Não sei o que define o amor. Ocorrem-me as imagens daqueles cromos com bonequinhos de há muitos anos que diziam “amor é...”, e depois uma variedade imensa de exemplos. Qual é a fórmula, não a mágica, mas mais assim a composição química? Ou será a morfologia mais relevante, importando definir primeiro se é animal se é vegetal?
Amor é... bicho ou semente? Destruição ou construção? Altruísmo ou egoísmo? Felicidade ou sofrimento? Corpo ou alma? Química ou física? Ou tudo junto, numa soma impossível de opostos e contraditórios?
Amor é... uma agonia, como diz Vinícius. Que acrescenta “Vem de noite, vai de dia / É uma alegria / E de repente / Uma vontade de chorar".
É. Também. Uma agonia de perguntas sem resposta, uma agonia de fome que se instala, que dá vontade de tragar o mundo. Uma agonia de procura de momentos perfeitos de cromo para preencher a caderneta. Uma agonia de saber que nunca será realmente perfeito, que nunca se acabará a caderneta. Uma agonia de medo de errar, ou do engano. Uma agonia de medo de perder. Uma agonia de algo estranho que nos cresce por dentro do peito, por debaixo da pele, que não se vê nem se pode arrancar. Uma agonia de não se controlar. Uma agonia de alegria e de vontade de chorar. Uma agonia de não saber que definição lhe dar.
À falta de definição, de entendimento, pergunto-me como saberá alguém com absoluta certeza tê-lo encontrado e como saberá resolver os enigmas, e viver sem ser agoniado.
"Destilar", cientificamente, é "separar componentes químicos que constituem uma substância através de vaporização seguida de condensação". Serve para muita coisa, nomeadamente, para produzir bebidas espirituosas. Aqui, é uma tentativa de purificação da mistura de tudo o que sinto, penso e vivo. A aguardente do que sou.
Perfeito
Não são perfeitas as horas. Hoje. Porque não são perfeitas as esperas. Não são perfeitos os sorrisos. Hoje. Porque não são perfeitas as saudades.
São perfeitas as memórias. Porque foram perfeitas as horas. Ontem. São perfeitos os sonhos. Porque foram perfeitos os sorrisos. Ontem.
É perfeito o passado, e o futuro. Mas hoje, presente, queria ver os teus olhos sem ter de fechar os meus. Sem os recordar do passado ou imaginar no futuro. Ainda que perfeitos.
Custa-me a tua ausência ainda mais por te ter por dentro. Pertences aqui, sem conjuntivos ou condicionais. A conjugar comigo verbos e tempos perfeitos em indicativos de certeza e imperativos de convite, ordem, pedido. A cada dia. Nós amámos. Ontem. Nós amamos. Hoje. Amemos, sempre!
Mas sim, concordo. É perfeito. Cada aqui e agora, o que conjugamos é verbo perfeito.
Sopros
Há momentos que não se completam por faltar uma pequena coisa qualquer. Há momentos que podiam ser felizes mas, de uma forma quase turtuosa, são tristes pela alegria que queremos partilhar nos fazer sentir, ainda mais, a falta do alguém com quem queríamos partilhá-la.
Há momentos em que a alegria que se vê por fora em sorrisos é por dentro também um aperto, um nózinho. A sentir uma falta, uma ausência que se desenha ali ao lado, como o espectro de um fantasma.
E nesses momentos, em instantes quase mágicos, as sombras podem tornar-se quase palpáveis. Estranha coisa essa que põe um ausente ali ao lado. Presente sem toque nem voz, mas presente. E ausente, com cheiro, mas ausente. Como um sopro, a passar por dentro de mim.
Uma história que dá que pensar
"Um professor, diante da sua turma de filosofia, sem dizer uma palavra, pegou num frasco grande e vazio e começou a enchê-lo com bolas de golfe. A seguir perguntou aos estudantes se o frasco estava cheio. Todos estiveram de acordo em dizer que 'sim'.
O professor pegou então numa caixa de fósforos e vazou-a para dentro do frasco. Os fósforos preencheram os espaços vazios entre as bolas de golfe. O professor voltou a perguntar aos alunos se o frasco estava cheio, e eles voltaram a responder que 'Sim'.
A seguir, o professor pegou uma caixa de areia e vazou-a para dentro do frasco. Obviamente que a areia preencheu todos os espaços vazios e o professor questionou novamente se o frasco estava cheio. Os alunos responderam-lhe com um 'Sim' retumbante.
O professor em seguida adicionou duas chávenas de café ao conteúdo do frasco e preencheu todos os espaços vazios entre a areia.
Os estudantes riram-se.
Quando os risos terminaram, o professor comentou: 'Quero que percebam que este frasco é a vida. As bolas de golfe são as coisas importantes, a família, os filhos, a saúde, a alegria, os amigos, as coisas que vos apaixonam. São coisas que mesmo que perdessemos tudo o resto, a nossa vida ainda estaria cheia. Os fósforos são outras coisas importantes, como o trabalho, a casa, o carro etc. A areia é tudo o resto, as pequenas coisas. Se primeiro colocarmos a areia no frasco, não haverá espaço para os fósforos, nem para as bolas de golfe. O mesmo ocorre com a vida. Se gastamos todo o nosso tempo e energia nas coisas pequenas, nunca teremos lugar para as coisas que realmente são importantes. Prestem atenção às coisas que realmente importam. Estabeleçam as vossas prioridades, e o resto é só areia'.
Um dos estudantes perguntou: 'Então e o que representa o café?'
O professor sorriu e disse: 'Ainda bem que perguntas! Isso é só para vos mostrar que, por mais ocupada que a vossa vida possa parecer, há sempre lugar para tomar um café com um amigo'."
Dá que pensar no que são as nossas bolas de golfe e os fósforos, e onde deixamos entrar demasiada areia. Dos cafés, dá também que pensar porque não haverá sempre lugar para eles, na nossa vida mas também na dos outros.
Sabor a Paz
Já respiro. Bebi a tranquilidade de que precisava com sabor de um sumo de ananás e hortelã. Sosseguei-me. Um olhar e um sorriso entre as minhas mãos inundaram-me de luz, que se espraiou por dentro numa sensação de água morna. Calmas certezas. Pacífico fechar de olhos. Silêncio bom de dentro. O sabor do sumo condiz.
Peço
Acho que nunca deixarei completamente a minha concha, essa que dizes sentir, que dizes saber sem saber porquê. Pedes-me que ponha tudo isso de mim, de dentro de mim, em palavras. Que te ofereça explicados todos os meus insondáveis. Não posso. Não sei fazê-lo. Nem para mim consigo verbalizar tudo o que me enche. Chego perto, por vezes, a escrever, num processo quase insconsciente em que acabo por soltar palavras directas da alma. Mas do muito que te vou dando, do muito que vais entrando, vai-me ficando também o medo.
Não quero erguer esses véus que às vezes dizes sentir em mim propositadamente opacos. Não quero, mas sei que eles surgem em momentos de fraqueza. Passei a vida toda a aprender a fazer esses véus opacos, para me proteger. Passei muitos dolorosos momentos a expulsar intrusos da minha concha, que lutei para deixar de amar, para arrancar de mim. Tenho medo por tanto mais que condiciona a nossa história e por isto também – por mim. Nos momentos de ausência que alimentam a dúvida e agigantam a espera, nas tuas palavras e nos teus gestos que de alguma forma alimentam a insegurança, instintivamente quero fechar a concha, pôr-me a salvo. Porque me sinto tanto mais frágil quanto mais estás dentro de mim. Restam-me ainda, por agora, apenas os véus opacos.
Dizes que às vezes duvidas que sinta por ti o mesmo que sentes por mim, que sentes que não te quero deixar entrar. Mas entende: já entraste. Nem sei como te encontro aqui assim, quase de repente, um intruso estranhamente familiar, confortavelmente instalado. E ao sentir-te tão dentro assusto-me. Conheço-me, sei que sou a minha pior inimiga, a tendência é fugir.
Não quero fugir, não quero expulsar-te, não quero deixar-me vencer pelas contrariedades nem pelas agruras do caminho e do futuro adiado, nem quero impedir-me de viver pelo medo de sofrer. Estou a aprender, e a deixar-te entrar, e a levantar os véus. Devagarinho, às vezes a tremer de coragem, a reunir todas as minhas forças de acreditar para fazer durar todos os momentos de presente iluminado. Mas a lutar contra mim própria, entende. Por isso, por isso te peço: desvenda o insondável sem palavras minhas, levanta os véus à medida que se vão pondo transparentes, e dá-me a mão, ajuda-me, não me deixes fugir.
Não quero erguer esses véus que às vezes dizes sentir em mim propositadamente opacos. Não quero, mas sei que eles surgem em momentos de fraqueza. Passei a vida toda a aprender a fazer esses véus opacos, para me proteger. Passei muitos dolorosos momentos a expulsar intrusos da minha concha, que lutei para deixar de amar, para arrancar de mim. Tenho medo por tanto mais que condiciona a nossa história e por isto também – por mim. Nos momentos de ausência que alimentam a dúvida e agigantam a espera, nas tuas palavras e nos teus gestos que de alguma forma alimentam a insegurança, instintivamente quero fechar a concha, pôr-me a salvo. Porque me sinto tanto mais frágil quanto mais estás dentro de mim. Restam-me ainda, por agora, apenas os véus opacos.
Dizes que às vezes duvidas que sinta por ti o mesmo que sentes por mim, que sentes que não te quero deixar entrar. Mas entende: já entraste. Nem sei como te encontro aqui assim, quase de repente, um intruso estranhamente familiar, confortavelmente instalado. E ao sentir-te tão dentro assusto-me. Conheço-me, sei que sou a minha pior inimiga, a tendência é fugir.
Não quero fugir, não quero expulsar-te, não quero deixar-me vencer pelas contrariedades nem pelas agruras do caminho e do futuro adiado, nem quero impedir-me de viver pelo medo de sofrer. Estou a aprender, e a deixar-te entrar, e a levantar os véus. Devagarinho, às vezes a tremer de coragem, a reunir todas as minhas forças de acreditar para fazer durar todos os momentos de presente iluminado. Mas a lutar contra mim própria, entende. Por isso, por isso te peço: desvenda o insondável sem palavras minhas, levanta os véus à medida que se vão pondo transparentes, e dá-me a mão, ajuda-me, não me deixes fugir.
Raíz
"Tu eras também uma pequena folha que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube que ias comigo,
até que as tuas raízes atravessaram o meu peito,
Se uniram aos fios do meu sangue,
Falaram pela minha boca, floresceram comigo."
Pablo Neruda
Caminho do fim
Faz-me uma cara de espanto e clama “olha!”, repetidas vezes, enquanto parece querer absorver-me com os olhos. Não consegue dizer mais nenhuma palavra, mas repete o “olha!” de tantas maneiras diferentes, passando da surpresa e do contentamente à comoção de um timbre mais baixo e lento, que me comove a mim também.
Passo com ela uma manhã, tratando-a como se fosse uma criança. Que anda devagarinho e com apoios porque pode cair, que não consegue segurar em nada que pese mais do que umas quinhentas gramas, que não consegue vestir-se sozinha, quase não consegue comer sozinha, e nem sequer consegue articular as palavras que permitam estabelecer a sua vontade. Penteio-lhe os cabelos já todos brancos, mas muito macios, e ela fecha os olhos em frente ao espelho. Ponho-lhe os ganchos com cuidado, que sei que é frágil e duvido da minha competência, tenho medo de a magoar. Depois pergunto-lhe se ficou bem, e ela olha-se e diz com um sorriso “ena!”. E “ena!” repete-se também um número de vezes em diferentes entoações.
Não me larga as mãos das suas, muito magras e quase tranparentes, que evito olhar porque me ofende ver-lhe os ossos e as veias, e a vida a fugir dali. Olha-me para dentro dos olhos, com os seus lindos olhos verdes raiados de azul, que parecem ser a única coisa que não envelhece. À sua maneira, com o pouco que consegue articular, vai-me perguntando pelo meu filho. Lembra-se do abraço que ele lhe deu no Natal, sabe o nome dele mas não consegue dar-lhe a volta na boca. Franze a testa enrugada, contorce a expressão e fecha os olhos num misto de frustração, zanga e tristeza, a cada palavra que quer dizer e não consegue. E eu tenho de lhe dizer que não faz mal, já se lembra e diz-me mais tarde, devagarinho avó, com calma.
Saio de lá sem conseguir almoçar, um nó no estômago. Doi-me a cara de tanto me forçar sorrisos para disfarçar. Invade-me uma tristeza e uma revolta, e sinto o peso da culpa. De facto, não sei lidar com isto, com a morte a chegar, a comer aos poucos os corpos e as palavras dos que amo. Devia ser mais forte, devia saber vesti-la sem me chocar com o corpo definhado, devia aceitar que o braço direito já não mexe e ficar feliz porque ainda mexe o esquerdo, devia contentar-me com as palavras que ainda me consegue dizer e ler o resto no olhar. Mas não consigo, estrangula-me, agonia-me, numa recusa mista da realidade dela hoje e do que pode ser o meu próprio destino. Percebo que já encerrei dela as memórias que quero manter de quando “era uma senhora tão alta”, como diz tristemente a empregada que me vem render e apoia suavemente o braço daquela senhora agora tão pequenina, curvada, mirrada.
Pergunto-me como não enlouqueceu ainda, sabendo que a cabeça ainda funciona perfeitamente, entende tudo, ouve muito bem, reage com a expressão ou com o riso com todo o entendimento do que se lhe diz, mas perdeu a capacidade de falar. Tem as palavras na boca e não as consegue articular. Que sofrimento há de ser. Fico a pensar que tantas vezes calo as minhas palavras de dentro, e o que daria ela por poder fazer-se ouvir. Diz-me que lhe faz impressão olhar para os meus olhos. Mas não consegue explicar porquê. Faz apenas um sorriso triste, mexe em tudo o que pode à volta dela, mas não me larga as mãos nem desvia os olhos, e eu fico sem saber que me viu ela no olhar, que memória ou identificação lhe terá cruzado o pensamento e ficado presa na garganta. Na minha ficaram as lágrimas, que me faltou chorar. As lágrimas que lhe devo no dia em que não a puder mais olhar, mas puder vê-la como a quero recordar.
Gula
Um bom-bom ou um rebuçado são o exemplo perfeito para certos momentos. O segurar nas mãos um lindo e pequenino embulho, que se abre com cuidado - que o papel é delicado. Na antecipação do que contem, de que se sente vontade, mais a cada voltinha que se desfaz nas pontas enroladas. Dentro, um momento feliz em miniatura, que se deixa derreter na boca, num doce prazer, num saciar da vontade.
Há momentos que vêm assim embrulhados e assim se degustam. Momentos como certos beijos. Perfumados de framboesa, doces como chocolate. E apetece sempre mais um.
Sonho
Não me acordes. Deixa-me ficar aqui, assim, quieta. Não me despertes o pensamento. Deixa-me ficar lá, no reino dos sentidos, dos etéreos, do tempo sem nexo. Lá, onde escorres por mim, pelos meus caminhos, onde escorro por ti, mãos nas mãos.
Não me faças abrir os olhos. Não quero ver o sol que desponta, nem as núvens no céu. Quero recordar a luz de prata que se derramava na pele despida. Não quero olhar-te os olhos. Quero vêr por dentro das pálpebras o teu sorriso, quero sentir na pele o arrepio que me desenhas.
Shiuuu. Não fales. Deixa-me deslizar neste silêncio, nesta música que me embala numa sinfonia de acordes sem som. Não quero ouvir as tuas palavras. Quero ouvir-te no abraço dos corpos e guardar-te a alma entrelaçada na minha.
Não me acordes. Lá onde estou estás comigo por inteiro e é assim que te quero, sempre. Acordo quando aqui te puder encontrar da mesma forma, no mesmo equilíbrio, na mesma harmonia, no mesmo enlace.
O que é que se passa aqui?
Não tenho escrito aqui e tinha vontade de não escrever mais. Pensei seriamente em criar um novo espaço. Levou o seu tempo a assentar a poeira mas agora é menos confuso e decidi-me voltar. Preciso tanto de escrever. E este é mesmo o meu espaço.
O ano começou bem para mim. Estou a pisar novos caminhos ainda um pouco insegura, e muitos trilhos ao mesmo tempo. Mas entusiasmada com as várias perspectivas. O meu filho também está bem, de volta em semana de mãe, cheio de mimo e saudades. E eu dele, apesar dos desesperos do costume...
Tenho novos desafios profissionais aliciantes e tenho ocupado parte do meu tempo a aprender e a sentir as coisas para me decidir. Tem corrido muito bem, em vários aspectos, tem-me feito um bem enorme, não só o ocupar-me de forma diferente, mas também o desafio de aprender e experimentar coisas novas.
No plano afectivo, muita coisa aconteceu nos últimos tempos, e muita coisa mais de trás de repente começou a encaixar-se, a cimentar-se, aos poucos. Sabe-me bem a vida assim, sabe-me bem o desafio e esta estranha sensação de destino, de certezas quase absurda desde o primeiro momento. Dá-me uma paz enorme a partilha de momentos inesquecíveis, os abraços, os silêncios entendidos de parte a parte, encaixados com toda a naturalidade e fluidez em conversas profundas. Arrepia-me a intensidade do que tem sido, e do que sinto que está para vir. Embala-me e adormece-me tranquila, acorda-me leve e bem disposta. É quase como uma magia, ou algo muito próximo pela banda dos ocultos, tal a estranheza de coincidências e compatibilidades, situações e empatias.
Talvez se pegue, não sei, ou talvez também seja pelos projectos e novas experiências profissionais. Mas o certo é que me sinto cheia de uma energia imensamente positiva, sinto-me de facto feliz, e também sinto imensa vontade de acreditar, de ter fé, na vida em todos os sentidos. É verdade que tenho também a correr nas veias a adrenalina dos perigos que sinto, e os meus medos atávicos à espreita, sei bem. Mas por agora, tenho os medos açaimados e a adrenalina da sensação de perigo não me pôs a fugir - estou apenas alerta, muito alerta, mas a adorar cada passinho de conquista, e a apreciar cada momento feliz que me ilumina e que arquivo, em película de um filme que se vai desenrolando docemente, suavemente, um argumento que flui fazendo as peças encaixarem-se uma a uma nos seus devidos lugares.
A vida continua
Foi-se o ano, as 4 estações, os tais 12 meses contados de empreitada e por aí fora. Foram-se os dias e foram-se uma série de outras coisas. Essas foram, não interessam mais, ficaram para trás. O que fica? Depois de muito pensar, acho que fica um misto de memórias alegres e tristes, uma vaga cronologia de batalhas e guerras ganhas e perdidas. Algumas poucas coisas permanecem, transitam, vão comigo a mais um ano, não sei por quantos mais anos. Coisas em mim, que se foram definindo ou redefinindo, e outras almas que cruzaram o meu caminho e ainda por aqui continuam numa qualquer missão.
Fiz um monte de asneiras, desde o primeirinho dia do ano. Fiz algumas loucuras até, estive quase mesmo à beira da loucura. Andei numa verdadeira montanha russa, alternando altos e baixos, lentas subidas expectantes e rápidas descidas alucinantes. Também acertei em algumas coisas, percebi mistérios que me escapavam, mesmo que só depois de muito bater com a cabeça nas paredes. Mas vivi, intensamente e o melhor que pude, o melhor que soube. Sei que sou melhor mãe, sei que sou mais resolvida, sei que sou mais livre. Sei que sou também ainda mais exigente, ainda mais duvidosa e até ainda um pouco perdida.
Experimentei ao longo do ano muitas coisas. Aliás, até me disseram que estou numa “fase experimental”. É um facto. Até no amor, experimentei um pouco de tudo. Fez-me melhor? Nem por isso. Mas fez-me mais qualquer coisa. Por exemplo, fez-me encher de côr, desde o guarda-roupa aos meus sorrisos e memórias. Deste ano tenho memórias coloridas, numa diversificada paleta que não deixa de fora quase nenhum tom.
Paguei caro os meus erros, e sei que continuarei a pagar alguns por mais uns tempos. Mas conforta-me o que acertei e uma frase que me citaram, que o Lobo Antunes cita (imagine-se...) e que para mim resume muito bem a lição principal que aprendi em 2009: “tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que, normalmente, chega demasiado tarde”.
O que fiz em 2009 foi aceitar sofrer as consequências de escolher e viver, mesmo que errando, sabendo que erramos sempre alguma coisa. O que quero para 2010 é poder continuar a fazer o mesmo, de preferência com menos erros para sofrer, e que os que faça, que farei, que ao menos sejam coloridas experiências. Deste ano foi-se quase tudo mas resto eu. E no final do próximo quero apenas chegar um pouco menos à deriva, e ainda um pouco mais eu. Sei que parto sem rumo, mas com uma imensa vontade de partir, de continuar a experimentar, de continuar a crescer, de viver apaixonadamente todos os instantes. Só assim vale a pena viver, de facto.
Um bom ano para todos os que por aqui vão passando.
Um dia, talvez
Um dia vou ter um Natal só meu em algum lugar longínquo. Onde as chamas de uma lareira de facto me aqueçam, e onde um abraço especial não me deixe a saudade de todos os que faltam.
Um dia vou ter um Natal que seja um dia feliz, apenas por ser mais um dia, tão feliz como os demais, apenas por ser mais uma noite, em que sei ter atracado segura na paz do derradeiro cais.
Sombras do Futuro
Um segundo a mais, ou um segundo a menos, e todo o curso de uma história, de uma vida, se modifica. Uma volta para a esquerda, em vez da volta para a direita, a decisão de milisegundo que tomamos sem pensar e sem saber o que acarreta. Fazemo-lo todos os dias, a toda a hora, e raras vezes nos apercebemos do que mudamos na nossa história por optarmos inconscientemente por isto ou por aquilo, por cada segundo que nos atrasamos ou adiantamos no curso programado dos nossos dias.
Mas também acontece sabermos que estamos prestes a dobrar uma esquina de destino. Acontece às vezes suster a respiração sem saber se estugamos o passo ou se arrepiamos caminho. Se nos lançamos no que quer que esteja do outro lado da esquina ou se lhe fugimos ao avistar as sombras que projecta.
Todos os futuros não são mais do que sombras projectadas retrospectivamente. Sombras de alguma coisa que ainda não é mas que se esboça lentamente à frente do caminho. Como todas as sombras, as do futuro não trazem os contornos precisos e reais dos originais ainda inexistentes que projectam, não trazem o detalhe, o pormenor, e não trazem para o aqui e agora aquilo que não existe ainda se não em mera sombra projectada.
Cada dobrar do tempo é um sol a iluminar uma nova realidade que se vê sem sombras. É uma descoberta, uma surpresa, que pode ser boa ou má. Reconhecendo o momento, é preciso saber bem, muito bem, se se está realmente disposto a, e capaz de, lidar com esse futuro feito hoje, independentemente do que traga, independentemente de não corresponder às sombras que projectou no momento do primeiro passo. Ou do primeiro beijo.
Eterno instante
Toda uma vida pode mudar num instante. E cabem muitos instantes em cada dia da vida.
Quantos anos, meses, semanas ou dias cabem numa eternidade? Para onde levamos o momento, o segundo, o repente que se sente eterno? E como se mede essa pequena-grande eternidade? Pelo que dura, ou pelo tempo que perdura depois de já não ser?
Promessas, planos e projecções, todos construídos na base de uma frágil linha de tempo que realmente não sabemos existir. Que pensamos não ter fim, num momento, e às vezes acaba logo ali.
Queria saber quanto de mim cabe na tua eternidade. Quanto de ti em momentos caminhará comigo eternamente. Quanto durará esse eterno em cliques de segundos, enquanto é, depois de já não ser.
Que prazo terás para mim e que limites que não vemos tornam finita a linha do tempo que projectamos indefinida, para lá do horizonte visível do eterno instante?
Os meus Gatos #2
O frio, as mantas e os dias tristes, fazem-me sempre recordar os meus gatos com mais saudade. Já escrevi sobre o primeiro, e hoje é tempo da história do segundo. Depois de ter perdido o Ludwig e decidir que não queria outro animal, o meu então ainda marido, um dia leva-me de surpresa a ver uma ninhada de persas para eu escolher um. Eu nem queria entrar, mas lá acabei por não resistir e fui sentar-me num canto. A ninhada era de quatro gatos, e ao fim de uns minutos tinha um cotumiço preto, de olhos côr de cobre e uma espécie de barba com as pontas brancas, a trepar-me pelas pernas e a brincar comigo. Se outra pessoa se aproximava, fugia logo. Levei-o para casa, pois...
Quando o larguei em casa, ele todo assustado, enfiou-se debaixo de um armário da casa de jantar e não saía dali nem por mais uma. Como não sabia do que ele gostava, pus à frente do armário uma série de pratinhos com várias iguarias. À noite, tinha amigos a jantar e a meio da refeição salta-me para o colo, depois de ter limpo os pratos todos, e a querer devorar tudo o que estava na mesa. Chamei-lhe Obelix...
Embora não fosse tão inteligente como o primeiro, era também meu, aliás, eu é que era dele, que ele é que me escolheu, e era muito carinhoso. Dormia sempre comigo, em cima dos meus pés, depois de um certo tempo de festas e ron-rons deitado na minha barriga. E isto foi depois de lhe ensinar que gatos não são bem gente, porque os primeiros dias queria dormir ao meu lado, com a cabeça na almofada e tudo.
Era cómico, mais brincalhão que o Ludwig, mas miava mais. Às vezes os miados dele pareciam sons humanos – sobretudo se levava um raspanete e o fechava longe de mim de castigo. É irreproduzível na escrita, mas era mesmo incrível. Parecia uma criança a choramingar, como quem diz “eu não fiz por mal, eu sou pequenino...”.
Este, perdi-o com o divórcio, cerca de um ano depois, uma vingançazinha mesquinha. Soube que o desgraçado do animal sentiu imenso a minha falta, caiu-lhe o pelo quase todo com uma coisa nervosa. Mas sei que recuperou. Eu é que ainda hoje tenho saudades dele.
Poeta é poeta
O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.
De Carlos Drummond de Andrade
Balelas Astrológicas?
Leitura de mim num site qualquer de astrologia:
“For Princesa, relating is like breathing--not that it's as easy, but that it's just as necessary. In fact, she needs healthy and ongoing heart-ties with several close friends, as well as a primary relationship. Princesa wants to be fully and gracefully partnered, with fairness, courtesy, reciprocity and balance, as well as romance. She has a world of attention to offer in return. Shared appreciation of the arts and other aesthetic experiences are great pluses here. So is a firm decision by both partners that Princesa's needs are just as important as her partner's needs--not more so and not less so. Therefore, Princesa would do well to learn some conflict resolution skills, and not settle for merely the appearance of the harmony that she so cherishes and is quite capable of establishing.”
OK. Não é assim para todos? Quem é que pode viver sem amigos, sem ninguém no coração? Quem é que não procura uma relação equilibrada e tudo o mais que aqui se lê? Quem é que acha que as necessidades de um devem ser mais importantes do que as do outro? Quem é que não procura uma vida harmoniosa???
Pronto, está bem... A primeira e a última frases dão-me que pensar... Sobretudo a última, porque eu já há muito que não tolero o status quo apenas a bem da aparente harmonia, mas quando chego à conclusão de que não tolero mais, geralmente parto a loiça toda, e é-me mesmo difícil gerir o conflito. Fujo a sete pés, prefiro ignorar e deixar tudo para trás.
E eu que não quero acreditar nestas coisas esotéricas...
Por fim
Sobrevivo. Amachucada, com uns nós por desatar, umas tristezas na alma e mais uns milímetros de carapaça que, espero, me proteja melhor no futuro. Podia escrever um texto só de chavões sobre tempo e esperança. Nao tenho nenhum dos dois. Podia escrever um texto sobre o desejo de voltar a acreditar no amor. Mas não tenho nenhum. Podia escrever um texto sobre como vale sempre a pena tentar, mas não acredito. Podia fazer um texto sobre como é sempre bom dar de nós, mas não é. Podia fazer um texto para fazer os outros sorrirem, mas não tenho sorrisos para dar.
Nesta curta viagem fui passageira renitente, depois fui passageira interessada e mais tarde rendida, conquistada. Fiei-me nos anúncios escritos em vários placards e confiei que ía na direcção certa, em direcção ao destino onde queria chegar. Mas afinal, fico-me por um apeadeiro no meio do nada, quando percebo que não vou na direcção certa, ou que comprei o bilhete errado. E fico ainda mais longe do meu destino almejado. Fico de novo no charco das desilusões, das demasiado sucessivas repetições, onde afundo de cada vez um pouco mais de fé, um pouco mais de esperança, um pouco mais de amor. Até não ter mais nada, nem mesmo a ilusão de que qualquer maré me trará de volta o que aqui deixo. Até não ter mais nada, se não a memória de ser enganada, usada, desrespeitada. Salto fora num inóspito apeadeiro, porque assim não podia continuar a viagem. Mas sobrevivo.
Natal
Escrevo sobre o Natal, por causa do desafio da Fábrica de Letras. Mas não inscrevo o meu post, porque eu não gosto do Natal de 25 de Dezembro. O Natal passou a ser sinónimo de tudo menos do seu espírito original. Para lá das festividades religiosas, que já poucos vivem a sério, devia ser tempo de paz, de reconciliação, de comunhão – dar e receber, num voto de perpetuar esses bons sentimentos em acções ao longo do ano, ao longo da vida.
Há quem ande com um sorriso parvo na cara, só porque é Natal. Como se a aproximação do dia 25 de Dezembro, patenteada pelas montras e iluminárias da cidade (e desses infernais micro cosmos chamados de centros comerciais) lhes desse autorização para sorrir, e fingir por uns quantos dias que são felizes e contentes. Como se isso apenas justificasse fazer aquele telefonema, ou vá enviar aquela SMS, que cartões à séria quase ninguém envia, aos amigos e familiares com quem não se fala o resto do ano, porque nem se pensa neles.
Oferecem-se “lembranças”, porque é da praxe, e não porque apetece dar. E escolhem-se os presentes seguindo os dítames da febre consumista alimentada pelo marketing asqueroso da época (que cada vez começa mais cedo), e até por exibicionismo. Ou com requintes de malvadez, ou como forma de redenção dos “pecados” do ano todo.
Continua a falar-se na festa da família, mas quais são hoje as famílias que são, de facto, “família”? Muitas só se vêm no Natal, e não porque lhes apetece especialmente, simplesmente porque tem de ser. É assim como os casamentos, baptizados e funerais: é uma chatice, mas é um dever, e à excepção dos funerais, sempre se come bem.
Para mim, é apenas uma farsa montada para fazer dinheiro a uns poucos, esvaziando os bolsos da grande maioria. Quem eu quero perto, amigos e familiares, eu mantenho perto o ano inteiro. E prefiro mil vezes um telefonema numa altura improvável do ano de alguém que, simplesmente, pensou em mim, do que as parvoíces das SMS que circulam por aí, enviadas em série para todos os contactos da agenda telefónica. Se durante o ano, noutro dia qualquer, me apetecer dar um presente a alguém, é provável ouvir “mas é Natal?!”. Pois eu gosto de dar quando me apetece dar, e não quando é suposto porque é Natal. E por muito que goste de embrulhos bonitos, gosto muito mais de receber pequenos presentes de real lembrança ao longo do ano, do que um enorme embrulho de uma coisa qualquer só porque é dia 25 de Dezembro.
Revolta-me o consumismo da época e a hipocrisia. Não suporto a música natalícia. Detesto a correria das compras de última hora e das várias visitas, jantares e almoços, a marcar o ponto com as várias “famílias”. Detesto receber presentes que sei que não foram escolhidos “por mim”, e destesto, sobretudo, que no dia seguinte tudo volte ao “normal”, restando apenas aquele ar deprimente de fim de festa, com inevitáveis rastos de sujidade e desordem por limpar e arrumar.
Eu faço os meus pequenos Natais ao longo do ano, com aqueles que considero “família”, às vezes um de cada vez. No dia 25 de Dezembro, faço greve, e entrego-me à saudade daqueles poucos especiais com quem, em cada dia do ano, já não posso fazer os meus Natais.
Faço excepções dando presentes a alguns, mas escolho invariavelmente coisas da Unicef, e faço a excepção de sorrir para o meu filho, que na sua inocência infantil, ainda vive este dia com um brilho de fascínio nos olhos à vista dos presentes coloridos, e que é feliz com cada coisa que descobre dentro dos embrulhos, abertos com dedos lambuzados de açúcar e canela. Eu já nem me lembro do sabor desses dedos melados e muito menos da inocência e da alegria do momento. Nesta altura, lembro-me sempre mais de que quase todos esquecemos que há muito quem não possa ter Natal, em dia nenhum das suas vidas.
Brisa do mar
Confidente do meu coração
Me sinto capaz de uma nova ilusão
Que também passará,
Como ondas na beira de um cais
Juras, Promessas, Canções
Mas por onde andarás
Pra ser feliz não há uma lei
Não há, porém, sempre é bom
Viver a vida atento ao que diz
No fundo do peito o seu coração
E saber entender
Os segredos que ele ensinar
Mensagens subtis
Como a brisa do mar.
De Chico Buarque
Ultimatum
Muito bem. Assumi o risco, abri-te a porta. Tu foste entrando. Devagar, fui-te deixando puxar as pontas do meu emaranhado próprio e único, talvez um pouco assustador, eu sei. Não tiveste medo e disse-te: Toma. Dou-te. Está tudo aí. Grandezas e miudezas, grandiosidades e pequenezas, bons e maus, claros e escuros, sopros e ventanias, sussurros e gritos, certezas e dúvidas, alegrias e angústias. Mas espera... tens de puxar os fios todos. É que enredada no emaranhado por desfazer eu sei viver. Solta dele, um dia, talvez seja mais feliz. Mas a meio não. Se só puxas uns quantos fios, conforme o que te agrada ou te convem, eu puxo de volta. E sabes?... Pôr-te os fios todos na mão, até os que me custam mais, que me prendem mais, é acto de fé, e de coragem. É despir-me. É dar-me. Sim eu sei... É o tudo ou nada. É corpo “e” alma que te dou. É um dar que não me faz sentido quantificar. Não é muito nem pouco. É dar, simplesmente.
Toma. Dou-te. Aqui está. Sou eu. Toda de mim. Vê bem agora se me queres assim, toda, ou larga os fios que te sabe bem puxar. Fazes-me mal assim. Tenho frio.
Toma. Dou-te. Aqui está. Sou eu. Toda de mim. Vê bem agora se me queres assim, toda, ou larga os fios que te sabe bem puxar. Fazes-me mal assim. Tenho frio.
Insónia
Umas horas perdida entre a vontade do descanso e o desassossego. Sei que quando me foge o sono, é porque ando a fugir. Mesmo sem eu querer, nessas horas passo na minha cabeça o filme dos acontecimentos em que procuro sentidos. Às vezes segundos. Segundos sentidos. Como se ao recordar revivesse e fosse mais tranquila essa segunda ou terceira, ou quarta vez.
Parte-se em cada missão na vida, desejavelmente, ciente dos riscos, e dos obstáculos ou dificuldades. Escolhe-se e, portanto, aceita-se o desafio. Claro que, após sucessivas desilusões ou provas falhadas, se parte com cada vez maiores cautelas. Mas é só à partida, como um caminho exploratório. Depois vai-se andando, e vai-se ganhando equilíbrio e momentum, e chega a um ponto em que não dá para voltar atrás. É nesse momento que é preciso sentir confiança e tranquilidade.
Começa-se por tentar deixar tudo fluir. Dar tempo ao tempo, e todos os demais chavões por essa linha. Mas o certo é que, por mais que se vão encaixando certas coisas em parâmetros de “normalidade”, seja lá o que isso fôr, esse exercício em si é prova de que essas coisas nos incomodam. Pequeninas pedras, pequenos tropeções. Então, se se quer seguir o caminho, a sério, com empenho, o que é que se faz? Tenta-se tirar as pedras do caminho, recorrendo à sinceridade e frontalidade de as apontar e à cooperação para arranjar formas de as remover.
Num relacionamento, faz-se com conversa franca. Tenta-se, pelo menos. Mas é o diabo quando se fica com a sensação que, de alma aberta, palavras sinceras e sentimentos despidos, se falou num código que não é comum. Parece que não, no momento, pelas respostas, argumentos, tentativas de solução da engenharia de remoção das pedras. E depois... uma palavra ou um gesto e afinal percebe-se que as pedras que nos incomodam continuam lá.
Já é demais sabido que homens e mulheres falam línguas diferentes. E vivem os relacionamentos com prioridades em planos diferentes. Mas quando o que damos de nós em sinceridade e frontalidade é ignorado, ou não compreendido, quando se sente que as atitudes e comportamentos não acompanham as palavras que ouvimos, e se pressente que o esforço de conciliação de vontades não é reciprocado, algo vai mal, algo vai muito mal no país do pai natal.
Das coisas simples que me fazem sentir bem # 4
Estrear qualquer coisa.
Sejam uns sapatos, uma peça de roupa, um acessório, tanto faz. Tem é de ser novinho, novinho. Mas se é lingerie, e tem de ser uma coisa sexy, ainda melhor - é aquela sensação de “tenho um segredo”... Gasto um dinheirão nestas pequenas coisas, mas tem sido sempre bem empregue. E quando se recebe no email assim uma ofertazinha de 20% de desconto...
Como é que uma mulher pode resistir?...
Como é que uma mulher pode resistir?...
Ordem
Tem que se começar por algum lado, e resistir à tentação de brincar demais com os novelos, sob risco de se ficar enredado. Curioso que a vida às vezes nos surpreende, dando respostas inesperadas a perguntas que não chegamos a verbalizar. E pega-se nessas pontas, e vai-se puxando.
Dangerous Lines
“Os olhos cansados, ausentes, fixavam-se no infinito. Além, muito além, da linha visível do horizonte. Era também uma linha que flutuava naquele espírito, desassossegadamente, repelindo o sono. Era a linha que não sabia se queria cruzar.”
Há um limite para tudo, todos temos os nossos próprios limites. Limitamo-nos ou definimo-nos? Essas fronteiras que fixamos, seja por que razão fôr, são mais relevantes pelo que nos impedem de fazer ou, pelo contrário, pelo que nos fazem ser? São talvez limitativas, se são linhas que impomos inflexíveis. Mas quando são escolhas, serão então mais definidoras? Linhas que apenas nos desenham?
E onde arrumamos os princípios? Diria que são uma dessas fronteiras essenciais. E podem ser tão limitativos quanto definidores. São talvez, em mim, das fronteiras menos flexíveis, mais guardadas e defendidas. São, possivelmente, as linhas que mais batalhei para definir e que, por isso mesmo, mais me definem. E são também as linhas que mais me custa cruzar, ou redefinir.
Se são hoje as mesmas as fronteiras de mim? Não... nem por sombras. Subtilmente em geral, às vezes num repente de uma clarividência chocante, essas linhas movem-se, ajustam-se, podem esbater-se suavemente ou, pelo contrário, adensar-se em sulcos profundos.
“Ao saber-se hesitante na escolha, perguntava-se repetidamente porquê. Via as razões de ser, do seu ser, na escolha de não passar para o lado de lá. Cheirava a perigo. Mas o perigo também atrai. E via o que não queria perder do outro lado. Porquê?... Via nessa interrogação assim, também, que as razões do seu medo eram as razões da sua vontade. E via negar-se um querer, para não se perder. Porquê?... Porquê?...”
Nos porquês que se levantam sobre essas fronteiras, esquecemo-nos muitas vezes de uma coisa importante. É que esses porquês são, em si, andar perigosamente, num equilíbrio periclitante, sobre a linha da própria fronteira.
Será?...
Grande Vinicius de Moraes... Cada coisa que escreveu, com mais alegria ou tristeza, com mais humor ou mais seriedade, é sempre uma perfeita maravilha, e melhora com voz. Por acaso esta versão consta do CD que comprei acidentalmente e com que o descobri. Uma descoberta fatídica, mas ainda assim, uma grande descoberta.
Mas agora, àparte o humor, e numa perspectiva feminina, leio e oiço cada frase de uma forma diferente. E fico a pensar... será?... Abaixo o texto original, que ele não segue exactamente na versão declamada do vídeo.
"Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor."
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