egoísmo? Felicidade ou sofrimento? Corpo ou alma? Química ou física? Ou tudo junto, numa soma impossível de opostos e contraditórios?

Amor é... uma agonia, como diz Vinícius. Que acrescenta “Vem de noite, vai de dia / É uma alegria / E de repente / Uma vontade de chorar".

É. Também. Uma agonia de perguntas sem resposta, uma agonia de fome que se instala, que dá vontade de tragar o mundo. Uma agonia de procura de momentos perfeitos de cromo para preencher a caderneta. Uma agonia de saber que nunca será realmente perfeito, que nunca se acabará a caderneta. Uma agonia de medo de errar, ou do engano. Uma agonia de medo de perder. Uma agonia de algo estranho que nos cresce por dentro do peito, por debaixo da pele, que não se vê nem se pode arrancar. Uma agonia de não se controlar. Uma agonia de alegria e de vontade de chorar. Uma agonia de não saber que definição lhe dar.

À falta de definição, de entendimento, pergunto-me como saberá alguém com absoluta certeza tê-lo encontrado e como saberá resolver os enigmas, e viver sem ser agoniado.

Perfeito



Não são perfeitas as horas. Hoje. Porque não são perfeitas as esperas. Não são perfeitos os sorrisos. Hoje. Porque não são perfeitas as saudades.

São perfeitas as memórias. Porque foram perfeitas as horas. Ontem. São perfeitos os sonhos. Porque foram perfeitos os sorrisos. Ontem.

É perfeito o passado, e o futuro. Mas hoje, presente, queria ver os teus olhos sem ter de fechar os meus. Sem os recordar do passado ou imaginar no futuro. Ainda que perfeitos.

Custa-me a tua ausência ainda mais por te ter por dentro. Pertences aqui, sem conjuntivos ou condicionais. A conjugar comigo verbos e tempos perfeitos em indicativos de certeza e imperativos de convite, ordem, pedido. A cada dia. Nós amámos. Ontem. Nós amamos. Hoje. Amemos, sempre!

Mas sim, concordo. É perfeito. Cada aqui e agora, o que conjugamos é verbo perfeito.

Sopros



Há momentos que não se completam por faltar uma pequena coisa qualquer. Há momentos que podiam ser felizes mas, de uma forma quase turtuosa, são tristes pela alegria que queremos partilhar nos fazer sentir, ainda mais, a falta do alguém com quem queríamos partilhá-la.

Há momentos em que a alegria que se vê por fora em sorrisos é por dentro também um aperto, um nózinho. A sentir uma falta, uma ausência que se desenha ali ao lado, como o espectro de um fantasma.

E nesses momentos, em instantes quase mágicos, as sombras podem tornar-se quase palpáveis. Estranha coisa essa que põe um ausente ali ao lado. Presente sem toque nem voz, mas presente. E ausente, com cheiro, mas ausente. Como um sopro, a passar por dentro de mim.

"She" is running, not me




Not running... And not staying still.

Uma história que dá que pensar



"Um professor, diante da sua turma de filosofia, sem dizer uma palavra, pegou num frasco grande e vazio e começou a enchê-lo com bolas de golfe. A seguir perguntou aos estudantes se o frasco estava cheio. Todos estiveram de acordo em dizer que 'sim'.

O professor pegou então numa caixa de fósforos e vazou-a para dentro do frasco. Os fósforos preencheram os espaços vazios entre as bolas de golfe. O professor voltou a perguntar aos alunos se o frasco estava cheio, e eles voltaram a responder que 'Sim'.

A seguir, o professor pegou uma caixa de areia e vazou-a para dentro do frasco. Obviamente que a areia preencheu todos os espaços vazios e o professor questionou novamente se o frasco estava cheio. Os alunos responderam-lhe com um 'Sim' retumbante.

O professor em seguida adicionou duas chávenas de café ao conteúdo do frasco e preencheu todos os espaços vazios entre a areia.

Os estudantes riram-se.

Quando os risos terminaram, o professor comentou: 'Quero que percebam que este frasco é a vida. As bolas de golfe são as coisas importantes, a família, os filhos, a saúde, a alegria, os amigos, as coisas que vos apaixonam. São coisas que mesmo que perdessemos tudo o resto, a nossa vida ainda estaria cheia. Os fósforos são outras coisas importantes, como o trabalho, a casa, o carro etc. A areia é tudo o resto, as pequenas coisas. Se primeiro colocarmos a areia no frasco, não haverá espaço para os fósforos, nem para as bolas de golfe. O mesmo ocorre com a vida. Se gastamos todo o nosso tempo e energia nas coisas pequenas, nunca teremos lugar para as coisas que realmente são importantes. Prestem atenção às coisas que realmente importam. Estabeleçam as vossas prioridades, e o resto é só areia'.

Um dos estudantes perguntou: 'Então e o que representa o café?'

O professor sorriu e disse: 'Ainda bem que perguntas! Isso é só para vos mostrar que, por mais ocupada que a vossa vida possa parecer, há sempre lugar para tomar um café com um amigo'."


Dá que pensar no que são as nossas bolas de golfe e os fósforos, e onde deixamos entrar demasiada areia. Dos cafés, dá também que pensar porque não haverá sempre lugar para eles, na nossa vida mas também na dos outros.

Sabor a Paz



Já respiro. Bebi a tranquilidade de que precisava com sabor de um sumo de ananás e hortelã. Sosseguei-me. Um olhar e um sorriso entre as minhas mãos inundaram-me de luz, que se espraiou por dentro numa sensação de água morna. Calmas certezas. Pacífico fechar de olhos. Silêncio bom de dentro. O sabor do sumo condiz.

Peço


Acho que nunca deixarei completamente a minha concha, essa que dizes sentir, que dizes saber sem saber porquê. Pedes-me que ponha tudo isso de mim, de dentro de mim, em palavras. Que te ofereça explicados todos os meus insondáveis. Não posso. Não sei fazê-lo. Nem para mim consigo verbalizar tudo o que me enche. Chego perto, por vezes, a escrever, num processo quase insconsciente em que acabo por soltar palavras directas da alma. Mas do muito que te vou dando, do muito que vais entrando, vai-me ficando também o medo.

Não quero erguer esses véus que às vezes dizes sentir em mim propositadamente opacos. Não quero, mas sei que eles surgem em momentos de fraqueza. Passei a vida toda a aprender a fazer esses véus opacos, para me proteger. Passei muitos dolorosos momentos a expulsar intrusos da minha concha, que lutei para deixar de amar, para arrancar de mim. Tenho medo por tanto mais que condiciona a nossa história e por isto também – por mim. Nos momentos de ausência que alimentam a dúvida e agigantam a espera, nas tuas palavras e nos teus gestos que de alguma forma alimentam a insegurança, instintivamente quero fechar a concha, pôr-me a salvo. Porque me sinto tanto mais frágil quanto mais estás dentro de mim. Restam-me ainda, por agora, apenas os véus opacos.

Dizes que às vezes duvidas que sinta por ti o mesmo que sentes por mim, que sentes que não te quero deixar entrar. Mas entende: já entraste. Nem sei como te encontro aqui assim, quase de repente, um intruso estranhamente familiar, confortavelmente instalado. E ao sentir-te tão dentro assusto-me. Conheço-me, sei que sou a minha pior inimiga, a tendência é fugir.

Não quero fugir, não quero expulsar-te, não quero deixar-me vencer pelas contrariedades nem pelas agruras do caminho e do futuro adiado, nem quero impedir-me de viver pelo medo de sofrer. Estou a aprender, e a deixar-te entrar, e a levantar os véus. Devagarinho, às vezes a tremer de coragem, a reunir todas as minhas forças de acreditar para fazer durar todos os momentos de presente iluminado. Mas a lutar contra mim própria, entende. Por isso, por isso te peço: desvenda o insondável sem palavras minhas, levanta os véus à medida que se vão pondo transparentes, e dá-me a mão, ajuda-me, não me deixes fugir.

Raíz



"Tu eras também uma pequena folha que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube que ias comigo,
até que as tuas raízes atravessaram o meu peito,
Se uniram aos fios do meu sangue,
Falaram pela minha boca, floresceram comigo."

Pablo Neruda

Caminho do fim



Faz-me uma cara de espanto e clama “olha!”, repetidas vezes, enquanto parece querer absorver-me com os olhos. Não consegue dizer mais nenhuma palavra, mas repete o “olha!” de tantas maneiras diferentes, passando da surpresa e do contentamente à comoção de um timbre mais baixo e lento, que me comove a mim também.

Passo com ela uma manhã, tratando-a como se fosse uma criança. Que anda devagarinho e com apoios porque pode cair, que não consegue segurar em nada que pese mais do que umas quinhentas gramas, que não consegue vestir-se sozinha, quase não consegue comer sozinha, e nem sequer consegue articular as palavras que permitam estabelecer a sua vontade. Penteio-lhe os cabelos já todos brancos, mas muito macios, e ela fecha os olhos em frente ao espelho. Ponho-lhe os ganchos com cuidado, que sei que é frágil e duvido da minha competência, tenho medo de a magoar. Depois pergunto-lhe se ficou bem, e ela olha-se e diz com um sorriso “ena!”. E “ena!” repete-se também um número de vezes em diferentes entoações.

Não me larga as mãos das suas, muito magras e quase tranparentes, que evito olhar porque me ofende ver-lhe os ossos e as veias, e a vida a fugir dali. Olha-me para dentro dos olhos, com os seus lindos olhos verdes raiados de azul, que parecem ser a única coisa que não envelhece. À sua maneira, com o pouco que consegue articular, vai-me perguntando pelo meu filho. Lembra-se do abraço que ele lhe deu no Natal, sabe o nome dele mas não consegue dar-lhe a volta na boca. Franze a testa enrugada, contorce a expressão e fecha os olhos num misto de frustração, zanga e tristeza, a cada palavra que quer dizer e não consegue. E eu tenho de lhe dizer que não faz mal, já se lembra e diz-me mais tarde, devagarinho avó, com calma.

Saio de lá sem conseguir almoçar, um nó no estômago. Doi-me a cara de tanto me forçar sorrisos para disfarçar. Invade-me uma tristeza e uma revolta, e sinto o peso da culpa. De facto, não sei lidar com isto, com a morte a chegar, a comer aos poucos os corpos e as palavras dos que amo. Devia ser mais forte, devia saber vesti-la sem me chocar com o corpo definhado, devia aceitar que o braço direito já não mexe e ficar feliz porque ainda mexe o esquerdo, devia contentar-me com as palavras que ainda me consegue dizer e ler o resto no olhar. Mas não consigo, estrangula-me, agonia-me, numa recusa mista da realidade dela hoje e do que pode ser o meu próprio destino. Percebo que já encerrei dela as memórias que quero manter de quando “era uma senhora tão alta”, como diz tristemente a empregada que me vem render e apoia suavemente o braço daquela senhora agora tão pequenina, curvada, mirrada.

Pergunto-me como não enlouqueceu ainda, sabendo que a cabeça ainda funciona perfeitamente, entende tudo, ouve muito bem, reage com a expressão ou com o riso com todo o entendimento do que se lhe diz, mas perdeu a capacidade de falar. Tem as palavras na boca e não as consegue articular. Que sofrimento há de ser. Fico a pensar que tantas vezes calo as minhas palavras de dentro, e o que daria ela por poder fazer-se ouvir. Diz-me que lhe faz impressão olhar para os meus olhos. Mas não consegue explicar porquê. Faz apenas um sorriso triste, mexe em tudo o que pode à volta dela, mas não me larga as mãos nem desvia os olhos, e eu fico sem saber que me viu ela no olhar, que memória ou identificação lhe terá cruzado o pensamento e ficado presa na garganta. Na minha ficaram as lágrimas, que me faltou chorar. As lágrimas que lhe devo no dia em que não a puder mais olhar, mas puder vê-la como a quero recordar.

Gula



Um bom-bom ou um rebuçado são o exemplo perfeito para certos momentos. O segurar nas mãos um lindo e pequenino embulho, que se abre com cuidado - que o papel é delicado. Na antecipação do que contem, de que se sente vontade, mais a cada voltinha que se desfaz nas pontas enroladas. Dentro, um momento feliz em miniatura, que se deixa derreter na boca, num doce prazer, num saciar da vontade.

Há momentos que vêm assim embrulhados e assim se degustam. Momentos como certos beijos. Perfumados de framboesa, doces como chocolate. E apetece sempre mais um.

Sonho



Não me acordes. Deixa-me ficar aqui, assim, quieta. Não me despertes o pensamento. Deixa-me ficar lá, no reino dos sentidos, dos etéreos, do tempo sem nexo. Lá, onde escorres por mim, pelos meus caminhos, onde escorro por ti, mãos nas mãos.

Não me faças abrir os olhos. Não quero ver o sol que desponta, nem as núvens no céu. Quero recordar a luz de prata que se derramava na pele despida. Não quero olhar-te os olhos. Quero vêr por dentro das pálpebras o teu sorriso, quero sentir na pele o arrepio que me desenhas.

Shiuuu. Não fales. Deixa-me deslizar neste silêncio, nesta música que me embala numa sinfonia de acordes sem som. Não quero ouvir as tuas palavras. Quero ouvir-te no abraço dos corpos e guardar-te a alma entrelaçada na minha.

Não me acordes. Lá onde estou estás comigo por inteiro e é assim que te quero, sempre. Acordo quando aqui te puder encontrar da mesma forma, no mesmo equilíbrio, na mesma harmonia, no mesmo enlace.

O que é que se passa aqui?



Não tenho escrito aqui e tinha vontade de não escrever mais. Pensei seriamente em criar um novo espaço. Levou o seu tempo a assentar a poeira mas agora é menos confuso e decidi-me voltar. Preciso tanto de escrever. E este é mesmo o meu espaço.

O ano começou bem para mim. Estou a pisar novos caminhos ainda um pouco insegura, e muitos trilhos ao mesmo tempo. Mas entusiasmada com as várias perspectivas. O meu filho também está bem, de volta em semana de mãe, cheio de mimo e saudades. E eu dele, apesar dos desesperos do costume...

Tenho novos desafios profissionais aliciantes e tenho ocupado parte do meu tempo a aprender e a sentir as coisas para me decidir. Tem corrido muito bem, em vários aspectos, tem-me feito um bem enorme, não só o ocupar-me de forma diferente, mas também o desafio de aprender e experimentar coisas novas.

No plano afectivo, muita coisa aconteceu nos últimos tempos, e muita coisa mais de trás de repente começou a encaixar-se, a cimentar-se, aos poucos. Sabe-me bem a vida assim, sabe-me bem o desafio e esta estranha sensação de destino, de certezas quase absurda desde o primeiro momento. Dá-me uma paz enorme a partilha de momentos inesquecíveis, os abraços, os silêncios entendidos de parte a parte, encaixados com toda a naturalidade e fluidez em conversas profundas. Arrepia-me a intensidade do que tem sido, e do que sinto que está para vir. Embala-me e adormece-me tranquila, acorda-me leve e bem disposta. É quase como uma magia, ou algo muito próximo pela banda dos ocultos, tal a estranheza de coincidências e compatibilidades, situações e empatias.

Talvez se pegue, não sei, ou talvez também seja pelos projectos e novas experiências profissionais. Mas o certo é que me sinto cheia de uma energia imensamente positiva, sinto-me de facto feliz, e também sinto imensa vontade de acreditar, de ter fé, na vida em todos os sentidos. É verdade que tenho também a correr nas veias a adrenalina dos perigos que sinto, e os meus medos atávicos à espreita, sei bem. Mas por agora, tenho os medos açaimados e a adrenalina da sensação de perigo não me pôs a fugir - estou apenas alerta, muito alerta, mas a adorar cada passinho de conquista, e a apreciar cada momento feliz que me ilumina e que arquivo, em película de um filme que se vai desenrolando docemente, suavemente, um argumento que flui fazendo as peças encaixarem-se uma a uma nos seus devidos lugares.

A vida continua


Foi-se o ano, as 4 estações, os tais 12 meses contados de empreitada e por aí fora. Foram-se os dias e foram-se uma série de outras coisas. Essas foram, não interessam mais, ficaram para trás. O que fica? Depois de muito pensar, acho que fica um misto de memórias alegres e tristes, uma vaga cronologia de batalhas e guerras ganhas e perdidas. Algumas poucas coisas permanecem, transitam, vão comigo a mais um ano, não sei por quantos mais anos. Coisas em mim, que se foram definindo ou redefinindo, e outras almas que cruzaram o meu caminho e ainda por aqui continuam numa qualquer missão.

Fiz um monte de asneiras, desde o primeirinho dia do ano. Fiz algumas loucuras até, estive quase mesmo à beira da loucura. Andei numa verdadeira montanha russa, alternando altos e baixos, lentas subidas expectantes e rápidas descidas alucinantes. Também acertei em algumas coisas, percebi mistérios que me escapavam, mesmo que só depois de muito bater com a cabeça nas paredes. Mas vivi, intensamente e o melhor que pude, o melhor que soube. Sei que sou melhor mãe, sei que sou mais resolvida, sei que sou mais livre. Sei que sou também ainda mais exigente, ainda mais duvidosa e até ainda um pouco perdida.

Experimentei ao longo do ano muitas coisas. Aliás, até me disseram que estou numa “fase experimental”. É um facto. Até no amor, experimentei um pouco de tudo. Fez-me melhor? Nem por isso. Mas fez-me mais qualquer coisa. Por exemplo, fez-me encher de côr, desde o guarda-roupa aos meus sorrisos e memórias. Deste ano tenho memórias coloridas, numa diversificada paleta que não deixa de fora quase nenhum tom.

Paguei caro os meus erros, e sei que continuarei a pagar alguns por mais uns tempos. Mas conforta-me o que acertei e uma frase que me citaram, que o Lobo Antunes cita (imagine-se...) e que para mim resume muito bem a lição principal que aprendi em 2009: “tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que, normalmente, chega demasiado tarde”.

O que fiz em 2009 foi aceitar sofrer as consequências de escolher e viver, mesmo que errando, sabendo que erramos sempre alguma coisa. O que quero para 2010 é poder continuar a fazer o mesmo, de preferência com menos erros para sofrer, e que os que faça, que farei, que ao menos sejam coloridas experiências. Deste ano foi-se quase tudo mas resto eu. E no final do próximo quero apenas chegar um pouco menos à deriva, e ainda um pouco mais eu. Sei que parto sem rumo, mas com uma imensa vontade de partir, de continuar a experimentar, de continuar a crescer, de viver apaixonadamente todos os instantes. Só assim vale a pena viver, de facto.

Um bom ano para todos os que por aqui vão passando.

Um dia, talvez



Um dia vou ter um Natal só meu em algum lugar longínquo. Onde as chamas de uma lareira de facto me aqueçam, e onde um abraço especial não me deixe a saudade de todos os que faltam.

Um dia vou ter um Natal que seja um dia feliz, apenas por ser mais um dia, tão feliz como os demais, apenas por ser mais uma noite, em que sei ter atracado segura na paz do derradeiro cais.

Sombras do Futuro



Um segundo a mais, ou um segundo a menos, e todo o curso de uma história, de uma vida, se modifica. Uma volta para a esquerda, em vez da volta para a direita, a decisão de milisegundo que tomamos sem pensar e sem saber o que acarreta. Fazemo-lo todos os dias, a toda a hora, e raras vezes nos apercebemos do que mudamos na nossa história por optarmos inconscientemente por isto ou por aquilo, por cada segundo que nos atrasamos ou adiantamos no curso programado dos nossos dias.

Mas também acontece sabermos que estamos prestes a dobrar uma esquina de destino. Acontece às vezes suster a respiração sem saber se estugamos o passo ou se arrepiamos caminho. Se nos lançamos no que quer que esteja do outro lado da esquina ou se lhe fugimos ao avistar as sombras que projecta.

Todos os futuros não são mais do que sombras projectadas retrospectivamente. Sombras de alguma coisa que ainda não é mas que se esboça lentamente à frente do caminho. Como todas as sombras, as do futuro não trazem os contornos precisos e reais dos originais ainda inexistentes que projectam, não trazem o detalhe, o pormenor, e não trazem para o aqui e agora aquilo que não existe ainda se não em mera sombra projectada.

Cada dobrar do tempo é um sol a iluminar uma nova realidade que se vê sem sombras. É uma descoberta, uma surpresa, que pode ser boa ou má. Reconhecendo o momento, é preciso saber bem, muito bem, se se está realmente disposto a, e capaz de, lidar com esse futuro feito hoje, independentemente do que traga, independentemente de não corresponder às sombras que projectou no momento do primeiro passo. Ou do primeiro beijo.

Eterno instante



Toda uma vida pode mudar num instante. E cabem muitos instantes em cada dia da vida.

Quantos anos, meses, semanas ou dias cabem numa eternidade? Para onde levamos o momento, o segundo, o repente que se sente eterno? E como se mede essa pequena-grande eternidade? Pelo que dura, ou pelo tempo que perdura depois de já não ser?

Promessas, planos e projecções, todos construídos na base de uma frágil linha de tempo que realmente não sabemos existir. Que pensamos não ter fim, num momento, e às vezes acaba logo ali.

Queria saber quanto de mim cabe na tua eternidade. Quanto de ti em momentos caminhará comigo eternamente. Quanto durará esse eterno em cliques de segundos, enquanto é, depois de já não ser.

Que prazo terás para mim e que limites que não vemos tornam finita a linha do tempo que projectamos indefinida, para lá do horizonte visível do eterno instante?

Os meus Gatos #2



O frio, as mantas e os dias tristes, fazem-me sempre recordar os meus gatos com mais saudade. Já escrevi sobre o primeiro, e hoje é tempo da história do segundo. Depois de ter perdido o Ludwig e decidir que não queria outro animal, o meu então ainda marido, um dia leva-me de surpresa a ver uma ninhada de persas para eu escolher um. Eu nem queria entrar, mas lá acabei por não resistir e fui sentar-me num canto. A ninhada era de quatro gatos, e ao fim de uns minutos tinha um cotumiço preto, de olhos côr de cobre e uma espécie de barba com as pontas brancas, a trepar-me pelas pernas e a brincar comigo. Se outra pessoa se aproximava, fugia logo. Levei-o para casa, pois...

Quando o larguei em casa, ele todo assustado, enfiou-se debaixo de um armário da casa de jantar e não saía dali nem por mais uma. Como não sabia do que ele gostava, pus à frente do armário uma série de pratinhos com várias iguarias. À noite, tinha amigos a jantar e a meio da refeição salta-me para o colo, depois de ter limpo os pratos todos, e a querer devorar tudo o que estava na mesa. Chamei-lhe Obelix...

Embora não fosse tão inteligente como o primeiro, era também meu, aliás, eu é que era dele, que ele é que me escolheu, e era muito carinhoso. Dormia sempre comigo, em cima dos meus pés, depois de um certo tempo de festas e ron-rons deitado na minha barriga. E isto foi depois de lhe ensinar que gatos não são bem gente, porque os primeiros dias queria dormir ao meu lado, com a cabeça na almofada e tudo.

Era cómico, mais brincalhão que o Ludwig, mas miava mais. Às vezes os miados dele pareciam sons humanos – sobretudo se levava um raspanete e o fechava longe de mim de castigo. É irreproduzível na escrita, mas era mesmo incrível. Parecia uma criança a choramingar, como quem diz “eu não fiz por mal, eu sou pequenino...”.

Este, perdi-o com o divórcio, cerca de um ano depois, uma vingançazinha mesquinha. Soube que o desgraçado do animal sentiu imenso a minha falta, caiu-lhe o pelo quase todo com uma coisa nervosa. Mas sei que recuperou. Eu é que ainda hoje tenho saudades dele.

Poeta é poeta





O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

De Carlos Drummond de Andrade