Sentido

Anos de mergulho profundo em mim, de reflexão, de minucioso dissecar de acontecimentos e razões, de cuidadosa sistematização de mapas interiores, com quase científicas iterações relacionando todas as vertentes de mim e todos os acontecimentos da minha vida, sólidas relações de causa-efeito articuladas, ainda que a posteriori, para emergir com uma conclusão patética: conhecer os meus defeitos, os meus limites, os meus traumas e lastros, os meus Adamastores e fantasmas, não muda nada naquilo que sou; apenas justifica, com suposta lógica, os bons ou maus passos que dou. Sei porque fiz isto e aquilo, sei porque não fiz aqueloutro; sei porque guardei palavras e porque disse outras que não sentia; sei porque tenho medo; sei porque me fecho e guardo; sei porque me sinto assim ou assado; sei até porque comprei ou vesti certa coisa em certo dia; sei porque ando a equacionar cortar o cabelo a dois centímetros da raíz; sei porque ando incansavelmente a limpar os cantos mais recônditos da casa, rogando pragas à empregada incompetente que vou despedir no fim do mês. Sei tudo isso e tanto mais, a lógica à prova de bala, as razões perfeitamente aceitáveis, justificações, desculpas. Mas desculpas porquê? Se sei, se faz sentido, se é aparentemente inevitável que seja como sou, que faça o que faço, que pare onde paro, que cale, que diga demais, que fuja, que limpe, que estoure o orçamento em trapos demasiado trendy de que não preciso, para que é então a culpa? Talvez - só talvez - seja porque, ainda assim, todas as manhãs acordo a acreditar que tudo pode ser diferente e que toda eu me posso reescrever com nova lógica, numa nova ordem onde, sem razões nem articulados, eu própria e a minha vida façamos, inquestionavelmente, sentido. Mas, na verdade, o que me falta é aceitar ser e viver sem lógica, sem lei nem ordem, sem que nada tenha de fazer sentido. E, no fundo, não me é nada fácil aceitar que a falta de sentido não tem de ser um vazio, que não tenho de entender todos os porquês e que a felicidade não precisa de justificações. Nem, muito menos, de desculpas.

2 comentários:

jacklyn disse...

Ui. Doeu.

Princesa (Des)encantada disse...

Jacklyn, às vezes é importante doer. Assim sabe-se onde doi - e então pode-se tratar.